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Posts de dezembro 2013

Artigo| Esse vulcão chamado 2013

29 de dezembro de 2013 0

PugginaO vulcão de 2013
quer regurgitar
outra história.
De novo? Que
2014 nos
venha com
melhores ares

PERCIVAL PUGGINA*
puggina@puggina.org

De fato, 2013 foi inexcedível na capacidade de nos surpreender. Sua vocação apocalíptica exibiu-se em fenômenos climáticos, imensas tragédias e abruptos falecimentos. Também na política o ano se revelou um vulcão de surpresas que pareciam surgidas do éter. Sem que se soubesse como ou por quê.
Foi assim, por exemplo, que o povo saiu às ruas. Não era Carnaval, não havia trio elétrico, a Seleção não estava em campo. Justin Bieber e Beyoncé andavam longe daqui. No entanto, multidões de jovens, junto com cidadãos de todas as idades, tiraram os fones do ouvido, saíram do Face, meteram pé no asfalto e soltaram a voz ao vento. Tivemos, pela primeira vez em muitas décadas, mobilização popular espontânea. Não era “massa” e muito menos “de manobra”. Nada semelhante, tão autônomo, tão sem patrocínio, ocorrera antes por aqui. Brasileiros saíram às ruas esticando o cordel de insatisfações até então silenciosas. E elas cobriam todo o vocabulário das mazelas políticas, institucionais e morais do país. Desabituadas ao alvoroço popular, as instituições titubearam, gaguejaram. Transpiraram frio nos decotes e nos brancos colarinhos.
Enquanto isso acontecia, o vulcão chamado 2013 rugiu outra vez. Quatro grupos proporcionaram inédito vandalismo de rua, enfurecido e torrentoso. O primeiro grupo, dos falantes, era composto pela parcela irresponsável ou demente do mundo intelectual e acadêmico. “Pois que venha a violência!”, rosnava, exibindo os dentes. O segundo, o grupo dos paus-mandados do poder, cumpria a ordem de espantar da rua as incômodas demandas que o confrontavam. O terceiro, dos saqueadores, bandidos de profissão, aproveitava o caos que se estabelecia. O quarto, da mídia “politicamente correta”, reagiu com a hostilidade de sempre à ação das instituições policiais. E jamais denunciou o caráter fascista, escancaradamente fascista da violência que os vândalos desencadearam para afugentar das ruas a correta manifestação dos cidadãos.
Em julho, a mesma erupção derramou-se sobre a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, que aceitou, no chão, de cócoras, o maior achincalhe de que se tem registro na história dos Legislativos brasileiros. Militantes da violência invadiram o parlamento e ali permaneceram enquanto quiseram. Impuseram condições para sair. Comportaram-se, todo tempo, com ódio e insolência cultivados nos aparelhos comunistas, escolares e acadêmicos, onde lhes é servido o necessário à sua deformação cívica e moral: desleixo, drogas, nudismo, sexo grupal. E uma juíza, chamada aos fatos, presidiu a “negociação” com os fascistas de julho!
Em novembro, abriram-se as portas da Papuda para os primeiros réus do mensalão. Neste Brasil de 2013, algo que seria natural, uma vez transitadas em julgado várias sentenças, acabou enriquecendo a lista dos feitos extraordinários. Alvoroçou-se o partido do governo, desencadeando uma campanha para transformar os réus em mártires e o juízo do STF em linchamento! A história dos fatos vem sendo repaginada, como se Genoino não tivesse renunciado à presidência do PT por causa do mensalão. Como se Dirceu não tivesse saído da Casa Civil por causa do mensalão. Como se seu mandato não tivesse sido cassado pela Câmara dos Deputados (em votação secreta!) por causa do mensalão. Como se Lula, em rede nacional, não tivesse pedido perdão ao país pelo mesmo motivo. Não, senhores! As primeiras sanções aos réus ocorreram dentro do vosso próprio governo, dentro do PT e dentro do Congresso Nacional, ainda em 2005. Mas o vulcão de 2013 quer regurgitar outra história. De novo? Que 2014 nos venha com melhores ares.

*Escritor

Editorial| A impunidade nocauteada

28 de dezembro de 2013 1

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O quarto editorial sobre os principais fatos de 2013 aborda o mensalão e as controvérsias sobre o julgamento.

Ninguém acreditava, nem os próprios condenados, mas o processo judicial conhecido como mensalão resultou na prisão de personagens importantes da vida nacional, entre os quais um ex-ministro, vários parlamentares, empresários e banqueiros. Reconhecido como um dos maiores escândalos de corrupção da história do país,
a compra de apoio parlamentar pelo governo demorou mais de oito anos para ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal, mas acabou se transformando num golpe real na impunidade: dos 38 investigados pelo caso, 25 foram condenados em dezembro de 2012 e nove tiveram seus últimos recursos avaliados pela Corte em novembro último. Até a metade de dezembro, 17 condenados já estavam na cadeia e um, foragido no Exterior.
O julgamento ainda suscita controvérsias, especialmente por parte de dirigentes e militantes do Partido dos Trabalhadores, que sofreu um abalo na sua reputação em decorrência do envolvimento de figuras proeminentes da agremiação no pagamento de propinas a políticos. Mas a maioria da população brasileira apoiou integralmente a decisão colegiada da Suprema Corte, composta por 11 ministros, oito deles indicados por governantes petistas.
Apesar do inconformismo dos militantes do PT, os réus tiveram amplo direito de defesa e o julgamento não poderia ter sido mais transparente, pois todas as sessões da Corte tiveram cobertura permanente da imprensa. Durante várias semanas, o país acompanhou atento os debates entre os magistrados, as acusações do procurador-geral
da República e as defesas dos advogados. Nesse período, entraram para o vocabulário nacional termos jurídicos como a Teoria do Domínio do Fato _ pela qual é considerado autor de um crime a pessoa que, mesmo não tendo participado diretamente do ato infracional, decidiu, ordenou ou facilitou a sua efetivação _ e embargos infringentes, que são recursos cabíveis contra decisões não unânimes de segunda instância, desfavoráveis aos réus. O julgamento também transformou em celebridade o relator do processo e atual presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que se mostrou inflexível nas condenações.
Habituada a ver delinquentes poderosos escaparem impunes, parcela expressiva da população brasileira celebrou no último dia 15 de novembro, quando o Supremo decretou a prisão imediata de 12 réus condenados no processo. É exagero dizer que o desfecho da Ação Penal 470 assinala o fim da impunidade no país, até mesmo porque há processos semelhantes inconclusos, entre os quais o chamado mensalão tucano, que envolve um ex-governador mineiro. Mas não há dúvida de que foi o fato mais marcante de 2013 e tende a se transformar numa referência de moralidade para a política brasileira.
Ainda é cedo para se saber se a condenação dos réus do mensalão realmente inaugurará um novo tempo e contribuirá efetivamente para reduzir os casos de corrupção na administração pública do país. Porém, a partir da ampla exposição do episódio, já se percebe um significativo resgate da confiança dos brasileiros nas instituições democráticas e no poder dos cidadãos para exigir honestidade e integridade de seus representantes.

Artigo| Virando a página do ano velho

28 de dezembro de 2013 0

O momento
privilegiado não
será o que já passou
ou o que ainda
não chegou

GERSON SCHMIDT*
Sonora o barulho da garrafa aberta de espumante, no brinde de boas-vindas ao ano vindouro. “Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo…” ressoa a cantiga desafinada de um coro familiar improvisado e mal ensaiado. A atenção toda se volta para os fogos cintilantes e criativos, estourados na negritude do céu e desperdiçados para tão simplesmente atiçar a pupila dos olhos. Como os dias, as luzes vão se sumindo no céu estrelado, reprisando a monotonia de um ritual, tempo passado que não volta e de um futuro desejado, com mil propósitos de mudanças e incontáveis desejos de realizações, que  possivelmente nunca cheguem plenamente a se realizar, esvaindo as intenções tais quais os fogos explodidos no espaço. Tudo ameniza depois do ardor das comemorações e do encanto das paixões extasiadas no pico das festas de fim de ano.
Tudo termina e acaba em bebedeira, em farta comida e brincadeiras bobas e descontraídas de mais um ano que se vai, para nunca mais voltar. Sobram copos, pratos e corações vazios, insatisfeitos de uma festa que também passa como as vidas e as horas. Volto à realidade, o céu agora inerte, que cessa de brilhar. Dou-me conta que volto da órbita para a terra seca e inóspita do meu dia-a-dia, como ele é, com suas alegrias e intempéries. Percebo que minha fuga da faina diária me daria talvez ânimo, mas também me distancia do momento presente e histórico, no desejo de ser o que não sou, projetar o que nunca serei, prometer votos que nunca cumprirei, fantasiar sonhos e castelos de areia que águas salobras do mar da vida se incumbirão de aplainar pela cotidianidade. A normalidade da vida que levamos se incumbirá de deixar tudo no lugar, de corrigir os excessos, encarando a vida como ela é e, para não sermos tão lunáticos. Enfrentando a cruz de minha realidade, não querendo ser o que não sou, começo o ano sem ficar alienado.
É como Jesus Cristo um dia falou: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz diária e me siga…”. Hoje entendo que essa renúncia a si mesmo é assumir o que realmente sou, com minhas imperfeições e tiranias, destruindo todas as fantasiosas projeções de meu ego, que me alienam e pintam uma imagem egocêntrica e idólatra, narcisista e descompassada. Carregar a cruz própria é assumir a realidade concreta, os fracassos dos anos vividos que não movem mais moinhos, contudo projetam uma esperança de não repeti-los jamais da forma igual. O caminho errado que tomei em 2013 não se torna assim um mal qualquer ou percurso inútil, mas potencialmente necessário para um aprendizado em 2014. Para tanto, preciso conhecer a história para não ser fadado a repeti-la em suas lacunas. Por isso, o tempo é linear, o hoje fruto do ontem que o induz, sem o determinar, o hoje que influenciará no amanhã, sem o condicionar.
Nem o espaço, nem o tempo seriam problema se não fosse nossa imaginação criar fantasias da vida e de nós mesmos. Choramos a melancolia do passado ou idealizamos o futuro, num tempo psicológico que não existe ou que nos tira do momento sagrado em que vivemos: o tempo presente, a realidade nua a crua em que estamos mergulhados. O momento privilegiado não será o que já passou ou o que ainda não chegou. O tempo de agora é o que posso celebrar e construir. É o tempo sagrado, que os gregos chamam de kairós, o momento ímpar que a vida me permite viver. O tempo não é percebido sem movimento de algo anterior ou posterior, sem o relógio que o demarca, sem o homem que o define. Por isso, não é o ano que passa que foi bom ou ruim. Nem o novo ano como um pacote fechado e mágico que abrimos ou fechamos como caixinha de surpresas. Somos nós que definimos os dias ruins ou bons, diante dos acontecimentos que os caracterizam como tal, batizados por nós como prioridade ou posteridade, malévolos ou benévolos, com bônus ou ônus para nossas vidas. O ano novo será novo se eu o fizer assim.
Nas intenções e pretensões da virada de ano, concluo com a letra de uma música de Álvaro Socci, que ouvi por casualidade quando da elaboração deste texto: “Se for pra fazer a guerra, que seja de travesseiro. Se for pra ter solidão, que seja no chuveiro. Se for pra perder, que seja o medo. Se for pra mentir, que seja a idade. Se for pra matar que seja a saudade. Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo. Se for pra morrer que seja de amor. Se for pra tirar de alguém, que seja a sua dor”. Quiçá seja essa tua e minha nobre perspectiva para 2014.
* Padre e jornalista

Artigo| Em defesa do Julinho e da educação pública

28 de dezembro de 2013 2

Não aceitaremos
que os governantes
manchem a
imagem do Julinho

CRISTIAN NUNES*

Durante o ano de 2013, o jornal Zero Hora, fez uma pesquisa com os colegas da turma 11F. O objetivo era mostrar a situação da educação pública, analisando uma turma da “escola mais tradicional do RS”. Na reportagem publicada em 22/12, muito do que expõe a reportagem nós vivemos no dia a dia: falta de professores, evasão escolar, infraestrutura precária e graves problemas na implantação do politécnico. Até aí, está expressa uma realidade dura, mas que unidos temos lutado diariamente para melhorar.
No dia seguinte a essa reportagem, o secretário da educação Jose Clovis de Azevedo, deu uma entrevista na qual ataca nossa escola e seus professores. Ele diz que o que ocorre no Julinho é “um caso isolado”, que “não reflete a situação do Estado”. Mais adiante, afirma: “Temos hoje a maioria das escolas em processo avançado de implantação da reforma do Ensino Médio, entusiasmo de alunos e professores”. Mesmo sabendo da ampla reprovação que esta reforma tem entre os estudantes e professores, o secretário diz que há “entusiasmo” com essa política. Além disso, Jose Clovis diz que o questionamento dos professores ao politécnico é “uma fuga para não implementar o projeto”.
O governador Tarso Genro disse, com muita demagogia, que “ouviu a voz das ruas”. Porém, nós que estivemos nas manifestações que sacudiram o país em junho, gritamos bem alto que queremos mais dinheiro pra educação. Agora seu secretário coloca a culpa dos problemas da educação nos professores, que são apenas vítimas da falta de investimento e para quem o governador não é capaz nem de pagar o piso nacional, descumprindo inclusive a lei. Temos total acordo com a declaração da presidente do Cpers, Rejane de Oliveira: “Não vamos admitir que o governo jogue sobre os ombros dos trabalhadores sua incompetência e a falta de priorização da educação. Essa escola é o reflexo do que acontece em todas as escolas, não é um caso isolado”.
Não aceitaremos que os governantes manchem a imagem do Julinho. Já saímos às ruas em 2013 exigindo mais verbas pra educação. Em 2014, vamos vir com força redobrada. Declarações absurdas como estas do secretário Jose Clovis só nos fazem ter mais vontade de sair às ruas novamente, pois temos certeza que só assim podemos mudar a educação e o país como um todo.
* Coordenador do Grêmio da Escola Júlio de Castilhos e membro do Coletivo Estudantil Vamos à Luta

Editorial| Uma vida vale muito

27 de dezembro de 2013 0

27de12Este terceiro comentário sobre os principais fatos do ano defende, a partir da tragédia da boate Kiss, uma cultura de prevenção de riscos.

Quantas pessoas, e não apenas familiares e amigos, devem se perguntar ainda hoje, exatos 11 meses depois, o que poderia ter sido feito e não foi para evitar o horror, as centenas de mortos e feridos na boate Kiss, vítimas da ganância e da negligência? Mesmo com as dimensões da tragédia da madrugada de 27 de janeiro, o julgamento e a punição dos (ir)responsáveis por esse sofrimento sem fim pouco evoluíram. Os políticos tampouco conseguiram rever totalmente o cipoal de leis que, na prática, serve apenas para diluir responsabilidades. Inacreditavelmente, muitos outros jovens seguem submetidos ao risco imposto por quem privilegia vantagens e desconsidera a vida humana e por agentes públicos omissos, acomodados ou ineptos. Menos mal que a própria sociedade vem tomando consciência de seu papel e aprendendo a exigir segurança, a cobrar eficácia das autoridades e a agir por conta própria para proteger a vida.
Entre tantas iniciativas da população que a cada dia reforçam a corrente de solidariedade a Santa Maria, algumas procuram dar ênfase a uma cultura de prevenção. Tentam também ir além do risco real oferecido por lugares fechados, frequentados por um elevado número de pessoas, que mesmo assim negligenciam cuidados mínimos, como o uso de fogos, a falta de extintores, a insuficiência de pontos de saída em casos de emergência. Uma dessas ações preventivas foi lançada pelo Grupo RBS, numa parceria com o Ministério Público Estadual, voltada para a redução de riscos, sejam eles quais forem. A palavra-chave, no caso, é prevenção, incorporada como um conceito.
Alguém ainda duvida de que o uso do cinto de segurança, lentamente aceito como obrigatório nos veículos, não ajude a salvar vidas? Ou que ingestão de álcool e direção são inconciliáveis? Quem pode supor que uma arma à disposição de crianças não tende a resultar em acidente até mesmo letal? É igualmente crime, e não fatalidade, o que ocorre quando passageiros de algum barco morrem afogados por falta de equipamentos básicos de segurança. E não têm como ser considerados acidentes os registros de trabalhadores que se ferem ou até mesmo morrem por falta de cuidados elementares. No caso de crianças e jovens, sem muita noção sobre riscos, os cuidados por parte da iniciativa privada e o zelo esperado do poder público deveriam ser ainda maiores.
Uma transformação dessas proporções só pode ocorrer a curto e médio prazos. Por isso, exige persistência, para que haja maior rigor na observância de providências mínimas, quase sempre elementares, que podem evitar o pior. Nem o setor público nem o setor privado podem tolerar qualquer margem capaz de provocar danos a seres humanos, o que depende principalmente da incorporação de uma cultura preventiva.

Artigo| Judiciário, onde estás?

27 de dezembro de 2013 4

O pai, não raras
vezes, recebe
uma resposta
restringindo o seu
período de férias
com o filho

CLAUDIA GAY BARBEDO*

Nos últimos dias, anteriores ao recesso forense, não faltaram advogados batendo à porta do Judiciário com a finalidade de regulamentar a convivência das férias de verão entre pai e filhos. O ponto nevrálgico dessa questão é a resposta do Judiciário, quando provocado a se manifestar, que acaba, por cautela injustificada, restringindo a convivência de pai e filhos nas férias de verão. Pois só cabe convivência paterno-filial restritiva diante de atos que desabonem a conduta paterna, caso contrário, ela deve ser de forma ampliada e em igualdade de condições com o desfrute materno.
A provocação ao Judiciário ocorre porque, muitas vezes, a mãe, apropriando-se de um pensamento foucaultiano, vigia a relação paterno-filial e pune o pai, restringindo o seu acesso ao filho quando passa a impor poucos dias e horas de convívio, o que não deixa de ser um ato de prática da alienação parental. No entanto, o Judiciário deve estar atento à inconformidade da mãe com relação à regulamentação ampliada das férias de verão em favor do pai, pois, segundo Foucault, uma das tecnologias de poder, que é uma modalidade de acordo com a qual se exerce o poder de punir, são “marcas rituais da vingança”, especificamente, no Direito de Família retratada por uma dissolução conjugal mal conduzida. A modalidade acima é elucidativa, a fim de se depreender claramente que o pai está sofrendo no corpo a tecnologia de poder do fim do século 18.
Como nos diz José Camargo, em muitos dias as pessoas são acometidas pela sensação dilacerante de que lhes arrancaram pedaços vivos de afeto, sem reposição. A convivência paterno-filial regulamentada de forma restritiva enaltece o poder de punir da mãe, sem remorsos. Isso porque, com mais frequência, a alienação parental parte da mãe. Por ora, não há reposição do tempo perdido, mas é possível a construção de uma visão prospectiva a definir uma convivência materno-paterno-filial igualitária, salvo ato que desabone a conduta de um dos pais. Por isso a inquietude da pergunta: Judiciário, onde estás que restritivamente respondes? O pai recorre ao Judiciário para modificar essa situação, ainda mais quando se trata de criança mais nova e, não raras vezes, recebe uma resposta restringindo o seu período de férias _ janeiro e fevereiro _ com o filho, a uma semana ou no máximo quinze dias, restando a outra parte na totalidade para a mãe. Infelizes datas festivas de final de ano para aquele pai que lutou por um período de férias de verão em igualdade de condições com a mãe e teve uma resposta restritiva do Judiciário, sem qualquer ato que desabone a conduta paterna.
* Advogada, professora universitária Uniritter e diretora jurídica interdisciplinar do Instituto Proteger

Artigo! Uma nova realidade no esporte

27 de dezembro de 2013 0

A estruturação
ocorre no momento
em que o RS se
prepara para
sediar a
Copa do Mundo

KALIL SEHBE*

A promoção de eventos esportivos tem sido uma estratégia de países para a atração de investimentos e de atenção internacional. Atento à realidade, o governo do RS criou a Secretaria do Esporte e do Lazer (SEL) em 1º de janeiro de 2011. Para estruturá-la, foi instituído o Comitê Gestor da Copa do Mundo, promovida uma ressignificação da Fundação de Esporte e Lazer do RS (Fundergs), criado o Conselho Estadual do Esporte e do Lazer e aprovada a Lei Estadual de Incentivo ao Esporte. Tudo respaldado em marcos legais.
A Conferência Estadual de Esporte e Lazer teve oito etapas com 204 municípios representados e mais de 1,2 mil participantes. Melhorar a infraestrutura, qualificar profissionais, promover inclusão social, apoiar atletas para o rendimento e democratizar investimentos foram os principais apontamentos, já cumpridos à risca.
Por meio da Lei Estadual de Incentivo ao Esporte, empreendedores gaúchos são incentivados a apoiar talentos e o esporte como atividade educativa e integradora. Mais de R$ 50 milhões já foram liberados para projetos. O percentual de 25% é destinado ao Fundo Estadual do Esporte que sustenta a bolsa-atleta e a bolsa-técnico.
O acesso ao fomento público está em todas as regiões por meio dos Polos Regionais de Desenvolvimento do Esporte. Já são cerca de 1 mil convênios pagos, realizados e auditados pela Fundergs, beneficiando mais de 1 milhão de pessoas com investimentos que já superam R$ 20 milhões.
Foram revitalizadas as competições escolares e universitárias e criado o Campeonato Escolar (Cergs). O RS é sede do maior campeonato de futebol de várzea do mundo, envolvendo mais de 200 municípios e 80 mil atletas. Parajirgs, Paracergs, competições para surdos, idosos e indígenas, Programa RS na Paz _ 18 áreas esportivas construídas _ e Bola Comunitária em parceria com a Cufa são algumas ações de integração social.
Mais de 4 mil pessoas são atendidas diariamente no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete). Profissionais de educação física, fisioterapia e psicologia dão total acompanhamento aos frequentadores. Um plano pedagógico permite a identificação de talentos e a formação de atletas em modalidades como atletismo, ginástica, judô, voleibol e badminton.
A estruturação do esporte no Estado ocorre no momento em que o RS se prepara para sediar a Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014. O trabalho é para que o evento, além de recebermos grandes seleções e turistas, proporcione legados na segurança e na saúde pública, na infraestrutura, em tecnologia e na área ambiental, tudo com total transparência. Além do legado físico, investimos na capacitação profissional.
A sociedade gaúcha respaldou nossas ações. Em três anos, os valores para o esporte por meio da Consulta Popular aumentaram de R$ 150 mil para R$ 5 milhões. Em 2013, cerca de 240 mil cidadãos priorizaram o esporte. Com o entrosamento, poder público e os diversos atores sociais seguem juntos na efetivação de uma política de Estado, perene e de muito sucesso.
* Ex-secretário estadual do Esporte e do Lazer e Coordenador Geral do Comitê Gestor da Copa do Mundo 2014/RS

Editorial| O Brasil nas ruas

26 de dezembro de 2013 0

Neste segundo editorial da série de análises de 2013, a RBS opina a respeito das manifestações de junho e dos seus resultados
para o país.

 26de12

Quem nos representa no Brasil, sejamos nós jovens ou nem tanto, crianças ou idosos? Desde junho último, quando brasileiros começaram a ocupar as ruas, contagiados pela força da juventude, ficou claro que não são mais os políticos tradicionais, ou pelo menos não apenas eles, nem outros clássicos porta-vozes. Mobilizados basicamente pelas redes sociais, com hashtags como #VemPraRua, #OGiganteAcordou e #MudaBrasil, os manifestantes recorreram a contrastantes pedaços de cartolina, rabiscados à mão, para alardear essas mensagens relevantes. “Tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz”, resumia um dos pôsteres. Por trás da máscara do personagem Guy Fawkes, de V de Vingança, porém, entre as boas intenções dos manifestantes de maneira geral e excessos de grupos como os black blocs, o recado foi dado. O país pode não ter despertado de vez, nem ter se transformado como sonhavam os ativistas, mas já não é o mesmo.
Motivados inicialmente pelo alto custo e a baixa qualidade do transporte público, os protestos deixaram grafados desde o início: “Não é por 20 centavos, é pelo meu futuro”. Em seguida, miraram os investimentos da Copa, com a ressalva: “Não é contra a Seleção, é contra a corrupção”. Em outras mensagens escritas, os manifestantes passaram a exigir “Saúde padrão Fifa”, a ironizar que “Ia ixcrever augu legau mais faltô edukssão”, a pedir segurança com frases do tipo “Por favor, não me bata! Proteja-me”, a alertar a classe política de que “Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”. Diante de apelos transcritos também em pôsteres com referências a clássicos da música brasileira como “Brasil, mostra tua cara” e “O dia vai raiar, sem lhe pedir licença”, dirigentes brasileiros dispuseram-se finalmente a ouvir mais a voz das ruas, a discursar e a ostentar menos, a mudar a agenda, a fazer diferente, a reconhecer erros.
Em muitas capitais, a tarifa de ônibus urbano diminuiu, mas a discussão não se limitou aos 20 centavos: hoje, a mobilidade urbana é tema central, o espaço público entrou na pauta da sociedade e a bicicleta se firma como símbolo da mudança. O Planalto se deu conta da gravidade do estado da saúde pública. Mas, por enquanto, as mudanças são percebidas mais por meio de iniciativas polêmicas, como o Mais Médicos, enquanto persiste o medo nas ruas e os professores continuam longe de ter “o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol”. O Congresso preocupou-se em impor mais rigor a crimes envolvendo corrupção, tornou suas votações mais transparentes em alguns casos, facilitando o acompanhamento por parte dos cidadãos. Continua, porém, devendo uma reforma política ampla. Ampla o suficiente para levar os eleitores a recuperar a confiança perdida em seus representantes escolhidos pelo voto.
A exemplo de outros movimentos disseminados pelo mesmo processo de “propagação viral” como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e os Indignados, na Espanha, o nosso não conseguiu tornar reais todos os desejos manifestados nos cartazes. Depois de junho de 2013, porém, o relacionamento entre instituições públicas e privadas com seus públicos, nelas incluídas a própria mídia, nunca mais será o mesmo. O legado das manifestações populares terá mais consistência se contribuir para reforçar a cidadania e a ética entre os brasileiros.

Artigo| A verdade é moderna

26 de dezembro de 2013 0

A essa altura,
ninguém realmente
acha que uma
embalagem
de produto possa
conter felicidade

EDUARDO AXELRUD*

Responda rápido: qual o elemento mais importante atualmente em uma campanha publicitária?
A criatividade? A ousadia? A originalidade?
Não, meu amigo. Hoje, mais do que todos esses elementos, nada funciona tanto quanto a verdade. E talvez nada seja tão difícil de se alcançar.
Vemos todo dia imagens lindas e textos edificantes em comerciais vendendo estilos de vida idealizados. Comerciais que enaltecem as virtudes dos anunciantes e que, obviamente, deixam de lado seus defeitos. Já dizia um professor meu na faculdade de Comunicação: a diferença entre um jornalista e um publicitário é que se você der um mesmo fato para os dois, o publicitário vai descobrir um jeito de embelezá-lo ao máximo, e o jornalista vai achar uma maneira de contar pelo pior ângulo possível.
Deixando de lado os estereótipos, tenho a sensação que o jornalismo descobriu há muito mais tempo que nós, publicitários, o valor da verdade. E a propaganda só agora está chegando a essa mesma conclusão. Estão aí as redes sociais que não me deixam mentir. Literalmente. Num tempo de Facebook, o embelezamento, o dourar da pílula e a distorção da verdade tem as pernas cada vez mais curtas.
Esse novo cenário acaba influenciando não só as ações das empresas por trás das marcas, mas inclusive o conteúdo daquilo que comunicam. E me permito acrescentar que o efeito disso é ótimo, tanto para nós publicitários como para o produto do nosso trabalho.
Tivemos recentemente uma experiência excelente nesse sentido. Ao criar o comercial com a mensagem de final de ano para um banco, percebemos que precisávamos sair do lugar-comum de muitas marcas que trazem o tema da felicidade. E resolvemos partir para um discurso mais real, assumindo o limite da atuação do banco na vida de seus correntistas. Ou seja, os produtos do banco podem ajudar você a adquirir bens materiais. Mas não vão garantir sensações de liberdade, de bom uso do tempo, ou mesmo de respeito. Isso é com você.
Ao contrário do que muitas vezes acaba fazendo parte do discurso publicitário, a geração de sentimentos como esses não competem às marcas. Até porque, a essa altura do campeonato, ninguém realmente acha que uma embalagem de produto possa conter felicidade.
A verdade é algo que sempre esteve aí.  Mas por incrível que pareça, hoje ela é o elemento mais moderno à disposição dos publicitários e das marcas. Vencerá quem perceber isso e colocar em prática na sua empresa. E na sua comunicação.

* Vice Presidente de Criação da agência Competence.

Artigo| Os médicos no olho do furacão

26 de dezembro de 2013 1

Todos sabem
que na hora
da dor, do
sofrimento, do
desespero,
poderão contar
com um médico

FERNANDO WEBER MATOS*

‘Nunca antes na história deste País’  _ para usar uma das tantas fanfarronices do ex-presidente Lula, o mesmo que ousou afirmar que a saúde pública brasileira estava se aproximando da excelência _ os médicos brasileiros foram tão afrontados e ofendidos como neste ano, que está se esvaindo como a energia e a esperança de milhares de pacientes que padecem nas filas do SUS esperando por atendimento, exames e cirurgias.
Acusados de rejeitarem trabalhos nos pontos mais distantes e na periferia das grandes cidades, os médicos foram jogados no olho do furacão por um governo acuado diante das manifestações que sacudiram o país no meio do ano, cobrando combate efetivo à corrupção e clamando por mais hospitais e menos estádios de futebol.
De repente, os 400 mil médicos formados em cursos de medicina brasileiros, chancelados pelo Ministério da Educação, foram considerados insuficientes para suprir a demanda da população, em especial a mais carente. Se lá atrás, quando o Cremers e outras entidades do setor sugeriram a criação de um plano de carreira médica no SUS, a proposta tivesse sido considerada e, principalmente, implementada, não haveria a necessidade de importar médicos.
Hoje, os postos de saúde das periferias mais humildes e dos municípios mais longínquos teriam não apenas médicos, mas uma estrutura mínima realmente eficaz para acolher e tratar os pacientes de forma digna. O governo teria um quadro fixo de médicos concursados, realmente qualificados e preparados, distribuídos por todo o País, sem a necessidade de importar profissionais de formação bastante duvidosa, já que não lhes é exigida a revalidação do diploma.
Por mais que os gestores da saúde queiram responsabilizar os médicos pelas mazelas da saúde, os fatos comprovam que pirotecnia não resolve a falta de leitos, a superlotação das emergências e, pior de tudo, os enfermos que morrem antes de realizarem os exames necessários.
O que conforta a nós, médicos, é que todos sabem, inclusive os que jogam sobre os ombros da classe médica uma responsabilidade que não é sua, que na hora da dor, do sofrimento, do desespero, poderão contar com um médico. E, se puderem escolher, pedirão para serem atendidos por um médico com formação no Brasil. É isso que nos fortalece e nos faz acreditar que o ano de 2014 será melhor para a medicina brasileira.
* Presidente do Cremers