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Editorial| Pela tolerância

07 de junho de 2013 1

O contexto de rápidas transformações socioculturais valoriza a atuação das instituições brasileiras, das quais se espera o máximo de eficiência no encaminhamento dessas questões.

No mesmo dia em que o futuro ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso defendeu em sabatina no Senado o respeito e a tolerância a pensamentos diferentes, lembrando que a marca da sociedade atual é a “pluralidade”, milhares de religiosos voltaram a ocupar, na última quarta-feira, a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O objetivo, mais uma vez, foi protestar contra mudanças normativas em relação a questões como o aborto de anencéfalos e a união homoafetiva. Assim como a liberdade de expressão, que assegura a realização de manifestações com esse objetivo, também a liberdade de credo é uma garantia constitucional. Sejam evangélicos, católicos ou de outras religiões, os brasileiros têm todo o direito de se reunir e de se expressar. O país, porém, não pode se render ao fundamentalismo, nem dos defensores da flexibilização dos costumes e das instituições, nem dos que resistem às mudanças. O que o Brasil precisa, isso sim, é desenvolver uma cultura de tolerância, capaz de possibilitar o convívio pacífico de quem pensa diferente.
Entre as sucessivas mudanças que vêm ocorrendo na atualidade, uma das mais relevantes é a comportamental. O mundo ocidental se mostra cada vez menos disposto a aceitar barreiras de ordem étnica, religiosa, racial e política. Mas, como advertiu também o ministro indicado para o Supremo, “as maiorias podem muito, mas não podem tudo”. Isso significa que, em meio às diferenças e às divergências, é preciso sempre lutar por pontos consensuais e pelo convívio civilizado. O contexto de rápidas transformações socioculturais enfrentado hoje no mundo ocidental valoriza a atuação das instituições brasileiras, das quais se espera o máximo de eficiência no encaminhamento dessas questões.
Nos últimos anos, por iniciativa do Congresso ou do Judiciário, o país vem reavaliando normas em questões que não se resumem ao aborto de anencéfalos e aos relacionamentos homoafetivos, estendendo-se também a questões como cotas raciais e adoção por homossexuais. Na maioria dos casos, as instituições se manifestam para avalizar o que, na realidade, já foi conquistado há algum tempo, por conta de mobilizações intensas por parte de segmentos da sociedade. Em qualquer dessas situações, o essencial é que não haja tentativas de imposição de defensores de uma ou outra causa, nem que o debate seja simplesmente rechaçado com base em justificativas nas quais predominam o preconceito e o moralismo.
Mobilizações de rua, como as que vêm se multiplicando na Capital Federal, são importantes como forma de expor diferentes pontos de vista sobre temas quase sempre complexos. Essas manifestações só fazem sentido, porém, se buscarem o entendimento, não o conflito.

Comentários (1)

  • Milton Simon Pires diz: 7 de junho de 2013

    O BRASIL ENQUANTO A NOITE NÃO CHEGA

    Título da obra de Josué Guimarães, Enquanto a Noite não Chega foi publicado em 1978. Nem de longe é um romance que possa ser considerado “comum” na nossa literatura. Aborda temas que estavam, e estão até hoje, muito distantes daqueles que se tornaram best sellers ou cânones da academia – os dois únicos critérios utilizados para avaliar a produção literária ocidental..rss..rss
    O livro trata fundamentalmente do tempo e da morte. Foi escrito em plena época do regime militar, quando ainda existia no Brasil alguma referência em termos de certo e errado, e algum paradigma a orientar a sociedade no sentido da transcendência destes valores. Jamais naqueles dias alguém pensou que o fim de um tipo de governo poderia significar o fim de um tipo de moral.
    Na década de 1970 nenhum brasileiro poderia acreditar que crucifixos seriam retirados dos tribunais por uma demanda das lésbicas, que chutar cachorros tivesse a mesma repercussão na mídia que queimar dentistas, ou que as pessoas teriam vagas na universidade garantidas pela cor da pele. Duvido que o doente mental mais grave solicitasse ao seu psiquiatra a vinda de 6000 médicos de outros países, ou que as famílias dos criminosos mais perversos tivessem um auxílio financeiro do governo enquanto seu “ente querido” cumprisse pena. Não me lembro, de ter visto algum personagem do Trapalhões, do Chico Anísio Show, ou do Viva o Gordo sugerir que cirurgia de mudança de sexo (é esse o nome politicamente correto?) fosse feita gratuitamente com dinheiro público, ou que uma criança pudesse ser educada por dois marmanjos como se eles fossem seu pai e sua mãe. Não me recordo de nenhum general brasileiro alcoólatra, semi-analfabeto ou fotografado lendo livros de “cabeça para baixo”. Não havia hospitais com médicos chefiados por enfermeiras, os professores não levavam surras dos alunos, e os policiais não moravam nas mesmas vilas que os traficantes com quem trocavam tiros…
    Quando penso em tudo isso tenho plena consciência de que olho para o passado e vejo – até certo ponto – aquilo que gostaria que o presente fosse. Sinto, como a maioria das pessoas, uma saudade infinita da infância ..e de um tempo que já não volta mais. Entendo também que muita gente que está agora lendo o que escrevo pode lembrar com muita razão que nem tudo “era um mar de rosas”. Sobre este ponto não há discussão. Além de Deus, nada ao meu ver é eterno mas ainda assim acho que houve uma, talvez apenas uma, perda que foi irreparável – a da nossa capacidade de indignação! Essa não existe mais há muito tempo. Quebrou-se a espinha dorsal do país quando se destruiu, aos poucos e metodicamente, num trabalho começado ainda na década de 1960, o conceito de Nação e a crença sincera num Deus apolítico..numa força superior e eterna, capaz de ser a fonte do amor gratuito e da caridade tão necessária a honestidade intelectual e esperança de um povo.
    Desse processo todo nada mais restou além da pobre família brasileira. É ela agora, sozinha, quem tem que fazer também o papel de um Deus e de uma Pátria que há muito foram esquecidos. Dia após dia ela vai sobrevivendo a tudo e a todos – não da caridade de quem a detesta (como cantou Cazuza) mas de quem a ignora. Nos lares mais pobres do Brasil ela ainda é contra a liberação das drogas, faz oposição cerrada ao aborto e ao casamento gay e vê, com olhos de gente simples e desconfiada , esse “tal de aquecimento global”.
    Isolada num país moralmente tetraplégico, a família brasileira espera quieta a sua hora chegar..mais ou menos como os personagens de Josué Guimarães – Seu Eleutério e Dona Conceição – sempre vigiados pelo amigo coveiro, sempre lembrando um tempo que já passou – eternamente esperando…
    É o próprio Brasil que espera.. Enquanto a Noite não Chega..

    para o meu pai..

    Porto Alegre, 23 de maio de 2013.
    cardiopires
    Enviado por cardiopires em 23/05

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