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Posts de janeiro 2014

Editorial| O ranking do analfabetismo

31 de janeiro de 2014 1

140131princSEX_webO Brasil enfrenta mais um constrangimento mundial com a divulgação do ranking de analfabetos adultos, no qual ocupa a oitava posição em números absolutos. Autoridades brasileiras já advertiram que a posição deve ser relativizada, considerando-se a população do país. Uma nação com dimensões continentais estará propensa a frequentar estudos que levem em conta o número de habitantes. Mesmo assim, esse tipo de argumentação é apenas um consolo. Sob qualquer ponto de vista, o Brasil está mal em educação, e não só em relação ao nível de aprendizado de adultos. No caso específico, o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, divulgado nesta semana pela Unesco, um órgão da ONU, apenas reafirma que as políticas públicas não vêm alcançando os resultados assumidos em compromissos, como as metas a serem perseguidas até 2015.
São mais de 10 milhões de adultos que não sabem ler e escrever, um contingente que torna sem sentido o objetivo de universalizar a alfabetização até o ano que vem, assumida em 2000. A própria Unesco admite, ao divulgar o documento, que o Brasil não conseguiu superar os desafios por ser uma nação populosa e heterogênea. É uma constatação que exige a renovação dos compromissos, até porque os países à frente em números de analfabetos _ Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia, Egito _  poderão recorrer aos mesmos argumentos. Apesar do tamanho do país, das diferenças regionais e das disparidades de renda, o Brasil já conseguiu superar ou amenizar outros obstáculos, como os da área econômica, mas continua fracassando na educação.
Nesse contexto, merece reflexão a observação da coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, segundo a qual a alfabetização de adultos tem efeitos em cadeia, a começar pelo mais imediato, que é o da melhoria de renda. Um adulto alfabetizado, se continuar estudando, aumentará seu ganho médio em 10% a cada ano de escolaridade. O mais importante é o ganho social. Adultos que dominam a leitura e a escrita têm melhora de autoestima. Pais alfabetizados afirmam ainda mais sua autoridade diante dos filhos e se fortalecem como referência e inspiração. Especialistas têm apontado uma relação evidente: o êxito do aprendizado de crianças e adolescentes é facilitado por familiares que tenham um histórico escolar capaz de servir de exemplo.
Considerada parte essencial de programas de transferência de renda, a educação continua desafiando as políticas públicas. Mesmo com o Bolsa Família, adultos analfabetos tendem a se conformar com o mau rendimento dos filhos, até porque são incapazes de uma avaliação, e até mesmo a mantê-los fora da escola. Atacar o analfabetismo dos adultos significa, diretamente, melhorar as condições de vida das crianças que deles dependem.

Editorial| A marca da transparência

31 de janeiro de 2014 0

A troca de comando no Legislativo gaúcho é também a oportunidade para um breve balanço da atuação dos representantes parlamentares e do desempenho da administração que conclui o seu mandato. Sob o comando do deputado Pedro Westphalen, a Assembleia manteve o foco na transparência e racionalizou gastos, como comprova a extinção do 14º e do 15º salário dos parlamentares _ vantagens injustificáveis que já se estavam tornando permanentes. Com a divulgação dos salários dos servidores, a redução de ajuda de custo aos parlamentares e a publicação sistemática de gastos em seu portal, o parlamento rio-grandense conquistou o reconhecimento da ONG Transparência Brasil, como o que melhor atende os critérios de informação ao público.
Ainda que a produtividade de alguns parlamentares possa ser questionada _ e cabe aos eleitores fazer isso, especialmente no momento de decidir pela recondução ou alternância no mandato, _ o colegiado contabilizou pelo menos uma grande conquista no ano recém-findo, que foi a aprovação de uma nova legislação de prevenção e combate a incêndios. No exame dessa matéria, o parlamento demonstrou sensibilidade em relação a uma demanda social e mais agilidade do que o Congresso Nacional, que deixou de lado a questão tão logo a comoção popular diminuiu.
É de se esperar, neste momento de transição, que o deputado Gilmar Sossella assuma a presidência da Casa renovando o compromisso com a austeridade e com a transparência, para dar continuidade ao trabalho de recuperação da imagem do parlamento. Ainda há muito para avançar. Um novo passo adiante, por exemplo, seria estimular os deputados a justificar detalhadamente seus gastos no site da transparência ou mesmo em seus canais de comunicação com o público.

Artigo| A casa da amante

31 de janeiro de 2014 0

O STJ entendeu
que o direito
de habitação
também se estende
à concubina

JOSÉ CARLOS TEIXEIRA GIORGIS*

Um dos temas recorrentes nos tribunais é sobre as “famílias simultâneas”, ou seja, a existência de núcleos paralelos ao matrimônio com o reconhecimento de efeitos jurídicos para um dos integrantes desta parceria. Se o cônjuge está separado de fato de sua esposa, a situação está protegida como união estável; mas se o casamento persiste, instalou-se no código figura híbrida e mal desenhada que se denomina “concubinato” para as relações não eventuais entre homem e mulher impedidos de casar.
Assim são frequentes as refregas previdenciárias em que a viúva e a concubina disputam a pensão deixada; ou o patrimônio havido, com resultados pendulares conforme a natureza da Corte.
Em palestras, procura-se alvoroçar os alunos advertindo-os de que, em breve, os manuais cuidarão do assunto como “direitos da amante”, em prol do desgaste que o vocábulo concubina sofre há centúrias, o que exige sua substituição por outro que lhe dê dignidade jurídica, como aconteceu já com outros preconceitos empalidecidos.
É verdade que tais células pouco manifestas, em muitos casos, abrigam típicas famílias, com notoriedade, descendência e até comunhão de vida, embora o varão persista (con) jungido aos laços originais, em esperta duplicidade de vida: aqui o julgador titubeia ante a forte aparência de um concubinato puro e nas sérias consequências de seu veredicto.
A lei ordena que a viúva (ou viúvo) tem o direito de permanecer morando no imóvel em que a família residia desde que único daquele tipo a inventariar; essa garantia, embora não escrita para a companheira (ou companheiro), é admitida pelos tribunais também na união estável, repita-se, vínculo entre pessoas desimpedidas ou separadas de fato.
Pois bem, em decisão recente, o Superior Tribunal de Justiça entendeu, por escassa vantagem, que o direito de habitação _ nome do instituto acima referido _ também se estende à concubina.
O caso julgado foi o seguinte: um respeitável cidadão habitava com sua família em imóvel alugado; e há muitos anos convivia com outra, mas num apartamento que estava em seu nome, sem que sua linhagem soubesse, fato que despertou no falecimento; partilhado esse único bem, tentou-se desalojar a ocupante que, por óbvio, retrucou com seu privilégio. E venceu.
Como diz o jargão forense, é necessário examinar os argumentos em que se ancora o acórdão, pois cada precedente tem sua peculiaridade e nem sempre veste todas as hipóteses.
As amantes estão atentas aos derradeiros recursos.

*Desembargador aposentado

Artigo| Inclusão e diversidade

31 de janeiro de 2014 0

Precisamos
desburocratizar
as relações
entre Estado,
sociedade
e entidades

ANA AFFONSO*

Os Pontos de Cultura formam uma das políticas mais transformadoras surgidas no país. Possibilitam a inserção social, econômica e cultural de grupos tradicionais, folclóricos e de comunidades distantes, economicamente menos favorecidos e historicamente à margem das políticas públicas. Promovem o protagonismo, a autonomia e a articulação em rede com produção colaborativa, compartilhamento de saberes e gestão articulada entre sociedade civil e poder público. Através deles e do recente processo de democratização do acesso aos recursos públicos povos quilombolas, comunidades indígenas, grupos de cultura tradicionais, comunitários, urbanos e rurais foram ganhando espaço e visibilidade.
A valorização dos Pontos de Cultura e a regulamentação da Lei Cultura Viva (PLC 70/2013), que institucionaliza a política nacional de cultura, educação e cidadania, foram dois dos temas mais debatidos por gestores, produtores, artistas e representantes do setor durante a Conferência Nacional de Cultura, realizada no final de 2013 em Brasília. A institucionalização dos Pontos de Cultura no estado também foi sugerida durante a audiência pública A Lei Cultura Viva e a Experiência dos Pontos de Cultura, realizada em dezembro pela Comissão de Educação e Cultura (CECDCT) da Assembleia Legislativa, na Casa de Cultura Mário Quintana.
Na ocasião, ao criticar a desconfiança e a burocracia que ainda predominam nas instâncias públicas, a comunidade cultural defendeu alterações no processo de financiamento e prestação de contas. Precisamos, de fato, desburocratizar as relações entre Estado, sociedade e entidades que produzem cultura, ampliar a cidadania e os direitos culturais.
No Rio Grande do Sul, houve um progressivo incremento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que possibilita aporte direto de recursos para entidades e grupos culturais, mas é preciso avançar, priorizar a destinação dos recursos do FAC para os Pontos e Pontões de Cultura. Hoje, a Rede RS Pontos de Cultura, articulada entre Ministério e Secretaria de Estado da Cultura, já selecionou 82 grupos e abriu edital para conveniar com mais 78, totalizando 160 grupos até o final de 2014.
É importante simplificar e flexibilizar os convênios e repasses dos recursos de Estado para entidades e grupos culturais informais, com contrapartidas justas e sem burocracia, ajudando os mais necessitados e culturalmente representativos. A Política Estadual de Cultura Viva, que tramita em forma de Projeto de Lei na Assembleia Legislativa, busca justamente isto: fortalecer e ampliar os Pontos de Cultura, consolidando a estratégia de valorizar a diversidade cultural nas políticas públicas, proporcionando um novo olhar para a arte popular.

*Deputada estadual, presidente da Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa

Artigo| Alguma coisa está fora da ordem

31 de janeiro de 2014 0

O aquecimento
global representa
enorme
desafio para
a humanidade

GERVÁSIO PAULUS *

Notícias de eventos climáticos extremos, registrados em diferentes regiões do planeta, têm sido cada vez mais recorrentes e frequentes. Atualmente, as informações dão conta de nevascas fora do comum no hemisfério norte e altas temperaturas no sul.
Segundo o glaciologista Jefferson Cardia Simões, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera e professor do Instituto de Geociências da UFRGS, nunca a concentração de gases que contribuem para a ampliação do efeito estufa foi tão alta quanto no presente. A rigor, como explica Simões, o problema não reside na ocorrência em si do efeito estufa, já que se trata de um fenômeno natural que existe há muitos milhares de anos, e sim na intensificação deste, decorrente da ação humana, principalmente após o início da Revolução Industrial, levando a um aumento de 40% na concentração do CO2 nos últimos 200 anos.
De acordo com informações preliminares do relatório a ser divulgado em abril pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a menos que o mundo aja agora para frear as emissões de gases do efeito estufa (GEEs), os efeitos negativos do aquecimento global representarão enormes desafios para a humanidade ainda neste século, tornando-se cada vez mais caros e difíceis de serem resolvidos.
Até mesmo o sisudo Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, passou a colocar o tema das mudanças climáticas na agenda central do encontro anual. Conforme o Relatório de Riscos Globais divulgado pela entidade, os eventos climáticos extremos são apontados como um dos riscos mais prováveis para o nosso planeta, podendo criar choques sistêmicos em escala global. As mudanças climáticas também foram consideradas como um risco relevante, sendo classificadas como o segundo maior em possíveis impactos. O relatório destaca a grande correlação entre as mudanças climáticas e a frequência dos eventos climáticos extremos, e sugere que os dois juntos talvez sejam o maior risco enfrentado hoje, sob diversos aspectos.
Muitas das medidas anunciadas para frear as mudanças climáticas causadas pela ação humana são paliativas. Frente à gravidade da situação e ao iminente risco de colapso do processo civilizatório, são necessárias ações profundas, que alterem o paradigma do atual modelo de desenvolvimento hegemônico, altamente energívoro e baseado no consumo ilimitado dos bens naturais que são finitos.

* Diretor técnico da Emater/RS

Interativo| Editorial diz que é direito e dever da polícia reprimir depredadores. Você concorda?

30 de janeiro de 2014 20

Zerohora.com adianta o editorial que os jornais da RBS publicarão no próximo domingo para que os leitores possam manifestar concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados. Participações enviadas até as 18h de sexta-feira serão selecionadas para publicação na edição impressa.
Ao deixar seu comentário, informe nome e cidade.

Editorial Interativo

Para participar, clique aqui

ATIVISTAS E DELINQUENTES

As inesperadas manifestações populares de junho do ano passado trouxeram muitas lições para o país, entre as quais a de que os jovens da era digital têm consciência social e a de que as instituições tradicionais (governos, políticos, imprensa etc.) precisam se qualificar para recuperar a confiança do público. Mas os protestos também serviram para evidenciar a diferença entre os brasileiros que efetivamente lutam por um país melhor e aqueles que se aproveitam de situações de descontrole para agredir, depredar e defender interesses obscuros. E isso está ficando cada vez mais claro nesta nova onda de mobilizações que atinge as principais capitais, a maioria sob o pretexto de boicote à Copa do Mundo.
A violenta reação popular contra um jovem identificado como integrante do movimento Black Bloc, em São Paulo, é a prova de que os brasileiros começam a tratar de forma diferente manifestantes e delinquentes.
Protestar contra a Copa pode _ ninguém está confortável com os gastos volumosos de recursos públicos nos estádios e nas obras de infraestrutura. Reclamar transporte público qualificado e tarifas razoáveis também é legítimo, considerando-se que este é um serviço essencial malcuidado pelos governantes. O que não é civilizado nem aceitável é queimar ônibus, quebrar vidraças, atacar bancos e prédios públicos, fazer arrastões e jogar pedras na polícia. Isso é delinquência.
As polícias brasileiras precisam ser mais prestigiadas. Da mesma maneira como devemos exigir policiais bem preparados para defender os cidadãos, sem abusar do poder que lhes foi conferido pela população, também temos que valorizar o trabalho desses servidores encarregados de manter a ordem pública. Por uma dessas deformações sociais difíceis de entender, começou a recair sobre os policiais brasileiros uma série de restrições. Mesmo quando chamados a controlar tumultos, eles são criticados por prender e por fazer uso de suas armas, mesmo quando se defendem de agressões. Ora, democracia não é exatamente isto.
Se não podemos aceitar policiais que agridem imotivadamente, também não podem nos servir policiais que não agem nem reagem. Se reconhecemos que há delinquentes entre os manifestantes, o mínimo que se pode esperar é que os policiais os reprimam para proteger os cidadãos. Melhor uma polícia ativa e eficiente do que a justiça pelas próprias mãos, como tentaram fazer os participantes de um evento em São Paulo ao identificar o black bloc mascarado protestando contra a Copa.
Depredadores e incendiários não podem mais ser chamados de manifestantes. Estes nasceram da democracia, aqueles querem assassiná-la.

 

Para que possamos avaliar seu comentário sobre este editorial, com vistas à publicação na edição impressa de Zero Hora, informe seu nome completo e sua cidade.

Editorial| Paralisação absurda

30 de janeiro de 2014 3

140130princQui_webOs porto-alegrenses ficaram ontem sem um serviço considerado essencial pela legislação, num evidente abuso do direito de greve assegurado pela Constituição. Ao impedir que a totalidade da frota de ônibus da Capital saísse às ruas, as lideranças do Sindicato dos Rodoviários, respaldadas pela categoria, incorreram em infração à lei e em desobediência judicial, uma vez que o Tribunal Regional do Trabalho havia determinado que 70% dos veículos circulassem nos horários de maior demanda. Essa atitude de confrontação, somada à omissão dos empresários do transporte e à leniência das autoridades, deixou a população desassistida e refém de uma situação verdadeiramente angustiante. Milhares de pessoas não puderam se deslocar para o trabalho e para outros compromissos, muitos tiveram que pagar tarifas mais elevadas para andar de lotação ou táxi, e a economia contabilizou prejuízos variados.
Todos perderam com o impasse. Até mesmo os trabalhadores rodoviários, que aparentemente alcançaram o objetivo de não deixar os ônibus circularem. Eles perderam, principalmente, o apoio da população para a sua causa e agora vão para a negociação com a imagem de descumpridores de acordo, como estão sendo considerados pelo tribunal mediador.
A greve é um instrumento legítimo dos trabalhadores para ser utilizado na busca de melhores salários e de condições dignas para o exercício de qualquer profissão.
Mas o serviço de transporte público, como o de fornecimento de água, energia elétrica, assistência à saúde e outros mais, constitui um direito essencial da coletividade _ portanto, um direito maior do que as prerrogativas de uma categoria profissional. Não pode ser negado totalmente, como foi ontem e como tende a ser hoje novamente, antes da nova rodada de negociações.
A paralisação absurda e insensata tem ainda um outro componente que precisa ser debatido pela sociedade. Os proprietários de empresas de ônibus e o próprio prefeito de Porto Alegre, que em última análise é o responsável pela Carris, alegam que não tiraram os ônibus das garagens por medo de depredação _ o que, efetivamente, aconteceu com alguns veículos na noite de terça-feira. Trata-se de outra rendição inaceitável. Jogar pedra em ônibus, além de covardia, é um crime. E crimes precisam ser coibidos pelas forças de segurança. Não há como transigir em relação a isso.
Sem a restauração da lei e da ordem, fica difícil defender o diálogo, a livre manifestação e o respeito às reivindicações dos trabalhadores, que são os caminhos adequados numa democracia. Como dispensar consideração a quem desconsidera o sofrimento e as necessidades dos usuários do serviço de transportes?

Editorial| Lei anticorrupção

30 de janeiro de 2014 0

O país espera que os fatos confirmem o otimismo do ministro-chefe da Controladoria-Geral da União com a entrada em vigor da nova lei anticorrupção. A norma pretende acabar com a impunidade dos corruptores e teve a acolhida entusiasmada do senhor Jorge Hage, que de certa forma reproduz as expectativas de todos os que lutam pela moralização das relações privadas com o Estado e com o uso de recursos públicos. Pela lei, finalmente os proponentes de delitos, como propinas, superfaturamento e outros crimes que envolvem a conivência de agentes de governo, serão responsabilizados não só como pessoa física, mas também como pessoa jurídica. Deixarão de circular livremente, como acontecia até agora, além dos prepostos que agem em nome de quem os emprega, também os donos das empresas. As próprias organizações privadas condenadas terão que devolver o que foi desviado e ainda pagarão multa de até 20% do faturamento.
Todos estarão agora ao alcance da lei, tanto na União quanto nos Estados e nos municípios. A nova norma corrige uma distorção, que reparava apenas parcialmente os danos causados aos cofres públicos. Emissários de empresas e seus controladores passam a fazer companhia a funcionários do governo que perderam o emprego por envolvimento com casos de corrupção e outras irregularidades. Ao contrário do que indica a percepção média, os servidores são, sim, punidos no Brasil. Em 10 anos, até 2013, o governo federal expulsou 4,5 mil servidores. Só no ano passado, foram mais de 400, a maioria por corrupção. É o resultado do aperfeiçoamento dos controle da CGU, que devem ser imitados por governadores e prefeitos.
Também as empresas terão de melhorar seus sistemas internos de vigilância, porque a lei desqualifica a desculpa de que os corruptores agiam por conta própria. Mais importante do que punir, como observa o titular da CGU, é que casos semelhantes venham a ser evitados e que governos, polícia, Ministério Público e Justiça tenham, pela prevenção, menos casos para investigar e julgar.

Artigo| Chega de burocracia!

30 de janeiro de 2014 0

Será que criar
um processo
mais ágil para
a liberação de
um alvará
é algo impossível?

HENRY CHMELNITSKY*

Cada ser humano é inestimável. Aprendi com o judaísmo o conceito de Pikuach Nefesh. De acordo com esse princípio, a preservação da vida humana prepondera perante praticamente qualquer preceito religioso ou interesse pessoal. Quem salva uma vida salva a humanidade, sustenta o Talmud, um dos livros sagrados do judaísmo.
Uma sociedade, para ser transformadora, deve levantar a bandeira da luta por processos estruturantes, ter atitude e coerência frente ao discurso fácil do poder público. Nós, líderes de uma categoria que emprega milhares de pessoas, somos, antes de tudo, cidadãos que buscam uma sociedade mais justa. Precisamos combater as causas que geram irregularidades e que podem levar a novas tragédias. Somos honestos e queremos trabalhar dentro da lei. Chegou o momento dos poderes municipal, estadual e federal enfrentarem esta demanda. Chega de burocracia!
Devem ser criadas ferramentas e processos que agilizem as liberações de alvarás. Os órgãos reguladores devem ser rígidos, fiscalizadores, atuantes, evitando a burocracia que alimenta a corrupção e coloca em risco nossa sociedade, desestimulando os empreendedores que desejam contribuir, de forma legal, com o desenvolvimento da economia.
O que impede o poder público de ser transformador e criar processos estruturantes de longo prazo? Por que nossos políticos são tão reacionários, inconsequentes na sua forma de governar? Será que criar um protocolo único e um processo mais ágil para a liberação de um alvará é algo impossível de ser implementado?
Faço um apelo aos nossos políticos para que tenham coragem de romper as amarras que tornam a nossa sociedade um terreno fértil para a corrupção. Tenho a convicção de que os representantes de nossa categoria desejam abrir suas portas de acordo com a lei, tendo orgulho de ter seu alvará exposto ao público, sabendo que agiram como cidadãos conscientes de suas responsabilidades. Quem salva uma vida salva a humanidade.

*Presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre

Artigo| Pecuária: memória e cenários

30 de janeiro de 2014 0

Costuma-se
observar que
a carne do gado
de origem europeia
é de melhor qualidade

GUILHERME SOCIAS VILLELA*

Há algumas décadas, a pecuária era o setor mais importante da economia do Rio Grande do Sul. Sua cadeia de negócios era predominante no produto interno regional. O seu vigor político e social sobressaía. Até mesmo conseguiu aprovar uma inusual tentativa de integração do tipo produção-consumo de seus produtos. Assim, a carne bovina produzida nas estâncias e fazendas (participação do setor privado) teria sua sequência nos abatedouros e em açougues (participação estatal). O sistema preconizado teve patrocínio do extinto Instituto de Carnes _ uma entidade estatal que patrocinou as desapropriações das chamadas “marchanterias” (abatedouros), além de criar, no início da década de 50, alguns estabelecimentos de varejo estatais (açougues) na região metropolitana de Porto Alegre. O objetivo era a integração total do setor.
Os pecuaristas, até então, mantinham notável posição social _ cujos ícones podem ser lembrados por sua representação política e até mesmo, simplesmente, por conhecidos bons apartamentos, por eles construídos, na área central de Porto Alegre. Fora a era dourada dos produtores rurais do setor em tela.
A realidade de hoje permite algumas observações. O Brasil tem aproximadamente 200 milhões de cabeças de gado bovino. Exporta cerca de 40% das exportações mundiais (inclui todos os países exportadores). Essas exportações brasileiras, neste ano, estão estimadas em quase US$ 8 bilhões. Entretanto, o Rio Grande do Sul participa, nesse comércio exterior nacional, com apenas 3% a 4% do referido total. De outra parte, a absoluta maioria das exportações nacionais _ oriundas do centro-oeste do país _ se refere a rebanhos zebuínos (principalmente às raças nelore, gir e brahman).
A pecuária sul-rio-grandense é diferente. Nela predominam bovinos de raças de origem europeia _ entre outras, aberdeen e red angus, hereford, devon, charolês, durham, além de raças sintéticas, tais como braford e brangus.
Costuma-se observar que a carne do gado de origem europeia é de melhor qualidade _ e sabor. E o é. Ora, o mercado internacional de carnes é voltado para o consumo de massas _ por isso, em geral, não se observam detalhes importantes da qualidade. O que caberia, no entanto, é saber identificar os espaços de excelência de consumo. Vale dizer, o que tem sido solicitado pelos mais requintados centros exigentes em qualidade da carne _ tais quais os dos restaurantes e hotéis top of mind do Primeiro Mundo. Saber, pois, como produzir e exportar _ algo semelhante à conhecida Cota Hilton.
Para a pecuária bovina de corte, no Rio Grande do Sul, é possível identificar cenários. Contudo, é indispensável, para esse propósito, rapidez no que já se conhece como aprimoramento genético, rastreamento e controles dos rebanhos. No caso, áreas destinadas a eventual confinamento de rebanhos (parcial ou não) poderiam ser consorciadas com o plantio de cereais _ tais como a soja, atualmente o produto de maior consumo e melhor preço no mundo.

*Economista