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Posts de junho 2013

Artigo| Do luto à luta

30 de junho de 2013 1

As chamas se
alastraram na palha
seca de um Brasil
que só pensa em
cerveja, só fala em
futebol e obedece
à Fifa como
um cão de circo

FLÁVIO  TAVARES*

O título deste artigo é do povo de Santa Maria, não meu. “Do luto à luta” não é só o estribilho da batalha que lá se trava contra a impunidade ou um jogo fonético digno de um poema, mas uma filosofia de vida. Profunda como ensinamento, a frase vai além da tragédia que, agora, completou cinco meses. Com quatro breves palavras, podemos impedir que tudo caminhe cinicamente para o nada num crime sem autores, como se os únicos culpados fossem as próprias 242 vítimas. (Ou como se o culpado fosse o homem das cavernas por descobrir o fogo, milhões de anos atrás…).
Também o Brasil inteiro saiu do luto para a luta nestes últimos 21 dias.
Espezinhados pela surdez de governantes que usufruem do poder pelo gozo pessoal de mando e enriquecimento financeiro, milhões de jovens e não-jovens transformam em luta o luto a que foram submetidos pelo engano. Protestam contra a corrupção do setor político. Tudo começou em Porto Alegre, no movimento contra o aumento das passagens de ônibus, e se estendeu. Ao chegar a São Paulo, as chamas se alastraram na palha seca de um Brasil que só pensa em cerveja, só fala em futebol e obedece à Fifa como um submisso cãozinho de circo, gastando bilhões em suntuosos estádios ou difusas “obras para a Copa do Mundo”.
O novo estádio de Brasília custou o equivalente a 150 hospitais de porte médio, equipados com todas as modernidades que não existem sequer nas cidades satélites da Capital Federal!

***

A presidente Dilma viu no “clamor das ruas” o protesto “contra a corrupção e o uso indevido do dinheiro público”. Mas, quem usa o dinheiro público?
O país confiou em que as palavras da presidente levariam a ações concretas e urgentes para _ pelo menos _ sanar os horrores visíveis na degradação política, mas eis que ela se reúne prioritariamente com os próprios políticos e propõe atos futuros de superfície, anódinos ou de efeitos distantes, como a necessária “reforma eleitoral”. Nada de concreto contra a corrupção! Nem um pio sobre o balcão de negócios que reúne mais de uma dezena de partidos na base alugada chamada de “base aliada”! Pode ser dinâmico um governo com 39 ministérios, em boa parte composto por medíocres que nada sabem das próprias funções?
A presidente é refém de um esquema de troca de favores que, ao lidar com dinheiro público e se repetir, torna-se obsceno. E se ela se apoiasse no “clamor das ruas” para libertar-se da armadura que a imobiliza como refém?

***

Pelo “clamor das ruas”, os deputados rejeitaram a imoral PEC 37 (que ampliaria a impunidade) e os senadores catalogaram a corrupção como “crime hediondo”. Nesse mesmo dia, porém, o governo negou-se a revelar os gastos do “cartão corporativo” de Rosemary Noronha (ex-chefe do gabinete presidencial em São Paulo e protegida de Lula da Silva) solicitados pelo jornal “O Globo”. Demitida pela presidente Dilma, Rosemary foi denunciada à Justiça por falsidade ideológica e corrupção, mas a Controladoria Geral da União sustenta que revelar em que ela gastou o que gastou “põe em risco a segurança da presidente e do vice-presidente e respectivos cônjuges e filhos”! Estupendo, não?
Por tudo isto, a proposta de um plebiscito sobre a reforma político-eleitoral só protela ou evita medidas para sanar o caos da política brasileira. É como se, em vez de socorrer e salvar quem se afoga num rio, mandássemos que fosse aprender a nadar! Temos 30 partidos, num entrevero de siglas que se vendem ou se alugam em época eleitoral em função dos minutos da propaganda gratuita na TV e rádio. Existem só para isto e, com isto, ocupam ministérios ou similares e mandam em nossas vidas.
Liberte-se, presidente Dilma. Saia do luto para a luta!

* Jornalista e escritor

Artigo| A juventude não dormirá

30 de junho de 2013 0

Mudam
os atores,
mas a peça
da juventude
segue em cartaz

DIANA LICHTENSTEIN CORSO*
dianamcorso@gmail.com

Em 1964, num pequeno texto com esse título, escrito para a revista New Society, o psicanalista Winnicott tentava dialogar com aqueles que se horrorizavam diante de manifestações juvenis: “É dada publicidade a cada ato de baderna juvenil porque o público não quer ouvir ou ler a respeito dessas façanhas adolescentes que estão isentas de qualquer desvio antissocial. Além disso, quando acontece um milagre, como os Beatles, existem aqueles adultos que franzem o cenho quando podiam soltar um suspiro de alívio _ quer dizer, se estivessem livres da inveja que sentem do adolescente desta fase”. Veja bem, ele retrata a obsessão do público por uma minoria de vândalos, cego à verdadeira relevância dos acontecimentos. O título refere a uma personagem de Shakespeare, que odiava a juventude e desejava que se dormisse dos 16 aos 23 anos.
É interessante a menção aos vovôs do rock, justamente para lembrar de que o tempo passa e crescemos como civilização assimilando e aprendendo com o que parecia dissonante e impossível de catalogar. O que mais alarma os intérpretes de plantão, nos quais me incluo, é a ignorância do rumo que as insatisfações expressadas vão tomar. Não se sabe do resultado das próximas eleições, nem como as cidades receberão a Copa e principalmente está para se descobrir como funcionam a política e a informação na era da internet. Como tampouco se sabia da comunicação após o telégrafo e o telefone, do rumo da música depois do rock, do destino da família após a revolução dos costumes, das mulheres após a pílula, do livro após o computador. Os adultos de diferentes épocas são reincidentes no medo do desconhecido, lembram seus tempos de interrogações e temem não ter feito as melhores escolhas. Os jovens representam esse processo, estão fadados a atravessá-lo e acabam suportando melhor o que não controlam.
Nesse e noutros textos, Winnicott lembra que a juventude passa nos indivíduos, que ficam velhos como os Beatles, mas nas sociedades a expressão juvenil chegou para ficar. Ele a chamou elogiosamente de “imaturidade adolescente”, que seria a fonte das dúvidas que movem revoluções e permitem invenções. Tudo o que nos tornamos como civilização tem uma dívida com aqueles que enxergaram as coisas de modo diferente.
Mudam os atores, mas a peça da juventude segue em cartaz. A vantagem da visão de mundo adolescente, ou juvenil, é justamente sua relação com o tempo, a capacidade de reconhecer, com tristeza, mas sem pânico, que o futuro é incerto. Ser jovem é conviver com as próprias indefinições: duvidar sobre a quem e como amar, no que acreditar, como trabalhar, a quem admirar e o que se quer aprender. Ficar velho é satisfazer-se com o senso comum, é alardear o fim do mundo a cada vez que alguém faz um barulho que nosso cérebro não consegue decodificar. Encerro com Winnicott, pedindo que sejamos capazes de interpretar e conter nossa “indignação moral causada por ciúme da juventude”. Corrompendo Quintana: a meninada passará, a juventude passarinho.

*Psicanalista

Artigo| Qual bolhas de sabão

30 de junho de 2013 1

A realidade
nacional
precisa ser
aferida em
outras fontes

PERCIVAL PUGGINA*
puggina@puggina.org

Volta e meia, anos a fio, eu criticava, aqui, a péssima gestão federal dos negócios públicos. O governo ia mal nas coisas importantes. E o que ia bem lhe caía no colo de presente. Presente chinês. O gigante oriental acordara e arrancava o Brasil de seu berço esplêndido. Quanto ao resto _ segurança, responsabilidade fiscal, probidade, educação, saúde, infraestrutura, tecnologia, relações exteriores, as coisas iam mal. Muito cacarejo publicitário e pouco ovo.
Nós, os poucos que expúnhamos com objetividade a situação nacional, exercíamos tarefa resignadamente inglória. O marketing do governo trovejava informações que nos contradiziam. Afrontávamos a opinião majoritária. Sabíamos que distribuir dinheiro não resolve os problemas nacionais porque o Brasil não é um programa de auditório! Mas o Planalto festejava ao menos um plano mirabolante e bilionário por semana. Até a mídia mundial comprava por bom o discurso oficial! As oposições, ora, as oposições! Primeiro, Lula lhes bateu a carteira ao fazer seu o programa de governo do FHC. Depois, quando Lula passou a sacrificar a austeridade fiscal em favor das reeleições petistas, instalou-se a chamada Brasilha da Fantasia, ou a Fachada de Prosperidade (nas palavras do Financial Times). Mas a oposição política formal, já então, arquejava seu desânimo em meia dúzia de vozes, se tanto, no Congresso Nacional. Enfim, nossa trincheira era tão despovoada, que se um gritasse o outro não ouviria. E o petismo ainda nos chamava de golpistas.
Pois eis que o povo sai às ruas. Os satisfeitos do Bolsa Família e do Bolsa Louis Vuitton ficam em casa. Entende-se. Entendem-se, também, os motivos pelos quais os grupos radicais que acionaram a alavanca de partida foram para a marginalidade quando o povo, com suas camisas brancas, tomou conta do pedaço. Assistimos a uma surpreendente apropriação pela cidadania de algo que se iniciou em mãos erradas. Com raras exceções, a multidão nas ruas repete o que vínhamos dizendo. Claro, há os paus mandados que se infiltram e tentam desviar o foco para cima dos governos não petistas; há os que conscientemente usam a violência para fins políticos e há os que se aproveitam das vidraças quebradas para sua atividade criminosa. A multidão nas ruas embasbacou dois grupos: os detentores de poder e os comentaristas, ingênuos ou militantes da causa, que há anos recebiam os resultados das pesquisas de satisfação como prova suficiente de que tudo ia bem. Pesquisas de satisfação, senhores, têm a ver com mercado. A realidade nacional precisa ser aferida em outras fontes, e tem a ver com o futuro do país em horizontes de curto, médio e longo prazos.
Rudyard Kipling perguntou certa vez num poema: “O que podem conhecer sobre a Inglaterra os que só conhecem a Inglaterra?”. Pois o brasileiro médio sempre se pareceu um pouco com esses ingleses de Kipling. Nos últimos anos, porém, com o dólar barato, milhões de brasileiros saíram a conhecer o mundo. E conheceram melhor o Brasil… Essa massa, da qual Lula se considera santo benfeitor, pôde fazer comparações e concluir que, aqui, exceto os luxuosos palácios do poder, tudo o que é público está em frangalhos. Que aqui, impostos coletados em percentuais de Primeiro Mundo se desperdiçam no supérfluo. E que o restante se entrega ao Submundo, sob zelo da mais irretratável impunidade. Ilusões publicitárias são como bolhas de sabão.

*Escritor

Sentenças| Frase da Semana

30 de junho de 2013 0

“Achava que, por não ser um homem de letras, eu não poderia concorrer. Sempre quis separar minha trajetória de professor e intelectual da função de líder político.”

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ex-presidente da República, eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL)

Artigo| A reforma encenada

30 de junho de 2013 1

O que estamos
assistindo, não
nos enganemos,
é o movimento das
elites brasileiras
encenando uma
reforma

MARCOS ROLIM *
marcos@rolim.com.br

Na edição deste sábado de ZH, no Caderno de Cultura, tratei dos movimentos de protestos em curso. Concluí o artigo _ “Tanto motivo que nem cabe” _ afirmando que devemos assegurar ao modelo político brasileiro seu merecido enterro. Os que se identificam com o modelo e aqueles que a ele se adaptaram cinicamente, entretanto, lutam pela sobrevida da política brasileira tal como a conhecemos. Por isso, a proposta de uma constituinte exclusiva para a reforma política, anunciada pela presidenta Dilma, durou 24 horas. Compreensível. Boas ideias costumam ser fulminadas nos ambientes do Poder.
Houve quem afirmasse que a proposta seria “inconstitucional”. Curiosa interpretação esta a de tantos juristas pela qual o Congresso, que detém o poder constituinte derivado, não poderia convocar eleições para que uma assembleia de representantes do povo realizasse a reforma política e apenas ela. O debate, nos termos em que foi posto, só faz sentido quando se reduz o mundo à dogmática jurídica. Uma alienação recorrente que suprime a opção política para consagrar o conservadorismo, impedindo que a questão central seja sequer formulada: como reformar um modelo político falecido quando o Congresso não tem capacidade nem credibilidade para fazê-lo? Uma assembleia eleita com candidaturas avulsas e listas independentes, funcionando paralelamente ao Congresso e com a regra de inelegibilidade por oito anos para seus membros, seria a melhor resposta à crise; talvez a única capaz de recolher a energia cidadã das ruas, convertendo-a em debate político e transformação.
Governo e oposição duelam, agora, em torno do plebiscito ou do referendo.
A oposição tem mais identidade com o governo do que com as ruas e a mesma incapacidade de compreender o que está ocorrendo. A reforma política que o Brasil necessita não pode ser equacionada com meia dúzia de perguntas, ainda que os eleitores pudessem responder criteriosamente sobre temas como “financiamento de campanha”, “lista fechada, flexível ou aberta” ou “eleições legislativas em dois turnos”, o que _ obviamente _ não é o caso.
O desafio da reforma política é o da invenção de um modelo, o que pressupõe a elaboração de conceito que só pode resultar do debate qualificado entre representantes do povo, com dedicação integral ao tema, exame da experiência internacional e forte interação com a sociedade civil.
O Poder está amedrontado e, por isso, desloca-se com pressa e nova agenda. O que estamos assistindo, entretanto, não nos enganemos, é o movimento das elites brasileiras encenando uma reforma para que, no fundamental, tudo permaneça como antes. Neste particular, os donos do poder são artistas criativos e possuem uma legião de juristas para socorrê-los. Desta vez, entretanto, a plebe parece não estar disposta a ser enrolada. Reside nesta recusa o que de mais importante se tem construído nas ruas.
* Jornalista

Editorial| Reforma sem plebiscito

29 de junho de 2013 0

Seria mesmo uma situação ideal que o povo brasileiro, movido pela indignação que vem demonstrando nas ruas, pudesse decidir diretamente cada uma das linhas da reforma política que está parada no Congresso há mais de 15 anos. Mas só o debate entre plebiscito e referendo que divide governistas e oposicionistas já mostra a dificuldade, senão a impossibilidade, de uma democracia direta neste caso. De qualquer forma, é incoerente que num momento de manifestações contra desperdício de recursos públicos se vá gastar mais de R$ 500 milhões, como estima a Justiça Eleitoral, para decidir sobre temas complexos, que a maioria da população desconhece. É uma vergonha que a reforma política já esteja sendo debatida há tanto tempo sem avançar, devido a interesses subalternos dos parlamentares. Então, que os deputados e senadores assumam suas responsabilidades, tentem interpretar a vontade do povo, votem logo a reforma e depois arquem com as consequências na eleição de 2014, quando o eleitor brasileiro utilizará o seu poder constitucional de julgar seus representantes. O verdadeiro plebiscito (ou referendo) será a eleição de outubro do ano que vem, quando os eleitores poderão dizer, pelo voto, se mantêm seus atuais representantes ou se buscam alternativas.
Passados oito dias do pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV no qual a presidente Dilma Rousseff propôs seus cinco pactos para responder ao clamor das ruas, já é possível fazer um balanço preliminar de seus efeitos. De todas as ideias avançadas pela primeira mandatária, nenhuma mostrou-se mais problemática do que a de se apelar a mecanismos extracongressuais para aprovação de uma reforma política. Dias antes, o PT lançou em sua página na internet uma campanha por um projeto de lei de iniciativa popular sobre mudanças na legislação eleitoral. Na prática, em seu pronunciamento do dia 21, Dilma apenas tomou para si a tese do PT, sob o invólucro da proposição de Constituinte, já contida no texto do PT.
Desde a fala presidencial, e também sob o efeito da mobilização popular, Legislativo e Judiciário moveram-se em direção às demandas dos que protestam. Assim, é oportuno exigir também do Congresso que aprove logo as mudanças necessárias na legislação eleitoral e partidária.
Que deputados e senadores assumam com coragem as suas atribuições e, depois, se confrontem com o julgamento dos eleitores nas urnas.

Editorial| Os desafios do vandalismo

29 de junho de 2013 0

A redução do número de manifestantes na noite da última quinta-feira na Capital, em grande parte devido ao temor da violência crescente a cada protesto, acabou dando maior visibilidade à atuação de grupos de arruaceiros que se acobertam no movimento para disseminar suas ações criminosas. Tanto o poder público quanto a iniciativa privada puderam ter uma dimensão mais clara do desafio que precisa ser enfrentado para frear prejuízos humanos e materiais provocados por vândalos e saqueadores cuja única causa é se aproveitar de uma iniciativa legítima e bem-intencionada para depredar e roubar. Toda a sociedade, em diferentes áreas de atuação, tem um papel a desempenhar na tentativa de pôr fim ao caos, assegurando as condições para que os verdadeiros militantes possam continuar lutando por suas demandas.
É absolutamente inadmissível que, enquanto uma maioria organizada sai às ruas em busca do que considera o melhor para o país, uma minoria se disponha a pichar e a quebrar o que vê pela frente. Sem levar em conta que os danos serão arcados por todos, os arruaceiros derrubam grades e tapumes, quebram vidraças, picham muros e paredes, viram e incendeiam contêineres, rompem cortinas de ferro de estabelecimentos comerciais, danificam veículos, mobiliário, caixas eletrônicos e até mesmo promovem saques.
Compete às forças policiais uma estratégia efetiva de repressão e prisão dos delinquentes, antes que os cidadãos atingidos, comerciantes e proprietários de automóveis, comecem a reagir por conta própria, com consequências ainda mais danosas. Aos manifestantes cabe entender o trabalho dos responsáveis pela segurança pública, de modo que os bem-intencionados não acabem acobertando a ação dos vândalos. E é preciso cobrar também que as autoridades policiais possam aperfeiçoar gradativamente o seu trabalho, preservando tanto a integridade física de quem protesta pacificamente quanto o patrimônio público e particular.

Artigo| Se fosse um filme...

29 de junho de 2013 1

Como num filme,
as coisas vão
acontecendo e, em
um determinado
momento aparecem
os créditos e
o filme acaba

PAULO NASCIMENTO*
Se as manifestações dos últimos dias fossem um filme ele teria um final previsível como A Paixão de Cristo. Primeira parte: pacífica, ordeira, cada um com suas reivindicações (e põe variedade nelas), seus gritos de ordem, até que… A segunda parte: o pau come, a loja quebra, o morador xinga o vândalo (novo eufemismo para bandido) e assim o final óbvio prevalece. Como a Paixão de Cristo, todos assistem pelo decorrer do filme, não pelo final já manjado. As manifestações também vêm exercendo a função de valer pelo “decorrer”, não pelo final. Fico vendo os personagens e tentando montar um perfil, algo que faça sentido no meu roteiro fictício.
Tem o cara que estaciona na vaga do idoso e sai com o cartaz pedindo “respeito aos direitos”. Tem o brigadiano que vai para sua primeira manifestação (eles também tem a primeira) e ouve uma maluca gritando que a “polícia tem que acabar”! Ele pensa que deve estar no lado errado mesmo.
Tem até o personagem do Renan Calheiros falando mal da corrupção. A presidenta dizendo que “a voz das ruas” quer o fim da impunidade (novo isso??), e tem a garotada que sai pra rua pela primeira vez, às vezes até para postar fotos no Face e acaba mexendo com as estruturas do país.
Se fosse um roteiro eu colocaria como clímax, não a votação da PEC 37 ou da corrupção como crime hediondo, mas, sim, o momento que os deputados estivessem todos trabalhando em Brasília em dia de jogo da Seleção. Talvez meu filme passasse para o gênero ficção científica, onde “algo” causou uma “estranha reação nos seres humanos sob uma nave no Planalto Central” (o cenário estaria pronto, com direção de arte do Niemeyer). Como num filme, as coisas vão acontecendo e, em um determinado momento (que ninguém sabe bem por que) aparecem os créditos e o filme acaba.
O momento atual me parece um filme com uma edição no mínimo “estranha”, em cortes descontínuos. Outro dia um amigo meu fez uma brincadeira dizendo que, na Paulista, em Sampa, às vezes o protesto parecia a revolta da “Gap e da Tommy” em função das grifes que desfilavam na avenida. O coitado levou um pau de todo mundo, mas não por ter insinuado que tinha uma mauriçada na avenida (naquele dia pelo menos), mas porque escreveu “Tomy” com um “m” _ vejam a relevância.
Como diz o Verissimo, são “tempos interessantes”. Sinceramente espero que a realidade não vire um roteiro descontínuo, com uma edição tão louca que não chegue a lugar algum. Apesar de que muitos filmes que não chegam a lugar nenhum ganham festivais pelo mundo e são aclamados pela crítica. O problema é que o povo não assiste porque o povo não é bobo, reza a lenda.
*Cineasta

Artigo| Razão e barbárie

29 de junho de 2013 0

No momento em
que o protesto vira
vandalismo, o que
passa a predominar
é o crime que deve
ser combatido
sem tréguas

VITOR AUGUSTO KOCH*

É perfeitamente defensável protestar contra a corrupção. Também é razoável mostrar indignação diante da má qualidade dos gastos públicos e questionar os investimentos bilionários em favor da Copa 2014, diante do caos da saúde, educação, segurança e infraestrutura de transportes públicos.
Mas usar desses argumentos focados na ética, justiça e bem comum para promover depredação e saque é um paradoxo inaceitável. Como alguém que defende valores comunitários pode sequer imaginar depredar propriedades da própria comunidade, como prédios públicos, lixeiras e outros bens que tão caro saem para os contribuintes?
A maior barbárie foi flagrada pela televisão em São Paulo. Bando de homens indisciplinados, saqueadores destruindo lojas no centro da cidade e roubando produtos. A imagem de um homem grisalho levando uma TV de tela grande foi ao mesmo tempo revoltante e esclarecedora. E depois os incêndios.
Sem desprezar os argumentos formais de quem protesta, é por demais simples argumentar que tais crimes foram executados por delinquentes infiltrados nos movimentos sociais.
Em Porto Alegre, onde tudo isso começou por conta das passagens de ônibus, as cenas mostravam pessoas mascaradas em meio aos protestos cometendo crimes, destruições de patrimônio público e privado. E alguns prováveis líderes do movimento não fizeram a menor menção de tentar detê-los e se recusaram a colaborar com as autoridades na identificação dos infratores. Isso, no mínimo, revela uma relação de cumplicidade.
Na história do mundo, há exemplos de atrocidades cometidas em nome de argumentos aparentemente dos mais inocentes. Se não quisermos fazer com que o Brasil se torne de vez um lugar comandado por bandidos, é melhor que as autoridades realmente comecem a agir de forma intolerante em relação aos criminosos.
Protestar é legítimo e até inspirador para o desenvolvimento de uma democracia saudável. Mas, no momento em que o protesto vira vandalismo, o que passa a predominar é o crime que deve ser combatido sem tréguas ou tolerância.
Que se protejam as ideias! Um movimento histórico como o que está ocorrendo nas últimas semanas pode ser o início de uma grande e positiva transformação da política nacional, ou o princípio de uma total perda de controle da ordem pública.
Os líderes dos movimentos, se existem, e as autoridades podem até discordar dos pleitos em discussão. Mas eles têm a obrigação de serem colaborativos e guardiões no combate firme às barbáries a que estamos assistindo nos últimos dias.

*Presidente da FCDL-RS

Artigo| Mais amor pela cidade

29 de junho de 2013 0

As obras de arte e
os artistas de gerações
anteriores merecem
o mesmo respeito,
cuidado e carinho
que a arte e os artistas
de nossos dias

ROQUE JACOBY*

O debate sobre o vandalismo contra monumentos e prédios tombados, que representam a história e a memória cultural da cidade de Porto Alegre, tomou as ruas e as páginas do jornal. O contexto moral subjacente ao vandalismo, e que permite que ele aconteça, tema desta breve reflexão, nos impõe algumas perguntas: como os cidadãos percebem os espaços públicos? O que esses espaços significam para esses cidadãos? Como eles se ligam afetivamente a esses monumentos, praças e prédios históricos? Qual é o sentimento de pertencimento dessas pessoas em relação a esses espaços?
A depredação de motivação “ideológica” nos revela a falta de valores em algumas práticas políticas, recorrentes na história da humanidade e que vimos recentemente, são minoritárias entre os manifestantes que lotaram as ruas de várias capitais brasileiras. A depredação também nos alerta para o fato de que muitos não percebem a história da cidade como sendo o resultado da construção coletiva. Os monumentos que testemunharam o surgimento de nossas comunidades contam a nossa história e pertencem a todos nós.
Diversos coletivos artísticos em Porto Alegre se dedicam a promover ações de ocupação pacífica dos espaços públicos, praças e monumentos. Eles perceberam o que está evidente: é importante repensar a forma como as pessoas encaram os monumentos, praças, parques e prédios históricos. Não gostar da praça, não respeitar o monumento, não perceber que o Paço Municipal é a casa que representa e garante a cidadania dos porto-alegrenses, são atitudes que têm origem na mesma mentalidade que leva pessoas a jogarem o lixo produzido em suas casas na rua ou a jogarem lixo pela janela do carro. O espaço público, o prédio histórico, o parque, a calçada não são percebidos, por muitos, como espaços que estão sob a tutela de cada um dos cidadãos e de todos ao mesmo tempo.
Precisamos de mais amor pela arte em nossa cidade. As obras de arte e os artistas de gerações anteriores merecem o mesmo respeito, cuidado e carinho que a arte e os artistas de nossos dias. Arrancar o braço da estátua na Praça da Matriz, ou pichar um prédio antigo é como agredir um malabarista da esquina ou desrespeitar um músico que toca na praça.
O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (Iphae), bem como, aqui dentro da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, a Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (Ephac) e o Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural (Compach), conjuntamente têm realizado muitos esforços para que se preserve a memória das gerações que nos antecederam e que está representada nos detalhes artísticos, arquitetônicos e até mesmo em aspectos da engenharia de prédios, monumentos, estátuas e calçamentos. Este trabalho de pesquisa sobre como preservar, o que preservar e por que preservar precisa alcançar reconhecimento crescente dentro de nossas comunidades e por parte de nossas lideranças, ou correremos o risco de virar uma sociedade sem memória.
Aos coletivos artísticos e movimentos comunitários que se dedicam a mostrar que os espaços públicos são de todos, são um patrimônio de nossa cidadania, e estão também sob nossa tutela, e por isso merecem nosso amor e respeito; a estes meu mais entusiástico aplauso.

*Secretário da Cultura de Porto Alegre