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Artigo| Primeiro ano do papa Francisco

15 de março de 2014 0

O cardeal Bergoglio,
outrora um tanto
mais sisudo, agora
se reveste de um
papa alegre
e sorridente

GERSON SCHMIDT*

Numa atitude decidida na contramão da lógica do poder, numa surpreendente e humilde renúncia, Bento XVI abria caminho a uma renovação do papado, que urgia haver na Igreja Católica. Despontavam dois precedentes eclesiais históricos explosivos: a renúncia papal e a eleição de um papa não europeu. O primeiro ano de pontificado de Francisco trouxe uma marca e um rosto bem definido, fugindo de todo triunfalismo. Ele mesmo se faz despojado de muito aparato, indo ao encontro do outro, tocando e deixando-se tocar, líder servidor que não quer privilégios.
A grande novidade do novo papa, mais do que na palavra e na doutrina, é de atitude. Surpreendem seus atos e seu estilo simples de ser e viver. Impressiona com os seus gestos comunicativos. Mais do que documentos doutrinários, grandes encíclicas normativas, fala ao mundo pelo seu modo de agir, seu exemplo de simplicidade, serviço, simpatia, solidariedade aos mais necessitados. Fala o que vive. Sua autoridade é conferida pela autenticidade de seu testemunho no cotidiano. “A primeira reforma _ ele disse _ deve ser a da atitude… O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos do Estado.” “O verdadeiro poder é o serviço que tem o seu vértice luminoso na cruz”, falou diante dos 132 chefes de Estado e príncipes que vieram para a missa de abertura de seu pontificado no dia 19 de março. Na marca de seu ministério petrino fica muito claro o que significa servir.
Francisco iniciou uma revolução. O pioneiro papa latino-americano promove profundas transformações na Igreja. Mudanças não apenas de tom, timbre e estilo pessoal, mas de reformas na estrutura da Cúria Romana e nos serviços eclesiais. Nas principais diretrizes do seu pontificado condena o luxo, prega uma igreja mais acolhedora, sem receio de afastar um bispo alemão que construiu um palácio episcopal luxuoso. Em um ano de pontificado, tirou a Igreja da agenda negativa em que vivia: disputa de poder na Cúria romana, suspeitas de fraude no banco do Vaticano, vazamento de documentos secretos, escândalos de pedofilia e outros. Com seu carisma simples, conquistou as massas, aumentou a frequência nas igrejas e deu um ardor pela Nova Evangelização, querida e proclamada por João Paulo II no início dos anos 90. Para aqueles que idolatram a figura papal, Francisco disse recentemente a um jornal italiano, descentralizando o foco em sua pessoa: “Pintar o papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O papa é um homem que ri, chora, dorme calmamente e tem amigos como todo mundo. Uma pessoa normal”. Noutra entrevista, definiu sua realidade pessoal como sendo um pecador. De fato, será sempre de carne e osso, como todos nós, embora quando investido com o cajado de Pedro, infalível em questões de fé e moral.
Francisco segue seus antecessores, mas traz elementos próprios e originais. A Igreja no pontificado de João Paulo II era perseguida pelo comunismo. Bento XVI insistiu na solidez da fé e princípios. Francisco é a expressão da Igreja Latino-Americana que clama um novo anúncio do Evangelho, numa atitude mais pastoral e missionária. Quer uma Igreja mais próxima, mais autêntica. Pede as portas abertas, Igreja alegre em missão, tema de seu último documento, que não se acomode em conservar as estruturas, mas que corajosamente proclame a Boa-Nova. O cardeal Bergoglio, outrora um tanto mais sisudo, agora se reveste de um papa alegre e sorridente.
A evangelização foi uma das grandes metas da 5ª Conferência Episcopal Latino-Americana, do qual o cardeal Bergoglio foi presença marcante. Na ocasião, em Aparecida, se convocaram todas as paróquias a superarem uma pastoral de mera manutenção, para assumirem uma pastoral decididamente missionária, procurando responder aos desafios do século 21. Não tenho dúvida de que é o homem eclesial apropriado para os tempos hodiernos.

*Padre e jornalista

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