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Artigo| OS ÍNDIOS QUE INCOMODAM

24 de maio de 2014 0

moisesMOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora.com.br

 

 

Tente sair da neutralidade e ficar ao lado dos índios ou dos agricultores nesse conflito por um pedaço de terra no norte do Estado. É incômodo, é desconfortável, é constrangedor.  Só os diretamente envolvidos na disputa ou que estão no entorno podem se sentir à vontade para dizer que ficam, categoricamente, com os colonos ou com os caingangues.
Essa é uma briga de miseráveis contra minifundiários. Fracassa quem procurar vilões em Faxinalzinho, se for tentar encontrá-los entre os caingangues e os agricultores. Eles estão fora dali.
O Estado da agricultura intensiva confronta-se com seu primitivismo. É agora que se espalham as perguntas emburrecedoras: como admitir que índios tomem posse de uma terra para dela tirar proveito como extrativistas, se a lavoura capitalista é a prosperidade, mesmo no minifúndio? Por que conceder terras aos caingangues, que vão cultivar roças arcaicas, fazer cestos e admirar os sabiás, se é possível continuar explorando áreas que sustentam famílias e o país com a fartura da soja?
Se fosse convidado a me posicionar, e isso tivesse alguma importância, eu seria condenado pela hesitação. Deixa-se a terra com os colonos e compra-se terra para os índios, ou vice-versa?

***

Convivi com índios e colonos por mais de 10 anos no noroeste do Estado. Entrei várias vezes na reserva da Guarita, que dividiu seus habitantes em classes no final dos anos 70. Os amigos do cacique Sebastião Alfaiate eram da elite que negociava arrendamentos e madeira com os brancos. A maioria, fora do poder, contentava-se com as migalhas concedidas pela hierarquia ao redor do chefe.
Conheci Alfaiate e seus métodos de reproduzir, por duas décadas, até 1982, a estrutura social dos brancos na Guarita. Tinha carteira de sócio de cooperativa e a proteção de políticos. Desfilava numa Ford picape, protegido pela sua polícia. Num Dia do Índio, me encontrei com Alfaiate. O chefe me olhou da cabeça aos pés, tirou um maço de dinheiro do bolso e disse:
_ Tu veio aqui pra saber o que nós queremos pedir às autoridades nesta data? Pois olha bem pra ti, tu é quem tá com jeito de quem tem que pedir alguma ajuda.
Para a ditadura, os Alfaiates deveriam reinar nas reservas do Estado. Os índios nunca seriam um incômodo. Burocratas, “indigenistas” e oportunistas pouco fizeram pela proteção a caingangues e guaranis (os guaranis, em minoria entre 7 mil índios, sempre estiveram entre os escorraçados da Guarita) e deixaram que os índios se amontoassem em reservas compartilhadas com os brancos.
Até que, em 1978, o cacique Nelson Xangrê, de Nonoai, decidiu romper com a acomodação e liderou a sangrenta expulsão de agricultores de terras indígenas do município. Os caingangues que se rearticulam agora para retomar uma área que consideram ser deles trazem para o início do século 21 a inquietação dos anos 70.
É cômodo e simplificador resumir a briga pelas terras a um embate entre quem trabalha e quem não precisa de grandes áreas para desfrutar do ócio contemplativo. Como também é preguiçosa a versão de que os agricultores são usurpadores do patrimônio dos caingangues. Eles, tanto quanto os índios, foram enganados em algum momento por espertalhões públicos e privados.

***

O que não aconteceu, e que muitas autoridades de tempos idos gostariam que tivesse acontecido, foi a extinção ou a total fragilização dos caingangues. Quantos não torceram para que os índios continuassem resignados em acampamentos à beira das estradas, vendendo artesanato nas cidades e tomando porres nos bolichos de Miraguaí e Tenente Portela, até desaparecerem ou se tornarem numérica e socialmente insignificantes.
Mas os caingangues se rebelam, estudam, frequentam a universidade. Na Capital, indiozinhos e indiazinhas cantam e dançam aos domingos no Brique da Redenção. Pedem moedas e um olhar de admiração. Por enquanto, parece que é só o que eles querem.

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