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Artigo| E daí?

11 de junho de 2013 4

Vai me acusar de
ladrão da pátria,
ou vai recomendar
a seus filhos que
se inscrevam
no concurso
para promotor?

JOSÉ TÚLIO BARBOSA*

Bem, agora você já sabe, sem ter sido sequer necessário se dar ao trabalho de procurar na internet, que, no fim do mês passado, eu ganhei, como procurador de Justiça, R$ 26.266,44 de vencimentos, líquidos, ou R$ 847,30 por cada dia do mês, trabalhado ou não, útil ou feriado. E eu, se quiser saber, mesmo escondido, o quanto você ganhou, tenha você a renda e o trabalho que tiver, desde que não seja funcionário público ou assemelhado, terei de praticar um crime! Não sei se você sabia disso, mas há outras coisas sobre mim que você ignora. Por exemplo, tenho 61 anos de idade e já poderia estar aposentado, mas continuo trabalhando, pelo que ganho o adicional mensal de permanência _ R$ 3.355,36 _ e o Estado economiza mensalmente o quanto eu ganho menos o valor desta vantagem, isto é, R$ 22.911,08, porque não precisa pagar outro procurador de Justiça para fazer o trabalho que continuo fazendo. Só no Ministério Público são 29 anos de serviço. E outra coisa: na verdade, na minha conta não veio a ter esse valor todo, que, além dos descontos legais, R$ 8.429,68 foram transferidos a credores de pensão alimentícia; R$ 535,30, a cooperativa de crédito para pagamento de empréstimo; R$ 188,00, ao IPE, como PAC, para garantir assistência médica a minhas filhas com mais de 24 anos, embora uma delas seja universitária.
Na minha conta mesmo, R$ 16.779,44, e isso com o valor correspondente a pagamentos atrasados no montante de R$ 4.673,49. Isto é, se não estivesse recebendo valores devidos que não me foram pagos na época certa, eu teria realmente recebido R$ 12.105,95. Eu também acho que você não tem nada a ver com o fato de eu ter cinco filhos, ter casado três vezes e estar namorando; ao menos por enquanto, não é?, mas já que você conseguiu botar nos jornais quanto eu ganho, penso que é bom esclarecer a qualquer mal-intencionado, não você, que eu não tenho esse dinheiro no meu bolso ou no banco. É que podem querer roubá-lo de mim, especialmente vendo meu carro com 80 mil quilômetros, adquirido em 50 vezes de R$ 1.300,00, que, vendido, o valor apurado não cobrirá a dívida no banco.
E você não sabe muitas outras coisas sobre mim, como que meus pais eram operários analfabetos, que fui preso pelo Dops por estender uma faixa em frente ao presidente Médici, pedindo democracia; que, recusado pelo Exército, não pude fazer o curso de oficial da reserva, o que me permitiria cursar a faculdade de Engenharia Química; que tive de arrumar trabalho logo aos 18 anos e me contentar em cursar a faculdade de Direito à noite e, depois, sem expressão social alguma, fazer concurso público, para ganhar a vida; que fui considerado a esperança de uma nova magistratura; que fui o primeiro promotor de Justiça no Brasil a ser indicado em lista para ministro do Superior Tribunal de Justiça; que concorri a juiz de Direito vitalício e a deputado estadual pelo PT, em 1986… Deixa disso, faz tanto tempo e talvez você tenha tomado conhecimento de que há poucos dias contrariei ação intentada por meus colegas para pedir ao Tribunal de Justiça a cassação de liminar que impedia o corte de árvores nas imediações da Usina do Gasômetro unicamente porque não se pode impedir a administração pública de exercer suas atribuições, se inexistente ilegalidade, ainda que não se concorde com ela, e que, em breve, darei parecer sobre o valor das passagens dos ônibus em Porto Alegre.
Eu até não me importo que você ignore isso tudo. O que eu quero saber é, e agora?, o que você vai fazer? Vai me acusar de ladrão da pátria, ou vai recomendar a seus filhos que se inscrevam no concurso para promotor? Neste caso, saiba que são milhares de inscritos para apenas dezenas de vagas. Por fim,eu valho mais do que ganho.

*Procurador de Justiça

Comentários (4)

  • Vinícius diz: 11 de junho de 2013

    Pois veja só! Juízes e Promotores têm 60 dias de férias por ano, recebendo 1/3 a mais de seus vencimentos em cada um dos períodos, têm assessores e estagiários para fazer seu trabalho, ganham valores de URV e diferenças de vale-alimentação atrasadas, não batem ponto, controlando seu próprio horário e ainda têm licença-prêmio, de 3 meses a cada 5 anos trabalhados, que podem ser convertidas em dinheiro, quando da aposentadoria… será mesmo que trabalham tanto, que valem tanto assim, mais do que professores que têm que estar 40 horas em sala de aula, fora o preparo de aulas e correção de provas, e sequer conseguem que o Estado pague o piso dos vencimentos mínimos? Tudo bem que ganhem bem, mas diante da realidade brasileira, um artigo me parece, no mínimo, inoportuno e insensível.

  • Helena Sanchez Minuscoli diz: 12 de junho de 2013

    Exmo. Dr. Tulio Barbosa .

    Saudaçóes

    Na sua conta bancária . o Senhor recebe R$ 16.779,44 . O mesmo valor que o Senhor receberia em caso de encaminhamento da sua aposentadoria .
    Eu sou médica, tenho 60 anos . Recentemente o INSS fez um cálculo de projeçáo de minha aposentadoria em R$ 791,00 , valor inaceitável e um desrepeito por corresponder a quantia menor do bolsa-bandido: R$ 915,04
    Minha pergunta ; qual é a verdadeira injustiçá ?
    O senhor prende pessoas desonestas, nocivas á sociedade.
    Eu salvo vidas

  • Kenman Yung diz: 12 de junho de 2013

    Túlio, obrigado pela coragem de expor parte de tua vida pessoal para demonstrar como se sente um segmento dos servidores públicos, remunerados dignamente, e que almejam que todos os demais colegas tenham também essa dignidade alcançada. Por certo que obrigar a publicação de vencimentos com nomes, ao invés de codificação, acaba tendo como uma das consequências a discórdia entre a própria camada de servidores públicos que, em sua maioria, exercem atividades de grande valor mas não conseguiram atingir um patamar de remuneração digno. Parece que essa exposição vai além da questão da transparência, que pela exposição codificada e fornecimento de detalhes somente ao interesse legítimo seria suficiente; parece realmente que existe concerto, sabe-se lá de onde, para que, a pretexto de transparência, o funcionalismo acabe voltando-se contra si próprio, além, é claro, da sociedade que, em um contexto de política de pão e circo, certamente deve achar um absurdo que um magistrado ganhe mais de 20 mil por mês.

  • Os verdadeiros vândalos | O radical livre diz: 15 de junho de 2013

    [...] trabalhadores, por filigranas formais. Você é o mesmo procurador que escreveu artigo debochado publicado no jornal Zero Hora informando que recebe mais de 20 mil reais por mês, e arrematou dizendo que [...]

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