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Artigo| FUJAM PORQUE ESTAMOS VENCENDO

31 de maio de 2014 0

moisesMOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br

 

 

 

Os gaúchos devem ser o único povo do mundo que discute se tiro de laço é esporte ou cultura. Imagine se um peão vai querer saber se está construindo um bem cultural ou participando de uma disputa quando laça um boi no meio do campo, sem nenhuma testemunha por perto.
O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) entende que laçar é cultura, e a Federação Gaúcha de Laço acha que é esporte. Estão brigando na Justiça. Briga-se por tudo. Motoristas brigam por meio metro numa rua. Briga-se por brigar.
Nosso belicismo é exaltado como virtude, até nas guerras perdidas, como aquela de 35. Somos fanfarrões. No 20 de Setembro, exaltamos a caricatura de um gaúcho gritão e garganteiro.
Li esta semana o livro 1923 _ Diário da Revolução (Laser Press Comunicação), da historiadora Carmen Aita, com imagens pesquisadas pelo fotógrafo Tonico Alvares. Tonico me deu o livro. Está lá a história do famoso combate da Revolução de 23, no dia 19 de junho, na ponte do Rio Ibirapuitã, no Alegrete.
Tem o relato de Honório Lemes. O guerrilheiro maragato garante que ganhou a batalha contra o grupo governista de Flores da Cunha. O Leão do Caverá havia se apoderado da entrada do Alegrete. Flores conta que, para desalojá-lo, ao disparar a cavalo em direção à ponte, gritou bem alto:
_ Os que tiverem vergonha, que me acompanhem.
Ao final de uma tarde inteira de troca de tiros, Honório mandou que seus homens se retirassem, “após ter dizimado o inimigo”. E fez as contas: matou ou feriu mais de 200 chimangos. A retirada teria sido “o complemento de nossa vitória”.
O grupo que abandonou o cenário da guerra considerou-se vitorioso, porque perdera apenas 13 homens, com sete feridos. Honório diz que a debandada se deu “em nome da prudência”.  Claro que era o perdedor.
No ataque, Flores foi acompanhado de perto por Osvaldo Aranha, combatente republicano de 29 anos. Osvaldo tentou cruzar a ponte e levou um tiro no pulmão.
Por que um advogado que já estudara em Paris se meteu numa briga primitiva com revólveres, metralhadoras, espadas e lanças? Vinte e quatro anos depois, Osvaldo presidiria a sessão da ONU que permitiu a criação de Israel. Saiu, em duas décadas, do entrevero do Alegrete para Nova York. E Flores acabaria governador do Estado.
A revolução de 23 aconteceu há 91 anos, apenas isso. É pouco tempo. O confronto do Ibirapuitã repete-se hoje de outro jeito em outras pontes. Pela simplificação do nosso atavismo, podemos dizer que ainda brigamos como chimangos e maragatos porque matamos e morremos em 1835, em 1893 e 1923, sem contar os conflitos de fronteira.

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Pegando-se as duas guerras civis de 1893 e 1923, com que grupo você simpatiza hoje? Com os revoltosos maragatos de Silveira Martins, Honório Lemes, Gumercindo Saraiva, Joca Tavares, Batista Luzardo, Zeca Netto, Felipe Portinho e Leonel Rocha, da turma de Assis Brasil (juntando-se os grupos das duas guerras contra o governo)?
Ou com os pica-paus e chimangos governistas de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Pinheiro Machado, Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Carlos Barbosa, Demétrio Ribeiro, Lindolfo Collor?
Saí pela Redação a fazer a pergunta: com quem você estaria, nos dois conflitos, considerando-se que as motivações e os interesses eram semelhantes _ o desejo dos maragatos de derrubar os governos de Júlio e, depois, de Borges, sob o pretexto do combate à corrupção e ao autoritarismo?
Parei em várias esquinas da Redação. Achei que alguém me diria que as guerras das oligarquias gaúchas dos séculos 19 e 20 deixaram de ser assunto relevante. Nada disso. Há na Redação de ZH um forte grupo de maragatos, na proporção de oito para dois castilhistas e borgistas.
Apenas dois, dos mais de 30 colegas que entrevistei, disseram que não ficariam com ninguém, naquelas circunstâncias, porque não se veem guerreando ao lado de oligarcas. Gandhi, coitado, não iria prosperar em terras gaúchas.
E vamos bater em retirada, como fez Honório Lemes, e viver do engano de que estamos ganhando.

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