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Artigo| Cinquenta anos do golpe

31 de março de 2014 0

Avaliar de maneira
crítica esse período
nos ajudará a evitar
similares equívocos
no futuro

RAFAEL R. IORIS*

Cinquenta anos atrás, a sociedade brasileira vivenciou o começo do seu mais longo ciclo de regime autoritário, iniciado pelo golpe militar de 1964, que abrupta e violentamente derrubava uma das experiências democráticas mas importantes da nossa história. Refletir sobre esses eventos é uma tarefa que deve ocupar não somente aqueles profissionalmente imbuídos desse papel, como o historiador e o jornalista, mas todos os interessados no aprofundamento da democracia em nosso país.
Ainda que fatores circunstanciais _ como a idiossincrática atuação do general Olímpio Mourão Filho como líder do inusitado levante militar de 31 de março em Juiz de Fora e o polarizador discurso do presidente João Goulart pronunciado na Central do Brasil no dia 13 de março do mesmo ano_ estejam diretamente envolvidos no desfecho dos eventos, motivos de caráter mais estrutural desempenharam talvez um papel ainda maior nos trágicos eventos de meados dos anos 60 no Brasil.
De maneira especial, há ainda que se tentar compreender melhor como o entusiasmo e otimismo do final da década de 50, demonstrados na efusiva comemoração da nossa primeira conquista de um mundial de futebol, em 1958, e no encantamento projetado pela veiculação da Bossa Nova, viria rapidamente a se transmutar em uma crescente polarização ideológica, acelerada radicalização política e emergente desprezo pelas próprias instituições democráticas por grande parte dos principais atores políticos do período.
Parte da resposta se encontra na matriz de desenvolvimento que embasava os projetos, discussões  e processo de tomada de decisão dos nossos chamados “anos dourados”. De maneira concreta, por trás da égide de transformações aceleradas da era desenvolvimentista, o que de fato havia era uma busca pelo crescimento econômico a todo custo, traduzido numa industrialização concentrada de mão de obra, excessivamente dependente de capitais e tecnologias estrangeiras, e embasado por um crescente desprezo pela solvência fiscal do Estado, baixo investimento em capital humano e irrisórios níveis de inclusão social.
Ainda que inserido em outro contexto político global, dado pelo fim da Guerra Fria, e pautado por um novo patamar de influência multilateral, fruto da diplomacia engajada das últimas décadas, o atual ciclo de crescimento econômico brasileiro apresenta muitos dos problemas de meados do século passado. De maneira especial, a experiência dos anos 50 _ definida por um otimismo ingênuo de que seria suficiente atrair investidores estrangeiros para produzir localmente, ao invés de investir na criação de uma tecnologia própria, a fim de que nos tornássemos desenvolvidos _ pode nos ajudar muito a entender como pudemos, muitos de nós, avaliar que estaríamos melhor se regidos por um regime de exceção. Avaliar de maneira crítica esse período nos ajudará a evitar similares equívocos no futuro.

*Professor de História Latino-Americana na Universidade de Denver (EUA)

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