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Artigo| Ano novo com ABS

29 de dezembro de 2013 0

TavaresPor que não
instalar um
sistema de freios
que bloqueie
o astucioso
suborno?

FLÁVIO  TAVARES*

A notícia de que a exigência de freios ABS passa a valer a partir do novo ano foi tão festejada que pensei, até, que não alcançasse apenas os automóveis. E se equipassem a engrenagem da vida pública com freios assim, rápidos e seguros, não só os novos carros? E se o freio ao roubo fosse obrigatório? E se a relação do público com o privado passasse a ter um sistema de travagem que não permitisse a corrupção, nem a inação ou o demagógico e vil engano da politicalha? Por que não instalar um sistema de freios que, com uma pedalada funda, bloqueie o astucioso suborno de empresários que alimentam políticos, altos e baixos funcionários só para multiplicar a cobiça própria?
Por que não criar uma mentalidade interna de freios na máquina pública (federal, estadual e municipal) em que cada centavo de imposto arrecadado se destine a um fim coletivo nobre, não a um corrompido bolso privado? Enfim, por que só os carros merecem tanto?
Sigla da expressão alemã Antiblockier-Bremssystem, o ABS impede o bloqueio da roda e a consequente derrapada quando se pisa no pedal do freio e o carro desliza, sem aderência ao solo. O ABS faz com que o atrito estático supere o cinético, o atrito do movimento, que naturalmente seria maior. O freio é instantâneo, numa inversão (localizada) da própria lei da física.
Por que não trasladar isto ao conjunto das relações entre o público e o privado? Ou aí se proíbe proteger a vida sã e honesta da sociedade?

***

A corrupção é uma derrapada brutal e tão comum que já soa a natural. Assim, bastaria um ABS geral e generalizado. Nem precisaríamos de bolsa de ar, isto que Camões chamaria de “air bag”, se vivesse hoje. Sim, pois a camoniana “air bag” funciona e nos protege só quando o freio falha. Ou quando um monstro inevitável surge à frente, sem sabermos de onde veio.
Se a “air bag” chega a se inflar e salta, salva-nos a vida, mas o carro se destroça. No conjunto geral no país, Estado e municípios, porém, do jeito em que vamos e da forma em que surrupiam, mentem e nos enganam, corremos o risco de que a bolsa de ar se abra e salte sem termos ABS! E que o carro continue a andar, batendo nos muros e atropelando gente.

***
Na matança da boate Kiss, em Santa Maria, quando tentaram pisar no freio, não havia freio. Os responsáveis por não haver trava alguma ao absurdo e à permissividade seguem impunes e o crime não tem autores nem responsáveis. Cada qual transfere a responsabilidade a outro, e esse outro a outro, e de novo outro a outro, num interminável jogo de espelhos, em que tudo é miragem e nada é real.
Tudo é, tão-só, um espelho de outro espelho… E o resultado desse jogo será, sempre, mentira ou engodo, ampliando a tragédia: os criminosos à solta, em casa. Ou na prefeitura, mandando nos santa-marienses, como se as vítimas fossem as culpadas por não saberem que aquilo era o que era, e que o beijo em fogo da Kiss asfixiava. E que 242 pessoas foram mortas assim!

***

Mas o novo ano de 2014 está aí e a esperança deve sobrepor-se a tudo, com vontade e otimismo, para que as coisas boas, bondosas e positivas de 2013 sejam nosso único guia. A sentença do juiz de Ibirubá, Ralph Moraes Langanke, condenando os criminosos adulteradores de leite, por exemplo, fecha o ano como síntese da esperança. Sim, pois só tendo consciência da maldade e identificando o crime podemos optar pela paz e encontrá-la onde estiver.
Não importa que esteja distante. Com persistência e vontade, haveremos de encontrá-la. Chegaremos lá, sem qualquer freio. Sem que nada nem ninguém nos possa travar.
Nem sequer o ABS!
* Jornalista e escritor

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