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Artigo| Inimigos médicos

08 de setembro de 2013 5

Dilma e os seus
gostariam de
dispor dos
brasileiros como
coisas suas, assim
como os Castro
dispõem dos cubanos

 

PugginaPERCIVAL PUGGINA*
puggina@puggina.org

Quando viu o povo na rua, cobrando atenção à Saúde Pública, Dilma adotou prática tão antiga quanto namorar no portão. Escolheu um inimigo e o apontou à sociedade: os médicos brasileiros. A partir daí, jogou contra eles os raios e trovões que conseguiu recolher em seu repertório.
A saúde pública tem problemas. Falta atendimento, dinheiro, leitos. São longas as filas. Espera-se meses por um exame e anos por uma cirurgia. De quem é a culpa? Segundo a presidente, a culpa é dos médicos. Sua Excelência cuidou de passar à sociedade a impressão de que eles preferem viver nos grandes centros não porque ali estejam os melhores hospitais, laboratórios e equipamentos, mas porque ali estão os melhores restaurantes, clubes e cinemas. Foi para a tevê tecer ironias com o fato de que os primeiros a fazerem opções no “Programa Mais Médicos” preferiram localidades litorâneas. A compreensão dessa mensagem pelos sem discernimento (estamos falando de dezenas de milhões) fica assim: os doutores gostam, mesmo, é de praia.
Através dessas paquidérmicas sutilezas, o governo tenta convencer a sociedade de que os médicos não vão para as pequenas comunidades porque se lixam para as carências com que ele, governo, se preocupa. Opa! Preocupa-se agora, preocupa-se depois das vaias, preocupa-se depois das passeatas. E esquece que, pelos mesmos motivos, milhões de outros profissionais também preferem trabalhar em centros urbanos mais dinâmicos. Identificado o inimigo, a presidente partiu para o ataque. Criou um 2º ciclo de formação médica, obrigatório, a serviço do SUS, com duração de dois anos, a ser prestado onde houver necessidade. Fez com que os médicos perdessem a exclusividade de diversas atribuições relativas a diagnósticos e prescrição de tratamentos. Jogou na lixeira a insistente e lúcida recomendação no sentido de que seja criada na área médica uma carreira de Estado, semelhante à que existe para as carreiras jurídicas. Explico isso melhor: espontaneamente, nenhum juiz ou promotor vai solicitar lotação em Paranguatiba do Morro Alto. No entanto, como etapa de uma carreira atraente e segundo regras bem definidas, sim. É desse modo que se resolvem as coisas numa sociedade de homens livres.
Nada revela melhor a vocação totalitária do partido que nos governa do que este episódio. É uma vocação que dispensa palavras, que atropela leis e se expressa nas grandes afeições. Cubanas, por exemplo. A vinda dos médicos arrematados em Castro & Castro Cia. Ltda. permite compor um catálogo de transgressões aos princípios da liberdade individual, da dignidade da pessoa humana, da justiça, da equidade, da proporcionalidade, do valor do trabalho. Repugna toda consciência bem formada a ideia de que um país possa alugar seus cidadãos a outro, enviá-los aos magotes como cachos de banana, beneficiar-se financeiramente dessa operação em proporções escandalosas e ainda fazer reféns as respectivas famílias por garantia da plena execução do mandado. E há quem afirme que toda oposição a uma monstruosidade dessas é “preconceito ideológico”! Pois eu digo diferente: acolher como louvável semelhante anomalia política é coisa que só se explica por desvio do juízo moral.
Dilma e os seus gostariam de dispor dos brasileiros como coisas suas, assim como os Castro dispõem dos cubanos. Sendo impossível, buscam-nos lá, do mesmo modo como, antigamente, eram trazidos escravos das feitorias portuguesas no litoral africano.
* Escritor

Comentários (5)

  • Mauricio Silveira diz: 8 de setembro de 2013

    Finalmente algo lúcido,corajoso e verdadeiro escrito sobre o assunto em Zero-Hora.

  • maria cristina heineck comiran diz: 8 de setembro de 2013

    Concordo com toda sua análise.Particularmente, ao ouvir em rede regional o sarcasmo de nossa presidente , em cerimônia que nada tinha a ver com o programa,sacar de um mapa e mostrar à platéia os locais que os “burguesinhos” escolheram para trabalhar-como se só quisessem praia e sol-compreendi que o que estávamos vivenciando era sim uma guerra.Tenho exposto minha opinião para inúmeros jornalistas e políticos, mas me vejo cada vez menor, lutando contra uma mídia fortemente comprometida por verbas publicitárias , e políticos só preocupados com seu umbigo.Folgo em ler algo semelhante ao que penso.Obrigada

  • Lucimar Santos Santini diz: 8 de setembro de 2013

    Parabéns! Palavras de uma clareza ímpar, demonstrando, de forma inequívoca, o que o desgoverno que aí está tenta fazer, ou seja, enrolar o povo (e está conseguindo…) e desmoralizar classes trabalhadoras. E, infelizmente, não se aplica apenas aos médicos, logo se estenderá a outras profissões. Populismo barato, visando as próximas eleições.

  • JB diz: 10 de setembro de 2013

    Resumo bem feito de toda história Dilma vs “privilegiados”. O Governo, seus marqueteiros e seus troladores, tentam ferozmente provar que os médicos são “egoístas”, “elitistas”, etc.. E conseguem convencer muita gente de que é por isto que são contra o Mais Médicos . Entretanto, se a maioria dos médicos não faz questão e recusa os empregos do SUS do jeito que estão, porque estão reclamando tanto? Porque a maioria dos médicos se preocupa com a contratação de médicos sem qualificação comprovada. Por que, uns mais outros menos, lutam por uma saúde pública de qualidade. No Brasil 99% dos médicos são a favor do SUS, mas contra a propaganda Nazista do governo Dilma é difícil lutar, e há horas em que dá vontade de se calar. Mas e você, se você fosse médico, o que faria? Lutaria pelos interesses da população ou, pensando em seus próprios interesses, se calaria?

  • Inocêncio Nóbrega Filho diz: 14 de setembro de 2013

    Insinuar que a culpa seja dos médicos, não é correto. Eles se formam, no Brasil, primeiramente para um exercício profissional, a exemplo de um bacharel em direito, advogado ou juiz, que em nome da lei deixam de promover, muitas vezes, a dignidade humana. Assim, as demais profissões. Portanto, a culpa é do sistema econômico e político, que adotamos.

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