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Posts de novembro 2013

Editorial| Desleixo com a saúde

30 de novembro de 2013 0

As precárias condições de postos de saúde da Capital, somadas à falta de médicos em pontos considerados essenciais para o atendimento, evidenciam mais uma vez a má administração, pelo setor público, dessa área vital para a sociedade. Basta uma simples inspeção nas instalações desses postos para se constatar a degradação, registrada em anúncio publicado ontem pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers). A prefeitura de Porto Alegre e as administrações de outros municípios gaúchos nos quais a questão vem sendo negligenciada devem explicações convincentes para o fato de, apesar das cobranças unânimes e frequentes, os avanços não ocorrerem.
Um aspecto preocupante é que, enquanto a deterioração dos postos de saúde se acentua, a histórica alegação de falta de recursos financeiros perde cada vez mais sentido. Relatório de fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgado agora, revela que, apenas em 2012, Porto Alegre deixou de aplicar R$ 4,9 milhões no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Por mais que o poder público se esforce em justificar o fato de recursos disponíveis não estarem sendo usados numa área tão carente de verbas, em Porto Alegre e em outras cidades, essa é uma questão inadmissível.
A particularidade de um volume tão elevado de recursos ficar em caixa, sem ser usado, levou o TCU a definir quadros como o de “não realização de ações de saúde”, “agravamento de situações de risco” e “oferta de serviços à população aquém da capacidade financeira disponível”. É lamentável que isso ocorra, ainda mais numa área na qual as explicações derivam sempre para a falta de dinheiro.
Fica claro, cada vez mais, que uma das explicações para a falta de um mínimo de qualidade no atendimento a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) é a falta de condições dos gestores públicos. Cada vez mais, portanto, as alternativas precisam ser buscadas não apenas na base de mais verbas, mas também em maior aperfeiçoamento gerencial.

Editorial| O reajuste dos combustíveis

30 de novembro de 2013 1

A busca do ponto de equilíbrio entre a defesa da política econômica e a preservação dos interesses da Petrobras deve passar a nortear as relações entre as autoridades do primeiro escalão e os dirigentes da estatal, estremecidas pelas especulações em torno do aumento dos combustíveis. Espera-se que o impasse comece a ser resolvido com o reajuste determinado ontem. O que prevalecia até esta sexta-feira  era claramente o ponto de vista governamental de que importa muito mais usar os mecanismos à mão para segurar a inflação, o que incluía a contenção dos preços da gasolina e outros derivados, do que atender aos apelos por reajuste. A decisão vinha prolongando a descapitalização da empresa em nome da estabilidade.
Esse retardamento foi uma opção controversa. A Petrobras enfrenta no momento o grande desafio de investir recursos bilionários na exploração do pré-sal. Ao mesmo tempo, deve-se levar em conta a percepção de analistas de estratégias governamentais, que consideram a importância da petroleira como estatal. Nesse sentido, seria ingenuidade imaginar-se que um grupo do porte da Petrobras possa ser gerido sem intervenções diretas do governo. A Petrobras é uma empresa de Estado e, mesmo que tenha ações em bolsa, se submete às vontades de seu controlador, desde que respeitados os interesses de seus acionistas. É a questão central a ser resolvida.
Até que ponto o Planalto pode interferir nas decisões da empresa, sem que isso comprometa sua integridade e os ganhos dos que nela apostaram poupanças e reservas financeiras? O adiamento do reajuste vinha expondo o dilema e dando sentido às reações de acionistas minoritários, segundo os quais é preciso esclarecer os focos de conflito entre a sua direção e o Ministério da Fazenda. Há ainda, como componente explosivo, a questão política diretamente relacionada com o período pré-eleitoral. Os preços dos combustíveis, se sabe há muito tempo, prestam-se a manipulações, principalmente às vésperas de pleitos nacionais.
O que não se pode desconhecer é que a Petrobras perde sistematicamente valor em bolsa, vê seu endividamento crescer e tem sido olhada com desconfiança sobre suas reais condições de sustentar os custos da operacionalização do pré-sal. Preservar a empresa e, em consequência, o patrimônio de seus acionistas, é dever do Estado que a controla. Depois do reajuste agora definido, Petrobras e governo não escaparão da definição das linhas gerais de uma política duradoura para correção de preços, ou a estatal estará submetida aos humores de quem tenta centralizar decisões, nem sempre claras, em nome do interesse nacional.

Artigo| Aids no Estado: tarefa de todos

30 de novembro de 2013 0

Campanhas
minguaram, o
trabalho das ONGs
enfraqueceu e a
assistência deixou
de ser priorizada

RICARDO KUCHENBECKER*

Há 12 anos, o Rio Grande do Sul é o primeiro Estado brasileiro na detecção de casos de aids. Durante as primeiras décadas da epidemia, homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis e a melhor notificação dos casos foram apontados como causas dos números elevados. Desde então, a epidemia vem mudando. Passou a atingir populações cada vez mais pobres, através da transmissão heterossexual, ao invés do uso compartilhado de seringas. Análises mais recentes demonstraram que a notificação dos casos no RS não é melhor que a de outros Estados. O que explica os níveis elevados de aids no Estado são fontes reduzidas de investimento em assistência à saúde e prevenção ao longo da última década. Campanhas minguaram, o trabalho das ONGs enfraqueceu e a assistência deixou de ser priorizada. Como resultado, municípios em zonas de fronteira e a região metropolitana de Porto Alegre lideram os índices nacionais.
No dia 1º de dezembro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni, assinam termo de cooperação técnica para ampliar ações para o enfrentamento da aids no RS. Trata-se de iniciativa pioneira entre duas esferas gestoras do SUS depois da Lei 7.586/2011, que estabelece contratos de colaboração interfederativa para a elaboração de redes de atenção à saúde. Este grupo contará ainda com representantes da universidade e das ONGs de pessoas que vivem com o HIV. A cooperação objetiva ampliar a prevenção da doença, expandir o diagnóstico e o tratamento das pessoas vivendo com o HIV. Prevê ainda estudo avaliando conhecimentos, práticas sexuais e incidência de casos entre a população do Estado, para melhor direcionamento das ações de prevenção e assistência. Também a ampliação da assistência nas redes básica e especializada serão priorizadas.
A complexidade da epidemia demanda ações intersetoriais e interfederativas. Ministério da Saúde, secretaria estadual e municípios mais afetados pela doença passarão a atuar em conjunto para fortalecer a resposta à aids, com a prioridade da Região Metropolitana. A aids não será enfrentada com eficácia no Estado sem que haja envolvimento dos mais diversos segmentos da sociedade. Caberá à sociedade participar das ações e fiscalizar o efetivo cumprimento das iniciativas previstas pelos gestores. Juntos, poderemos fazer frente à epidemia.

*Professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, chefe do Serviço de Emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e coordenador da cooperação interfederativa para a aids no RS

Artigo| Por uma adolescência com mais chances

30 de novembro de 2013 2

Reduzir a
maioridade penal
significa negar
a possibilidade de
oferecer tratamento
adequado ao
adolescente

MICHELE SILVA REMÉDIO*

O Congresso Nacional discute atualmente projetos de alteração da Constituição Federal de 1988, buscando atribuir responsabilidade penal ao jovem maior de 16 anos. A Fundação O Pão dos Pobres _ que atende adolescentes e jovens adultos egressos da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) no Programa de Oportunidades e Direitos (POD) Socioeducativo _ acredita na inclusão social, na garantia de direitos e na socioeducação, em oposição às propostas de punição e aumento da privação de liberdade para adolescentes em conflito com a lei.
A prática diária no atendimento desse público mostra que apostar nos adolescentes pode mudar vidas e reduzir a violência juvenil. Léo, por exemplo, ingressou aos 15 anos na Fase, após participar de um assalto. Cumpriu um ano e meio de medida socioeducativa (MSE) de internação e foi acompanhado pelo POD na Fundação O Pão dos Pobres, onde iniciou um curso de garçom. No entanto, antes de concluir o curso, aos 17 anos, Léo voltou para a Fase devido ao ato infracional de porte ilegal de arma. O adolescente sofria ameaças de antigos desafetos em seu bairro. Sem condições de mudar de endereço, juntou-se com amigos do crime e passou a andar armado. Ao sair dessa segunda internação, mais breve, porém mais sofrida, teve nova oportunidade no POD Pão dos Pobres e concluiu o curso de garçom, determinado a se afastar do crime. Hoje, aos 19 anos, Léo está empregado em um hotel, tem um filho e está construindo uma casa em outra região. A mudança de endereço foi possível devido ao intenso trabalho da equipe técnica da Fase e da rede. Essa história não teria um final feliz se Léo não tivesse recebido o atendimento especial garantido por lei aos adolescentes autores de ato infracional.
Reduzir a maioridade penal significa negar a possibilidade de oferecer tratamento adequado ao adolescente, sujeito ainda em fase de desenvolvimento. Infelizmente, os desfechos positivos envolvendo atos infracionais não apresentam a mesma repercussão na mídia e no imaginário social como os fatos negativos. A maioria dos adolescentes em conflito com a lei necessita de tempo de amadurecimento psíquico, de apoio familiar e dos esforços das redes de atendimento para superar as dificuldades que os impulsionaram ao ato infracional. Eles não precisam de nossa raiva e punições mais severas, mas de mais chances, as quais não teriam com a redução da maioridade penal.

*Psicóloga do Programa de Oportunidades e Direitos (POD) Socioeducativo _
Fundação O Pão dos Pobres de Santo Antônio

Artigo| O mal de Calligaris

30 de novembro de 2013 2

Opiniões diferentes
são muitas vezes
recebidas como
uma declaração
de guerra. Desta
forma, fica muito
difícil crescer

GILBERTO SCHWARTSMANN*

Há alguns dias, leitores de ZH fizeram críticas às opiniões veiculadas pela jornalista Rosane de Oliveira e pelo escritor Luis Fernando Verissimo, no que diz respeito às condenações de políticos envolvidos no processo do mensalão. Confesso que me identifiquei mais com a posição dos leitores. Mas isto não tem a menor importância.
Minha opinião contrária aos colunistas não me impede de admirá-los. Ao contrário, suas opiniões fizeram-me refletir sobre meu próprio pensamento. Ninguém morreu ou deixou de ser respeitado por causa disso. Em outras palavras, é saudável divergir.
Recentemente, assisti a uma discussão entre políticos pela televisão. Contudo, não percebi entre os debatedores um desejo genuíno de trocar ideias ou que a qualidade da argumentação de um pudesse impactar no modo de pensar do outro. Longe disto.
Eles não debatiam suas diferentes formas de pensar. O que presenciei foram monólogos em sequência, impenetráveis, sem a menor chance de reconciliação entre os diferentes pontos de vista. Todos, sem exceção, revelavam uma incapacidade de reconhecer qualquer mérito no contraditório.
Tenho pensado sobre essa incapacidade de tolerar a divergência, que muitos de nós temos. Opiniões diferentes são muitas vezes recebidas como uma declaração de guerra. Desta forma, fica muito difícil crescer. Nas relações afetivas, a incapacidade de ouvir e respeitar a opinião do outro já acabou com muitos casamentos.
Imagino que o mesmo ocorra na política, pois os projetos estruturais de uma nação dependem do apoio dos diferentes segmentos da sociedade. E para isto é fundamental que as diversas correntes de pensamento sejam ouvidas e suas razões analisadas. É assim que se constrói um verdadeiro pacto social.
O debate travado pelos políticos deu-me a sensação de que eles não buscavam uma alternativa que melhor representasse os interesses coletivos. Cada um, do seu jeito, desejava ouvir a própria voz, sem ser contestado. Havia mais interesse em desconstruir os argumentos dos outros do que em analisar o seu conteúdo.
De onde viria a nossa incapacidade de conviver com quem discorda de nossas opiniões? Que mecanismos emocionais seriam responsáveis por esse tipo de atitude? Em artigo recente, o psicanalista Contardo Calligaris sugere que essa sensação ruim que aflora dentro de nós quando alguém discorda de nosso ponto de vista tem a ver, lá no íntimo, com uma vivência de abandono. Como se o outro, ao divergir, não desejasse mais ficar ao nosso lado.
Discordar, então, tornar-se-ia uma experiência vivida, inconscientemente, como uma traição. Talvez por isto, quando alguém “ousa” divergir de nossa opinião, ficamos irritados ou agressivos. Pois aquele que discorda de nosso pensamento é percebido, emocionalmente, como quem nos abandona. E, para muitos, esse sentimento é intolerável.
Não sei se a abordagem psicanalítica explicaria todas as razões de nossa incapacidade em tolerar opiniões contrárias. Mas seria muito saudável se as pessoas exercitassem um pouco mais sua capacidade de refletir sobre a opinião dos outros. Desta forma, as amizades e os amores seriam mais duradouros. O trabalho renderia mais. Nem falar no sucesso de nossos projetos políticos.

*Médico e professor

Editorial| Dois dígitos, um revés

29 de novembro de 2013 0

131129princSEXWEBA volta da taxa básica de juros para dois dígitos, de 9,5% para 10%, significa um revés nas pretensões do governo Dilma Rousseff de manter o percentual em níveis mais adequados ao bolso dos consumidores e aos planos dos investidores. Não há qualquer dúvida, porém, sobre a decisão que precisaria prevalecer entre as expectativas do Palácio do Planalto, no momento em que o país já se encaminha para um clima de campanha eleitoral, e o dever da autoridade monetária de agir como deve para tentar manter a inflação sob controle. Quase dois anos depois de a taxa ter recuado para um dígito e um ano depois de ter caído para a mínima histórica de 7,25%, o fato é que essa sexta elevação consecutiva poderia ter sido evitada se o poder público tivesse feito o que deveria no momento certo: cortado gastos.
Uma das explicações para a inflação não estar cedendo, mesmo com as últimas elevações da taxa básica, é que a política de desonerações não chegou a gerar a esperada reação da economia, por meio da qual o governo esperava compensar a menor arrecadação de impostos. E o custo de vida só não está mais elevado porque os preços administrados se mostram reprimidos, com uma variação bem inferior à dos negociados. Nesse cenário, a elevação dos juros, que tende a continuar pelo menos até o início de 2014, acaba se tornando a saída mais fácil, impondo consequências que se propagam em cadeia: um custo maior da dívida pública atrelada à taxa Selic, menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), crédito mais caro para o consumidor e menos investimentos no setor produtivo, o que pode afetar também o nível de emprego.
É óbvio que, mesmo depois de ter conquistado a estabilidade econômica, o país já enfrentou taxas básicas de juros bem mais elevadas do que a atual. Mesmo com a continuidade e o agravamento da instabilidade externa, não há também qualquer perspectiva concreta de a economia brasileira assumir proporções de descontrole. É lamentável, porém, que depois de ter atingido um patamar mais civilizado para o custo do dinheiro, o país esteja retomando a dianteira no ranking das taxas reais mais elevadas do mundo. Um aspecto particularmente preocupante é o de que nem assim a inflação dá sinais concretos de estar voltando para o centro da meta.
A economia brasileira teve o mérito de se livrar da inflação em descontrole e da indexação que a realimentava automaticamente. Até agora, porém, não conseguiu garantir desenvolvimento continuado sem provocar desequilíbrio nos preços. O país não tem como escapar do corte de gastos se não quiser ficar apenas na dependência de juros elevados para conciliar estabilidade com crescimento sustentado.

Editorial| Questão de gerenciamento

29 de novembro de 2013 0

A Federação dos Municípios do Rio Grande do Sul está pedindo ajuda ao governo do Estado para que 102 prefeituras possam pagar o 13º salário do funcionalismo. Em nome dos associados em dificuldade, a entidade pleiteia a liberação de R$ 200 milhões do ICMS, com o propósito de aliviar uma crise financeira que, pelos diagnósticos já apresentados, não deve ser passageira. Por mais solidariedade que se deva ter com os servidores, que merecem receber seus vencimentos na data prevista, tal ajuda pode configurar um privilégio em relação à maioria, representada pelas 395 prefeituras que chegam ao final do ano com as finanças em dia.
São muitos os argumentos apresentados pelos prefeitos em dificuldades, e raramente os problemas têm relação com questões pontuais. Há, já se sabe, um grave problema estrutural em muitos dos municípios brasileiros, e os gaúchos não são exceção, pelos mais variados motivos. Entre os entraves apontados, surge sempre em primeiro lugar a excessiva concentração da arrecadação tributária pela União, que detém dois terços de toda a receita. Além disso, os prefeitos se queixam de que os repasses federais têm sido reduzidos anualmente. Os dois motivos são comprovados por estudos de especialistas em municipalismo. Mas certamente não podem sustentar sozinhos o pedido de socorro.
Com a ressalva das exceções, atraso de 13º pode indicar má gestão e frouxidão administrativa e denunciar a escolha equivocada de prioridades ou a tolerância com o inchaço da máquina administrativa. Mesmo que os controles e a vigilância de instituições encarregadas de fiscalizar as administrações tenham sido aperfeiçoados, sabe-se que é preciso fazer mais e qualificar as gestões. São fartos os estudos que apontam desperdícios em áreas essenciais, como saúde e educação. Prefeituras em dificuldades, que não tenham justificativas categóricas para suas penúrias, poderiam informar-se com os municípios que não enfrentam problemas para identificar erros e acertos e corrigir deficiências.

Artigo| Dramáticos

29 de novembro de 2013 0

A evolução elevará
nosso nível de
consciência social,
ou seremos uma
civilização decadente?

MONTSERRAT MARTINS*

Num “papo de bar”, discutíamos quem será ainda imortal daqui a alguns séculos, Freud, Marx, Gandhi? Eu apostei em Shakespeare e na sua universalidade dramática, seu desvendar da alma humana em suas histórias de amor e ódio, paixão e ciúmes, vingança e reparação, generosidade e cobiça, toda sorte de paixões, enfim. Mudam os séculos, evoluem as civilizações, a ciência e a tecnologia, mas o elemento humano está lá, na massa bruta do nosso ser, com toda a gama de emoções que somos capazes de sentir.
Novelas e filmes exploram isso com “conhecimento de causa”. Mesmo quem não acompanha novelas pode apreciar às vezes o desempenho de atores capazes de dar vida a personagens como Carminha ou Félix, para falar apenas dos mais recentes sucessos da tevê brasileira. Somos dramáticos, mesmo que as situações retratadas passem longe da nossa vida, as emoções nos atraem. Grandes atores e atrizes são admirados por nos brindarem com interpretações envolventes, nos propiciando momentos de “voyeurs” sentimentais.
No cotidiano, temos de reprimir muitas emoções, no convívio social, por isso as atuações dramáticas nos agradam, nos liberam, se tornam formas de prazer, de diversão. Prazeres instintivos, cuja repressão e canalização para finalidades mais nobres seria uma tarefa evolutiva, civilizatória. Pois a TV está repleta de programas sensacionalistas, a começar pelos policiais, você sabe. Esses programas são assistidos e apreciados pelos próprios “bandidos” caçados ali, numa espécie de “coluna social”, pois é o único local onde eles se veem na TV.
A exploração barata das emoções em programas populares, num “vale-tudo” pelo ibope, vai funcionar enquanto houver público para isso. Das boas dramaturgias, dramas dos quais podemos extrair algum significado e aprendizagem, podemos dizer que são universais enquanto capazes de atingir a todos, em diferentes locais e épocas. Muitos Datenas se sucederão e Shakespeare ainda estará lá, como vem ocorrendo há vários séculos. Como foi dito de maneira poética por Machado de Assis: “Um dia, quando já não houver império britânico nem República norte-americana, haverá Shakespeare, quando não se falar inglês, falar-se-á Shakespeare”.
E o que os dramas nos ensinam? Haverá alguma fórmula para a mudança de comportamento, psicológica ou bioquímica, capaz de alterar nosso modo de nos relacionarmos uns com os outros? A evolução elevará nosso nível de consciência social, ou seremos uma civilização decadente, cega pelo consumismo? Temos capacidade de ser menos imediatistas a tempo de evitar a deterioração das condições de vida no planeta? Não sei as respostas, mas todas essas questões filosóficas têm um mesmo cerne: a condição humana. Os dramas nos ensinam é que não há respostas fáceis.

*Médico psiquiatra

Artigo| A China que os gaúchos vão encontrar

29 de novembro de 2013 0

O maior exportador
do mundo, maior
parceiro comercial
do Rio Grande do Sul
e do Brasil, está
se abrindo mais

ALFREDO FEDRIZZI*

Cheguei na China há poucos dias. Encontrei cidades modernas, vibrantes, desenvolvidas, em um país que está fazendo importantes reformas econômicas e sociais.
Um país que acaba de iniciar a liberação da quantidade de filhos que os casais podem ter, depois de muitos anos de uma intromissão _ para muitos, indevida _ na vida das famílias. A população envelheceu rapidamente e agora precisam de mais jovens.
Um país que inicia a privatização das terras agrícolas, que eram de propriedade coletiva, depois que mais de 50% de toda a população chinesa passou a viver nas cidades.
Um país que já fechou ou privatizou centenas de empresas públicas e que abriu à iniciativa privada muitos pedágios em rodovias.
Um país que é o maior do mundo em quase tudo: rede ferroviária, parque industrial, agricultura, banco comercial, painéis solares, só para citar alguns setores.
Qualquer movimento da China impacta o mundo inteiro.
Mas é também um país com problemas enormes: poluição ambiental e excesso de capacidade instalada. Aceleraram demais seu desenvolvimento e agora isso gera problemas.
O sistema financeiro começa a sofrer transformações a ser mexido e vai permitir a entrada de pequenos e médios bancos privados.
O novo líder da nação Xi Jinping já é considerado o segundo maior poderoso líder da China, desde Deng Xiaoping. Numa das matérias sobre as recentes reformas anunciadas pelo governo, a TV estatal falou a palavra “democracia” 12 vezes. Permanecem fechados ainda o controle da informação e o processo eleitoral.
O maior exportador do mundo, maior parceiro comercial do Rio Grande do Sul e do Brasil, está se abrindo mais e possibilitando grandes oportunidades. A China tem hoje mais de  US$ 500 bilhões para investir! Com o crescimento da renda interna, terá que importar mais produtos. Antes, 40% do PIB chinês era voltado à exportação. Hoje não mais. Começa terceirizar muita coisa. Querem aumentar o consumo interno de 35% para 55%. O ganho real nos salários pode aumentar 40% até 2015. Tudo isso concentrado num mercado consumidor de 85 cidades, que possuem, cada uma, mais de 4 milhões de habitantes (quase metade da população gaúcha em cada uma dessas cidades). Somente Hubei, a província-irmã do RS, tem cinco vezes a população gaúcha.
Lá vive 20% da população mundial. Somente a classe média chinesa tem 400 milhões de pessoas, o dobro da população brasileira inteira.
Um grande momento para aumentarmos a pauta de exportações brasileira, onde minério de ferro, soja, petróleo, celulose e açúcar representam 82% do que exportamos. O RS exporta, quase que exclusivamente soja e fumo para a China. Boa hora para atrairmos empresas chinesas ao Rio Grande.
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Artigo| Réus poderosos

29 de novembro de 2013 0

Incrível como
dinheiro privado,
intocável, se
transfigura em
público na
hora da crise

IBSEN PINHEIRO *

Tenho lido tanto, nos últimos meses, sobre as festejadas prisões de poderosos, que fico a me perguntar sobre o que mudou em nosso país. Passei a infância, a adolescência e boa parte da maturidade sabendo que por aqui só se prende ladrão de galinha, figura extinta por falta de galinhas no pátio, não de ladrões, que hoje roubam ou furtam coisas mais e menos valiosas, e, incrivelmente, poucos são presos. Ou são pouco presos, já que entram e saem dos presídios com velocidade maior que a dos visitantes.
Agora é ser poderoso. Ou parecer poderoso. Primeira página, algemas, habeas corpus negado, prisão prolongada e longas entrevistas judiciais (antes, juiz só falava nos autos) sustentando o fim da impunidade são a marca invariável e repetida de todos os poderosos recolhidos e chego a me perguntar se aconteceu de fato a troca de mão, ser poderoso dá cana, ser fichinha dá piedade diante das injunções sociais que engendram a criminalidade dos miseráveis e adjacentes.
Até que uma dúvida nova me assalta, ato corriqueiro, como se sabe. Assaltado, me rendo, segundo a regra. Quem é poderoso? Será poder efetivo algo que some com a primeira manchete negativa, às vezes com uma simples legenda de página interna, nem sempre verdadeiras?
Primeira e nova conclusão: poderoso não tem fama de poderoso. Tem poder real, não cuida de ostentá-lo, faz o contrário, disfarça. Se não der, por causa do patrimônio, finge que é ladrão de galinha, milhões de galinhas. E se afasta da publicidade, deixando-a para deleite dos falsos poderosos, artistas, boleiros ou políticos, exemplos perfeitos para construir a imagem do fim da impunidade.
Pois não é que agora vem por aí um teste real? O Supremo Tribunal Federal está para julgar faz tempo um processo que deve decidir sobre os créditos dos que perderam com a correção amputada de suas poupanças nos confiscatórios planos econômicos dos anos 1980 e 1990, dos menos votados ao famigerado Plano Collor. De um lado, os poupadores, pequenos poupadores, pequeníssimos na imensa maioria, e, de outro, o sistema financeiro, público ou privado, mas imenso, e que, sonegando a correção real, faturou os tubos e mais alguma coisa.
Números baixos falam em um passivo de R$ 8 bilhões, os altos vão a quase 200 (também bilhões) e delírios chegam a trilhão, já como ameaça de quebra de todo o “sistema”, modo de dizer que nesse caso o prejuízo é de todos. Incrível como dinheiro privado, intocável, se transfigura em público na hora da crise. Talvez por isso Bertolt Brecht não compreendia a lógica de assaltar bancos, quando é tão mais seguro fundar um.
O certo é que a a pauta do Supremo _ que nesse caso não tem a mesma celeridade tão festejada dos últimos tempos_ vai ter a oportunidade, espera-se que ainda em 2014, de condenar poderosos, não à cadeia, o que sequer renderia uma nota de pé de página (não são famosos, são só poderosos), mas impor a pena onde mais lhes dói: no bolso.
* Jornalista