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Artigo| O golpe e o diabo do Plácido de Castro

30 de março de 2014 1

Não acredite na
versão romantizada
de que todo
jovem era esperto
e combatente

moisesMOISÉS MENDES*
moises.mendes@zerohora.com.br

Já me perguntaram, aqui nas esquinas da Redação, o que eu fazia naquele 1º de abril. Onde eu estava enquanto Brizola discursava na sacada da prefeitura de Porto Alegre e chamava os generais golpistas de gorilas?
O que eu fazia enquanto Brizola pedia que os sargentos prendessem os generais em 64? O que eu fiz depois de Brizola avisar que os gaúchos correriam os traidores à bala?
Digo que não fiz nada, nem ali nem depois, e frustro os mais jovens. Redações abrigam histórias de valentia e resistência. Não tenho nenhuma boa história de bravura contra o golpe para contar.
Na manhã daquele 1º de abril, uma quarta-feira, talvez eu estivesse olhando um rapaz paraplégico que fazia pandorgas na calçada do Ginásio Plácido de Castro, em Rosário. Queria aprender os truques da sua arte. Eu tinha 11 anos, era o menor aluno de todo o ginásio, magro, frágil e asmático demais para entender o que se passava.
O grande medo no Plácido era com o diabo que o padre Hermes dizia ver no fundo da sala, nas aulas de religião. Foi calmo aquele 1964 no Rosário. Mas fui levado duas vezes, por indisciplina, para a sala de detenção do colégio (uma “prisão” cheia de livros). Um dia, me despedi daquele pátio mágico do Plácido e voltei a morar no Alegrete.
No Alegrete, percebi que havia algo errado. Mães alertavam os filhos para que não se aproximassem dos comunistas. Dois comunistas eram dentistas. Minha família toda aderiu à amplificação do medo.
E me perguntam na Redação o que fiz depois, em 1968, quando a coisa ficou braba. Respondo que um guri queria mesmo ser um craque como Pedrinho Martinez, Porquinho, Geoceni, Paulo Renato Rodrigues, Pereca. Eu vivia numa alienação que amornava minha cabeça e arredava inquietações mais complexas.
Acompanhava de longe no Colégio Emílio Zuñeda o confronto de grupos em disputa pela União Municipal de Estudantes Secundaristas e me entediava. Um jovem discursando pela ditadura é uma das imagens mais patéticas da adolescência.
Em 1973, no final do milagre econômico, já convivia com jornalistas maduros na Plateia de Livramento. Pouco depois prenderam meu amigo Gringo Alvim. Me perguntam hoje se também não fui preso. Digo que fui chamado uma vez à Polícia Federal. Fiquei uma manhã inteira sozinho numa sala, até que apareceu alguém. Queria saber qual era o sentido de um palavrão que escrevi no jornal.
Levei um pito e fui liberado. Colegas da Redação de ZH riem da história, mas sinto no ar certa frustração. O desfecho do caso trai expectativas e não traz nada de edificante.
De Livramento fui para São Borja, Bento Gonçalves e Ijuí, sempre atraído pela promessa de fama e fortuna do jornalista Wolmer Jardim. Ulysses Guimarães nunca ficou sabendo, mas eu e o Wolmer arquitetamos, em mesas de bar, todos os passos que deveriam ser dados pelos que lutavam pela redemocratização. Quanto plano desperdiçado.
Querem saber na Redação se nunca atuei na clandestinidade e eu conto que num sábado do início dos anos 80 fui procurado em casa por um emissário do MR-8. O rapaz me apresentou logo ao meu codinome. Eu seria o Zaratustra.
Respondi que não tinha mais idade para ser clandestino. O emissário retrucou que a ditadura continuava. Reclamei do codinome, ele disse que iria falar então com o doutor Samuca, foi embora e nunca mais me procurou.

*****

Pois um dia, tardiamente, quase virei Zaratustra. Mas o que se quer dizer, enfim, é que a mitologia do jovem de combate é uma idealização. Não acredite nessa versão romântica da resistência generalizada de jovens espertos. É conversa de veteranos que só querem impressionar. Eles foram poucos.
Também comporta poucas figuras reais o imaginário do jornalista militante, o quadro orgânico de uma organização. Um dos exemplos mais exuberantes está aí no vizinho ao lado. Mas poucos fizeram o que o grande Flávio Tavares fez.
Outro mito, o de que todos os clandestinos lutavam pela democracia, já foi desmontado. Um texto categórico e elegante a respeito, assinado por Marcos Rolim, saiu há três anos no caderno Cultura de ZH. Quantos, como os militares e civis da direita, tinham projetos totalitários à esquerda?
Só não brinquem, como andam brincando alguns “cientistas políticos”, com a tese de que aquilo tudo não foi uma ditadura. Até o diabo do Plácido sabe que foi.

*Jornalista

Comentários (1)

  • flavio mansur diz: 30 de março de 2014

    Acho que o sr. está enganado, Sr. Moisés. Se houvesse “projeto totalitário à direita” ainda estaríamos sob uma ditabranda, como já disse a Folha. Cuba tem um projeto totalitário e continua sob ditadura há 55 anos. Coréia do Norte tem projeto totalitário e está sob ditadura há uns 59 anos. E o que importa, realmente, é saber como aqueles do “projeto totalitário de esquerda”, com cursos e doutrinação em Cuba ou URSS, com ação armada, chegaram aonde chegaram na política brasileira.

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