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Artigo| Lupi em almanaque

30 de março de 2014 0

Não houve
inventor mais
talentoso de
lendas sobre
Lupicínio Rodrigues
do que Lupicínio
Rodrigues

LuisAraujoLUIZ ANTÔNIO ARAUJO*
luiz.araujo@zerohora.com.br

Autor do interessante e infelizmente esgotado Week-end no Rio, sobre a história do Conjunto Melódico Norberto Baldauf, o jornalista e escritor Marcello Campos recebeu da Secretaria de Cultura de Porto Alegre uma santa missão: produzir até junho uma biografia de Lupicínio Rodrigues para marcar o centenário do compositor, nascido em 16 de setembro de 1914. Com o título provisório de Almanaque Lupicínio, o livro de uma centena de páginas e formato 25cm x 25cm será lançado no segundo semestre pela Editora da Cidade/SMC. Levando-se em conta que Lupicínio está longe de ser um artista municipal, a obra está destinada a receber ampla atenção assim que chegar às prateleiras.
Com a mistura de modéstia e rigor que caracteriza os melhores pesquisadores, Marcello, 41 anos, resiste em designar seu trabalho como uma biografia “no sentido mais linear e profundo da palavra”. Prefere uma expressão mais sóbria: “registro autorizado”, ou seja, apoiado pelos herdeiros de Lupi. Nele, contará _ em alguns casos, pela primeira vez _ histórias significativas e curiosas a respeito do compositor.
Não que a cadeira de biógrafo do autor de Felicidade esteja vazia. Antes e depois de sua morte, Lupi foi e continua sendo um daqueles personagens que fazem a delícia de repórteres, cronistas e historiadores. Entre os que se aventuraram a recensear sua existência, estão Mario Goulart, no volume dedicado ao compositor em 1984 pela saudosa coleção Esses Gaúchos, da editora Tchê, e Demosthenes Gonzales, em Roteiro de um Boêmio (Sulina, 1986). Alguns dos mais talentosos escribas da Revista do Globo também se debruçaram sobre a vida de Lupi entre as décadas de 1930 e 1960. Finalmente, sua produção despertou um considerável interesse na academia, especialmente no que toca à análise de letras e músicas.
Se o terreno foi demarcado e mapeado, o próprio personagem encarregou-se muitas vezes de confundir os viajantes. Não houve inventor mais talentoso de lendas sobre Lupicínio Rodrigues do que Lupicínio Rodrigues. Ele se comprazia em afirmar, por exemplo, que os marinheiros de navios que atracavam no cais da Avenida Mauá haviam sido responsáveis pelo sucesso nacional de suas composições, aprendidas de memória nos cabarés da Capital. Puro mito, garante Marcello. Para o biógrafo, o impulso que levou Lupi a ser nacionalmente conhecido veio “das ondas sonoras, e não das ondas marítimas”. Os comandantes da odisseia, segundo Marcello, atendiam pelos nomes de Jamelão, Gilberto Milfont, Carlos Galhardo, Isaurinha Garcia, Linda Batista e tantos outros intérpretes que apostavam no repertório de Lupi em emissoras, gravadoras, festivais e concursos artísticos. Outra versão fantasiosa é a de que, depois de uma turnê no Estado no início dos anos 1930, Noel Rosa, Francisco Alves e Mario Reis, integrantes do quinteto Ases do Samba, teriam ficado impressionados com a maestria do jovem compositor porto-alegrense. “Se algum encontro entre eles aconteceu nas noitadas da Cidade Baixa, isso foi em 1932, quando o então recruta Lupicínio tinha apenas 17 para 18 anos e ainda não era muito conhecido fora dos meios boêmios e carnavalescos da cidade”, assegura Marcello.
Um dos aspectos mais saborosos de Almanaque Lupicínio, que certamente mudará a maneira como o compositor é visto e avaliado, é o mapeamento de quase 300 composições, nem todas editadas (registradas oficialmente) e gravadas. Entre as pérolas, o biógrafo cita a marchinha Os Óculos do Vovô, gravada por Newton Teixeira em 1938, e o samba-canção Gessy, inédita em disco mas merecedora de versão do cantor Johnson numa rádio porto-alegrense na década de 1970 e que foi preservada em fita por pesquisadores.

*Jornalista

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