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Posts de agosto 2013

Editorial| Pelo voto às claras

31 de agosto de 2013 0

 

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Confrontado com o repúdio generalizado à manutenção pela Câmara do mandato do deputado Natan Donadon (sem partido-RO), o Congresso volta a prometer a extinção do voto secreto, prevista para as próximas duas semanas. É mais um dos muitos compromissos assumidos pelos parlamentares nos últimos anos de acabar com essa excrescência, que só tem sentido em situações muito específicas. Já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e aguarda exame em plenário a proposta do senador Paulo Paim (PT) que reduz a possibilidade de parlamentares tomarem decisões em votações secretas no Congresso. A proposição do parlamentar extingue o escrutínio secreto para indicações de autoridades e chefes de missões diplomáticas, exoneração do procurador-geral da República antes do término do mandato, cassação de mandato parlamentar e apreciação de vetos presidenciais. O texto deixa de fora apenas o voto secreto para eleições de integrantes das Mesas do Senado e da Câmara, cuja extinção é objeto de outro projeto.
Voto secreto, nos moldes do que existe hoje no parlamento brasileiro, só serve para acobertar quem não tem coragem de assumir perante os eleitores as consequências de atos como a preservação do mandato do deputado “reeducando” (na expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello). O voto secreto tinha por objetivo preservar a liberdade de consciência dos parlamentares em decisões nas quais uma tomada de posição pública poderia acarretar pressões de um ou outro tipo. Na prática, porém, as votações protegidas por sigilo são as que envolvem interesses corporativos. O sistema político brasileiro é particularmente eficaz quando se trata de distorcer a finalidade de um instrumento democrático para torná-lo ferramenta do avesso da democracia. Tome-se, por exemplo, o caso das medidas provisórias, inspiradas no Direito italiano, onde servem expressamente para dar ao presidente o poder de legislar de forma emergencial, atendidos os pressupostos de relevância e urgência. No Brasil, a medida provisória converteu-se em verdadeira mania presidencial, servindo até mesmo para criação e majoração de tributos.
O país aguarda para breve o fim do julgamento dos réus do mensalão. É óbvio que, nessas circunstâncias, a decisão de acabar com o voto secreto no Congresso só ocorrerá se a sociedade pressionar nesse sentido. Não cabe dúvida de que os cidadãos comuns são os principais interessados em jogar luz sobre esses e outros processos legislativos. Trata-se, em primeiro lugar, de uma questão de transparência no exercício da atividade legislativa, e, em segundo, de matéria concernente ao que os americanos chamam de accountability, termo que equivale à faculdade ou efeito de prestar contas a órgãos controladores, aos representados ou à própria opinião pública.

Editorial| A paralisação dos serviços

31 de agosto de 2013 0

As reivindicações de líderes sindicais que promoveram ontem o chamado Dia Nacional de Mobilização em todo o país são legítimas e merecem respeito de toda a sociedade. Durante as Jornadas de Junho, fomos confrontados com um conjunto de demandas originadas de vários segmentos sociais por mais transparência, justiça e probidade, que serviram para mostrar a que ponto as autoridades constituídas, as organizações políticas e os próprios meios de comunicação distanciam-se, por vezes, das reais aspirações da população. A livre expressão do pensamento e o direito de manifestação, que só podem ser entendidos como tais se ocorrerem na esfera pública, são eventos naturais em qualquer democracia digna desse nome. Assim, o pressuposto fundamental de qualquer avaliação sobre o protesto nacional de ontem, amparado em convocações de centrais sindicais, sindicatos e associações, é o de que não representam, em seu conjunto, nada que possa ser considerado estranho à ordem vigente. A liberdade é, essencialmente, a liberdade dos que pensam de forma diferente, e, nesse sentido, seu único limite é o fornecido pelo direito do próximo de também ser livre.
É justamente a partir desse enfoque que o ato de interromper vias públicas e suspender o funcionamento de serviços públicos como o transporte coletivo tem de ser definido como o que é de fato: um abuso da liberdade de alguns em detrimento do direito de todos. Foi o que ocorreu ontem em Porto Alegre e em municípios da Região Metropolitana, por obra de pessoas identificadas com a organização nacional do movimento paredista. É inaceitável que, sem a adoção de medidas previstas em lei para essas situações, manifestantes invadam estações de trem e de ônibus, impedindo sua circulação. Tampouco é justo que ativistas cerquem garagens de empresas de transporte e ameacem depredar veículos e ferir profissionais que se mostram dispostos a cumprir suas obrigações.

Artigo| Termômetro do setor

31 de agosto de 2013 0

O carvão mineral
representa
a segurança
energética no
presente e uma
solução ao futuro

ELIFAS SIMAS*

Nenhum empreendimento térmico gaúcho a carvão foi comercializado no leilão de energia A-5, do governo federal. Apesar de habilitado, após cinco anos de impedimento, houve dúvidas quanto à possibilidade de vender a energia diante do preço máximo estabelecido, considerado baixo pelos empreendedores. As expectativas do Rio Grande do Sul nos leilões energéticos se iniciaram com cinco projetos termelétricos maturados visando à inclusão nos certames. Desses, dois estavam aptos a participar.
Embora pareça frustrante num primeiro momento, esse primeiro leilão A-5 funcionou como termômetro do setor e oportunizou uma melhor avaliação do mercado sobre a geração a carvão. Trouxe à tona a discussão sobre as reais necessidades do país em alavancar as potencialidades do mineral como fonte energética e os cuidados existentes com o ambiente.
É fundamental ao Brasil esse repensar da matriz energética incluindo o carvão mineral como fonte alternativa e confiável na geração de energia firme em relação ao aumento de demanda. Um dos principais méritos do leilão foi contrapor ideias ultrapassadas e possibilitar uma análise aprofundada das barreiras que finalmente vêm sendo derrubadas. À medida que os estigmas são revistos e contrapostos em relação a novas tecnologias de queima e de sustentabilidade ambiental, o Estado amadurece a ideia de que não pode abrir mão dessa energia que está aos seus pés.
Longe de ser o monstro energético pintado por ambientalistas que têm por base uma época em que sequer existiam cuidados ambientais, o carvão mineral gaúcho provém de um complexo sistema de equilíbrio e aprimoramento tecnológico para redução no impacto da extração e queima.
É essencial a participação de empreendimentos termelétricos na próxima disputa a ser realizada em dezembro. O enorme potencial gaúcho já contabiliza os ganhos com a possibilidade aberta nos leilões A-5, atraindo investimentos capazes de alavancar a economia, gerando emprego, renda e uma produção constante.
O momento é de engajamento de toda a sociedade gaúcha. O Estado, com os projetos térmicos e eólicos existentes, pode passar de importador de energia para exportador, não só para o Brasil mas também ao Mercosul. O carvão mineral representa a segurança energética no presente e uma solução ao futuro do país.

*Presidente da Companhia Riograndense de Mineração

Artigo| Sobre a criminalidade

31 de agosto de 2013 0

É preciso que
a criminalidade
seja tratada com
mais seriedade

GASPAR MARQUES BATISTA*

À beira da estrada, uma mulher idosa vendia pinhão. Parei o carro e comprei. Os pinhões vieram acondicionados num jornal velho do primeiro semestre deste ano. Li a notícia alvissareira, que dizia terem se reduzido em 3,5% os homicídios dolosos no Rio Grande do Sul. No primeiro trimestre de 2013, foram apenas 490. Um pouco menos do que o número de homicídios ocorridos no Japão em todo o ano de 2012, isto é, 506.
Cada ano que passa, as autoridades de segurança se esmeram em tentar reduzir a criminalidade, que cresce cada vez mais. Não lembram de tornar a lei penal mais severa, mais intimidativa aos criminosos, mais segura para a esmagadora maioria da sociedade, que quer trabalhar, quer viver momentos de lazer com sua família.
O Brasil é um campeão de criminalidade, com mais de 20 homicídios dolosos por 100 mil habitantes. Eu sei que há outros paraísos para os criminosos, até com maior grau de violência, como Porto Rico, Venezuela, África do Sul, além de outros muito pouco visitados. Torna-se importante lembrarmos, no entanto, que há exemplos que deveríamos seguir. É o caso da Argentina, que na última contagem apresentou uma estatística de pouco mais de 1,3 mil homicídios dolosos, contrastando com os mais de 40 mil anuais ostentados pelo Brasil. É claro que é um sonho distante chegar a números semelhantes à Noruega, 0,6 homicídio por 100 mil habitantes. Mas pelo menos poderíamos reduzir a intensa criminalidade brasileira. Daqui a quatro ou cinco anos, pode ser tarde demais e as pessoas de bem sairão às ruas exigindo o direito à segurança, obrigando os governantes a buscar medidas extremas, como pena de morte para traficantes de drogas e responsabilidade objetiva em matéria de homicídio.
Um político ilustre, que anos antes fora juiz, disse certa vez que, se fosse fechada a Justiça Criminal no Rio Grande do Sul, pouca diferença faria. Estima-se que hoje um pequeníssimo percentual dos crimes seja punido. Muitas pessoas nem dão queixa à polícia, descrentes da punição. Inúmeros fatos os promotores não conseguem denunciar, pela insegurança das provas colhidas. Dos que são denunciados, a maioria resulta em absolvição, quase sempre por falta de provas, já que a prova produzida anos depois é falha. As testemunhas tendem a arrepender-se de ter dito a verdade perante a polícia, não raro oferecendo outra versão em juízo, uma vez que o criminoso, no Brasil, tem mais poder de coação do que o Estado. Só a significativa redução da criminalidade dará à polícia condições de dedicar tempo suficiente à elucidação de um fato criminoso. Um policial brasileiro tem cinco vezes mais fatos para resolver do que um policial argentino. Pela mesma circunstância, julga-se melhor na Argentina do que no Brasil. Só a punição severa reduzirá a criminalidade. Aqui no Brasil, os condenados são logo postos em liberdade, ganhando sensação de impunidade e estímulo à prática de novos crimes, beneficiados pelo ledo engano da fácil recuperação.
É preciso que a criminalidade seja tratada com mais seriedade, sem que os agentes políticos que tratam do assunto estejam preocupados com o brilho dos holofotes, e passem a pensar na possibilidade de tentar a via dolorosa do rigorismo penal, já que outras medidas não vêm dando certo há 50 anos.

*Desembargador

Artigo| Ação pela cidadania

31 de agosto de 2013 0

O programa tem
o objetivo de
garantir inserção
profissional a
carroceiros
e carrinheiros

JOSÉ FORTUNATI*

Neste domingo, dia 1º de setembro, terá início em Porto Alegre uma ação de vários significados. Tal iniciativa resultará em maior dignidade e justiça social para trabalhadores e seus familiares, em benefício para animais, para o meio ambiente e para o trânsito e ainda atende à exigência de legislação. Com participação de governo e comunidade, a multiplicidade também está expressa nos atores envolvidos. Trata-se da retirada gradativa de circulação de veículos de tração animal e de tração humana _ mais conhecidos como carroças e carrinhos _ das ruas da Capital gaúcha. A partir de agora, em sete das 17 regiões administrativas da cidade _ Centro-Sul, Cristal, Cruzeiro, Glória, Lomba do Pinheiro, Partenon e Sul _ a circulação desses veículos será proibida. Até junho de 2015, a medida será implantada em praticamente toda a cidade _ na Extremo Sul, a restrição não será aplicada.
Na leitura mais imediata, a retirada de carroças e carrinhos significa cumprimento à Lei nº 3.581/08, do então vereador e hoje vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. Mas vai bem mais adiante. Como poderíamos impedir a circulação desses veículos sem garantir a continuidade e a melhoria da atividade profissional da qual dependem, estima-se, 1,8 mil famílias? Carroças e carrinhos são utilizados principalmente para coleta de resíduos sólidos, dentro da cadeia produtiva da reciclagem. Para responder a esse desafio, a prefeitura optou por estabelecer parcerias com a comunidade, a iniciativa privada e com outras instâncias de governo, que resultaram no Todos Somos Porto Alegre _ Programa de Inclusão Produtiva na Reciclagem.
Com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Braskem e, claro, da própria prefeitura, o programa tem o objetivo de garantir inserção profissional a carroceiros e carrinheiros, pretendam eles prosseguir em atividade relacionada à reciclagem ou migrar para outra área. O programa também contempla o bem-estar de cavalos, recolhidos juntamente com carroças, que serão encaminhados para doação e para condições de existência livre de maus-tratos e menos estafantes. A iniciativa dedica-se ainda a qualificar a atuação de centros de triagem, contribuindo para uma cidade mais limpa e sustentável.
Há pouco mais de dois anos, Porto Alegre construiu excelência com o reassentamento da comunidade da Vila Chocolatão, um triste cenário de miséria, insalubridade, dor e perigo então encravado no centro da cidade. A solução adotada foi muito além de deslocar as pessoas para outra região. Construímos, sim, uma nova perspectiva de existência para aquelas 700 famílias. E o caminho foi o mesmo que agora aplicamos à questão das carroças e carrinhos: a decisão coletiva, a ação conjunta de governo e sociedade, a democracia participativa que tão cara é à nossa Porto Alegre.

Editorial| O salto do agronegócio

30 de agosto de 2013 0

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A inauguração oficial da Expointer 2013 coincide com um momento de expectativa sobre o futuro imediato do agronegócio que vai além dos resultados imediatos dos remates de animais e das vendas de máquinas agrícolas. Em meio ao desfile dos destaques da pecuária e à diversidade exposta nos estandes, a edição deste ano se constitui numa síntese de avanços tecnológicos com potencial para elevar a atividade rural a um novo patamar, contribuindo especialmente para dissipar os temores em relação à escassez de mão de obra qualificada. Diante dessas inovações, o Parque de Exposições Assis Brasil promete dar uma resposta que vai muito além de alternativas para evitar problemas com alagamentos como os registrados neste ano. Se o projeto de remodelação da área andar rápido, o local se tornará apto a receber investimentos de até R$ 280 milhões.
As justificativas mais convincentes para a necessidade de o Estado criar as condições para a readequação do parque estão nos próprios avanços exibidos pelo  agronegócio nesta edição, no âmbito tanto da pecuária quanto da agricultura. Os visitantes podem conferir na mostra, por exemplo, desde um alimentador automático de terneiras até um sistema de monitoramento do comportamento do gado de leite _ tudo destinado a assegurar maior produtividade e mais qualidade. Há ainda à disposição colheitadeiras para parreiras, injetores de biofertilizantes e um sistema de gotejamento subterrâneo, além de aplicativos para tablets e smartphones que permitem uma série de comodidades para o homem do campo e contribuem para melhorar os resultados.
Os gaúchos precisam se mobilizar para garantir que o parque Assis Brasil possa colocar logo em prática o projeto de readequação aos avanços do setor primário. Entre as inovações previstas no projeto concluído agora, estão um agroshopping com área bruta locável de 6 mil metros quadrados e um hotel com 125 apartamentos. É o mínimo que pode ser definido como contrapartida ao esforço de uma atividade vital para a economia gaúcha, da qual dependem em grande parte setores essenciais como o de alimentos e o metalmecânico, além do exportador.
O projeto já concluído tem a vantagem de facilitar o encaminhamento de questões como as de ordem jurídica e arquitetônica, além do próprio modelo de exploração do empreendimento, que é baseado no das concessões de aeroportos brasileiros. A decisão está com a Assembleia Legislativa, mas esse é um debate que, por sua importância para o Estado e para o agronegócio brasileiro de maneira geral, precisa envolver todos os gaúchos.

Editorial| Aval à corrupção

30 de agosto de 2013 0

A Câmara dos Deputados tomou a deplorável decisão de se negar a cassar o deputado federal Natan Donadon (ex-PMDB-RO), preso há dois meses por corrupção. Numa votação em que chamou atenção a significativa ausência de parlamentares de todos os Estados e partidos, incluindo quase metade da bancada do Rio Grande do Sul, a proposta de perda de mandato obteve apenas 233 votos dos 257 necessários para sua aprovação. O parlamentar está preso há dois meses na Penitenciária da Papuda, em Brasília, e teve a desfaçatez de qualificar a vida na cadeia de “desumana” _ adjetivo provavelmente adequado, mas que não há registro de ter sido utilizado por ele antes de ser condenado a pagar por seu crime _ e de se queixar de ter sido conduzido ao xadrez num camburão.
Cabe ressaltar que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) havia condenado e determinado à Polícia Federal que prendesse imediatamente Donadon. Cumpriu, assim, a mais alta Corte do país com seu dever de administrar justiça, em contraste com a atitude inominável da Casa Legislativa à qual cumpria privá-lo de suas funções. Cria-se, assim, o bizarro cenário em que um parlamentar condenado no transcurso do mandato por peculato e formação de quadrilha cumpre pena privativa de liberdade ao mesmo tempo em que conserva o pleno exercício das prerrogativas parlamentares.
O resultado da votação favorável a Donadon mostrou-se possível, mais uma vez, pela deformação do voto secreto. Esse instrumento permite o anonimato aos representantes eleitos pelo voto que acobertam a corrupção e outros malfeitos. Enquanto a cortina do voto secreto não for removida, é improvável que o parlamento se disponha a colocar a ética acima do corporativismo. Deputados são invioláveis por suas opiniões e suas atitudes no exercício do mandato. O segredo do voto parlamentar é uma excrescência que tem, nos tempos atuais, uma única serventia: a de acobertar os maus políticos. Podem e devem os congressistas eliminar, nas duas Casas do parlamento, esse instrumento perverso que mina os alicerces da democracia brasileira.

Artigo| Voto secreto, indiferença explícita

30 de agosto de 2013 0

É condição de
quem elege
saber  como
vota o eleito

CLEI MORAES*

“Estou me lixando para a opinião pública.” Não por acaso o parlamentar gaúcho que talhou essa máxima nos anais da Câmara dos Deputados foi o mesmo a articular em plenário a manutenção do mandato do deputado presidiário.
Na última quarta, em uma decisão contrária à expectativa dessa mesma opinião pública, com votação secreta, frise-se, os deputados mantiveram as prerrogativas de mandato de um de seus pares, Natan Donadon, condenado em última instância pelo Supremo Tribunal Federal e preso no complexo da Papuda, no Distrito Federal.
A “absolvição”, independente de ausências, abstenções e representações oficiais da Casa, abre precedente para que os já condenados mensaleiros tenham mantidos seus mandatos se a decisão, mais uma vez, couber ao plenário.
Nesse tipo de situação, o grande vilão é o voto secreto, defendido por alguns com o argumento de não serem influenciados em seus posicionamentos ou para que não haja retaliações e influências externas à integridade de sua representatividade.
A pergunta que fica é: como votou o parlamentar que eu elegi? Não se sabe, a votação é feita com base em uma regra constitucional que determina que esse voto seja feito de maneira secreta.
No Brasil, o voto secreto surgiu para coibir a compra de votos dos eleitores, também para impedir o “voto a cabresto” e os currais eleitorais dos chamados coronéis, que obrigavam eleitores a votar em candidatos de sua preferência política, pois estes detinham, além do poder opressor de variada espécie, também o poder econômico.
Dadas as devidas origens dos fatos, surge outro questionamento: quem são os coronéis de hoje em dia? Também não se sabe. Por mais diversos interesses, há algumas curiosidades renitentes quando as votações passam de nominais a secretas.
A mais explícita é: quem votou em defesa do condenado? E mais: onde estavam e o que faziam os parlamentares que se abstiveram ou se ausentaram, já que deveriam estar votando? Nesse caso, havia algo mais importante em andamento que a cassação de um colega?
Não só nos gastos e salários deve haver transparência, se faz necessária também no “fio de bigode” e nas relações políticas entre poderes e sociedade. É condição de quem elege saber como vota o eleito para que sua representatividade seja autêntica.
Do contrário, antes que se volte às ruas, a democracia direta terá que fazer parte de nosso cotidiano. A Câmara dos Deputados deve cumprir seu papel e aprovar uma das propostas pelo fim do voto secreto que já tramitam na Casa.

Artigo| Ecossistemas de inovação e futuro

30 de agosto de 2013 0

Este é o grande
desafio: atender
às novas
demandas de
uma sociedade
em transformação

JORGE LUÍS NICOLAS AUDY*

Nesta semana, o Parque Científico e Tecnológico da PUCRS (Tecnopuc) completa 10 anos de existência. No final do século passado e nos primeiros anos do atual, no contexto do projeto Porto Alegre Tecnópole, um grupo de pesquisadores e gestores da universidade desenvolveu uma visão que mudou a percepção da sociedade gaúcha e brasileira com relação ao papel das instituições de Ensino Superior no desenvolvimento regional.
Hoje, 10 anos depois, no contexto de novos projetos que envolvem líderes da sociedade (Projeto Cite), a prefeitura municipal (POA Start Up) e o governo estadual (Projeto RS Tecnópole), o Tecnopuc completa uma década de inovação. São cerca de 110 empresas instaladas, mais de 5,7 mil empregos diretos, contribuindo na identificação de Porto Alegre como um dos principais ecossistemas de inovação do país e da América Latina.
Os desafios para os próximos anos envolvem a consolidação da operação em Porto Alegre e a expansão das operações para Viamão, na área onde funcionava o Seminário Maior, com amplo espaço para crescer em lugar muito agradável em meio à natureza. Quando iniciamos a operação do Tecnopuc, o foco era na captação de bolsas e novas oportunidades para pesquisadores e alunos. Com o tempo, o parque transbordou essa visão inicial e se tornou um ecossistema de inovação de referência na América Latina, atraindo desde grandes empresas internacionais até organizações de pequeno e médio portes e startups.
Hoje, no mundo todo, como no projeto Horizontes 2020 da Comunidade Europeia, busca-se a construção de ecossistemas de inovação, que permitam que pessoas com talento, ideias e recursos possam transformar, por meio da inovação, a realidade que vivemos, gerando melhor qualidade de vida e sustentabilidade para a nossa sociedade.
No futuro, ambientes de inovação, como os parques científicos e tecnológicos, passam pelo protagonismo no processo de desenvolvimento das regiões que os abrigam. Cidades e Estados que criam condições para o florescimento desses ambientes estarão mais bem posicionados para enfrentar e vencer os desafios e aproveitar as oportunidades que o século 21 apresenta. Este é o grande desafio: atender às novas demandas de uma sociedade em transformação, como protagonistas de um novo e qualificado processo de desenvolvimento, atuando de forma articulada com os diversos níveis de governo, as empresas e as demais instituições de ensino e pesquisa da Capital e do Estado. Essa ação conjunta entre os diversos atores de nossa sociedade nos permite visualizar novos tempos e um futuro mais promissor para a nossa gente.

*Pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento da PUCRS, vice-presidente da Anprotec

Artigo| A falta de qualidade no Brasil

30 de agosto de 2013 0

Precisamos mais
do que nunca de
qualidade no Brasil.
Mais do que
imaginamos.
Pense nisso

EDUARDO V. C. GUARAGNA*

Muito se tem dito que a qualidade é algo do passado. Que foi o impulso do Japão após a II Grande Guerra, mas que agora é uma commodity, ou seja, não é diferencial no mundo de hoje que demanda por maior sofisticação para competir no mercado etc. Uma forma bem simples de mostrar esse engano está no fato de que todo dia percebemos uma série de problemas, absurdos, e não os enxergamos sob a ótica da qualidade. Vamos a alguns exemplos nossos, aqui da nossa terra: nesta época do ano a neblina impede a decolagem e a aterrissagem no aeroporto Salgado Filho, ou provoca atrasos com consequências em uma série de atividades e na própria economia. O que isso tem a ver com qualidade? Tudo.
Aqui, a primeira falha está na não prevenção do problema. Qualidade começa na prevenção. O que fazer para prevenir? Investir em tecnologias que permitem minimizar ou até mesmo solucionar de vez o problema da neblina e, é claro, treinar as pessoas para o melhor uso do sistema. Simples mas importante. Há algum tempo, tivemos o problema da adulteração do leite. Foi por falta de prevenção? Não necessariamente, pois há normas, padrões etc. que definem os parâmetros aceitáveis no leite. Com certeza, houve falha na avaliação, no controle sobre o produto, na rastreabilidade da cadeia do leite. Então, a avaliação ou inspeção também é parte da qualidade. Isso poderia ter prevenido a má intenção dos infratores. O pior é que sempre há desdobramentos posteriores, ou seja, a falta de prevenção e avaliação tende a se refletir em perdas reais que podem ser internas à organização ou a seus clientes, sociedade e outras partes envolvidas. Educação, tema complexo, mas fundamental. Quando uma escola ensina seus alunos é esperado que os mesmos demonstrem ter aprendido. Durante todo um ano, recursos humanos, materiais e financeiros são colocados a serviço deste objetivo. Mas o que acontece quando há evasão ou a não aprendizagem? Há perdas que se costuma dizer por falha interna, ou seja, algo no processo de aprendizagem (nesse caso) não funcionou de acordo. Mais uma vez os desdobramentos de uma falha interna podem se traduzir em perdas para a sociedade. É tão importante isso, que a Toyota há mais de 40 anos definiu que qualquer operador de fábrica possa parar a linha de produção caso observe a existência de uma falha no processo produtivo do automóvel, no momento de sua fabricação. Isso visa impedir a propagação da falha.
Por fim, temos situações em que a prevenção, a avaliação e a falha interna não foram percebidas e o problema se manifesta diretamente na sociedade, no cliente, na comunidade. É a chamada falha externa. Exemplo típico são os recalls de automóveis. Imaginem o que custa um recall. Muitas vezes mais do que qualquer investimento na melhoria da prevenção. É a falta de qualidade por excelência. Bem, então, o que podemos fazer? Fala-se tanto no padrão Fifa, não é? Padrão, esta é a palavra-chave. Muitas vezes vista como uma forma de engessamento ou de burocracia. Não, padrões inteligentes possibilitam fazer mais com menos, repetir o bom desempenho, melhorar o desempenho para níveis superiores e, no nível de maior maturidade, alavancar a inovação pelo domínio do conhecimento adquirido com sua prática, criando outro padrão, se for o caso. Um bom padrão se preocupa com prevenção e avaliação nos pontos críticos de forma a minimizar as falhas, além de orientar a correta execução do que precisa ser feito. A qualidade está em tudo. Infelizmente a temos percebido quando da sua falta. Precisamos mais do que nunca de qualidade no Brasil. Mais do que imaginamos. Pense nisso.

*Engenheiro, mestre em Administração, diretor do PGQP, membro da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ)