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Posts de abril 2014

Editorial| Episódio superado

30 de abril de 2014 4

Negar a existência do mensalão e atacar o Supremo é rejeitar uma lição que a Justiça ofereceu ao país.

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A controvérsia extemporânea é a única contribuição do conteúdo da entrevista concedida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o desfecho do chamado mensalão no Supremo Tribunal Federal. Disse o líder petista, em entrevista à TV portuguesa RTP, que o julgamento da Ação Penal 470 foi 80% político e apenas 20% jurídico. O ex-mandatário acordou a oposição e provocou indignação entre os ministros do próprio STF ao também repetir o que já afirmara dois anos atrás, quando assegurou que o mensalão não existiu. Setores do próprio governo e dos partidos de sustentação já haviam decidido que o processo sobre a compra de apoio parlamentar era assunto encerrado. O também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revela agora que em 2012 igualmente aconselhara Lula a considerar o episódio uma página virada, depois de ouvir do ex-colega que o mensalão teria sido uma invenção da oposição.
Um ex-presidente não precisa, obviamente, seguir conselhos de quem ocupou o mesmo cargo. Mas poderia orientar-se pelo bom senso de liderados que seguem a mesma linha de que as irregularidades enfim comprovadas pelo Supremo fazem parte de fato consumado. O julgamento em questão foi deflagrado pelo Supremo sete anos depois das primeiras denúncias sobre o sistema de troca de apoio político por contribuições financeiras. Os denunciados tiveram tempo para apresentar suas defesas e desfrutaram de todos os mecanismos ao alcance dos réus, na mais alta Corte do país.
Os veredictos refletiram a deliberação da maioria dos ministros, convencidos de que os ilícitos caracterizaram a ação de pessoas articuladas, a partir do governo, para influenciar decisões do Congresso. O Supremo, ao definir as sentenças, deixou claro que o mensalão existiu, sim, e que foi muito além do que chegou a se definir, em nome da defesa, como prática de caixa 2, infelizmente incorporada às manobras da política brasileira. Anunciadas as penas, os réus tiveram ainda o direito a recursos que acabaram por atenuar as punições de 12 dos 25 condenados.
A Ação Penal 470 foi, portanto, conduzida sob todas as garantias, como observou o procurador-geral da República. O senhor Rodrigo Janot reconhece que as democracias permitem, pela liberdade de expressão, que o próprio Judiciário tenha suas decisões questionadas, como quaisquer outras instituições. Mas é preciso que tais questionamentos não se afastem da realidade. O mensalão teve o tratamento adequado da Justiça a uma sucessão de delitos graves, com o envolvimento de altas figuras da República e de líderes do partido no poder. O julgamento foi exemplar como advertência a ocupantes de cargos públicos. Negar sua importância é rejeitar uma lição que o Supremo ofereceu ao país.

Editorial| Equívoco nos semáforos

30 de abril de 2014 2

Confirmou-se o previsível no primeiro dia de testes para valer nas sinaleiras da Capital sobre a decisão aprovada pela Câmara prevendo um aumento de no mínimo 30 segundos no tempo de travessia para pedestres. O congestionamento de veículos na área escolhida pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) atingiu dimensões insuportáveis, e o trânsito chegou a paralisar em muitos pontos. Em consequência, acendeu o sinal vermelho para a inovação, mostrando que as melhorias para os pedestres, imprescindíveis, não podem ser impostas apenas com base em novas leis.
Bastou um dia de experiência com a decisão da Câmara, sob a forma de emenda ao Estatuto do Pedestre, para evidenciar que as mudanças pretendidas para favorecer a vida de quem circula a pé pela cidade vão exigir mais debate, mais testes e mais providências além de um tempo maior nos semáforos. Os resultados preliminares irritaram tanto condutores de carros particulares quanto os de ônibus, mas principalmente seus usuários. Em consequência, o teste foi suspenso e o prefeito José Fortunati vetou a mudança proposta pela bancada do PT na Câmara, frustrando pedestres habituais e eventuais.
Independentemente de ter carro particular ou não, todo cidadão enfrenta a condição de pedestre no seu dia a dia. Por isso, o poder público tem o dever de facilitar a vida desse contingente. O tempo maior nas faixas preferenciais é uma necessidade, mas precisa ser acompanhado de medidas adicionais, que não visem só aos carros e ônibus, mas busquem atenuar o cotidiano no trânsito da Capital, onde em muitos dias impera o caos.
A EPTC, por sua vez, precisa deixar claro se as mudanças propostas foram testadas de forma adequada e se essa era a única forma. O diálogo sobre o tema não avançará se persistirem desconfianças sobre resistências ou tentativas de imposição de um lado ou outro.

Artigo| Este desafio valerá a pena

30 de abril de 2014 1

Nossa
oportunidade
é única, tem
prazo de validade,
mas gera a
oportunidade
do legado

HENRY CHMELNITSKY*

O 1º de maio que se aproxima terá uma característica especial: estaremos a 42 dias do começo da Copa do Mundo no Brasil. A Fifa escolheu Porto Alegre como uma das sedes do maior evento esportivo do mundo por alguns motivos. Um deles é a hospitalidade com que os visitantes são recebidos na Capital. Outro é a qualidade dos bares, restaurantes e hotéis. A gentileza e a atenção se tornaram marcas registradas de nossa cidade, graças à atuação dos que atendem os turistas.
É para manter esta marca positiva que o esforço tem sido intenso para qualificar os trabalhadores do setor para um atendimento de excelência, não somente para os turistas, mas para quem é morador e frequenta os estabelecimentos da cidade. E, neste quesito, não é só o inglês que faz a diferença. A atenção, a simpatia e a eficiência durante o atendimento são responsáveis por cativar qualquer cliente.
O setor da hotelaria e gastronomia de Porto Alegre reúne mais de 100 mil pessoas, entre empregos diretos e indiretos. A responsabilidade é grande, mas o desafio vale a pena. Cumprir a missão de fazer com que os visitantes de outros Estados e países se sintam em casa será um golaço na trajetória que une empresários e colaboradores de cada estabelecimento. Ao final, teremos, todos nós, o trabalho reconhecido e aplaudido.
Nossa oportunidade é única, tem prazo de validade, mas gera a oportunidade do legado. Legado na melhoria dos serviços via qualificação e capacitação de nossa mão de obra, geração de renda, expansão do turismo e a descoberta de que Porto Alegre é uma cidade carismática, com história, uma forte atração cultural e belezas únicas, como o nosso pôr do sol, o Laçador e nossos parques.
Porto Alegre ganha a chance de se tornar um ponto obrigatório de visitas de brasileiros e estrangeiros depois da Copa. O cartão de apresentação da cidade será, mais uma vez, dado pelos envolvidos na nobre tarefa de atender bem. Os melhores cumprimentos e o reconhecimento pelo Dia do Trabalhador!

*Presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre (Sindpoa)

Artigo| O choro é livre

30 de abril de 2014 0

Há exageros de
parte da população
e da imprensa nas
críticas e na
divulgação dos
atos de nossos
representantes?

ASTOR WARTCHOW*

Os que exercem os poderes de Estado, em todos os níveis de representação _ ocupantes de cargos em comissão, diretores de estatais, vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, e a própria presidente da República _, expõem consciente e publicamente seus cargos e suas pessoas.
Essa exposição se torna ainda mais acentuada quando há críticas e investigações acerca dos seus atos administrativos, acusações e suposições de envolvimento em corrupção e irregularidades de gestão.
Comumente, essa exposição pública se dá através dos meios de comunicação. Mas, também por intermédio das ações do parlamento e dos órgãos policiais e de justiça. Daí que, quando ocorrem esses eventos de “pegação no pé”, costumam reclamar e alegar perseguição político-partidária. Pura choradeira!
Quem exerce o poder são os mandatários. Mandatário é o homem público encarregado dos atos de gestão, bens e interesses públicos. Mandante é o cidadão. Assim sendo, a qualquer tempo, os mandantes podem verificar, averiguar e questionar as condutas dos mandatários.
Ademais, não bastasse sua legitimidade, a desconfiança produz um cidadão mais vigilante e que tem o direito de imiscuir-se nas atividades dos governantes e administradores públicos.
Então, pergunta-se: há exageros de parte da população e da imprensa nas críticas e na divulgação dos atos duvidosos de nossos representantes?
Este assunto não é novo. Inclusive, desde sempre, é objeto de recurso às altas cortes judiciais. Na Suprema Corte dos Estados Unidos, onde são comuns os processos e as demandas judiciais acerca de imagem e ofensa pessoais, foi afirmado: “Algum grau de abuso é inseparável do devido uso de qualquer objeto e, em nenhum caso, isso é mais verdadeiro do que no caso da imprensa”.
Adicionalmente, pode-se invocar princípios de direito que justificam as ações públicas, pessoais, partidárias e de imprensa. Na fase preliminar e investigativa, “in dubio pro societate”. Na fase de julgamento, mantidas as dúvidas de autoria e responsabilidade, “in dubio pro reo”!
Ou ainda, como disse Lorde Acton, o professor e historiador inglês John Dalberg (1834-1902): “Não há pior heresia do que a de crer que o poder santifica quem o tem”. Talvez você não conheça ou recorde Lord Acton, mas conhece sua frase mais famosa: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente!”.
Nem os reis, nem os papas escapam às regras e, por isso, Lord Acton não os considerava merecedores de melhor tratamento. Às vezes, pode ser ingrata e injusta a submissão política a esses critérios e julgamentos. Em todo o caso, esse processo quase “inquisitivo” é bom para o funcionamento do sistema representativo e republicano.
Melhor do que o comportamento daqueles que deixam de tomar uma atitude crítica e estimulam a omissão. Ou, então, e pior, criticam quem toma uma atitude.

*Advogado

Artigo| Somos todos macacos?

30 de abril de 2014 0

Assumir é congelar
essa imagem. Não.
Não somos macacos.
Somos humanos.

DEIVISON CAMPOS*

Não. O ato de Daniel Alves no jogo contra o Villarreal pode ser considerado um enfrentamento ao racismo. Ao juntar a banana e comê-la, desconstruiu ao vivo o ato racista frente a milhões de pessoas que assistiam ao jogo. Concluiu lembrando através das redes sociais que o alimento lhe deu energia para o jogo, considerando ser um alimento utilizado por atletas. Quem não lembra, por exemplo, das paradas estratégicas de Guga Kuerten. No entanto, assumir que somos todos macacos autoriza que as iniciativas de jogar bananas no gramado e imitar o som de animais prossigam. Não somos macacos. Ninguém é. Somos humanos, mesmo sem todos os direitos.
O argumento utilizado pela campanha lançada por Neymar, proposto por uma agência de publicidade, e que teve grande repercussão nas redes não é suficiente, pois, neste caso, não se trata de um apelido que pode “pegar ou não”. Trata-se da manutenção de um discurso de desumanização do negro, iniciado há quase 600 anos por pressupostos evolucionistas.
Apesar de o evolucionismo natural e depois social ter sido sistematizado como conhecimento científico na segunda metade do século 19, por Darwin e Spencer, sucessivamente, a escala de superioridade de civilizações, em função da cor da pele, principalmente, sustentou todo o tráfico escravista. Grosso modo, inicialmente, os negros foram apontados pela Igreja como sem alma e os índios como crianças que precisavam ser civilizadas. Depois, os negros foram mantidos como bens móveis, assim como os animais de fazenda. Nesse processo, os europeus colocaram-se acima dos outros povos, encontrando discursivamente argumento para sobrepujá-los cultural e fisicamente.
Essas lógicas foram assumidas na constituição do Brasil como nação e, apesar de nos definirmos como o país das três raças e exemplo de democracia racial, mantidas na estrutura social até nossos dias. Todos os índices socioeconômicos comprovam essa afirmação. A luta pelo direito à cidadania passa efetivamente pela derrubada desses estereótipos e não pelo seu reforço. Sabe-se que historicamente o deslizamento de sentidos de expressões, como “negro”, funcionou como estratégia de positivar um discurso negativo. No entanto, a imagem do macaco não tem como ser positivada, mesmo que assumida, pois o símio nunca será humano.
Comparar ao macaco, em cantos, bananas jogadas ou onomatopeias, não se trata somente de uma comparação em função da cor da pele, ou mesmo pela origem continental, trata-se de uma estratégia que mantém os negros como desumanizados, ou seja, incapazes de atender às demandas da chamada civilização ocidental principalmente no atual desenvolvimento do capitalismo que exclui. Apesar de não dito, essa relação de saber-poder, mantém os privilégios de poucos. Assumir é congelar essa imagem. Não. Não somos macacos. Somos humanos.
*Professor de Jornalismo da Ulbra, doutor em Ciências da Comunicação

Editorial| O país das balas perdidas

29 de abril de 2014 2

Assim como a violência se transformou, saindo do controle, também os organismos de segurança e os cidadãos precisam rever suas ações.

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Não passa dia sem que o Rio de Janeiro, vitrine do país, registre um caso de morte de cidadãos, atingidos pelas chamadas balas perdidas, invariavelmente resultantes de confrontos entre policiais e traficantes de drogas. No Rio, tais episódios ganham visibilidade porque as comunidades protestam, manifestantes queimam ônibus, trancam ruas e acabam virando notícia de primeira página. Mas episódios semelhantes, e até piores, ocorrem em todas as cidades do Brasil, um país tomado pela criminalidade já por muitas décadas, a ponto de termos incorporado a violência no nosso cotidiano. Na antevéspera de mais um processo eleitoral, o tema da violência urbana tem que ser colocado entre as prioridades. Não é possível que o Brasil precise carregar esta chaga social como uma maldição irremovível.
Um aspecto particularmente preocupante é que, mesmo pagando cada vez mais impostos, usamos cada vez mais segurança privada. Vamos nos habituando também a viver atrás de grades, a ser cautelosos ao sair à rua à noite ou simplesmente a não sair mais, a ter o máximo de cuidado ao abrir o portão do prédio ou a porta da casa, a não estacionar fora de garagens. Serviços essenciais, como o comércio, começam a rever seus horários noturnos ou obrigam o cliente a ser atendido do lado de fora do estabelecimento. Está cada vez mais perigoso sacar dinheiro de caixas eletrônicos, que são explodidas de forma rotineira, notadamente em comunidades do Interior, sem um número adequado de policiais para protegê-las, e onde também propriedades rurais estão mais vulneráveis. Até mesmo no transporte coletivo, usado rotineiramente por tantos brasileiros, crescem ameaças como a de incêndios criminosos, ordenados na maioria de dentro das penitenciárias por chefes de gangues que continuam a ordenar até toque de recolher nas comunidades, mesmo depois de condenados e encarcerados.
Infelizmente, a criminalidade se mantém por razões que começam na inação do poder público e se ampliam com a tendência de muitas pessoas deixarem por isso mesmo quando são roubadas, assaltadas ou agredidas. Assim como a violência se transformou, saindo do controle, também os organismos de segurança e os cidadãos precisam rever suas ações, tornando-as mais efetivas.
Aos cidadãos, restam as cobranças e iniciativas como a de massificar apelos como  #EuNãoMereçoMorrerAssassinado, criado a partir da morte do bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, no Rio. Na verdade, ninguém deveria perder a vida desta forma. Mas quem precisa dar respostas efetivas para insanidades como balas perdidas é o poder público. E isso exige ações preventivas, qualificação das políticas e combate sem trégua ao narcotráfico, que é indissociável da criminalidade.

Editorial| O racismo e as bananas

29 de abril de 2014 1

Pessoas de todo o mundo deram respostas rápidas ao ato racista contra o jogador brasileiro Daniel Alves, agredido simbolicamente por uma banana jogada no campo, domingo, na Espanha. A partir da reação do também jogador Neymar, as redes sociais multiplicaram vídeos de celebridades com bananas. O humor se contrapôs a uma manifestação primitiva de discriminação. Ao mesmo tempo, autoridades se manifestaram a respeito, com a previsível condenação do fato. E o Villarreal, clube pelo qual torce o espectador, já anunciou que o identificou, para que nunca mais frequente o Estádio Madrigal, onde o fato ocorreu e foi tornado público a partir de imagens divulgadas instantaneamente pela TV.
Todas as reações são bem vindas, em especial as que utilizaram o objeto da agressão para abordar o insulto de forma criativa. É assim que se amplificam as vozes que irão contribuir para a tomada de consciência contra atitudes como essa. Mas ainda é pouco para evitar que atos semelhantes continuem a se repetir. O racismo é execrável e tem se manifestado especialmente em espaços públicos. Às vésperas da Copa, estádios de futebol, aqui e no Exterior, vêm sendo o lugar preferido para a exaltação de falsas superioridades, em atitudes quase sempre baseadas no superado conceito de que a humanidade se divide em raças. Como já observaram estudiosos do lamentável fenômeno, tais absurdos evidenciam a insegurança de sujeitos preocupados em camuflar a própria fragilidade ética e moral.
É preciso que, além das respostas bem humoradas, entidades diretamente envolvidas nos espetáculos atuem preventivamente com mais determinação. E que os autores de atos racistas sejam identificados e punidos, para que as atitudes de alguns não acabem penalizando agremiações e torcedores indiscriminadamente. Por fim, em meio aos esforços de todos por ações educativas, que os autores de atos racistas sejam tratados como criminosos, para que a impunidade não realimente preconceitos.

Artigo| Escola e inclusão

29 de abril de 2014 0

Receber uma
criança com
necessidades
especiais em
aula não é apenas
dar-lhe uma vaga

RAQUEL LIANE DA SILVA*

A ideia de inclusão escolar, ou seja, abrir espaço dentro das escolas para as crianças portadoras de necessidades especiais, é amplamente difundida, discutida e revisada. Vários pensadores em educação propõem este tema diante das inúmeras dificuldades enfrentadas para que isso aconteça. Entre elas, falta de preparo profissional para acolher e trabalhar as necessidades dessas crianças, evidenciado muitas vezes em falas que mais reforçam o preconceito; falta de espaço, ambiente e materiais qualificados e as dificuldades de manejo e interação com o restante do grupo de crianças.
Gostaria de poder me deter apenas no terceiro aspecto, já que os dois primeiros não estão intimamente relacionados às próprias crianças, mas às estruturas que a priori deveriam ser pensadas e planejadas com esse fim, atendendo às legislações vigentes deste tema.
O que significa para um grupo de alunos ter um colega “especial”? Qual é o papel da professora frente à aprendizagem de uma criança que já se pressupõe ser limitada? Como os pais das crianças “normais” veem essa criança e as situações do cotidiano? Qual o papel da escola na educação para a vida e no ensino de valores?
Receber uma criança com necessidades especiais em aula não é apenas dar-lhe uma vaga e colocá-la na sala. A crítica muitas vezes levantada é de que isso não é inclusão. Incluir, no dicionário Aurélio, quer dizer inserir, compreender, envolver.
Antes de tudo, essa criança deve ser vista como mais uma no grupo, no sentido de ter tanto direito de estar ali quanto qualquer outra, apesar de suas dificuldades e limitações, que, muitas vezes, estão presentes em qualquer criança, a sua forma. Depois, é preciso que essa criança seja compreendida em suas atitudes e modo de ser. A Declaração de Salamanca (1994) diz que “todos os alunos devem aprender juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e diferenças que apresentem”.
Para que isso se torne realidade, é preciso, sim, investimentos em qualificação profissional e material, mas o mais importante é ter disponibilidade para aceitar as diferenças e convicção de que ações mudam situações. Muitas escolas têm sido agentes de transformação na vida de crianças e famílias, abrindo perspectivas antes pouco visualizadas. O mais importante, contudo, é que essas transformações não são benéficas apenas aos “diferentes”, mas tão e, quem sabe, até mais benéficas aos ditos “normais”.

*Coordenadora escolar e psicopedagoga

Artigo| A cultura do respeito

29 de abril de 2014 0

Não é difícil
entender as pessoas
como elas são
e não como nós
gostaríamos que
elas fossem

VALDECI OLIVEIRA*

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, tradicional casa dos grandes debates gaúchos e instituição democrática que mescla e aglutina a maior parte das visões políticas do Estado, sedia, a partir de agora, um novo espaço de lutas e de discussão pela promoção da igualdade. De cunho pluri e suprapartidário, a Frente Parlamentar contra o Racismo, a Homofobia e outras formas de discriminação nasceu com o aval da ampla maioria dos parlamentares, das mais distintas bancadas, que subscreveu o requerimento de criação desse grupo de trabalho. Isso demonstra o comprometimento do Parlamento com a causa e mostra que o combate à opressão é capaz de unir ideologias e partidos.
O movimento também surge com o apoio social: mais de 20 entidades ligadas à área dos Direitos Humanos assinaram, através de seus representantes legais, a ata de fundação do grupo e vão participar da série de atividades que serão desenvolvidas daqui para frente e que serão definidas coletivamente. No entanto, antes mesmo da primeira reunião formal, é necessário fazer uma demarcação: os trabalhos que se sucederão não terão como norte o revanchismo ou a disputa com as instituições e grupos que já militam contra a discriminação há muito tempo. A Frente vem para somar e para reafirmar a promoção da paz, a democracia e os princípios da equidade, todos expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
De certa forma, a própria iniciativa já é um alerta. Se este fórum precisa ser constituído, é porque temas absolutamente retrógrados, como a opressão e a segregação, ganham multiplicadores em pleno século 21 e em pleno civilizado Rio Grande do Sul. Por isso, será uma missão inadiável ouvir e fortalecer a denúncia de quem sente ou sofre o preconceito, até porque a maioria dos casos de discriminação, por vitimar a base da pirâmide social, ainda, infelizmente, permanece invisível.
Longe de almejar soluções imediatas diante de uma chaga cultural, estrutural e até institucional, é viável e possível que a Frente, junto com as entidades e movimentos organizados, incentive a cultura do respeito às pessoas. Não é difícil entender e respeitar as pessoas como elas são e não como nós gostaríamos que elas fossem. Quem respeita o outro e a sociedade que vive, não fura fila, não desvia recursos públicos e não sonega impostos, mas também não segrega, não agride e não ofende alguém por ser diferente.
*Deputado estadual (PT) e coordenador da Frente Parlamentar contra o Racismo, a Homofobia e a Discriminação

Artigo| Financiamento de campanhas

29 de abril de 2014 0

Os Legislativos,
construídos para
também dar voz
às minorias,
deixaram de
representar a maioria

ANTONIO AUGUSTO D’AVILA*

Nas eleições proporcionais, o financiamento de campanhas tem um grande câncer: nosso insólito sistema de candidaturas avulsas. Todos são inimigos de todos, é uma guerra na qual vale tudo, até recursos de traficantes, máfias e outros grupos afins. Espécie de cartório eleitoral, o partido tão só registra os candidatos e depois é pago por nós na proporção do seu sucesso de vendas. Apesar da decisão do STF que vinculou o mandato ao partido, os parlamentares deram a “volta por cima” e agravaram a proliferação partidária, incentivada pelas teratológicas coligações. Com milhares de candidatos, é impossível qualquer fiscalização eficaz e a trágica realidade do consabido “caixa 2″ é impune. Pior, a vedação de doações empresariais transparentes certamente irá agravar esse quadro.
Nesse absurdo sistema, o eleitor é iludido, pensa eleger o “seu” candidato, porém, o mais das vezes, elege outros, até, de outros partidos e com ideias frontalmente contrárias às dele. Nesse sistema, não há voto de rejeição, 90% da opinião pública pode execrar um candidato, no entanto, se ele controlar um nicho de 1% do eleitorado, será um campeão de votos. Dessa forma, as siglas de maior sucesso são as que albergam em suas hostes as figuras mais díspares e histriônicas, sem qualquer afinidade programática. E não é só isso, em regra, mulheres, afrodescendentes e bons cidadãos são apenas “iscas” para trazer votos. Aliás, no sistema de voto no conjunto de candidatos do partido ou em lista, onde os representantes dessas maiorias seriam colocados? No fim das listas? E aquelas figuras execradas pela maioria? No topo?
Por tudo isso, é incompreensível a afirmação de altas personalidades no sentido de que bastaria o eleitor fazer boas escolhas: os Legislativos, construídos para também dar voz às minorias, deixaram de representar a maioria. Na atual composição da Assembleia, por exemplo, os deputados representam, de fato, 39% dos eleitores somente. A ampla maioria dos gaúchos (61%) escolheu outros candidatos.

*Economista