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Artigo| CORTINA DE FUMAÇA

31 de maio de 2014 8

ffffffffffffffffffffffffffFLAVIA MORAES
Cineasta
flavia.moraes@gruporbs.com.br

 

 

 

“A essência da democracia reside na liberdade do indivíduo para abraçar ou rejeitar, exaltar ou abominar qualquer posição política _ posto que ninguém tem a obrigação de articular suas razões e defender suas escolhas. O conceito de ‘politicamente correto’, portanto, só pode existir em regimes totalitários e opressores, já que o significado da expressão é ideologicamente ortodoxo.”
David Mamet

Para começo de conversa, a expressão “politicamente correto” no Brasil é quase uma piada de mau gosto. Político e correto definitivamente não combinam por aqui. A verdade é que nestes tempos cheios de nove horas e não me toques, em que gentileza virou artigo em desuso e em que ética e elegância estão em extinção, a praga do “politicamente correto”, invenção da hipocrisia e do puritanismo americano, serve, lá e aqui, cada vez mais como dissimulação. O “politicamente correto” está longe de ser apenas uma adequação de linguagem, trata-se de uma tendência autoritária e inibidora. Como diria o filósofo Luiz Felipe Pondé, “é uma mentira moral”.
Quem garante que todos os negros preferem ser chamados de “afrodescendentes”,  e a grande maioria dos anões se sinta confortável e representada pela expressão “verticalmente prejudicados”? Ninguém me convence tampouco de que os mais velhos não percebam uma certa ironia na toda certinha “melhor idade”… Melhor idade? Fala sério! Quem, hoje em dia, cede o assento a alguém de cabeça branca? Outro dia, no aeroporto em São Paulo, contei pelo menos 15 cadeiras ocupadas por malas, pacotes e pirralhos de calças e pernas curtas entretidos com o iPhone de algum adulto aliviado. Quando eu era criança, adultos costumavam ter preferência em tudo. Nós, pirralhos, tínhamos que ceder o lugar, esperar a nossa vez e obedecer. Algo saiu errado. Somos adultos e continuamos esperando, mas desta vez, pela criançada cujo status ganhou tanta prioridade, que sequer podemos devolver os puxões de orelha do passado. Afinal, não é politicamente correto educar com ênfase e o resultado está sentado justo aqui, na poltrona de trás do avião disparando chutes sucessivos, é claro, no meu assento. Já o sujeito ao lado, mesmo na condição de pai (tutelado pelo Estado), está praticamente impossibilitado de interferir. Aliás, se passar do ponto pode até ir preso. A Xuxa que me perdoe, mas, se já estava difícil antes da lei da palmada, o que será de nós agora?
O politicamente correto tem outras facetas e também funciona como antídoto ou disfarce para espertalhões ideológicos que se aproveitam desta droga paralisante e se escondem atrás de fracos, oprimidos ou até de grandes causas. Outro dia contei sete adultos acompanhados de UMA única criança de colo furando a fila de embarque _ sim, eu sei, aeroportos outra vez!
Já em uma cidade da serra gaúcha (onde sou veranista), transformada em parque temático que rende alguns milhões para os cofres do município, os moradores são induzidos a engolir um Natal barulhento que dura quase três meses sem reclamar. Afinal, quem de bom coração pode atacar o espírito natalino? E, já que estamos no assunto, quem ainda pode desconfiar do programa que transferiu milhões de brasileiros da miséria absoluta para a quase miséria absoluta? Quem com algum valor moral e cívico pode achar ruim, mesmo quando parece ser um plano maquiavélico de permanência no poder, fantasiado neste caso não de Papai Noel, mas de paladino da inclusão social?
Em situações mais amenas, a imposição da postura politicamente correta engessa _ afinal, pega mal atacar o Bom Velhinho ou políticos tão ocupados em melhorar a vida das pessoas. Mas sua consequência mais nefasta é o fato de nivelar e mascarar diferenças que não estão absolutamente resolvidas: racismo, homofobia, descaso com deficientes e intolerância entre gerações e classes são doenças sociais e o verniz da hipocrisia apenas cria uma nuvem de fumaça que dissimula o que realmente importa. A boa notícia é que estamos vivendo o início da era da transparência, em que esconder posturas, opiniões e conveniências no velho armário, antes seguro, está ficando cada vez mais perigoso. Preste atenção: o armário mudou. Agora, as suas portas são de vidro. Sorria!

Comentários (8)

  • Cristina Kraemer diz: 1 de junho de 2014

    Oi Flavia, ameiii este texto e realmente já estou de ‘saco CHEIOOO” DESTA IPOCRESIA REINANTE E ATUANTE NO BRASIL!!!
    Por que o que realmente importa ser amplamente discutido e reformado é: a educação e criação que tivemos,temos e vamos ter,( filhos, pais indivíduos brasileiros) que é; totalmente equivocada, reacionária, colonizada…que criou este monstro chamado ” povo Brasileiro” que se acha esperto mas é imbecilizado, que se acha trabalhador mas adora um biquinho ou mamata pra ir levando até que consiga alguma “grande oportunidade de roubar também “, entregam toda energia de garra, fibra e luta para um time de futibol ou numa igreja que vende fé e faz lavagem celebral total e por aí vai !! Politicamente correto não é uma quase piada, É UMA PIADA DE MUITO MALGOSTOOOO!!!! Beijão Flavia!!!

  • Roberto Azevedo diz: 1 de junho de 2014

    A grande, velha e sábia Flavia Moraes. Grande Guria, tá certa na opinião.

  • Eleonora Bettiol Prado da Silva diz: 1 de junho de 2014

    Uma maravilha seu texto sobre as circunstância atuais no nosso armário de cristal verde amarelo brasileiro. Na mosca!Ou quem sabe no ninho de marimbondos. Claro objetivo e direto, sem papas na língua. Meus Parabéns! Beijos, Nora Prado

  • Claudia Secaf diz: 1 de junho de 2014

    Pelo que sabemos de nossos parlamentaristas aprovando propostas politicamente corretas, propostas populistas e principalmente inúteis, esta Lei da Palmada irá alimentar ainda mais a intervenção do Estado na vida privada das pessoas…é muita demagogia, Lei desnecessária…Já existem leis suficientes para punir os crimes hediondos contra a violência aos menores…Todos sabemos o que é um castigo abusivo e violento; não precisamos de mais uma Lei para nos ensinar isto!

    ” Caiu a cortina da grande nação. Pobre que era a nossa terra, pobre que eu era…Acima da Lei nunca mais, coroneis não são imortais; a Pátria é nossa, temos que lutar. A Lei é a voz nacional, divide o bem e o mal, agora ladrão vai ter que pagar…”
    ( trecho da música Grande Nação – Banda da Esquina: Álbum Da Bota Pra Fora)

  • Marco Aurelio Figueiredo diz: 1 de junho de 2014

    Embora seja eu um defensor do politicamente correto, no seu caso vou abrir uma exceção com o devido respeito de outrora lhe tratarei como “carcaça velha bruxa asquerosa”, e também aproveito meu arroubo de sinceridade para dizer que por mais que se esforce para se esconder atrás de uma máscara conservadora démodé estilo anos 50, seu guru, jamais vai deixar de representar, no mundo real, mais do que aquele personagem de Chico Anísio o “Aroldo o Hetero”, não me entenda mal adoro homossexuais, mas detesto Pondes. Enoja-me o uso corriqueiro de por parte de conservadores expressões do tipo hoje em dia não há respeito, há violência, desonestidade, imoralidade como se isso fosse invenção da modernidade. A pergunta é Antes não havia? Na ótica dos opressores talvez não, na visão de um branco, cristão, adulto, heterossexual o mundo antes do politicamente correto deveria ser bem legal até porque seus abusos estavam tão enraizados em sua cultura que já assumiam um caráter de normalidade. Tratar serviços mal feitos ou atos desonestos como coisa de negrão ou espancar seus filhos sistematicamente em nome de uma educação que eles não tinham e daí por diante, era algo que não afetava os sentidos da antiga ordem social. Sinceramente sugiro a você e Pondê que emitem opinião desconhecendo a visão dos antigos afetados, como os alejados, mongolóides, retardados, vesgos, putos, macacos, peguem o que tem a dizer e escrevam em papel cartaz enrolem depois enfieeeem num tubo de PVC, lacrem; depois emfieeeeem num buraco no chão, quem sabe daqui a alguns séculos algum religioso mal resolvido não encontre, eis que surge uma nova revelação. Retomando meu eixo politicamente correto me despeço.

  • Douglas diz: 2 de junho de 2014

    Poxa, bacana o texto dela. Posso dizer até que ela me representa, rsrsrsr. Só achei arrisco ela citar Luiz Felipe Pondé. Os pseudos “intelectuais” vão torcer o nariz. E quanto aqueles de direita e de esquerda? Quando deixaram de ver que o problema não é partido?

  • José Antônio Alves Tabajara diz: 2 de junho de 2014

    Flávia: Parafraseando Voltaire, confesso que “não concordo com nenhuma de tuas afirmações, mas defenderei até à morte teu direito de dizê-las”. Se atentarmos para o significado semântico dos dois termos formadores da expressão, veremos que o seu conjunto INOVA conceitualmente, desobrigando a primeira de sua conotação restrita ao trato da “res publica”. Esta breve consideração não tem o sentido de censura, mas de comprovar que li “de cabo a rabo” teu texto. Por outro lado, serve de pretexto para te informar que parabenizo a RBS por enriquecer seu elenco pela tua participação!

  • Ivan Mattos diz: 3 de junho de 2014

    Parabéns pela lucidez e pela clareza, Flávia, viraste minha ídola…é isso aí, abaixo a hipocrisia reinante. Um abraço.

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