Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de maio 2014

ZH TRANSPARÊNCIA| O JORNAL SOB EXAME

31 de maio de 2014 2

 

selo_zhtransparencia

 

 

 

A partir desta edição, os leitores estão sendo apresentados ao novo selo ZH Transparência, que encabeça esta página. Parte da programação dos 50 anos do jornal, a iniciativa vai explicar aos leitores as motivações e os fundamentos de decisões e procedimentos editoriais que possam ser considerados controversos. A primeira destas iniciativas é dissecada na página ao lado: a postura de ZH e dos veículos da RBS em relação à Copa do Mundo.
Ligada umbilicalmente à liberdade de informar, a transparência é uma tendência global, acentuada pelos próprios meios de comunicação que pressionam por maior e melhor acesso a fontes e registros de interesse público e, ao mesmo tempo, revisam suas próprias convicções e práticas internas diante da nova realidade. Tais procedimentos incluem o encorajamento à participação, o convite a outros para que se posicionem sobre temas centrais da atualidade, o engajamento no imenso fórum de discussão que é a internet, o reconhecimento da diversidade e de visões múltiplas, a incorporação cotidiana e ativa de práticas como correções, esclarecimentos, acréscimos e mudanças de atitude.
A mídia não chegou sozinha a esse novo posicionamento. Contribuíram para a afirmação dessa cultura, que ainda está em processo de consolidação, episódios como o do Wikileaks e o escândalo do jornal britânico News of the World, alvo de processo criminal por utilização de grampos ilegais, entre outros. Jornais e jornalistas não podem continuar se comportando como se vivessem no início do século 18 e fossem combatentes únicos e iluminados da liberdade de informação e expressão. É preciso reconhecer que aqueles devotados à apuração e à difusão de notícias acumulam sua própria cota de erros e desvios, muitos deles resultantes do processo inerentemente imperfeito de apurar e processar informações em andamento. Admiti-los, corrigi-los e esclarecê-los não diminui o veículo. Ao contrário, reforça sua credibilidade junto à opinião pública.
A história de Zero Hora, que completou 50 anos no dia 4 de maio, é também a história da sucessiva adoção de práticas e medidas que reforçam a relação de credibilidade e transparência com seus leitores. Depois de 1970, quando a família Sirotsky passou a comandar o jornal, ZH foi se distanciando dos partidos e do poder econômico e aprofundando sua independência, a base da relação transparente com todos os seus públicos.
Um exemplo destes avanços: em 1994, ZH foi o primeiro jornal do Rio Grande do Sul a adotar um Manual de Redação, Ética e Estilo, na esteira das melhores tendências da mídia mundial. Também foi o primeiro do país a editá-lo em livro e tornar público seu código com o intuito de ter suas práticas acompanhadas e cobradas pelos leitores.  Posteriormente, o guia foi sendo atualizado, em particular pelo impacto da Era Digital, até se transformar no atual Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística. Entre os itens introduzidos nesse regramento está o compromisso com a publicação de correções e esclarecimentos, com o equilíbrio consubstanciado na prática de ouvir o outro lado e com a pluralidade de opiniões. Ainda nos anos 90, nomes, telefones e, mais tarde, e-mails de editores e repórteres passaram a ser publicados diariamente. No final da década, surgiu o Conselho do Leitor, decisivo para que o jornal debatesse seus procedimentos e decisões diretamente com representantes de seu público. Já nos anos 2000, o surgimento de zerohora.com foi um novo marco na relação com os leitores e usuários, abrindo novas frentes de debate, questionamento e colaboração.
Em meio à preparação de um amplo processo de mudança no jornal por ocasião de seu cinquentenário, ZH recolheu entre leitores a percepção de que o jornal deveria explicar com mais nitidez algumas de suas decisões e posturas. ZH não tem a pretensão de inibir vozes dissonantes com esta iniciativa. Ao contrário, o jornal considera questionamentos e contestações um processo não só natural como saudável a um meio de comunicação assentado sobre a relação de confiança com seus leitores. É isso que se faz a partir de agora com o novo selo Transparência ZH.

ZH TRANSPARÊNCIA| APOIAMOS A COPA, SIM! MAS COM VISÃO CRÍTICA

31 de maio de 2014 4

selo_zhtransparencia

 

 

 

Zero Hora apoia a realização da Copa do Mundo no Brasil desde outubro de 2007, quando a Fifa anunciou oficialmente a escolha do país como sede da competição. Antes mesmo de qualquer projeto editorial e publicitário, o jornal viu no fato uma grande oportunidade para o país e para o Estado, pois um Mundial de futebol dá visibilidade ao país-sede, atrai turistas, movimenta a economia e deixa um legado de modernização nas cidades que recebem os jogos. Com a aproximação do evento, o jornal e os demais veículos do Grupo RBS mantiveram suas visões editoriais independentes e implementaram seus planos de cobertura respaldados por patrocínios e vendas de publicidade no modelo de negócio que sustenta as empresas de mídia.
A Rádio Gaúcha é a única emissora do Estado com direitos de transmissão das partidas com equipes próprias porque desembolsou a quantia de R$ 1,2 milhão pelos direitos de transmissão da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Da mesma forma, a RBSTV transmitirá a Copa para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em decorrência de sua afiliação à Rede Globo, detentora dos direitos dessa e das Copas de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar. Isso não significa exclusividade. No Brasil, por exemplo, os jogos também serão transmitidos pelos canais SportTV, ESPN Brasil, Fox Sports e Rede Bandeirantes. O custo é elevado. No total, considerando-se os gastos com cobertura, pessoal, viagens, eventos e equipamentos, o Grupo RBS investirá cerca de R$ 40 milhões no Mundial.
O apoio institucional dos veículos da RBS não inibe seus comunicadores de se posicionar livremente em relação à Copa e nem interfere na cobertura independente e crítica de seus jornalistas. Observe-se, por exemplo, a evolução do tratamento dispensado ao evento por ZH. Para o jornal, num primeiro momento, a Copa era uma oportunidade de os brasileiros absorverem e aplicarem conceitos de planejamento e realização de projetos de complexidade inédita e extrair benefícios duradouros para todo o país. Com o passar do tempo, porém, foi ficando claro que as metas, por incúria e ineficiência, não seriam cumpridas em quase nenhum campo e o jornal passou a cobrar e a lamentar a perda destas oportunidades.
Ao mesmo tempo em que, apesar das críticas, o jornal nunca deixou de acreditar nos benefícios da Copa, alguns de seus mais destacados colunistas se mostraram, desde o primeiro momento, contrários à realização do Mundial no Brasil. O mais notório dos opositores tem sido Paulo Sant’Ana, que já em 2007 não enxergava capacidade e necessidade de o pais organizar um evento desta natureza e dimensão. Na época dissonante da maioria da opinião pública, a oposição de alguns colunistas rendeu ataques a eles, que, como é praxe na empresa, sempre tiveram plena liberdade de manifestação. Este aparente paradoxo chegou a ser exposto por ZH em uma campanha publicitária que apresentava a discordância entre a opinião do jornal e a de seu mais conhecido colunista como exemplo de autonomia e pluralismo. Posteriormente, Sant’Ana optou por uma trégua nas críticas.
Desde o final da Copa na África do Sul, Zero Hora assumiu a visão de que deveria fazer uma grande cobertura do Mundial brasileiro. A cobertura não se apropriou de um tom ufanista, mas em seu início falhou em dar mais visibilidade a moradores descontentes e a antecipar a ineficiência que levaria a atrasos e transtornos provocados pelas obras. Mesmo assim, o jornal deixou claro que não acompanharia burocraticamente o avanço das obras e inaugurou em 2011 o Copômetro, uma seção que, usando bolas murchas, meio vazias ou cheias, fiscaliza as promessas e o ritmo das obras.
Em outra ocasião, o jornal e o Grupo RBS se viram como parte do encaminhamento da solução para a reforma do Beira Rio e da manutenção da Copa no Estado. Em um churrasco na sede da empresa, depois de meses de obras paradas no estádio, encontraram-se o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, o prefeito José Fortunati e os presidentes de Inter e Grêmio. Ali ficou claro que a Copa em Porto Alegre estava por um fio e alguns convidados saíram do churrasco com ânimo renovado para negociar com a construtora Andrade Gutierrez o fechamento do acordo que finalmente daria sequência às obras do Beira Rio.
Na cobertura jornalística, há duas grandes equipes do grupo atuando em paralelo. Uma é formada pelos jornais e rádios e suas extensões digitais, que se integram na chamada Liga dos Fanáticos. A outra é composta pela RBS TV, que se afilia à cobertura da Rede Globo, com espaços e características próprias. O time da Liga dos Fanáticos conta com cerca de 60 profissionais credenciados, um recorde (na África, foram 22). Esta é a maior e mais dispendiosa cobertura já realizada pelos veículos da RBS, que se propuseram a surpreender o público com um conteúdo diferenciado e iniciativas inovadoras. A Radio Gaúcha, por exemplo, terá equipes atuando ao vivo em todos os estádios em todas as partidas. A exclusividade na transmissão radiofônica, entretanto, gerou ataques de veículos concorrentes e um procurador federal chegou a entrar com uma ação questionando esta condição. A iniciativa foi prontamente arquivada pela própria Justiça Federal, que reconheceu o direito da emissora.
Agora, quando nos aproximamos do auge de anos de discussão e preparação, o jornal defende que já não faz sentido se debater o apoio ou não à Copa. Em seu lugar, deve entrar o compromisso de se promover o melhor evento possível, extraindo-se dele os melhores benefícios coletivos possíveis. Desde já, porém, o jornal assume um novo compromisso. Quando acabar a festa da Copa, ZH seguirá cobrando a conclusão das obras e a preservação do legado do Mundial.

Artigo| NA NÉVOA DA JUSTIÇA

31 de maio de 2014 0

TavaresFLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

 

 

A fraude e o assalto se sofisticam tanto que a trapaça parece escolher os trapaceiros e acariciar os ladrões. E “a dedo”, para tudo ser tão fácil quanto somar dois e dois. A sentença que condenou à prisão 29 dos 32 denunciados na milionária corrupção do Detran não recaiu sobre assaltantes a esmo, mas sobre gente juntada para o crime na estrutura do Estado. Todos vêm da “elite” _ altos funcionários, empresários, o reitor e um professor da Universidade Federal de Santa Maria, numa rede com figurões de quatro partidos políticos.
Outros 12 processos em andamento implicam deputados ou ex-deputados do PP, PMDB e PDT. O deputado federal José Otávio  Germano, do PP, livrou-se do processo ao ser investigado sem licença da Câmara Federal. Aparece, porém, no núcleo da fraude por comandar posto-chave no tempo da então governadora Yeda Crusius, do PSDB, também implicada. O leque político está quase todo ali, ampliando o toque obsceno da participação do reitor e de um professor de universidade!
O promotor federal Ivan Marx localizou fraudes no valor de R$ 44 milhões. Mas na sofisticada engrenagem da corrupção, a soma real pode ir ao dobro. Não ao acaso, o juiz Loraci Flores de Lima (além das penas de prisão) sentenciou os 29 condenados ao pagamento de R$ 90 milhões como “reparação do dano”…
**
Mas, ao contrário do que dizem, não se trata do maior caso de corrupção do Rio Grande do Sul.
Nosso escândalo gigante repousa em sono tranquilo, há 18 anos, nas gavetas da 2ª Vara da Fazenda Pública em Porto Alegre, em 113 volumes e mais de 40 mil folhas. Ocorreu no governo de Pedro Simon, em 1987, numa extensa e articulada roubalheira na Companhia Estadual de Energia Elétrica _ mais de 65 milhões de dólares, na época, diz a Contadoria e Auditoria Geral do Estado. Em valores atuais, a fraude supera R$ 760 milhões e acariciou diferentes círculos do governo com propinas de 12 grandes empresas. O processo (iniciado em 1996) corre “em segredo de Justiça” e nunca houve sentença. Em dois anos prescreverá e as 23 pessoas e 12 grandes empresas implicadas estarão no Paraíso.
A fraude envolveu dois milionários contratos de equipamento e obras em 11 subestações da CEEE, assinados em ato solene no Palácio Piratini em dezembro de 1987. Sete anos depois, em 1995, a então secretária de Minas e Energia, Dilma Roussef, descobriu o roubo: as licitações tinham sido “acertadas entre as empresas” e, em alguns casos, “não havia determinação da obra, terreno ou projeto a executar”.
**
Parte das agruras financeiras da CEEE e da nossa carência energética vinha daí. Em 1996, uma CPI da Assembleia Legislativa ampliou a investigação realizada por Dilma e chegou às mesmas conclusões: o mentor e principal beneficiário da fraude era Lindomar Rigotto, assistente da direção financeira da CEEE, nomeado por indicação do seu irmão Germano Rigotto, na época líder do governo Simon no Legislativo. O então presidente da CEEE, Osvaldo Baumgarten, se disse “traído” por Lindomar Rigotto e pelo diretor financeiro Silvino Marcon e contou que tentou tirá-los dos cargos, sem conseguir.
No final de 1996, as conclusões da CPI do Legislativo passaram ao Ministério Público e, logo, à 2ª Vara da Fazenda Pública, onde seguem. Daí em diante, Rigotto foi marcado pela tragédia. Dono de uma rede de boates, uma “garota de programa”, que com ele trabalhava, caiu do 14º piso do seu apartamento, numa “festa de embalo”. Logo, no Carnaval de 1999, num assalto à sua boate de Atlântida, morreu de um tiro entre os olhos. O disparo certeiro, tipo pistoleiro, fez surgir na época, até, a suspeita de “queima de arquivo” relacionada com as fraudes na CEEE.
Na névoa da Justiça, teremos saudades do ministro Joaquim Barbosa.

Artigo| FUJAM PORQUE ESTAMOS VENCENDO

31 de maio de 2014 0

moisesMOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br

 

 

 

Os gaúchos devem ser o único povo do mundo que discute se tiro de laço é esporte ou cultura. Imagine se um peão vai querer saber se está construindo um bem cultural ou participando de uma disputa quando laça um boi no meio do campo, sem nenhuma testemunha por perto.
O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) entende que laçar é cultura, e a Federação Gaúcha de Laço acha que é esporte. Estão brigando na Justiça. Briga-se por tudo. Motoristas brigam por meio metro numa rua. Briga-se por brigar.
Nosso belicismo é exaltado como virtude, até nas guerras perdidas, como aquela de 35. Somos fanfarrões. No 20 de Setembro, exaltamos a caricatura de um gaúcho gritão e garganteiro.
Li esta semana o livro 1923 _ Diário da Revolução (Laser Press Comunicação), da historiadora Carmen Aita, com imagens pesquisadas pelo fotógrafo Tonico Alvares. Tonico me deu o livro. Está lá a história do famoso combate da Revolução de 23, no dia 19 de junho, na ponte do Rio Ibirapuitã, no Alegrete.
Tem o relato de Honório Lemes. O guerrilheiro maragato garante que ganhou a batalha contra o grupo governista de Flores da Cunha. O Leão do Caverá havia se apoderado da entrada do Alegrete. Flores conta que, para desalojá-lo, ao disparar a cavalo em direção à ponte, gritou bem alto:
_ Os que tiverem vergonha, que me acompanhem.
Ao final de uma tarde inteira de troca de tiros, Honório mandou que seus homens se retirassem, “após ter dizimado o inimigo”. E fez as contas: matou ou feriu mais de 200 chimangos. A retirada teria sido “o complemento de nossa vitória”.
O grupo que abandonou o cenário da guerra considerou-se vitorioso, porque perdera apenas 13 homens, com sete feridos. Honório diz que a debandada se deu “em nome da prudência”.  Claro que era o perdedor.
No ataque, Flores foi acompanhado de perto por Osvaldo Aranha, combatente republicano de 29 anos. Osvaldo tentou cruzar a ponte e levou um tiro no pulmão.
Por que um advogado que já estudara em Paris se meteu numa briga primitiva com revólveres, metralhadoras, espadas e lanças? Vinte e quatro anos depois, Osvaldo presidiria a sessão da ONU que permitiu a criação de Israel. Saiu, em duas décadas, do entrevero do Alegrete para Nova York. E Flores acabaria governador do Estado.
A revolução de 23 aconteceu há 91 anos, apenas isso. É pouco tempo. O confronto do Ibirapuitã repete-se hoje de outro jeito em outras pontes. Pela simplificação do nosso atavismo, podemos dizer que ainda brigamos como chimangos e maragatos porque matamos e morremos em 1835, em 1893 e 1923, sem contar os conflitos de fronteira.

******

Pegando-se as duas guerras civis de 1893 e 1923, com que grupo você simpatiza hoje? Com os revoltosos maragatos de Silveira Martins, Honório Lemes, Gumercindo Saraiva, Joca Tavares, Batista Luzardo, Zeca Netto, Felipe Portinho e Leonel Rocha, da turma de Assis Brasil (juntando-se os grupos das duas guerras contra o governo)?
Ou com os pica-paus e chimangos governistas de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Pinheiro Machado, Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Carlos Barbosa, Demétrio Ribeiro, Lindolfo Collor?
Saí pela Redação a fazer a pergunta: com quem você estaria, nos dois conflitos, considerando-se que as motivações e os interesses eram semelhantes _ o desejo dos maragatos de derrubar os governos de Júlio e, depois, de Borges, sob o pretexto do combate à corrupção e ao autoritarismo?
Parei em várias esquinas da Redação. Achei que alguém me diria que as guerras das oligarquias gaúchas dos séculos 19 e 20 deixaram de ser assunto relevante. Nada disso. Há na Redação de ZH um forte grupo de maragatos, na proporção de oito para dois castilhistas e borgistas.
Apenas dois, dos mais de 30 colegas que entrevistei, disseram que não ficariam com ninguém, naquelas circunstâncias, porque não se veem guerreando ao lado de oligarcas. Gandhi, coitado, não iria prosperar em terras gaúchas.
E vamos bater em retirada, como fez Honório Lemes, e viver do engano de que estamos ganhando.

Artigo| CORTINA DE FUMAÇA

31 de maio de 2014 8

ffffffffffffffffffffffffffFLAVIA MORAES
Cineasta
flavia.moraes@gruporbs.com.br

 

 

 

“A essência da democracia reside na liberdade do indivíduo para abraçar ou rejeitar, exaltar ou abominar qualquer posição política _ posto que ninguém tem a obrigação de articular suas razões e defender suas escolhas. O conceito de ‘politicamente correto’, portanto, só pode existir em regimes totalitários e opressores, já que o significado da expressão é ideologicamente ortodoxo.”
David Mamet

Para começo de conversa, a expressão “politicamente correto” no Brasil é quase uma piada de mau gosto. Político e correto definitivamente não combinam por aqui. A verdade é que nestes tempos cheios de nove horas e não me toques, em que gentileza virou artigo em desuso e em que ética e elegância estão em extinção, a praga do “politicamente correto”, invenção da hipocrisia e do puritanismo americano, serve, lá e aqui, cada vez mais como dissimulação. O “politicamente correto” está longe de ser apenas uma adequação de linguagem, trata-se de uma tendência autoritária e inibidora. Como diria o filósofo Luiz Felipe Pondé, “é uma mentira moral”.
Quem garante que todos os negros preferem ser chamados de “afrodescendentes”,  e a grande maioria dos anões se sinta confortável e representada pela expressão “verticalmente prejudicados”? Ninguém me convence tampouco de que os mais velhos não percebam uma certa ironia na toda certinha “melhor idade”… Melhor idade? Fala sério! Quem, hoje em dia, cede o assento a alguém de cabeça branca? Outro dia, no aeroporto em São Paulo, contei pelo menos 15 cadeiras ocupadas por malas, pacotes e pirralhos de calças e pernas curtas entretidos com o iPhone de algum adulto aliviado. Quando eu era criança, adultos costumavam ter preferência em tudo. Nós, pirralhos, tínhamos que ceder o lugar, esperar a nossa vez e obedecer. Algo saiu errado. Somos adultos e continuamos esperando, mas desta vez, pela criançada cujo status ganhou tanta prioridade, que sequer podemos devolver os puxões de orelha do passado. Afinal, não é politicamente correto educar com ênfase e o resultado está sentado justo aqui, na poltrona de trás do avião disparando chutes sucessivos, é claro, no meu assento. Já o sujeito ao lado, mesmo na condição de pai (tutelado pelo Estado), está praticamente impossibilitado de interferir. Aliás, se passar do ponto pode até ir preso. A Xuxa que me perdoe, mas, se já estava difícil antes da lei da palmada, o que será de nós agora?
O politicamente correto tem outras facetas e também funciona como antídoto ou disfarce para espertalhões ideológicos que se aproveitam desta droga paralisante e se escondem atrás de fracos, oprimidos ou até de grandes causas. Outro dia contei sete adultos acompanhados de UMA única criança de colo furando a fila de embarque _ sim, eu sei, aeroportos outra vez!
Já em uma cidade da serra gaúcha (onde sou veranista), transformada em parque temático que rende alguns milhões para os cofres do município, os moradores são induzidos a engolir um Natal barulhento que dura quase três meses sem reclamar. Afinal, quem de bom coração pode atacar o espírito natalino? E, já que estamos no assunto, quem ainda pode desconfiar do programa que transferiu milhões de brasileiros da miséria absoluta para a quase miséria absoluta? Quem com algum valor moral e cívico pode achar ruim, mesmo quando parece ser um plano maquiavélico de permanência no poder, fantasiado neste caso não de Papai Noel, mas de paladino da inclusão social?
Em situações mais amenas, a imposição da postura politicamente correta engessa _ afinal, pega mal atacar o Bom Velhinho ou políticos tão ocupados em melhorar a vida das pessoas. Mas sua consequência mais nefasta é o fato de nivelar e mascarar diferenças que não estão absolutamente resolvidas: racismo, homofobia, descaso com deficientes e intolerância entre gerações e classes são doenças sociais e o verniz da hipocrisia apenas cria uma nuvem de fumaça que dissimula o que realmente importa. A boa notícia é que estamos vivendo o início da era da transparência, em que esconder posturas, opiniões e conveniências no velho armário, antes seguro, está ficando cada vez mais perigoso. Preste atenção: o armário mudou. Agora, as suas portas são de vidro. Sorria!

Sentenças| Frase da Semana

31 de maio de 2014 0

 

140601sentencas

 

“Vim aqui para dizer que vou me aposentar.”

JOAQUIM BARBOSA
Presidente do Supremo, em visita ao Senado na quinta-feira

Editorial| GUERRA DIGITAL

31 de maio de 2014 2

140531princ_sab_web
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) está convidando candidatos à Presidência da República, representantes de partidos políticos e de provedores de internet para um acordo que contenha a guerra suja nas redes sociais motivada pela campanha eleitoral. A intenção é boa, mas o maior efeito do encontro marcado para terça-feira, em Brasília, será fazer um alerta para os usuários não se deixarem levar pela propaganda enganosa e pela difusão de acusações falsas e maldosas. O melhor que se pode fazer é colocar as pessoas sensatas a serviço de uma cultura de responsabilidade que resulte em maturidade digital, garantindo resultados mais eficientes com oportunidades oferecidas pelas novas tecnologias.
Legalmente, o uso da internet para propaganda política estaria liberado apenas no dia 6 de julho, depois de encerrado o prazo de pedido de registro de candidatos à Justiça Eleitoral. Há alguns meses, porém, multiplicam-se casos de propaganda virtual, valendo-se sobretudo de redes sociais, que ampliaram consideravelmente o número de usuários desde a última eleição presidencial. Os problemas, porém, não estão na publicidade explícita, e sim nos casos dúbios e, principalmente, nos relacionados a um lado perverso dos internautas: o de valer-se do anonimato para disseminar informações claramente forjadas com o objetivo de favorecer ou prejudicar um determinado candidato.
Diante dos orçamentos cada vez mais elevados das campanhas eleitorais no Brasil, uma das muitas vantagens oferecidas pela internet é a de contribuir para a redução dos gastos. Além disso, permite contato instantâneo com os eleitores, fazendo com que praticamente todos os candidatos em busca de votos se disponham a explorá-la ao máximo neste ano. A questão, num território livre como a rede, é que se pode no máximo evitar os excessos cometidos tanto pelos próprios candidatos quanto por suas assessorias e mesmo simpatizantes.
Eleições éticas dependem de mobilizações como as responsáveis pelo Ficha Limpa e as que cobram mudanças no financiamento de campanha e menos jogo sujo na internet. Por isso, iniciativas bem-vindas como o pacto pretendido pela OAB precisam apelar acima de tudo ao bom senso dos usuários das redes, para que não se deixem enganar, nem contribuam com a difusão de calúnias e injúrias.

Artigo| DESCASO COM O PASSE LIVRE ESTUDANTIL

31 de maio de 2014 0

 

ZILÁ BREITENBACH
Deputada estadual e vice-líder da bancada do PSDB

Quando o governo do Estado encaminhou ao parlamento o projeto de lei que instituía o passe livre estudantil no Rio Grande do Sul, os deputados dos partidos de oposição questionaram a configuração da proposta, tendo em vista que excluía do benefício grande parte dos jovens gaúchos. O Executivo elaborou um projeto que assegura recursos do tesouro estadual apenas para estudantes de algumas regiões. Os demais teriam que contar com o financiamento das prefeituras. O tratamento desigual dado por parte do governo motivou a criação de emendas ao projeto.
Na condição de então líder da bancada do PSDB, quando a matéria foi apresentada, protocolei proposta sugerindo a ampliação do benefício para todos os estudantes gaúchos. Ou seja, defendíamos que o governo estadual arcasse com o custo integral do passe livre, isentando as prefeituras. Outras bancadas de oposição fizeram o mesmo.
A matéria foi aprovada com a referida modificação. Entretanto, o governador Tarso Genro vetou as emendas da oposição, mantendo assim a distorção verificada na proposta original.
Agora estamos acompanhando o descaso do governo Tarso com o financiamento do passe livre. Tenho recebido mensagens de jovens de diferentes regiões denunciando o não cumprimento da lei criada pelo próprio governo.
Ao analisar dados obtidos junto à Secretaria Estadual da Fazenda, constatei que, passados mais de seis meses de sancionada a lei, apenas 2,8% do valor orçado para o programa foi executado pelo governo. A previsão orçamentária para este ano é de R$ 16 milhões. Entretanto, até o momento, foram pagos R$ 454,6 mil. Em 2013, dos R$ 2,4 milhões orçados, foram pagos apenas R$ 307,1 mil, ou seja apenas 12,8%. A baixa execução dos recursos leva a crer que o Executivo não tem planejamento.
A displicência no cumprimento de leis é notória por parte da atual administração do Estado, haja vista o descumprimento da Lei do Piso Nacional do Magistério. Na condição de parlamentar, posso assegurar que os deputados estão atentos ao que está acontecendo e não permitirão que o governo permaneça com essa postura irresponsável diante do passe livre.

Artigo| UMA NOVA IMPRENSA

31 de maio de 2014 0

ANTÔNIO GOULART
Jornalista, diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI)

 

O 1º de junho assinala o Dia Nacional da Imprensa. Seu referencial é o primeiro jornal autenticamente brasileiro _ o Correio Braziliense _ surgido na mesma data do ano de 1808. Seu criador, editor, redator e até revisor foi o gaúcho Hipólito José da Costa. O periódico era confeccionado e impresso em Londres e, por ser um crítico da Coroa portuguesa, que mandava no Brasil, só chegava aqui de forma clandestina. Circulou durante 14 anos, com 175 edições.
Passados mais de dois séculos e ao longo de variadas transformações, a imprensa vive hoje um momento de transição. Diante do impacto dos novos meios de comunicação, após o advento da internet e das modernas tecnologias, é notório que os tradicionais veículos impressos de todo o mundo estão em busca de saídas. O objetivo é não perder terreno para o que se chama agora de novas plataformas.
Há controvérsias quanto ao que está por vir. Mesmo com previsões de que o ciclo do impresso em papel esteja por se encerrar, não se pode vislumbrar um desfecho a curto prazo. Tudo aponta para uma convivência harmônica, como já está ocorrendo, entre o passado e o futuro, entre o analógico e o digital, entre o jornal manuseável e o jornal online.
A perspectiva saudável deste panorama incerto é que os leitores estão sendo beneficiados com o resultado do esforço dos nossos veículos em se adaptar aos novos tempos, sem romper com as antigas fórmulas de apresentar seus textos.
No ritmo das crescentes transformações, está surgindo, sem dúvida, uma nova imprensa, muito diferente daquela iniciada por Hipólito da Costa. Um aspecto, porém, não mudou e nem vai mudar. A função primordial e tradicional do jornalismo deve continuar intocável: saber distinguir o que é verdadeiro do que é falso. E só divulgar o que é verídico.
No fundo, o tempo parece não afetar essa atividade ímpar. Quando a imprensa brasileira dava seus primeiros passos, no início do século 19, o filósofo alemão Hegel (1770-1831) cunhou esta frase: “A leitura dos jornais é a prece matutina do homem moderno”. E, com certeza, ainda vai continuar sendo, de um jeito ou de outro.

Artigo| UM HOMEM E SEUS CIGARROS

31 de maio de 2014 0

ENIO LEITE CASAGRANDE
Cardiologista, coordenador do Serviço de Checkup do Hospital Moinhos de Vento

Há alguns anos, atendi um cidadão de 60 anos, fumante pesado, 40 a 60 cigarros por dia. Foi taxativo: eu quero acabar com isso antes que isso acabe comigo! Chamou-me atenção a determinação daquele homem. Os melhores resultados do tratamento antifumo oscilam em torno de 35% de abstinência em um ano e era o que eu poderia oferecer-lhe. Caberia a ele arcar com os outros 65%. A ajuda dos familiares e amigos é fundamental. A escolha da data é relevante e ele já havia definido: decidira presentear-se no Natal. Expliquei as etapas do tratamento, os gatilhos (hábitos que suscitam o desejo de fumar: cafezinho, chope, ligar a TV etc.), a síndrome de abstinência _ irritabilidade, mau humor e uma vontade incontrolável de fumar, e a “fissura” que consiste em mandar tudo às favas e agarrar-se ao cigarro mais próximo. Uma dieta saudável e exercícios físicos melhoram a disposição, ajudam na superação da abstinência, no controle do peso e na prevenção da depressão. Ele ouviu atentamente e concordou: enfrentaria o desafio. Iniciou o tratamento, e parou de fumar no Natal. No dia 31 de dezembro me ligou tomado por uma terrível crise de abstinência que o estava levando à fissura. Recomendei que usasse os tabletes de nicotina (cada um equivale a quatro cigarros). Na consulta seguinte, contou-me que se pusera a cheirar desesperadamente um cigarro, com o sentimento de que estivesse se despedindo de um ente querido. O tratamento prosseguiu, ele conseguiu lidar com os seus tormentos. Foi uma árdua travessia, e ao cabo de 12 semanas já não fumava. Chegara ao seu destino, conquistara a duras penas o troféu: estava livre do fumo. Após seis meses, teve síndrome de abstinência. Novo tratamento, a crise foi debelada e abrandaram-se as turbulências. Vários verões depois, recebi um telefonema na praia. Voz alegre, meu paciente lembrou-me: neste verão completam-se 10 anos que parei de fumar e me tornei um cara saudável!
Este relato _ de uma situação real _ é também uma reflexão sobre os principais aspectos do tratamento antitabágico e as dificuldades e armadilhas da dependência de nicotina. Determinação e participação ativa do paciente, família e amigos fazem a diferença.