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Posts de julho 2013

Editorial| Indicador valioso

31 de julho de 2013 0


Ferramenta online de consulta de 180 indicadores socioeconômicos, o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, divulgado na segunda-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), contém uma notícia a ser comemorada por todos os brasileiros: o salto extraordinário do país da categoria “muito baixo” para “alto desenvolvimento humano”. Na comparação entre os dados de 1991 e 2010, o Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios (IDHM) no Brasil subiu de 0,493 para 0,727, avanço de 47,5% em duas décadas. O índice considera indicadores de longevidade, renda e educação e varia de zero a 1. Quanto mais próximo de 1, melhor o desenvolvimento do município. Os números demonstram de forma inquestionável que o país evoluiu.
Segundo Jorge Chediek, coordenador do sistema Nações Unidas no Brasil e representante do Pnud no país, o Brasil registrou “progresso impressionante” na diminuição das desigualdades e na melhoria do desenvolvimento humano. Esse desempenho deixa o Brasil mais próximo do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, assumidos por 198 nações no ano 2000. Em 1991, o número de cidades com IDHM muito baixo era de 85% do total. Em 2010, esse percentual havia caído para 0,6%. Paralelamente, os municípios de IDHM muito alto pularam de zero em 1991 para 1.889 em 2010. Os dados são calculados com base nos Censos Demográficos de 1991, 2000 e 2010, do IBGE.
O fator longevidade é o que mais contribui para o desempenho brasileiro e o mais elevado em termos absolutos. É também o que apresenta, em 2010, o menor intervalo até o teto de 1. Essas cifras são um reflexo no aumento de 9,2 anos na expectativa de vida ao nascer no Brasil entre 1991 e 2010. Por outro lado, o fator educação é o que menos contribui em termos absolutos para o resultado do país e o que apresenta o maior hiato até 1 (0,363). No IDHM Renda, persistem diferenças gritantes entre municípios, mas o crescimento no intervalo calculado foi de 14,2%.
No caso do Rio Grande do Sul, porém, há poucos motivos para comemorar. Entre nós, o IDHM caiu da quinta para a sexta colocação em nível nacional em relação aos dois últimos levantamentos. Se fossem considerados apenas os números da educação, o Estado estaria em oitavo lugar. Entre os 457 municípios gaúchos, apenas Porto Alegre teve, em 2010, o IDHM muito alto. A maior parte dos municípios gaúchos (313) foi classificada no nível alto, e outros 182 apresentam índice médio. Mais do que celebrar, porém, cabe aos administradores municipais fazer uma avaliação sensata das situações e buscar soluções para problemas ainda irresolvidos. E cabe a cada cidadão continuar fazendo a sua parte, entre as quais se inclui a escolha correta de representantes políticos e, no caso da educação, maior participação na vida escolar.

Artigo| O legado de Francisco

31 de julho de 2013 0

Francisco partiu
deixando uma
mensagem de
confiança à
juventude para
que não se conforme
com a corrupção

LÍCIA PERES*

A presença do papa Francisco na Jornada Mundial da  Juventude arrastou  multidões chegando a reunir 3 milhões de jovens de 175 países que permaneceram em vigília na praia de Copacabana para assistirem à missa, o evento de sua despedida do Brasil. Buscou sempre o contato com as pessoas, despreocupado com a própria segurança.
Poucos dias antes da chegada do pontífice, desenvolvia-se em rede nacional a Campanha Sanciona Dilma, por meio da qual dezenas de entidades feministas em carta à Presidenta reivindicam a sanção do Projeto de Lei 60/99 recentemente aprovado no Congresso Nacional sob a referência de PLC 3/2013.
“Esta lei, embora não traga qualquer alteração nas regras que hoje regem o atendimento à saúde de mulheres e adolescentes vítimas de violência, representa um reforço legal precioso para as orientações que regem este atendimento, traduzidas na Norma Técnica de Atenção aos Agravos da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, do Ministério da Saúde, fruto de amplo consenso na área médica e entre os movimentos de mulheres. Esta Norma Técnica vigora desde 1999 e foi revisada e aprimorada em 2005 e 2011″.
Presidenta Dilma, conclama o documento,”em respeito aos direitos das mulheres e adolescentes vítimas de violência, em resposta positiva às carências reveladas pelo recém aprovado Relatório da CPI da Violência contra as Mulheres, de modo a superar as barreiras que se interpõem ao atendimento legal e seguro às vítimas de violência sexual, em harmonia com o Código Penal Brasileiro, em consonância com a Constituição Brasileira e em nome da Justiça para todas as mulheres reivindicamos que Vossa Excelência sancione o PLC 3/2013.”
É a nossa justa expectativa.
Mesmo sem qualquer esperança de uma posição do Vaticano simpática à nossa causa, é impossível ignorar o valor de muitos conceitos emitidos pelo papa em relação ao mundo em que vivemos. Merecem o apoio de todos os que aspiram uma sociedade com mais justiça e igualdade.
Ao denunciar a globalização da indiferença em que vigora o predomínio das leis de mercado, a valorização dos ganhos financeiros, em relação à descartabilidade das pessoas notadamente os jovens, os idosos e os miseráveis, o papa Francisco convocou os seguidores de todas as crenças à união contra a “idolatria do dinheiro”, em prol da solidariedade humana.
Adepto da simplicidade e defensor da ética, Francisco partiu  deixando uma mensagem de confiança à juventude para que não se conforme com a corrupção e persevere na sua aspiração, mesmo utópica, de mudar o mundo.
* Socióloga

Artigo| Resultado duvidoso

31 de julho de 2013 1

Temos que criar já
a carreira federal,
a exemplo do
que fazem os
países com boa
saúde pública

OSMAR TERRA*

A crise da saúde pública vem se agravando. E ela é, hoje, uma crise de recursos financeiros e humanos. A população está desamparada, com enorme dificuldade para um simples atendimento básico. A dificuldade aumenta quando necessita de procedimentos especializados.
Nas manifestações de rua e nas pesquisas, a saúde pública lidera as queixas da população. E a solução não é construir um grande número de novos postos, UPAs etc. É, antes, fazer funcionar, e bem, o que já existe. Para isso urge uma proposta estruturante, que atraia os profissionais do setor com rapidez e em grande escala.
E ela é uma carreira nacional para todos profissionais do SUS, garantida pelo governo federal, com estabilidade e aposentadoria integral, que permita serem  cedidos aos municípios e se dedicarem, exclusivamente, ao serviço público, fazendo dele uma opção de vida e não um “bico”! Com 15% dos médicos brasileiros, trabalhando com dedicação exclusiva, resolveríamos as necessidades médicas da atenção básica no país. E 80% dos problemas de saúde se resolvem na atenção básica!
As dificuldades para que isso aconteça provêm da redução gradual dos recursos do Ministério no SUS. Em 10 anos a participação federal no conjunto do financiamento público da saúde caiu 30%. A dos municípios cresceu 60%. Com isso eles ficaram estrangulados! É mais grave porque o governo federal fica com mais de 60% do bolo tributário, e os municípios menos de 15%.
Pressionado pela redução de recursos e fuga de profissionais, o Ministério autorizou, há dois anos, a redução do horário de trabalho dos médicos nas equipes de saúde da família! Criou assim uma lógica perde-perde. Em vez de ajudar a melhorar o salário e ampliar o volume de consultas, compensou a baixa remuneração com a diminuição do tempo de atendimento, piorando a oferta de consultas!
A contratação de profissionais é, hoje, municipal. Os concursos  são díspares e pouco atraentes. Mesmo quando se remunera bem, são contratações  precárias, e a estabilidade da equipe de  depende do humor do gestor ou do resultado da  próxima eleição. A aposentadoria integral é ignorada nos discursos oficiais.  Como é possível dedicar sua vida ao setor público, abrindo mão de ganhos bem maiores na iniciativa privada, sem uma garantia mínima como a da aposentadoria integral?
O governo federal, agora sob pressão das ruas, propõe soluções espetaculares, sem aumentar os recursos para o setor: importar médicos, aumentar a duração do curso de medicina para atendimento etc. Propostas que passam a ideia  distorcida de que o problema é a má vontade dos médicos brasileiros! Nada mais errado e  inócuo.
Para resolver, de verdade, essa questão temos que criar já a carreira federal, a exemplo do que fazem os países com boa saúde pública, como o Canadá e a Grã-Bretanha. Lá os alunos saem da faculdade com emprego garantido, e com salário inicial que é três vezes maior que o da média brasileira.
A hora para essa mudança estrutural é essa. Vamos parar de buscar saídas temporárias e de resultado duvidoso, e organizar definitivamente nosso SUS. Vamos garantir assim a curto, médio e longo prazo um atendimento digno a toda população brasileira!
* Deputado federal (PMDB-RS)

Artigo| A reforma política e as promessas

31 de julho de 2013 0

Que fique
expresso que
aqueles que não
cumprirem com
suas promessas de
campanha percam
seus mandatos

NEIDA OLIVEIRA*

As manifestações que tomaram conta do Brasil em junho e que até agora não cessaram, evidenciam, além de toda a demanda em relação aos serviços públicos, a total falta de credibilidade dos tradicionais partidos e dos políticos. Os trabalhadores não acreditam mais naqueles que se dizem seus “representantes”.
Como forma de desviar a atenção do povo, governo e mídia passaram a tratar o tema da Reforma Política como a saída para os problemas brasileiros. Quem sabe com o voto facultativo, ou com o voto distrital, ou em lista aberta ou fechada, não vai mais faltar vagas nos hospitais, a educação finalmente será de qualidade e os trabalhadores receberão melhores salários, inclusive os aposentados!
Parece desespero! Além da política do espetáculo _ Copa, Olimpíada, visita do Papa  _,  o governo coloca uma verdadeira “tropa de choque” para defender a necessidade desta tão desnecessária reforma. Quem sabe ela poderá elevar os índices de popularidade de Dilma, Tarso, Cabral, Haddad, Alckmin e tantos outros?
O governador do RS, Tarso Genro, apresentou seus argumentos. Na mesma entrevista em que tentou explicar o aumento do número de CCs no seu mandato e o reajuste de 120% que concedeu a estes, disse que é inaceitável a prática de doação para campanhas eleitorais pelas empresas. Mas ele e seu partido não são financiados por bancos, empreiteiras, laboratórios etc.? Como assim, então, inaceitável?
Mas vamos lá! Vamos topar este desafio. Mas com uma condição: que o governador também aceite a cláusula da revogabilidade dos mandatos. Que fique expresso na lei que aqueles que não cumprirem com suas promessas de campanha percam seus mandatos. Por exemplo: se um candidato a governador afirmar, publica e peremptoriamente, que vai pagar o piso para os professores e também criar uma lei estadual para os funcionários de escola receberem este mesmo piso salarial e não cumprir o que afirmou, ele deve deixar o cargo. Imediatamente!

* Vice-presidente do CPERS Sindicato

Editorial: O Gre-Nal e o poder público

30 de julho de 2013 101

Com todo o respeito que a Brigada Militar merece, é inaceitável a decisão de veto à presença de torcedores visitantes no Gre-Nal do próximo domingo, o primeiro a ser realizado na Arena do Grêmio. Sob o pretexto de que não tem condições de dar segurança aos torcedores do Internacional, especialmente no deslocamento para o novo estádio, o comando da BM pediu ao Ministério Público para chancelar a ideia de torcida única no clássico. E lembrou, na sua argumentação, que a corporação retira um contingente de cerca de 700 homens do policiamento regular nas ruas para dar segurança a um evento esportivo privado.
Há, aí, duas questões distintas. A destinação de PMs para espetáculos artísticos e eventos esportivos é uma decisão do governo do Estado, que precisa ser resolvida no âmbito administrativo. Porém, quando a BM recebe ordem superior para atuar, descumpri-la significa insurreição. Além disso, o poder público existe para servir à sociedade. Não pode renunciar a essa missão. Se a Brigada não tem condições de dar segurança aos torcedores, que sejam criadas estas condições. Os órgãos de segurança não têm o direito de se omitir. Em meio ao debate sobre o Gre-Nal, surgiu inclusive a informação de que os policiais não pretendem interferir caso irrompa algum conflito no setor denominado Geral, onde rotineiramente ocorrem brigas entre torcedores. Era só o que faltava. Onde houver conflito, a Brigada tem que interferir, como é de sua atribuição constitucional e de sua tradição.
Embora o debate contenha forte componente de passionalismo, como ocorre em qualquer discussão envolvendo a rivalidade esportiva do Estado, ainda há tempo para um diálogo sensato, que garanta não apenas a presença pacífica das duas torcidas no Gre-Nal como também a segurança de todas as pessoas que se deslocarem para o estádio no próximo domingo. O Rio Grande não pode se render ao vandalismo _ e conta com a valorosa Brigada Militar para garantir a vitória da civilidade.

Editorial| A política sob avaliação

30 de julho de 2013 0


Em seu pronunciamento de sábado no Teatro Municipal, no Rio, o papa Francisco lançou um desafio direto aos governantes e políticos brasileiros que vêm sendo questionados nas manifestações de rua: reabilitar a política. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, reabilitar é, entre outras definições, “restituir os direitos, a capacidade e a situação perdidos”, “fazer recobrar ou recobrar a estima, a consideração pública ou particular”, “fazer voltar ou voltar ao convívio social, às atividades normais”.
Não resta dúvida de que a atividade política está cercada de pouca estima e consideração, perdeu capacidades e status e é malvista na sociedade. Tampouco essa é uma opinião inovadora. Há séculos, os políticos são vistos por uma parcela mais emocional de cidadãos como parasitas, mentirosos, arrogantes, mesquinhos e egoístas. Em As Viagens de Gulliver (1726), o irlandês Jonathan Swift já escrevia: “Ele tinha a opinião de que qualquer um que pudesse plantar duas sementes de milho ou duas mudas de grama num solo onde apenas uma tivesse crescido antes serviria melhor à humanidade, e faria serviço mais essencial a seu país, do que toda a raça dos políticos reunida”. Mais de cem anos depois, o escocês Robert Louis Stevenson sustentava: “Política é talvez a única profissão para a qual nenhuma preparação é julgada necessária”.
O Papa sugeriu também a fórmula para que se reabilite a política: ética, diálogo e um Estado laico, livre da influência de religiões. É digno de nota que tenha sido o bispo de Roma, ocupante de posição que no passado foi a de maior poder no mundo civilizado, a fazer tal defesa da não interferência de pontos de vista e interesses confessionais nos assuntos políticos. A separação entre Igreja e Estado é uma das características distintivas da organização política moderna. O fato de o chefe do maior rebanho de fiéis do planeta ter reclamado para a religião um papel político de menor relevância, dando primazia à conduta ética e ao respeito à diversidade de opiniões, deve ser entendido como a mais eloquente defesa da reformulação da esfera pública.
Se considerarmos o jogo de poder e interesses que lançou a política brasileira ao descrédito, talvez seja preciso recomeçar do zero. Mas as instituições democráticas não podem ser confundidas com as pessoas que as deturpam. O Brasil tem eleições no próximo ano, e essa é a grande oportunidade para uma virada de jogo, incluindo o protagonismo dessa massa de jovens e de pessoas que saíram às ruas para protestar nas últimas semanas. O povo brasileiro precisa mostrar que tem maturidade para escolher livremente novos representantes e para avaliar com justiça os atuais ocupantes de cargos públicos. O papa Francisco mostra sintonia com as mentes de milhões de brasileiros, católicos ou não, ao pregar uma reabilitação da atividade pública.

Editorial| Atraso injustificável

30 de julho de 2013 0

A confirmação de que muitas obras em andamento na Capital relacionadas à Copa  não serão mais concluídas antes da realização dos jogos expõe mais uma vez a dificuldade do poder público de lidar com planejamento e de a burocracia estatal atender a um aumento da demanda. Quando nem mesmo uma oportunidade rara como a oferecida pelo Mundial consegue ser bem aproveitada para alavancar investimentos há muito tempo aguardados pelos contribuintes, é importante que a máquina administrativa reflita seriamente sobre onde estão os erros e o que pode ser feito para eliminá-los. E é preciso haver garantia de que o novo cronograma, com período de conclusão para depois de 2014, venha a ser efetivamente cumprido.
Entre as iniciativas que devem ficar para depois, estão duas na esfera federal: a ampliação do terminal de passageiros e da pista do Aeroporto Salgado Filho. No caso do município, preocupa o elevado número de obras deixadas para depois, com a decisão de concentrar o foco no entorno do Beira-Rio. E isso mesmo com a decisão da prefeitura de Porto Alegre de retirar obras da Matriz de Responsabilidade para a Copa, transferindo-as para o âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), evitando com isso perder recursos públicos. Entre os atrasos, um dos mais preocupantes é o do Sistema de Ônibus Rápidos (BRT), de interesse geral, e cujas obras constituem um suplício para quem trafega pela Capital.
Mais uma vez, a admissão de que será impossível cumprir o organograma, mesmo com a pressão imposta por um evento internacional, expõe a dificuldade da máquina pública de cumprir com suas finalidades básicas. Por isso, não basta a comunidade exigir o cumprimento dos prazos revistos. Precisa se dispor também a cobrar mais eficiência da burocracia daqui para a frente.

Artigo| Os protestos e as políticas públicas

30 de julho de 2013 1

Não seria a hora
do Estado brasileiro
mudar os seus rumos
e paradigmas de
desenvolvimento?

GABRIEL WEDY*

Nos últimos meses o povo brasileiro manifestou a sua indignação em protestos que tomaram conta de todo o país contra a política e os políticos. É visível a fadiga das representações sindicais, associativas e o enfraquecimento dos partidos. Neste cenário, a sociedade passou a protestar sem uma pauta definida de reivindicações. Este fato demonstra uma crise de representatividade e legitimidade. O cidadão deixou de sentir-se representado.
Não são poucas as zonas de desconforto que separam os brasileiros da atual configuração de nossa “democracia representativa”. Existe uma alta carga tributária e uma contraprestação estatal insuficiente. Os casos de corrupção, para completar, são divulgados todas as semanas pela imprensa.
O governo brasileiro utiliza-se do PIB isoladamente para nortear as políticas públicas, o que acaba sendo um grande equívoco. Isso porque o PIB é um índice de mensuração importante em relação ao desenvolvimento econômico, mas é cego para visualizar as necessidades que determinam o desenvolvimento humano. O PIB leva em consideração a produção nacional e a renda per capita, mas ignora fatores importantes como a qualidade da educação, saúde, distribuição de renda, segurança, transportes públicos, meio-ambiente equilibrado, previdência, acesso à justiça e cultura.  Quando a presidenta da República comemorou o aumento do PIB, no seu primeiro ano de mandato, o fez como se isto tivesse beneficiado a toda população brasileira. Não foi o que ocorreu. Boa parte dos motivos dos protestos, por outro lado, refletem-se bem no fato do Brasil ocupar a vexatória posição de 85ª nação no ranking mundial de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Por problemas como este, que impedem o bom direcionamento das políticas públicas, foi que o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, um “conservador”, nomeou, no ano de 2008,  dois Prêmios Nobel de Economia, Amartya Sen  e Joseph Stiglitz, além do honorável economista francês, Jean-Paul Fitoussi, para a montagem de uma Comissão (La Commission pour La Mesure des Performances Économiques et du Progrèss  Social). A Comissão propôs 12 recomendações, que vão além do PIB, no sentido de valorizar o desenvolvimento humano e a sustentabilidade.
Não seria a hora do Estado brasileiro mudar os seus rumos e paradigmas de desenvolvimento com a adoção de políticas públicas consistentes e não meramente assistencialistas?
* Juiz federal, ex-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e da Associação dos Juízes Federais do Rio Grande do Sul (Ajufergs)

Artigo| Vargas Llosa e o protesto dos médicos

30 de julho de 2013 6

Políticos não
são ingênuos,
escolheram
fazer demagogia
na saúde, pois
sabem que saúde
o povo valoriza

Gilberto Schwartsmann*

Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, em seu ensaio sobre a cultura de nosso tempo, retratado na obra La civilización del espectáculo (Ed. Alfaguara, Buenos Aires, 2013), descreve a opção das sociedades de hoje pelo inculto, superficial e efêmero, em detrimento da cultura mais lapidada, profunda e duradoura.
A cultura, que no passado serviu de inspiração e salvaguarda para nossa consciência, foi substituída pelo entretenimento, intelectualmente pobre, mas capaz de dar prazer, chocar ou surpreender. A experiência literária mais reflexiva perdeu espaço para as mensagens telegráficas, a autoajuda e os efeitos audiovisuais.
Se o desejo oculto deste novo mundo era acabar com as elites, para que houvesse uma “cultura para todos”, o remédio se tornou pior do que a doença. Horizontalizou-se tanto o saber, que se perdeu a hierarquia. E hoje não sabemos diferenciar com clareza o culto do inculto. Aceitamos como arte obras que nada nos dizem do ponto de vista estético ou afetivo. O conceito tornou-se tão elástico, que tudo é arte e nada é arte.
Na política, a opção pelo supérfluo se revela na pouca importância que damos à educação formal e valores morais daqueles que nos representam, legando à sociedade tribunos despreparados e empobrecidos culturalmente.
Na medicina, ainda que sejamos respeitados pela comunidade e até idolatrados por alguns, somos também vítimas do desprezo pela erudição. Confundidos pela falácia de que somos todos iguais, o que definitivamente não somos, acabamos dominados pelos incultos, representados na saúde pública e na academia pela figura do gestor despreparado ou pelo político que assume cargo para o qual não tem competência.
Médicos renomados, que representaram o que tínhamos de melhor na saúde, como Adib Jatene ou o saudoso Carlos César de Albuquerque, acabaram traídos pela máquina do poder, que decide o que imagina ser bom para todos, sem perguntar para quem sabe.
Como é caro o preço da arrogância! Os jovens, que foram às ruas em protesto, assustaram tanto os políticos, que os fizeram disparar medidas estapafúrdias para todos os lados. E políticos não são ingênuos, escolheram fazer demagogia na saúde, pois sabem que saúde o povo valoriza. Mas fizeram como fazem sempre. Não perguntaram antes para quem sabe. Tivessem consultado os bons políticos, não errariam. Estes se cercam de gente que conhece saúde. Mas não foi o caso.
E o governo conseguiu o inimaginável: uniu toda a classe médica brasileira! Em mais de 30 anos de profissão, nunca havia visto tantos médicos participando em protestos de rua! Até os aposentados saíram em passeatas. Algo de bom tem de sair desta história!
Quem sabe, este movimento em defesa da saúde e do papel do médico na sociedade possa ter um sentido mais amplo. Faça soprar uma brisa nova na direção de uma cultura mais elevada, como reclama Vargas Llosa. Na qual, cultivemos o respeito ao ser humano e o direito do cidadão de ser cuidado e educado, simplesmente por ter nascido. O enfrentamento civilizado dos médicos, em oposição às recentes ações equivocadas do governo, é uma oportunidade de se fazer justiça.
* Médico e professor

Artigo| Um pouco mais para todos

30 de julho de 2013 0

O programa
Mais Médicos
deveria se chamar
Um Pouco Mais
Para Todos e
ser ampliado para
outras categorias

MENDES RIBEIRO FILHO*

Este é um tema recorrente e que volta a trazer polêmica com a criação do Programa Mais Médicos, pelo governo federal.
Se temos uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo, por que não restituir os contribuintes oferecendo à população mais carente o acesso amplo a serviços de qualidade?
Para demonstrar que este tema não é novo, em 1999, apresentei na Câmara Federal o Projeto de Lei nº 987 que criava o Programa de Prestação de Serviço Civil. O objetivo era que os estudantes de nível superior, graduados em universidades públicas, prestassem um ano de trabalho remunerado junto aos serviços públicos, nas esferas municipal, estadual ou federal.
A intenção era oportunizar aos jovens graduados o seu aprimoramento profissional por meio do primeiro emprego e ainda oferecer aos estados e municípios mão-de-obra qualificada.
A população invadiu as ruas clamando por melhores serviços públicos. Logo, é legítimo que os impostos pagos pelos contribuintes retornem de forma mais ampla e efetiva. O cidadão que for contra isso que jogue a primeira pedra.
O programa Mais Médicos deveria se chamar Um Pouco Mais  Para Todos e ser ampliado para outras categorias. Os interesses corporativos não podem se sobrepor às necessidades dos mais de 194 milhões de brasileiros.
No país inteiro, mais de 4 mil municípios já se inscreveram no Programa. No Rio Grande do Sul, até o momento, quase 300 cidades. Essa imensa procura demonstra a realidade de absoluta carência de profissionais que faz parte do triste cotidiano dos usuários do SUS.
Fala-se muito na falta de condições de trabalho como razão para o desinteresse desses médicos. Essa exigência é totalmente procedente. Mas, ora, faz-se necessário começar a resolver essa carência de alguma forma. Ao priorizar tudo, não se resolve nada.
Passados quase 10 anos, o PL nº 987 foi lamentavelmente arquivado. Transcorridos quase 15 anos da proposta, o povo brasileiro continua clamando por melhores condições de vida. Está na hora de debatermos esse assunto com mais desprendimento e seriedade.
* Deputado federal (PMDB/RS)