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Posts de dezembro 2013

Editorial| Todos conectados

31 de dezembro de 2013 1

31de12_01O último editorial da série aborda o avanço das redes sociais no Brasil e as perspectivas do país para 2014.

Nunca, na história da humanidade, uma virada de ano teve tantos registros em imagens e textos como esta de 2013 para 2014. Jamais as pessoas tiveram tanto poder nas mãos para fotografar, descrever e repassar instantaneamente para qualquer parte do mundo tudo o que lhes parece interessante. Os smartphones e as redes sociais consolidaram-se como instrumentos da comunicação instantânea, reduzindo distâncias, aproximando pessoas, possibilitando o compartilhamento de informações e até mesmo de intimidades.
As facilidades de acesso a essa nova forma de comunicação geraram também extravagâncias como a flagrada pela argentina Paula Sibilia, no seu livro O Show do Eu: a intimidade como espetáculo, no qual demonstra que o indivíduo atual legitimou uma cultura da observação do outro conjugada com a exposição de si próprio. É neste admirável e desconcertante mundo novo que se encontram os desafios da modernidade, a mudança de paradigmas culturais, a substituição de atividades profissionais, as transformações em diversas áreas do conhecimento e os contrastes cada vez mais acentuados entre as gerações de seres humanos.
O Brasil é personagem e protagonista deste processo, com mais da metade de sua população já inserida na era digital e mais de 90% das escolas públicas e privadas do país utilizando computadores e acessando a internet, de acordo com o Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação e da comunicação (Cetic). Falta-nos qualificar a educação para que os jovens possam tirar melhor proveito da tecnologia e utilizá-la para a construção de um país melhor.
O momento é mais do que apropriado para este avanço. Neste 2014, o Brasil promoverá a sua segunda Copa do Mundo e terá eleições presidenciais. As atenções do planeta estarão voltadas para os brasileiros. Receberemos delegações de todos os continentes e teremos a oportunidade de mostrar, na prática, se o nosso país está mesmo preparado para saltar da condição de emergente para a de desenvolvido. Vale o mesmo para o teste de democracia que promete ser o pleito de outubro, ocasião em que o país escolherá seus governantes para os próximos quatro anos.
Tanto o mundial de futebol quanto o estamento político foram fortemente questionados nas manifestações de junho, quando multidões saíram às ruas para protestar e pedir reformas. Tais movimentos, vale lembrar, tiveram origem exatamente nesta nova forma de comunicação proporcionada pelas redes sociais e pelos avanços tecnológicos. Ao descobrir novos caminhos para o exercício da cidadania, os brasileiros também assumem o desafio de contribuir para a solução dos problemas apontados nos protestos.
Neste contexto de transformações, Zero Hora chega ao seu cinquentenário (a ser completado em maio próximo) com o compromisso de manter a sintonia com os seus públicos e com a era digital, sem renunciar aos valores que a transformaram no jornal preferencial de milhões de gaúchos e brasileiros.

Artigo| Dos que tanto amam odiar a imprensa

31 de dezembro de 2013 0

Na falta de
outra instituição,
encontraram na
imprensa a sua
razão de viver
e de guerrear

EUGÊNIO BUCCI *

Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um “partido de oposição” e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um “partido de oposição”, parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever _ e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar.
Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão “partido de oposição” virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo.
Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele.
No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça.
Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber. As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a “herança maldita” de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o país vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: “Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!”.
Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional.
A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias.
Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública?
Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar _ e fazer acreditar _ que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014.
Mesmo assim, feliz ano-novo.
* Jornalista, professor da USP e da ESPM. É colunista do Estado de S. Paulo, no qual este artigo foi publicado na edição de 26 de dezembro

Editorial| O desafio da mobilidade

30 de dezembro de 2013 0

30de12_OffAs dificuldades do trânsito brasileiro são o tema deste sexto editorial da série que enfoca os principais fatos do ano que está terminando.

As  manifestações populares de junho e julho colocaram no centro da agenda nacional o debate sobre transporte público e mobilidade urbana. Em boa hora: o país atravessou 2013 quase parando, em decorrência dos engarrafamentos diários nas grandes cidades. Neste ano que está terminando, a indústria automobilística bateu recorde de vendas, especialmente no primeiro semestre. Nos últimos 10 anos, entre setembro de 2003 e o mesmo período deste ano, enquanto a população brasileira cresceu 11%, houve um aumento de 123% na frota do país _ uma média de 12 mil carros por dia _, segundo registros do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Como o país já concentra 85% de seus 200 milhões de habitantes nos grandes centros urbanos, é fácil imaginar onde fomos parar: no meio das ruas e avenidas, sem poder avançar.
Ter um carro deixou de ser sinônimo de autonomia, velocidade e conforto. Virou, em muitos casos, perda de tempo e de qualidade de vida. A saída viável, todos concordam, é a utilização do transporte coletivo e de alternativas como a bicicleta, mas nossas cidades não estão preparadas para tal transição, que exige, acima de tudo, uma mudança de mentalidade. O estímulo à compra e à utilização de veículos ainda é muito mais forte do que os apelos para as pessoas deixarem os carros em casa. Pior: as deficiências do transporte público e a precariedade das estruturas urbanas acabam desestimulando quem busca a solução coletiva.
O carro, como símbolo de sucesso, acabou subvertendo o uso do espaço público. As cidades têm sido pensadas para o automóvel e não para as pessoas que as habitam. Como carro polui, ocupa espaço e representa despesa considerável no orçamento doméstico, tende a perder o encanto, especialmente se os administradores públicos não encontrarem saídas para os problemas do trânsito.
Evidentemente, não é um desafio apenas dos governos, embora lhes caiba investir nas soluções viárias, organizar os espaços públicos e oferecer alternativas compatíveis com as necessidades da população. O desafio da mobilidade também exige atitudes individuais, mudanças de comportamento, menos egoísmo e mais compartilhamento. Trocar o carro pela bicicleta ainda parece absurdo para muitos brasileiros e simples aventura para outros. Mas já é prática comum para parcela expressiva das populações de muitas cidades da Europa e da Ásia.
No ano em que o Brasil saiu às ruas para reclamar transporte público mais qualificado e a preços mais acessíveis, ficamos todos com esse dever de casa: como sair do brete das estradas entupidas de veículos?

Artigo| O Julinho e o ensino

30 de dezembro de 2013 1

O caso do Julinho
soa como uma
espécie de S.O.S.
partindo da educação

PAULO BROSSARD*

Um fato chocante e de inegável importância social foi divulgado por ZH dias antes do Natal ao retratar a alarmante deterioração de um dos mais conceituados colégios de Porto Alegre, o “Julinho”, como era familiarmente denominado o “Julio de Castilhos”. Ao tempo em que surgiam colégios de inspiração religiosa, logo consagrados pela excelência do ensino ministrados por notáveis educadores, o governo rio-grandense, de forte tintura comtiana, cuidou de formar seu colégio padrão, que viria a levar o nome do chefe republicano; cansei de ouvir referências respeitosas ao colégio laico destinado a cotejar com os católicos e evangélicos; o maior louvor suponho viesse daqueles que lhe houvessem frequentado. O trabalho da jornalista Letícia Duarte estendeu-se pelo ano escolar, 27 de fevereiro a 22 de novembro de 2013; registrando o colapso do que fora um colégio modelar; é impossível resumi-lo, o espaço seria insuficiente para um resumo do resumo, limito-me a dizer que, a todos os títulos, o quadro é deplorável.
É óbvio que sem professor não há escola nem ensino, no entanto, no Julinho, até sete professores por dia faltam às aulas, 89% dos alunos chegam ao final do Ensino Médio sem aprender o mínimo em matemática, 38% saem do Ensino Médio e chegam ao Superior e não sabem ler e escrever plenamente; ao fundo da sala alunos se divertem com equipamentos eletrônicos durante as aulas; essas singelas observações esclarecem porque a classificação do Brasil entre 65 nações ocupa posição desoladora. É de notar-se que isto acontece em um colégio que durante muitos anos foi dos melhores aqui existentes e em consequência no Brasil inteiro. Esta metamorfose não se operou de repente, o mal, por conseguinte não começou ontem. O colégio que foi o melhor não se transforma no pior da noite para o dia. E o mais grave é que a degradação se infiltra a setores relevantes do país, do governo inclusive a de instituições docentes. Dir-se-á que existem, Deus seja louvado, colégios da melhor e mais justificada reputação e eu sei disso e como brasileiro por isto me felicito, mas infelizmente isto não justifica a cota de colégios de inqualificável reputação. Segundo as repercussões até agora conhecidas verifica-se que há os que pensam que o fenômeno que deformou o Julinho tem caráter geral e há os que entendem que a falência do antigo e modelar ornamento do colégio oficial é uma exceção.
Não tenho elementos para opinar em favor de uma ou outra das interpretações, mas confesso a minha angústia cívica diante do espetáculo público do caso funesto e vexatório do Julinho uma vez que os efeitos dele se irradiam aos demais graus do ensino; é evidente que o ensino primário contamina o Ensino Médio e este compromete o Ensino Superior; a esse respeito, louvores seriam poucos, se as numerosas universidades emergentes realmente encarnassem o que a sua denominação anuncia. Confesso-me sem condições de opinar em assunto de tal relevância, pois não conheço o real teor do ensino oferecido e mais do que o ensino, da real formação de seus jovens frequentadores.
No entanto, há um dado idôneo que ajuda a esclarecer o problema em causa, não é segredo, foi amplamente divulgado que dos 65 países que participam do exame de avaliação internacional de alunos de 15 e 16 anos em várias áreas, ficou o Brasil na 55ª posição em leitura, 58ª em matemática e 59ª em ciências. Dispensável dizer que esses dados indicam as carências do ensino no Brasil. Os dados referidos são dolorosos para não dizer humilhantes. O caso do Julinho soa como uma espécie de S.O.S. partindo da educação.

*Jurista, ministro aposentado do STF

Artigo| Tenhamos esperanças e ilusões em 2014

30 de dezembro de 2013 0

Acreditemos num
mundo e país
melhores. Vamos
todos transformá-los.
Que venha 2014!

JOCELIN AZAMBUJA*

Fim de ano, momento de reflexões sobre o ano que finda, sobre nossas vidas tanto no campo pessoal quanto no coletivo, sobre vitórias e derrotas, perdas e conquistas. Olhar para dentro de si é fundamental, mas para o coletivo nos torna mais humanos. Quando olhamos para o ano que termina e pensamos no novo ano, a tendência natural é de desesperança e desilusão com tudo que nos cerca. Que futuro teremos?
A mídia passou o ano tendo que noticiar, diariamente, atos de corrupção e crimes, em todos os níveis e lugares, de ministros, juízes, delegados, agentes públicos etc., nos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Servidores públicos gananciosos, com altos salários e se corrompendo, grupos de pessoas e de empresários corruptores.
Violência constante, a vida desvalorizada, milhares de pessoas mortas, como em uma grande guerra civil no Brasil. Mortos por assassinatos, trânsito, drogas, motivos fúteis, enfim, um quadro alarmante. Os condenados jogados em presídios como animais, sem qualquer possibilidade de recuperação, fortalecendo-se as quadrilhas, gangues, facções, saindo de lá por um sistema penal e judicial que os devolve à sociedade a toda hora para cometer mais crimes. Cidadãos com medo, balas perdidas em qualquer lugar, tirando a vida de inocentes. Sem contar os milhares de mortos por falta de um sistema eficaz de tratamento da saúde.
Em meio a tudo isso, um sistema educacional falido, sem qualidade, gestores despreparados, governantes desinteressados em valorizar professores e escolas, tratando a educação como instrumento político partidário e não como bem maior de uma nação, pois a educação é a única forma de transformação social.
Faltam exemplos, lideranças e modelos positivos a nossa juventude. Em meio a toda essa triste realidade nacional, não podemos sucumbir, enquanto povo e nação, não dando esperanças e futuro para a nossa juventude.
Se não temos hoje, modelos e líderes próprios para nos dar otimismo, temos líderes mundiais como o papa Francisco, que tanto alento tem dado ao mundo, não apenas como líder de uma religião, mas como exemplo de ser humano que pensa e pratica de fato o bem comum, com lições de humildade, fraternidade e amor ao próximo.
Temos que manter nossas ilusões, acreditar que podemos transformar esse Brasil, através da educação do seu povo. Precisamos continuar indo às ruas, como fizemos contra a ditadura na luta pela democracia. Sermos implacáveis contra a corrupção, a falta de educação, saúde e segurança, mostrando aos jovens que eles podem ser agentes de transformação e que, unidos, homens e mulheres de bem, com seus princípios familiares, éticos e de honestidade, construirão um futuro digno para as novas gerações e o país.
Que os Franciscos se espalhem pelo nosso Brasil. Não percamos as esperanças e mantenhamos nossas ilusões, acreditemos num mundo e país melhores. Vamos todos transformá-los. Que venha 2014!
*Advogado

Editorial| Respostas para a educação

29 de dezembro de 2013 1

29DE12_offO quinto editorial da série de análises dos fatos do ano destaca iniciativas isoladas para qualificar a educação no país.

O Brasil, que já ocupava um incômodo 53º lugar no ranking internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), caiu para a 57ª colocação no comparativo entre 65 países analisados pelo Pisa, a mais abrangente avaliação do ensino global. Num gráfico, a realidade do aprendizado poderia ser representada por uma linha em queda.
Sobram explicações para a dificuldade de avanço da educação brasileira. Uma delas é que os esforços oficiais se intensificaram nos últimos anos, mas continuam faltando disciplina e persistência nas políticas públicas para a área educacional.
Em consequência dessas falhas, e mesmo com alguns ganhos registrados em matemática, poucos alunos na faixa dos 15 anos, avaliada pelo estudo da OCDE, conseguem entender as relações entre os números referidos no primeiro parágrafo deste texto, principalmente quando representadas graficamente. Poucos também têm condições de assimilar uma ideia simples como a transmitida pelo segundo parágrafo, devido às dificuldades no aprendizado do português. Os problemas se acentuam quando os jovens são solicitados a fazer relações entre um parágrafo e outro. Falta-lhes conhecimento para entender a conexão.
O fato novo e promissor é que, aos poucos, profissionais da educação, especialmente professores, começam a reagir contra as adversidades da profissão e empreendem ações individuais para elevar a qualidade do ensino. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, por exemplo, essa disposição ficou evidenciada na excelência dos projetos inscritos no recente Prêmio RBS de Educação. A maioria deles comprovou, na prática, que recursos financeiros são importantes, mas nada supera a motivação, o engajamento, a criatividade, a descoberta dos caminhos para chegar direto ao aluno, motivando-os a se interessar pelos conteúdos e a aprender a usá-los em situações do cotidiano.
O ponto em comum entre os países situados no extremo oposto do Brasil na lista do Pisa _ os seis primeiros são todos asiáticos _ é justamente o fato de contarem com educadores fascinados pela missão de transmitir conhecimento e reconhecidos pela nobreza do papel que exercem perante a sociedade. Isso não significa apenas ganhar bem _ embora os salários, nesses casos, sejam incomparavelmente superiores aos pagos no Brasil, que até hoje não conseguiu sequer garantir um piso de ganhos para a categoria.
Por que, então, o país que mobiliza uma explosão de criatividade no Carnaval, que atrai multidões aos estádios de futebol e consegue reunir elevadas somas em tempo recorde para abrigar a Copa do Mundo não consegue fazer o mesmo com a educação? Simplesmente pela incapacidade de transformar o ensino numa obsessão, empreendendo esforço máximo na corrida pelo conhecimento e pela inovação.
Políticas públicas adequadas, como as que investem no aluno, como o Ciência sem Fronteiras, e as que tentam resgatar a dignidade da figura do professor para assegurar a qualidade perdida com a massificação do ensino são fundamentais. As respostas mais eficazes, porém, tendem a vir mesmo é dos próprios educadores. São eles que, bem preparados, bem pagos e reconhecidos pela sociedade, poderão levar o país a transformar a educação numa prioridade de fato e os alunos a dominar disciplinas básicas, como português e matemática, para avançar nas demais.

Artigo| Ano novo com ABS

29 de dezembro de 2013 0

TavaresPor que não
instalar um
sistema de freios
que bloqueie
o astucioso
suborno?

FLÁVIO  TAVARES*

A notícia de que a exigência de freios ABS passa a valer a partir do novo ano foi tão festejada que pensei, até, que não alcançasse apenas os automóveis. E se equipassem a engrenagem da vida pública com freios assim, rápidos e seguros, não só os novos carros? E se o freio ao roubo fosse obrigatório? E se a relação do público com o privado passasse a ter um sistema de travagem que não permitisse a corrupção, nem a inação ou o demagógico e vil engano da politicalha? Por que não instalar um sistema de freios que, com uma pedalada funda, bloqueie o astucioso suborno de empresários que alimentam políticos, altos e baixos funcionários só para multiplicar a cobiça própria?
Por que não criar uma mentalidade interna de freios na máquina pública (federal, estadual e municipal) em que cada centavo de imposto arrecadado se destine a um fim coletivo nobre, não a um corrompido bolso privado? Enfim, por que só os carros merecem tanto?
Sigla da expressão alemã Antiblockier-Bremssystem, o ABS impede o bloqueio da roda e a consequente derrapada quando se pisa no pedal do freio e o carro desliza, sem aderência ao solo. O ABS faz com que o atrito estático supere o cinético, o atrito do movimento, que naturalmente seria maior. O freio é instantâneo, numa inversão (localizada) da própria lei da física.
Por que não trasladar isto ao conjunto das relações entre o público e o privado? Ou aí se proíbe proteger a vida sã e honesta da sociedade?

***

A corrupção é uma derrapada brutal e tão comum que já soa a natural. Assim, bastaria um ABS geral e generalizado. Nem precisaríamos de bolsa de ar, isto que Camões chamaria de “air bag”, se vivesse hoje. Sim, pois a camoniana “air bag” funciona e nos protege só quando o freio falha. Ou quando um monstro inevitável surge à frente, sem sabermos de onde veio.
Se a “air bag” chega a se inflar e salta, salva-nos a vida, mas o carro se destroça. No conjunto geral no país, Estado e municípios, porém, do jeito em que vamos e da forma em que surrupiam, mentem e nos enganam, corremos o risco de que a bolsa de ar se abra e salte sem termos ABS! E que o carro continue a andar, batendo nos muros e atropelando gente.

***
Na matança da boate Kiss, em Santa Maria, quando tentaram pisar no freio, não havia freio. Os responsáveis por não haver trava alguma ao absurdo e à permissividade seguem impunes e o crime não tem autores nem responsáveis. Cada qual transfere a responsabilidade a outro, e esse outro a outro, e de novo outro a outro, num interminável jogo de espelhos, em que tudo é miragem e nada é real.
Tudo é, tão-só, um espelho de outro espelho… E o resultado desse jogo será, sempre, mentira ou engodo, ampliando a tragédia: os criminosos à solta, em casa. Ou na prefeitura, mandando nos santa-marienses, como se as vítimas fossem as culpadas por não saberem que aquilo era o que era, e que o beijo em fogo da Kiss asfixiava. E que 242 pessoas foram mortas assim!

***

Mas o novo ano de 2014 está aí e a esperança deve sobrepor-se a tudo, com vontade e otimismo, para que as coisas boas, bondosas e positivas de 2013 sejam nosso único guia. A sentença do juiz de Ibirubá, Ralph Moraes Langanke, condenando os criminosos adulteradores de leite, por exemplo, fecha o ano como síntese da esperança. Sim, pois só tendo consciência da maldade e identificando o crime podemos optar pela paz e encontrá-la onde estiver.
Não importa que esteja distante. Com persistência e vontade, haveremos de encontrá-la. Chegaremos lá, sem qualquer freio. Sem que nada nem ninguém nos possa travar.
Nem sequer o ABS!
* Jornalista e escritor

Artigo! O que é bom dura pouco

29 de dezembro de 2013 0

diana29Mudamos o
tempo todo,
nem que seja
pelo fato de que
a cada dia vamos
ficando mais velhos

DIANA LICHTENSTEIN CORSO*
dianamcorso@gmail.com

Minha amiga fez uma reforma dentro de casa. Deviam incluir reformas, principalmente aquelas nas quais se permanece habitando um lar semidestruído, nos testes psicológicos. Se o morador do imóvel em escombros não enlouquecer, dificilmente perderá o equilíbrio em situações extremas: seria um caso de saúde mental comprovada. Um casal que sobrevive a uma reforma será feliz para sempre. Pois minha amiga, sua família e os dois gatos superaram isso e passam bem. Ninguém pediu a opinião felina do Quincas e da Frida, mas tenho certeza de que eles discordam da necessidade de ter feito tudo aquilo.
Quando fui visitá-la para ver as melhorias prontas, a casa estava tão bonita e agradável, que imediatamente instalou-se o sentimento de que sempre fora assim. Comentamos que é uma pena, mas o período em que comemoramos as novidades boas passa demasiado rápido. Também quando algo piora, estraga ou deteriora, aos poucos adotamos naturalmente os caminhos necessários para contornar o problema: a luminária queimada será evitada, a janela emperrada será menos utilizada, o liquidificador estragado decorrerá na eliminação das receitas que necessitem dele.
A vida é movimento e somos muito plásticos, adaptamo-nos às circunstâncias, expediente que permite a sobrevivência até em condições extremas. Mudamos o tempo todo, nem que seja pelo fato de que a cada dia vamos ficando mais velhos e carregamos a experiência, os temores e sucessos armazenados dos momentos anteriores. Por vezes, mudamos para muito melhor, por outras enfrentamos perdas ou mesmo a triste constatação de um esforço inútil, como diriam o Quincas e a Frida sobre as novidades na casa da minha amiga.
Mas nada é à toa, devo discordar dos gatos. Eles são uns ranzinzas e prefeririam que nada se alterasse nunca, tanto que existe a expressão “mais nervoso que gato em dia de faxina”. Queria lembrar àqueles dois gorduchos peludos que agora eles têm mais luz e espaço em vários cômodos da casa, mas eles vivem um eterno presente, assim como costuma acontecer conosco.
No fim do ano fazemos balanços. Até os que alardeiam que isso é ridículo, pois o primeiro de janeiro é exatamente igual ao trinta e um de dezembro, que nada recomeça, são atropelados pelas retrospectivas do ano na mídia, pelo ambiente de promessas e esperança.
O resultado dessa avaliação anual sempre é prejudicado pela dificuldade de perceber as mudanças e, principalmente, de comemorar as boas novas. Reagimos como um bebê: quando está com fome, berra como se nunca tivesse sido alimentado, e, ao ser bem cuidado, ronrona um prazer que parece contínuo. Quando a felicidade chega, olhamos para ela como certos pais que recebem as boas notas dos filhos e, em vez de elogiar, dizem que ele não fez mais do que a obrigação. Pobre felicidade, a mais incompreendida e maltratada dos sentimentos. Depois de amanhã, último dia do ano, pode dispensar a lentilha, os fogos, mas não abra mão da gratidão pelo que melhorou. Por outro lado, se algo piorou, acredite, de algum modo vai passar.

*Psicanalista

Artigo| Nós e eles

29 de dezembro de 2013 1

marcosRolimNo Brasil,
se imagina
que a violência
esteja disseminada.
Não está.

MARCOS ROLIM *
marcos@rolim.com.br

Em São Paulo, jovens da periferia _ em sua grande maioria negros _ inventaram o “rolezinho”. Com a expressão, eles identificam a proposta de se encontrarem em shoppings para dar uma “banda”, um “rolé” (giro, passeio, volta); iniciativa articulada, claro, pelas redes sociais. Então, funciona assim: o consumidor típico de shopping, branco de classe média, olha para o lado e vê algumas dezenas ou centenas de jovens negros se deslocando no interior do estabelecimento, cantando e se divertindo. O que ocorre? As lojas fecham, os clientes correm, os seguranças ficam atônitos, a polícia é convocada às pressas e dezenas de prisões são efetuadas. Qual o crime cometido pelos jovens? Nenhum.  O que eles deviam saber é que “o seu lugar” não é ali. Para o apartheid racial e social praticado no Brasil, pobres e negros não têm o que fazer em shoppings.  Se ali estão e em grupo, a ousadia só pode ser deboche, ameaça, “arrastão”. Em seu texto para o site do El País Brasil (“Os novos ‘vândalos’ do Brasil”), Eliane Brum transcreveu a frase de uma das frequentadoras do Shopping de Guarulhos, registrada pela repórter Laura Carpiglione da Folha de São Paulo: “Tem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar em um lugar como este”. Se fossem jovens brancos, a mobilização seria vista como um flash mob, haveria fotos e registros bem humorados na mídia. Negros e pobres, entretanto, não podem ultrapassar os muros do gueto. Para garantir a separação, os empresários exigem que a Polícia Militar atue dentro dos shoppings. Não me impressionará se a demanda for atendida.
No Brasil, se imagina que a violência esteja disseminada. Não está. Pelo menos não a violência mais grave, a que envolve homicídios e crimes como o estupro. Quem conferir as estatísticas sobre homicídios no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde verá que a taxa de assassinatos de negros no Brasil é de 36 mortes por 100 mil, entre não negros, esta taxa é de 15,2. Quase todas as vítimas e, especialmente, os negros são pobres e moram nas periferias. A violência está concentrada ali. Os que residem no gueto não possuem saneamento, lazer, centros culturais, boas escolas ou hospitais. Os residentes destes batustões também não conhecem polícias capazes de proteger as pessoas. Não nos faltam prisões como Robben Island, a masmorra onde os racistas enterraram Mandela por 27 anos. Nos faltam Mandelas e nos sobram Vorsters e Bothas.
No Maranhão, 59 presos foram executados apenas em 2013. No cadeião de Pedrinhas, em São Luís, os chefes das facções criminais obrigam os presos a cederem suas irmãs e esposas para o estupro, sob pena de morte. O senador José Sarney em mensagem natalina, transmitida pela Rádio Mirante AM, uma das emissoras do seu império, vangloriou-se de que o governo de sua filha, Roseana, impediu que a violência que existe nos presídios atingisse as ruas. “Nós temos conseguido que aqui essa coisa não extrapole para a própria sociedade”, disse. Para Sarney, os presos e seus familiares não fazem parte da “sociedade”. Novamente, a lógica do apartheid que se pretende invisível e mudo; nós e eles, a “sociedade” e os que estão fora da “sociedade”. Até quando?
* Jornalista

SENTENÇAS

29 de dezembro de 2013 0

sentenças29EDWARD SNOWDEN, ex-técnico do governo americano, defendendo a privacidade em mensagem de Natal na televisão
“Uma criança nascida hoje crescerá sem qualquer concepção de privacidade.