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Posts de outubro 2013

Interativo | Editorial desaprova cotas raciais para parlamentares. O que você acha?

31 de outubro de 2013 13

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.
Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

Editorial InterativoPara participar, clique aqui

COTA RACIAL NOS PARLAMENTOS

Foi aprovada nesta semana pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados uma Proposta de Emenda à Constituição que reserva vagas para parlamentares de origem negra na própria Câmara, nas Assembleias Legislativas dos Estados e na Câmara Legislativa do Distrito Federal. O texto elaborado pelos deputados Luiz Alberto (PT-BA) e João Paulo Cunha (PT-SP) ainda passará por uma comissão especial antes de seguir para a votação no plenário da Casa. Justificam os parlamentares que o país precisa avançar na representação racial no Legislativo, pois atualmente conta com apenas dois senadores e 43 deputados negros no Congresso Nacional, entre quase 600 congressistas. “Os negros estão colocados à margem na política” _ alega o deputado João Paulo Cunha.
A proposta é, sem dúvida, bem-intencionada, mas equivocada no seu propósito de corrigir a exclusão histórica da população afrodescendente no comando político do país. As políticas afirmativas já se mostraram eficientes na educação e no mercado de trabalho, para compensar principalmente a falta de oportunidade de ascensão social de pessoas que, de outra forma, dificilmente teriam chance de ingressar numa universidade ou mesmo no serviço público. No caso da atividade parlamentar, porém, não há esse obstáculo: qualquer pessoa pode se candidatar, independentemente da sua formação cultural ou da cor de sua pele. O direito de votar e ser votado já é constitucionalmente assegurado para todos os brasileiros. A segregação, na verdade, ocorre bem antes da disputa eleitoral, no âmbito dos partidos políticos, que  apresentam poucos candidatos negros em suas nominatas. Os defensores do novo sistema acreditam que a instituição de cotas obrigará as legendas a filiar mais afrodescendentes.
É inquestionável que os parlamentos brasileiros, assim como os tribunais, outros órgãos públicos e até mesmo organizações privadas, estão longe da representação racial da população brasileira, apontada pelo IBGE no Censo de 2010. Também é inegável que as cotas raciais, apesar das controvérsias em torno de sua implantação, são reconhecidas como fator importante na reversão do racismo contra determinadas classes étnicas, e foram consideradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, seria um desvirtuamento da nossa democracia forçar os eleitores brasileiros a votar em candidatos selecionados previamente pela cor da pele, e não pelos valores éticos e intelectuais necessários ao exercício do mandato.

 

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Editorial| A crítica sufocada

31 de outubro de 2013 1

131031princQUIO governo argentino desferiu um golpe mortal na liberdade de expressão ao enquadrar o Grupo Clarín na chamada Lei de Meios, chancelada esta semana pela Suprema Corte do país. Sob o rótulo de democratização dos meios de comunicação, a legislação desestrutura e fragiliza a independência do principal grupo do país num momento em que o governo da presidente Cristina Kirchner, em queda de popularidade, direciona investimentos publicitários para as empresas alinhadas com sua administração. A referida lei, promulgada em 2009, teve claramente um objetivo bem menos nobre do que a alegada tentativa de pulverizar o controle dos veículos e evitar monopólios. O que o governo pretendeu foi atingir especificamente o Clarín, que atua de forma independente e não se alinha aos interesses da Casa Rosada.
O constrangimento criado tem exemplos na vizinhança e segue a lógica de regimes incapazes de conviver com o questionamento da imprensa e das mais variadas formas da liberdade de expressão. Por isso a situação argentina não pode ser desvinculada de um contexto de democracias autoritárias da América Latina, como Venezuela e Equador, que também tentam sufocar seus críticos, estando ou não nos meios de comunicação. O argumento do kircherismo, de que a lei evita monopólios, não se sustenta. Há, sim, concorrência no setor na Argentina, e essa tem sido potencializada, ali e em todo o mundo civilizado, pelas novas mídias virtuais, que desafiam modelos consagrados, constrangem regimes antidemocratas e facilitam a produção e a transmissão de informação e entretenimento.
É evidente que o incômodo do qual o governo tenta se livrar é o da imparcialidade e da diversidade, ao mesmo tempo em que, como alertam organismos internacionais ligados ao jornalismo, contempla com fartas verbas da propaganda oficial e outros afagos os setores alinhados às suas ambições. A lei que atingiu o Clarín é a expressão do poder discricionário do Estado contra uma empresa punida por sua independência.
A decisão da Suprema Corte deve ser acatada, como todas as deliberações da Justiça, o que não significa obediência sem questionamentos. O grupo estuda a possibilidade de recorrer a cortes internacionais, como último recurso para a preservação não só de sua estrutura e da sua história, mas do direito de continuar atuando com autonomia e imparcialidade. A tentativa de silenciar parte da imprensa, antes de provocar prejuízos econômicos a um determinado grupo empresarial, significa uma afronta a todos os que buscam informações, em quaisquer veículos, como exercício permanente da liberdade de expressão.

Editorial| Os avanços do Enem

31 de outubro de 2013 0

Observado com lupa pelos críticos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no último final de semana, proporcionou a 5 milhões de brasileiros a oportunidade de se qualificar para o Ensino Superior, para bolsas de estudo no Exterior e para a conclusão do ciclo intermediário entre a escola e a universidade. Cumpriu as expectativas de forma eficiente, sem vazamentos, sem suspeitas de fraude e com a perspectiva de justiça para quem vê a educação como ferramenta efetiva de desenvolvimento. Mesmo que os principais problemas tenham sido superados, ainda há muito a fazer para que uma avaliação dessa importância para o país possa ser considerada exemplar.
Algumas falhas importantes, que chegaram a colocar em risco a credibilidade do exame, só não se repetiram porque o poder público, já a partir da edição anterior, passou a investir em providências realmente eficazes. Não poderia ser diferente depois que, em 2009, um caderno de questões foi furtado da gráfica e, em 2011, houve vazamento de questões numa escola do Ceará. A edição deste ano, com 7,17 milhões de inscritos _ total equivalente à população de um país como Israel _, exigiu uma megaoperação em 1.661 municípios do país para evitar vazamentos. O trabalho incluiu a vigilância de 2 milhões de mensagens e imagens postadas em redes sociais.
Um dos problemas a serem enfrentados na realização do Enem ainda é a elevada abstenção. Só na edição atual, 2 milhões de inscritos deixaram de comparecer ao exame, gerando um prejuízo, no mínimo, próximo a R$ 60 milhões com a impressão das provas e com a contratação de pessoal. Por isso, é oportuno que o Ministério da Educação (MEC) se preocupe com a criação de um mecanismo para antecipar faltas. Mas é importante que invista também em conscientização para o impacto que o não comparecimento às provas significa.
Os brasileiros precisam se conscientizar de que o Enem evoluiu muito e consolida-se não apenas como porta de entrada na universidade. Constitui-se também num mecanismo de estímulo ao intercâmbio acadêmico, ao financiamento estudantil e à valorização do ensino técnico.

Artigo| Minirreforma, grande engodo

31 de outubro de 2013 0

O Congresso não
escutou a voz
das ruas,
expressa nas
massivas
manifestações
de junho

RONALDO ZULKE*

Ser portador de uma representação parlamentar no Congresso Nacional, conferida pelos eleitores gaúchos, muito me orgulha. A minirreforma política recém aprovada na Câmara Federal, no entanto, não pode ser motivo de orgulho para os deputados que buscam aperfeiçoar a democracia brasileira. Trata-se de um arremedo de reforma política que, além de manter o financiamento privado de campanha e, em consequência, a interferência do poder econômico nos processos eleitorais, ainda por cima limita o alcance da auditoria da Justiça Eleitoral no que concerne à contabilidade e a prestação de contas e as despesas dos candidatos. O que era ruim vai ficar pior, em meio a algumas medidas superficiais como a proibição de pintura em muros particulares, o uso de bonecos e a diminuição do número de assinaturas para a criação de novos partidos, que caiu de 493 mil para 245 mil. O indecoroso projeto de lei voltará ao Senado para apreciação. Só uma forte mobilização das organizações da sociedade civil será capaz de barrar sua aprovação.
Cinco pontos deveriam pautar as mudanças na legislação: 1) a proibição do financiamento de campanha por parte de pessoas jurídicas; 2) a votação em listas com a possibilidade de alteração da ordem dos nomes; 3) a fidelidade partidária; 4) a paridade de gênero e; 5) o chamamento de uma Assembleia Constituinte Exclusiva para promover uma autêntica reforma política. A presidenta Dilma Rousseff sugeriu também um plebiscito para que o povo pudesse manifestar-se, soberanamente, sobre tão importante questão para o exercício da cidadania no país. O que está sendo gestado nos corredores do Legislativo, contudo, não contribui para o aprimoramento das instituições políticas, para a redução dos custos das candidaturas e para a transparência no transcorrer das eleições. Não altera os padrões atuais do fazer político, os quais impedem a igualdade de oportunidades entre todos os candidatos nas disputas eleitorais. Numa palavra, não democratiza a democracia.
O Congresso Nacional não escutou a voz das ruas, expressa nas massivas manifestações de junho. Em vez de corrigir as distorções e as falhas do sistema representativo, tergiversa e dissimula ao introduzir no debate proposições cosméticas que servem apenas para reatualizar uma antiga máxima das classes dominantes. A saber, “é preciso mudar para continuar tudo como está”. Grande engodo.

Artigo| O tornozelo e o calcanhar

31 de outubro de 2013 0

Uma “fiscalização
pelo tornozelo”
é mais um
“calcanhar de
aquiles” da nossa
segurança pública

DAVID MEDINA DA SILVA*

Depois de observar tantos crimes praticados pelos portadores de tornozeleiras eletrônicas, não tenho dúvida quanto ao acerto da decisão do Ministério Público de não participar do termo de cooperação para implantação do programa no Rio Grande do Sul. Nunca fomos contra o emprego dessa tecnologia. Apenas não concordamos com a sua implantação em situações fora das hipóteses legais, como aconteceu.
O programa prevê a concessão de prisão domiciliar, com monitoração eletrônica, para presos em regime semiaberto. Ocorre que o regime semiaberto abriga toda sorte de delinquentes, incluindo assaltantes e traficantes, para os quais a prisão domiciliar constitui verdadeiro incentivo à prática de crimes.
Tão certo quanto líderes comandam o crime de dentro das casas prisionais, é verdade que o fazem com muito mais desenvoltura em suas próprias casas. Então, razões de segurança não justificam adequadamente o programa em nosso Estado.
Talvez se concebam razões humanitárias, focadas na falta de vagas nas prisões. Sendo assim, uma solução que esvazia presídios e superlota as ruas de criminosos não atentaria igualmente contra direitos fundamentais da população brasileira?
Enfim, a monitoração eletrônica não disse a que veio. Enquanto presos não condenados esperam encarcerados suas sentenças, os condenados vão para casa usufruir de prisão domiciliar. E os crimes praticados pelos portadores do aparato revelam que a falsa ideia de uma “fiscalização pelo tornozelo” é mais um “calcanhar de aquiles” da nossa segurança pública.

*Promotor de Justiça

Artigo| Pão, livros e manteiga

31 de outubro de 2013 1

Será que a justiça
foi feita e o
panorama da
leitura, no Brasil,
sofreu alguma
mudança
substancial?

MARCELO ROCHA*

“Escrever para quê? Para quem? Não temos público. Uma edição de 2 mil exemplares leva anos para esgotar-se, e o nosso pensamento, por mais original e ousado que seja, jamais se livrará no espaço amplo.”
O desabafo acima não é de um escritor iniciante, diante da escassez de leitores, ou o brado de algum editor saudosista do formato do livro impresso, em tempos de difusão de outros suportes de leitura. Quem chamava a atenção para a falta de um público leitor era o romancista brasileiro Aluísio Azevedo, no final do século 19.
Azevedo tinha razão em sentir-se frustrado. A leitura era rarefeita. Segundo dados do primeiro recenseamento do império, de 1872, 84% da população, entre livres e escravos, era analfabeta. Nessa realidade, como haveria de prosperar a literatura?
O curioso é que o autor de O Cortiço era, segundo o jornalista Valentim Magalhães, o único escritor brasileiro que ganhava o pão com seus escritos, embora ressaltasse que as letras, no Brasil, ainda não davam para a manteiga.
Na mesma época, Machado de Assis, que também sofria com a tímida repercussão de seu Memórias Póstumas, foi aconselhado pelo cunhado a não desanimar, pois, mais cedo ou mais tarde, a justiça lhe seria feita.
Mas será que a justiça, de fato, foi feita e o panorama da leitura, no Brasil, sofreu alguma mudança substancial? Em recente encontro na Jornada Nacional de Literatura, o secretário do Plano Nacional do Livro e da Leitura, José Castilho Neto, declarou que apenas 26% dos alfabetizados são leitores plenos, isto é, capazes de compreender o conteúdo de textos lidos. Ademais, a nossa média de leitura ainda é de 1,3 livro por ano. Diante disso, o Ministério da Cultura estabeleceu, como prioridade, políticas para a formação de pessoas como mediadoras de leitura.
No entanto, talvez uma alternativa seja levar em consideração e estimular outras formas de leitura e não apenas aquelas reconhecidas a partir de uma tradição historiográfica literária. Por exemplo, segundo a pesquisadora Márcia Abreu, algumas vendagens da literatura de cordel chegaram a atingir a marca de 200 mil exemplares, o que, comparando com Gabriela, de Jorge Amado, que vendeu 20 mil exemplares, em sua primeira edição, é uma cifra considerável.
Hoje, o texto linear e canônico pode conviver com formas simultâneas de integração entre imagem e oralidade, transformando a percepção dos signos e da leitura. Isso não significa que os livros, em seu formato tradicional, tenham de ser abandonados, mas implica pensar, lembrando Camões, que: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” _ e, nesse caso, mudam-se, também, os suportes.
De certo modo, a própria Feira do Livro de Porto Alegre pode ser um estímulo importante a todos esses modos de leitura. E são esses múltiplos olhares e significados que poderão ser partilhados nas conversas cotidianas na Praça da Alfândega e no Cais do Porto, ultrapassando as páginas dos livros e tornando-se tão essenciais para nossa fome de conhecer e de conviver quanto o pão e a manteiga.

*Professor da Universidade Federal do Pampa, campus São Borja

Editorial| O preço do equívoco

30 de outubro de 2013 0

131030princQuawebDepois de ter sido usada ao longo de uma década para a prática de preços artificiais, com o objetivo de conter a inflação e garantir apoio popular ao governo, a Petrobras tirou da cartola uma fórmula mágica para tentar consertar o estrago desse populismo tarifário. Os danos são expressivos e conhecidos de todos: a estatal endividou-se, perdeu sua capacidade de investimento e, agora, enfrenta dificuldades para sair da enrascada. Ainda assim, é melhor ter um plano do que nenhum. Resta torcer para que o sistema em fase de discussão com o Ministério da Fazenda possa contemplar tanto as necessidades de caixa da empresa e a de seus acionistas quanto as dos brasileiros de maneira geral.
A reação inicial à proposta, que deve ser examinada no próximo mês pelo Conselho de Administração da empresa, foi uma disparada nos preços das ações na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), reanimando os investidores. Com o avanço, a estatal recuperou valor de mercado, o que é positivo para uma empresa às voltas com níveis acelerados de descapitalização, num momento particularmente desafiador diante das expectativas abertas com o pré-sal. Ainda que esse seja o cenário ideal, sobram razões para dúvidas sobre os efeitos  de uma mudança dessa magnitude às vésperas de uma campanha eleitoral e sobre a capacidade do governo de preservar os interesses dos consumidores finais.
Por suas características de monopólio, a Petrobras atua num mercado sem competição, o que gera distorções difíceis de serem mantidas por muito tempo. A nova sistemática de reajuste, ainda não definida claramente, deverá levar em conta aspectos como os preços internacionais do petróleo e a evolução das cotações do dólar em reais. A intenção é instituir uma espécie de gatilho sempre que a diferença entre os preços internos e externos atingir um determinado patamar. Obviamente, é preciso que isso determine não apenas elevação das tarifas, mas também reduções, quando for o caso.
Uma das lições deixadas pelos desacertos dos últimos anos no setor de combustíveis é que empresas da importância da Petrobras e insumos essenciais em qualquer economia, como é o caso de derivados de petróleo, não podem ser usados como instrumento de combate à inflação. A estabilidade econômica precisa ser garantida com maior rigor na busca do equilíbrio entre receita e despesa e na aplicação da política de juros, por exemplo. Sempre que os governantes se descuidam desta tarefa, a sociedade acaba pagando um preço elevado demais. O desafio da Petrobras, ao optar pela adoção de um gatilho de preços para deter a erosão de suas finanças, é contemplar todos os interesses envolvidos, incluindo os dos acionistas e consumidores.

Editorial| A polícia que mata

30 de outubro de 2013 0

Fatos ocorridos em São Paulo são representativos da violência exacerbada nas ruas do país. Os assassinatos de dois jovens por policiais militares, em bairros da capital paulista, devem ser repudiados, assim como a agressão covarde sofrida por um oficial da corporação, durante protestos na mesma cidade. As mortes, domingo e ontem, podem ter ocorrido em abordagens desastradas, expondo o despreparo combinado com a prepotência de setores das forças de segurança, que tem exemplos também em outros Estados. O primeiro episódio mereceu o repúdio público da presidente da República. Disse textualmente a senhora Dilma Rousseff, em postagem no Twitter, que a violência contra a periferia é a manifestação mais forte da desigualdade social no Brasil.
É elogiável que a presidente procure reforçar um sentimento de todos, mas isso certamente não basta, ou todos ficaremos apenas lamentando casos como esses. A indignação é tanta, que moradores do Jaçanã e do Parque Novo Mundo, bairros em que os rapazes residiam, também reagiram com violência, queimando ônibus, bloqueando rodovias e depredando bens públicos. São atos igualmente condenáveis, mas que devem ser compreendidos em seu contexto, ou as autoridades e a sociedade estarão ignorando o fato de que expressam desesperança. Há na reação dos moradores a repetição de outras ações articuladas emocionalmente com o mesmo objetivo de dizer à polícia, aos governos, à Justiça e a todas as instituições que o sentimento generalizado, em especial entre as camadas mais pobres da população, é de que fracassarão todas as tentativas de punição e de reparação.
Por dia, morrem no Brasil mais de 20 crianças e adolescentes, nas mais variadas formas de violência, entre as quais as operações policiais. E a grande maioria das vítimas são moradores das periferias. As autoridades têm a missão de oferecer respostas a esse e a tantos outros episódios semelhantes, para que a violência não continue gerando mais violência.

Artigo| Alguém escreve ao coronel

30 de outubro de 2013 3

Porque também
não posso deixar de
fazer o meu trabalho,
escrevo ao coronel
para cumprimentá-lo

CELSO GUTFREIND*

Não sou fã de coronéis. Nem de outros militares. Até hoje, só pude gostar deles na ficção. Tive empatia pelo coronel a quem ninguém escrevia, do García Márquez. E mais aquele do lobisomem, do Cândido de Carvalho. Pelos de verdade, nunca alimentei simpatia. Pelo contrário…
Sei que defendem a soberania de um país, que podem ser imprescindíveis para a segurança. E que são fortes, embora desconhecidos, nos países escandinavos. Mas nada do que sei prevalece quando sinto que estão inseridos numa hierarquia abusiva ou quando penso em uso excessivo da força. Pior ainda, nos regimes militares e seus atentados contra as liberdades individuais.
O coronel Reynaldo Simões Rossi estava trabalhando no recente protesto em São Paulo. Tratava-se de mais uma manifestação a favor do passe livre. Como de hábito, chegaram os vândalos, membros do black bloc. O coronel foi cercado e agredido covardemente pelo grupo. Ele teve a clavícula quebrada, sofreu vários cortes no rosto, tomou pauladas na cabeça e nas costas com uma barra de ferro. Levantou-se a custo e só não foi linchado até a morte porque o acudiu um companheiro que sacou a arma.
A arma não foi disparada. E o coronel, ao ser socorrido, cambaleante, não abandonou o posto. Pelo contrário; ordenou calma a seus subordinados. A cena foi mesmo impressionante. O coronel vinha de ver a morte. Sangrava, tinha as duas omoplatas fraturadas. Não lhe faltavam motivos para reagir com a mesma violência com que seus agressores haviam danificado orelhões, caixas eletrônicos, terminais de ônibus e, pior, o próprio coronel.
No entanto, alheio à própria dor e humilhação, não arredou um centímetro de seu trabalho. E não sossegava enquanto não via os ânimos apaziguados. Adiou a ida ao hospital e o alívio da dor intensa a fim de evitar a deflagração de um caos maior. Lembrava o equilibrista, morto em plena queda, que inspirou um poema sublime do Quintana, louvando a força e a honestidade de uma profissão que não se encolhia para nada, nem mesmo para morrer, se fosse o caso.
Já sem a farda, o coronel Reynaldo ainda mantinha o olhar um palmo acima da tristeza que o mesmo olhar expressava. Atento, persistente, acima do medo. E comandava, porque era este o seu trabalho. Evitar a proliferação da violência de que acabava de ser uma vítima quase fatal. E seguir batalhando pela calma.
Aprendi muito com ele. E, porque também não posso deixar de fazer o meu trabalho, escrevo ao coronel para cumprimentá-lo. Sem que nada possa deter-me, nem vândalos nem violência externa nem preconceitos dentro de mim.

Artigos| Gosto muito de cães e gatos

30 de outubro de 2013 23

Será que essas
mesmas pessoas
se emocionariam
com milhões de
pessoas em campos
de refugiados
pelo mundo?

CÉLI PINTO*

Gosto muito de cães e gatos, e eles também parecem gostar de mim. Tenho o maior respeito pela maneira como esses animais vivem e se relacionam com os humanos. Da mesma forma, não tenho dúvida sobre a importância da luta pela preservação do meio ambiente, pela preservação da biodiversidade, pela luta contra os interesses mesquinhos dos grandes laboratórios. Mas uma pergunta não quer calar nas minhas reflexões: e os seres humanos, que lugar eles ocupam nesse cenário? Sou de um tempo, e reconheço que estou fora de moda, que a grande preocupação era salvar a humanidade, os seres humanos, lutar contra a desigualdade, a injustiça social, os regimes ditatoriais. Sonhávamos com uma sociedade justa e solidária. Talvez o leitor mais jovem possa achar isto uma preocupação egoísta e autocentrada. Mas vamos por partes, somos animais e pertencemos tanto à natureza quanto os frequentadores das pets shops, os escorpiões, os ratos e os morcegos. E fazemos parte do meio ambiente, como a água, o ar, as árvores e os animais, os amados e os peçonhentos. Tenho toda a solidariedade com a bióloga gaúcha presa na Rússia por sua luta pelo planeta. A propósito, tenho também solidariedade por todos os seres humanos presos por lutarem por suas causas.
Mas há algo muito errado em tudo isso. O mundo se emociona e se revolta porque cães de raça estão sendo usados para experiências científicas, mas me pergunto: será que essas mesmas pessoas se emocionariam e se mobilizariam com milhões de pessoas em campos de refugiados pelo mundo? Com os desesperados que morrem a poucos quilômetros de Lampedusa, em embarcações precárias fugindo da fome e da guerra? Será que essas pessoas se mobilizariam contra o comércio de seres humanos e de órgãos humanos ao redor do mundo? Será que se revoltariam se soubessem que pessoas em campos de refugiados e em prisões estivessem sendo usadas como cobaias? Será que abrimos mão de salvar os seres humanos e estamos nos escondendo sob a capa da salvação de animais de estimação e de um planeta abstrato, porque é mais cômodo e não ameaça nossos privilégios cotidianos?
Precisamos recolocar a discussão em outro patamar: nenhum animal tem de sofrer por qualquer razão, principalmente porque a indústria cosmética está querendo criar uma nova marca de sabonete. Nenhuma folha de nossa floresta amazônica pode ser retirada sem nosso completo conhecimento, para alimentar a indústria dos fármacos do norte global. Mas, tendo isto sido combinado, nenhum ser humano tem de sofrer a humilhação de não ter um chão que lhe acolha, uma lei que lhe garanta direitos, um Estado que lhe garanta uma vida digna, com cultura, educação e saúde. Nós, seres humanos, cães, ratos, árvores, rios, estamos habitando uma bolinha insignificante em uma galáxia insignificante em um universo desconhecido, sejamos, pois, pelo menos, nós, a quem coube na cadeia da evolução a consciência da vida e da morte, menos fúteis.

*Doutora em Ciência Política, professora do Departamento de História da UFRGS