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Posts de maio 2014

EDITORIAL| A ROTINA DA TRANSGRESSÃO

19 de maio de 2014 0

Editorial19A recente greve da polícia militar em Pernambuco voltou a revelar uma faceta deplorável do país: bastou os organismos de segurança se ausentarem momentaneamente das ruas para que parcelas da população se sentissem autorizadas a enveredar para o crime. Divulgadas para todo o mundo, as cenas de saques a lojas e depredações de veículos, entre muitas outras demonstrações de transgressão à lei, comprometem a já desgastada imagem do país e suscitam algumas reflexões importantes. Uma delas é o que levaria tantos brasileiros a se sentirem autorizados a agir de forma criminosa _ depredando prédios, saqueando lojas e incendiando ônibus, por exemplo _ simplesmente porque não estão sendo observados pelos policiais.
As imagens recentes que chocaram os brasileiros de boa formação não são uma exclusividade dos moradores de Recife e cidades vizinhas. Ainda no mês passado, uma greve dos policiais militares na Bahia deu margem, igualmente, a episódios semelhantes. Mudou apenas o foco dos saques, que de cerveja e pescados na época da Semana Santa, em Salvador, incluíram agora preferencialmente eletrodomésticos. Em Recife e arredores, os vândalos chegaram a formar grupos para conseguir transportar produtos de maior porte, constrangendo e provocando natural indignação em quem tem um mínimo de princípios.
Em diferentes cidades do país _ incluindo o Rio de Janeiro, constantemente às voltas com episódios de violência _, ausência de vigilância policial tem sido interpretada como autorização para os delinquentes. Infelizmente, muitas pessoas se deixam contaminar pela má conduta. Protegidas pelo anonimato, acabam engrossando as hordas de desordeiros. Ora, o errado é errado, mesmo que todo mundo esteja fazendo. E o certo é certo, mesmo que ninguém esteja fazendo. Precisamos construir no país uma cultura de ética e cidadania, para que a própria população ajude a controlar os verdadeiros delinquentes.
O Estado brasileiro também contribui para fomentar desvios quando ajuda a reforçar a ideia de impunidade, deixando prosperar males como a criminalidade e a corrupção. O mesmo ocorre quando o poder público se mostra incapaz de assegurar um mínimo de segurança nas ruas, durante a greve de uma corporação que, pela relevância do serviço prestado, não deveria ter o direito de simplesmente cruzar os braços. Seja qual for o caso, porém, o limite a transgressões como depredações e apropriação indébita mediante violência não pode depender apenas de contenção policial.

ARTIGO| A EDUCAÇÃO CLAMA POR AJUDA

19 de maio de 2014 1

JOÃO DERLY
Vereador de Porto Alegre, líder da bancada do PC do B, presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude

Nas atividades itinerantes da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude (Cece) da Câmara Municipal, foram realizadas visitas e reuniões com os conselhos escolares das escolas municipais. Apesar do rico debate e troca de ideias sobre a qualidade da educação municipal da nossa cidade, é de se lamentar uma constatação quase uníssona: falta segurança.
No momento em que uma notícia como a da menina baleada no Colégio Padre Rambo vem à tona, a sociedade se choca e todos, da pior forma, ficam cientes do que ouvi em depoimentos de pais, professores e estudantes que alertavam para a iminência de um acontecimento do gênero. E o problema não está apenas na escola como também no entorno. Segurança e execução de políticas de combate à violência são dever do poder público. É necessário articular ações entre as secretarias e níveis de governo. Falta estrutura, responsabilidade e planejamento para governar a cidade.
Investimentos em educação e segurança, especialmente da juventude, devem estar no centro da agenda do governo. Em 2013 a prefeitura optou por não contar com 84 novos guardas municipais, aprovados em concurso, mas não nomeados. Eles fazem falta, como podemos observar, em escolas que foram, são e serão vitimadas pela violência.
A Câmara tem cumprido seu dever. Vereadores de oposição pressionam pela nomeação de novos guardas municipais e articulado debates nas comunidades. A bancada do PC do B propôs projetos que melhoram as condições de escolas, como a instalação de internet livre e gratuita em instituições municipais de ensino, objetivando qualificar a estrutura, além de fomentar a prática esportiva a crianças e jovens. Também é do PC do B o projeto que inclui a Lei Maria da Penha no currículo escolar, para reduzir a violência doméstica.
A prefeitura precisa assumir suas responsabilidades, garantindo mais segurança à população e melhor infraestrutura e condições de trabalho nas escolas. Na Cece, a agenda de visitas será ampliada e será montado um dossiê, que será entregue ao Executivo e discutido em uma audiência pública com a comunidade.

ARTIGO| 13 DE MAIO

19 de maio de 2014 1

PAULO BROSSARD
Jurista, ministro aposentado do STF

O aniversário da abolição da escravatura faz lembrar a sua marcha, a começar pela proibição da importação de escravos, seguindo-se a lei do ventre livre, dos sexagenários e por fim a extinção da instituição sinistra.
Ao prefaciar o livro de Osório Duque Estrada sobre a abolição, Rui Barbosa assinalou que o abolicionismo foi a mais expressiva corrente de opinião entre nós formada. Saliente-se que à liberdade seguiu-se abandono dos alforriados e o grosso da antiga população escrava tomou o freio nos dentes e se esparramou; foram muitos os dizimados pela doença, vício da bebida, a vadiagem; contudo, boa parte permaneceu próximo a seus antigos senhores, exercendo ofícios particularmente manuais, padeiro, ferreiro, pintor, mecânico, da mesma forma que as mulheres passaram a cozinheiras, doceiras, bordadeiras, lavadeiras estas com enormes trouxas à cabeça, equilibradas e seguras, vencendo distâncias a passo lépido; de modo especial, tiveram a atração de regiões dedicadas à produção do açúcar, cacau, café, charque, ou extração de minérios.
Em pouco tempo formou-se camada de profissionais, inclusive de servidores públicos, que contribuiu para a formação de componente social distinto, importante para o país.
E o tempo se encarregou de aprimorar a convivência entre o antigo escravo e o seu senhor; cresceu o número de professores, negros ou pardos, inclusive os de nível superior e lentes de faculdades. Nota-se, por exemplo, que quando a música popular lançou “ó nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia…”, brancos e pretos cantaram e dançaram sem que a lei a isso os obrigasse ou distinguisse.
A meu juízo, o ciclo iniciado com a extinção do trabalho servil se processou de maneira progressiva, até chegar ao ponto atual, inacabado, mas definitivo. A mim chama a atenção o deliberado esquecimento do 13 de maio, que não ocorreu nem por acaso, nem sem esforços de mais de uma geração. Perdoem-me os que, silenciando, pretendem substituí-lo pelo dia da consciência negra, pois é uma enorme injustiça em relação aos que lutaram até conseguir a abolição da escravatura.

ARTIGO| A COPA DO MUNDO É NOSSA

19 de maio de 2014 1

LELÉ GUERRA
Professora, pedagoga multimeios e escritora

Mais uma Copa do Mundo que chega. O 20º campeonato mundial de futebol. E acontecerá aqui, no Brasil. A menos de um mês do grande evento, a mobilização é geral. Tanto de quem é a favor quanto de quem é contra. Estamos no olho do furacão e é impossível passarmos imunes.
Muito se tem ouvido falar sobre a Copa ser realizada no Brasil. O evento nem começou e esse papo já cansou. A verdade é que agora é tarde. As manifestações contra deveriam ter sido feitas lá atrás, quando o Brasil se candidatou a ser a sede da grande festa do futebol. Agora é hora de quebra-quebra, passeatas, boicotes e tumultos?
Será que realmente a Copa é a culpada pela falta de investimento em hospitais e escolas? O dinheiro gasto poderia ser investido nesses setores. Poderia mesmo? Se a Copa fosse em qualquer outro país do mundo, as coisas seriam diferentes por aqui? Será que nada de positivo a Copa trará para nosso país?
Se o bom senso não foi usado pelos responsáveis lá em 2003, quando Brasil, Argentina e Colômbia se candidataram ao posto de anfitrião, que o usemos agora.
Receber bem o turista, evitar protestos, fazer bonito. Colorir, lentamente, nosso país de verde e amarelo. Que possamos realmente aproveitar o que o evento pode nos trazer de bom. A aproximação de diferentes culturas, a alegria e a paz nas torcidas, a crença na força de um grupo. Não importa a idade, nem a raça. Criança, jovem, idoso. Negro, branco, vermelho ou amarelo. Tanto faz a profissão: doutor, professor, músico, comerciante, jornalista. Colorado ou gremista.
Seremos, literalmente, durante um mês, entendedores absolutos do ofício. Impedimento, escanteio, tiro de meta, pênalti, oitavas de final. Palavras que incorporaremos ao nosso dia a dia e que irão permeando o papo no trabalho, no ônibus, na banca de jornal, dentro do elevador.
O mundo, durante um mês, deixará de ser achatado nos polos e passará a ter a forma de uma esfera perfeita com seus seis gomos, que aguarda o momento de rolar para o fundo das redes. E, nessa hora, que ecoe por todo o país o grito: Gol do Brasil!

Artigo| O ABISMO DO FANATISMO

17 de maio de 2014 0

 

 

TavaresFLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

 

 

O poder do fanatismo é inigualável. Paira acima de tudo, pois se sustenta na fantasia da invenção (ou na invenção da fantasia) e cria um mundo de névoa que se alimenta da mentira. E nada é mais difícil do que desenredar uma mentira elaborada pela repetição de absurdos que penetram na consciência aos poucos, gota a gota. A “lavagem cerebral” é isto!
Aquela senhora de 33 anos, morta a pauladas e pontapés (há duas semanas, em plena rua em Guarujá, no litoral paulista) pela turba apoplética que a chamava de “feiticeira e sequestradora de crianças”, não é apenas vítima inocente de um linchamento provocado por um erro de avaliação. Os detalhes, filmados por um espectador e reproduzidos pela TV, mostraram um crime de aberrante crueldade, típico das trevas da Idade Média, mas preparado a partir do mais avançado instrumento de comunicação da modernidade _ a internet.
E tudo se torna ainda mais cruel e nauseabundo. O avanço da inteligência humana passa a servir ao crime _ seja a invasão da privacidade pessoal, ou a espionagem e o roubo de segredos de Estado ou sigilos industriais, até a troca de insultos, a extorsão ou a tentativa de sedução pela pornografia e a invencionice, tudo passa agora pela internet. Ou por similares, como os “torpedos” do telefone celular.
**
O ser humano que dialoga, indaga e escuta, ama e se enternece, virou “careta”. Mais vale enredar-se no fetiche tecnológico, apertar botões e simular o que não somos. Assim, pode-se odiar sem mostrar que se odeia. Ou enganar e roubar pela rede virtual. E fantasiar mentiras, como no crime de Guarujá.
As multidões adoram embalar-se no fanatismo da mentira. Foi assim com as “bruxas” queimadas vivas pelo populacho na Inquisição. Ou no culto à perseguição e à morte, com que Hitler e Stalin tentaram assentar seus impérios. Entre nós, o fanático “pra frente Brasil” dos tempos da ditadura do general Médici antecedeu as mentiras que o estamento político-partidário hoje propaga impunemente, de olho em nosso voto. E a sociedade de consumo (em que não somos pessoas ou cidadãos, só “consumidores de bens”), nos empanturra com tolas quinquilharias, envenena leite com formol ou soda cáustica, e nos vende alimentos desenvolvidos a partir do petróleo, “com sabor e cor artificial”.
A saúde não conta, nem a vida conta! A medicina eletrônica criou diagnósticos precisos, mas as doenças se multiplicam, faltam hospitais e médicos. Estamos todos doentes?
***
Em contraposição a essa avalanche do horror, dias atrás ouvi lúcidas advertências sobre “a globalização da indiferença”. No almoço-palestra da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE), o arcebispo metropolitano, dom Jaime Spengler, lembrou que “o ser humano não é um bem de consumo, que se usa e se joga fora”. A partir da exortação “Evangeli Gaudium” do Papa Francisco, retratou os descaminhos da era tecnológica que, em extremada racionalização “reduz tudo a cálculos matemáticos”, dos níveis sanguíneos (que definiriam a saúde) ao bem-estar.
E alertou também: “Tudo é visto a partir da perspectiva do negócio, inclusive em igrejas”.
_ Até o religioso virou negócio. E bom negócio!  _, acentuou, em alusão às pseudoigrejas transformadas em fábricas de milagres cobrados a peso de ouro e símbolos da cobiça. Esse frei franciscano elevado a arcebispo tocou ainda no “niilismo individualista que leva à decadência do atual modo de pensar” e lembrou que não se deve responsabilizar apenas o Estado pela perplexidade do “sistema econômico ambíguo” atual: “De fato, o Estado não existe isoladamente. O que existe são homens e mulheres congregados num espaço”.
E pediu discernimento para vencer os abismos. Fica a convocação!

Artigo| João, a Copa e as notas

17 de maio de 2014 0

 

MOISÉS MENDES

Jornalista
moises.mendes@zerohora.com.br

Há famílias com vários times dentro de casa às vésperas da Copa. O time dos loucos por Copa, dos anti-Copa, dos indiferentes, dos que torcem pela Croácia. Você joga em que time?
Com a aproximação do Mundial, há trégua de alguns setores que combatem a Copa e um cansaço dos protestos. Na quinta-feira, considerando-se o número dos que saíram às ruas, as manifestações foram quase um fracasso.
Os protestos vão sendo esvaziados porque é complicado sair gritando contra a Fifa, o governo e os empreiteiros sem saber quem está ao lado. O que querem mesmo os que se manifestam contra a Copa?
Fragilizar Dilma, atacar a mídia, denunciar o superfaturamento dos estádios, reclamar por mais saúde. Ou apenas pegar carona neste embalo como reacionário que protesta contra alguma coisa?
O certo é que, com tantas carências, a Copa constrange. Por mais que Lula se orgulhe de ter trazido o Mundial para o Brasil, é difícil aceitar que sua sucessora veja a conquista como um bom negócio.
Pessoas sérias, como o ex-ministro Rubens Ricupero, põem a Copa entre os fatores decisivos para a definição das eleições. Em 1970, o então guerrilheiro Fernando Gabeira tentava convencer os parceiros de luta armada de que era preciso torcer contra a Seleção, porque assim os generais não seriam fortalecidos. Gabeira conta no livro O que é Isso, Companheiro que, no fim, acabou torcendo.
O projeto de trazer a Copa para o Brasil tem um forte componente político, sustentado pela ideia de que é uma energia a ser capitalizada. Mas e os riscos? E os superfaturamentos? E o Messi?
Na quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff reuniu no Alvorada um time com alguns dos principais cronistas de futebol do Brasil _ entre os quais o nosso Paulo Sant’Ana _ para dizer que a Copa faz bem.
No jantar, Dilma deve ter olhado para o topete de Juca Kfouri, o nariz do Paulo Vinícius Coelho, o PVC, e a bengala do Sant’Ana e indagado-se: o que eu ganho com isso? O que o Brasil ganha mesmo com a Copa? É um cálculo complicado, porque envolve os benefícios da imagem no Exterior, dos tais legados e da autoestima, além de outros intangíveis.
No geral, estudos pró-Copa indicam que o país-sede sempre arrecada mais do que gasta. Estudos mais críticos dizem o contrário.
Mas é difícil isentar a festa de seus defeitos, entre os quais o mais visível é o das informações insuficientes para que se saiba o que, afinal, é público e privado na gastança.
Só que agora é a hora de ver o jogo. Quem gosta de futebol não precisa se agarrar às teorias de que é assim que se constrói nossa identidade. Gosta-se de futebol e pronto. E a Seleção é de todos nós.
Vai ser bom ter Porto Alegre tomada pelos argentinos. Esta também será uma Copa de despedidas, a última narrada por Galvão Bueno, como a de 2006 foi a última do grande Armindo Antônio Ranzolin, que verá seu segundo Mundial pela TV.
Copas servem para demarcar finais de carreira, algumas vezes sem possibilidade de retorno. O maior comentarista brasileiro de futebol de todos os tempos, João Saldanha, e dois dos maiores narradores, Pedro Luiz e Fiori Gigliotti, morreram, gloriosamente, durante Copas.

*****

Saldanha contava que a Copa de 1986 seria a sua última, porque se sentia humilhado ao retornar dos Mundiais. A pior parte, dizia, era a da prestação de contas a uma moça da área administrativa do Jornal do Brasil, que lhe pedia notas que ele não tinha.
O alegretense foi à Copa de 90 a contragosto e morreu em Roma quatro dias depois da final entre a Argentina e a campeã Alemanha. João Saldanha era comunista e adorava tanto o futebol que chegou a treinar a Seleção de 70, em meio ao mais feroz período da ditadura.
Se até Saldanha fez isso por amor ao futebol, não nos custa curtir a Copa a partir de agora. Desde que em algum momento nos apresentem as notas.

Artigo| A REVOLUÇÃO DIGITAL

17 de maio de 2014 1

 

Nelson MattosNELSON MATTOS
nelson.m.mattos@gmail.com
Doutor em Ciências da Computação, gaúcho, residente no Silicon Valley, Califórnia

 

Não há dúvida de que a revolução digital está transformando o mundo. Em menos de uma geração, a internet cresceu do nada para mais de 2,5 bilhões de usuários; está disponível desde o Monte Everest até o Polo Sul; hoje em dia, existem 60 trilhões de endereços na web, levando o Google a ter que indexar 20 bilhões de páginas por dia; em nível global, são produzidos cerca de 5 exabytes de dados diariamente (isto é mais do que 5 bilhões de caminhões cheios de livros _ o mundo nem tem 5 bilhões de caminhões). Companhias como Facebook e Google, com mais de 1 bilhão de usuários servem a um número igual a 16% da população mundial (por volta de 7 bilhões).
A internet tornou-se uma parte tão integral da nossa vida, que quatro em cinco adultos no Primeiro Mundo consideram o acesso à rede um direito humano. Hoje com certeza é difícil imaginar a vida sem ela. Por isso, ela está tendo um impacto profundo, tanto positivo quanto negativo, no comportamento das pessoas, na sociedade, nos governos, e na economia. A internet facilitou como nos comunicamos, mas criou um desafio para as empresas de telecomunicações _ desde 2012, por exemplo, mais de um terço das ligações internacionais é feito no Skype. Ela popularizou o consumo de informação pela sociedade, mas causou uma ruptura na imprensa tradicional _ a Enciclopédia Britânica, depois de 244 anos, deixou de ser impressa, atribuindo isso à Wikipédia e à “febre da internet”. Também criou novas formas de entretenimento, mas gerou um impacto irreversível na televisão tradicional _ nos Estados Unidos, o YouTube já alcança mais adultos entre 18 e 34 anos do que qualquer rede de televisão a cabo. A internet trouxe dificuldades para os governos autoritários, mas permitiu novas formas de espionagem e invasão de privacidade _ a revolução árabe foi, em grande parte, possível pelo uso popular da internet, o mesmo uso que está permitindo ao governo americano espionar outros indivíduos. Se por um lado ela se tornou uma das grandes alavancas da economia mundial, por outro obrigou empresas a se modernizarem para não se tornarem obsoletas da noite para o dia _ anualmente, mais de US$ 1 trilhão mudam de mãos mundialmente através de e-commerce. A internet também contribuiu enormemente na educação com um número de vídeos educacionais disponíveis online desproporcionalmente maior do que o número de livros educacionais impressos. Os vídeos da Khan Academy no YouTube, por exemplo, já foram vistos mais de 185 milhões de vezes. Que livro educacional chegou perto de ser lido 185 milhões de vezes? Porém, junto ao acesso ao conteúdo educacional, a internet facilitou a exposição de conteúdo pornográfico, racista, e de outras formas de radicalismo.
Eu acredito que, apesar dos problemas criados, a internet tem um saldo extremamente positivo, abrindo oportunidades para pessoas em todos os lugares, tornando o mundo mais aberto, mais justo e mais próspero.
A verdade é que a internet está não só fazendo mudanças radicais, mas também tornando-as irreversíveis e inevitáveis. Isso, obviamente, não pode ser ignorado. Sendo essas mudanças tão profundas, gosto de chamá-las de “Revolução Digital”. Assim, vou dedicar esta coluna mensal a entender essa revolução, a explicar o que está permitindo que ela aconteça, como ela está causando a proliferação do uso de tecnologia, a explicar novas tendências e o que o futuro nos trará.
Até o próximo encontro!

Sentenças| FRASE DA SEMANA

17 de maio de 2014 1

 

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“Estou ressentida com Deus.”

JACKIE KENNEDY ONASSIS
Em correspondência privada com o padre irlandês Joseph Leonard, descoberta agora, referindo-se ao assassinato de John Kennedy

Editorial| A MORALIZAÇÃO DO FUTEBOL

17 de maio de 2014 0

 

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É oportuno o momento escolhido pelo governo para incentivar e ajudar a viabilizar mudanças estruturais na gestão do futebol brasileiro. A intenção foi manifestada pela presidente da República, em jantar que ofereceu a 10 jornalistas esportivos, representantes dos principais veículos de comunicação do país, na quinta-feira, e dá sequência a outras iniciativas tomadas pelo Executivo para qualificar não só a administração do futebol, mas também de outros esportes. Ressaltou a senhora Dilma Rousseff que tal disposição não pode ser vista como uma intervenção do Estado numa atividade essencialmente privada. Disse textualmente a presidente que sua intenção não é a de criar a Futebrás, numa referência a inúmeras estatais cujas atribuições são sempre questionáveis.
A atitude do governo tem o mérito de provocar federações e clubes a saírem da inércia. Há uma explicação para o fato de que, apesar de ser uma atividade que deve se autorregular, o futebol precisa, sim, de alguma forma de orientação do setor público. O principal argumento nesse sentido é o sempre lembrado suporte financeiro que instituições governamentais oferecem ao futebol. O exemplo mais recente foi lembrado pela presidente no encontro de quinta-feira: os 12 estádios erguidos ou reformados para os jogos da Copa dispuseram de financiamentos do BNDES. A União tem a obrigação de saber como tais verbas foram aplicadas e contribuir para que a gestão de dinheiro público seja eficaz e transparente.
Outro aspecto da preocupação do governo é o que diz respeito à situação dos clubes como devedores da União. Dívidas fiscais, algumas cobradas muitas vezes, sem que os acordos sejam cumpridos, expõem a fragilidade _ e em alguns casos até mesmo ações delituosas _ de entidades que manipulam somas milionárias. Como observou Dilma Rousseff, o governo não pode continuar perdoando débitos ou mesmo parcelando valores em atraso, sem a devida contrapartida. A presidente chegou a sugerir que a melhor forma de reconhecer bons pagadores é punir, com penas esportivas, quem não consegue cumprir com suas obrigações. O que a União pretende é a total profissionalização de uma área que executa projetos gigantescos, como as arenas, mas é incapaz de gerir, com raras exceções, suas atividades com um mínimo de eficiência.
As mudanças passam também pela reavaliação da relação das federações e dos clubes com os torcedores e com os profissionais. O primeiro passo será dado em encontro com líderes do Bom Senso F.C, movimento comandado pelos jogadores, com o intuito de modernizar as estruturas do futebol brasileiro e o calendário de eventos. Ao contribuir para que a administração do esporte esteja de acordo com a importância da atividade para o país, o governo cumpre sua função de zelar pelos recursos públicos que as entidades absorvem _ e que são de todos os brasileiros _ e contribui para que a paixão pelo futebol não acabe por encobrir ineficiências e desmandos.

Artigo| ENTRE ASAS E RAÍZES, O AVESTRUZ

17 de maio de 2014 0

 

A. MARCUS F. PAIM
Consultor de empresas

Jorge Gerdau afirmou nossa alienada acomodação e as reações sintomáticas, tipicamente grenalizadas, confirmaram. Sim, somos ou estamos acomodados. E nem sempre felizes. O traço genial do Fraga ilustrou a matéria na ZH, dia 6, com síntese perfeita. Valores de raiz também esclerosam, viram amarras. Asas e turbinas empreendedoras se desperdiçam entre os rodopios do debate estéril.
Na mesma edição, sem explicações razoáveis, desperdício de dinheiro público e vidas soterradas pela montanha de medicamentos vencidos conviviam com as eternas obras do aeroporto. Tudo bem, nossa indignação segue compartilhada. Baderneiros tiraram o povo das ruas, mas curtimos tudo nas redes e conversas de elevador.
A alguns de nós tem faltado equilíbrio. Apenas contra ou cegamente a favor. A ferida narcísica dos farrapos não cicatriza. Temos que ser melhores em tudo, ter razão o tempo todo. As falas fáceis e fartas deslumbram, mas não foram feitas para o mundo das coisas práticas. Onde há plateia, predomina a retórica como um fim em si.
Dói em nós a chaga do recesso ético e dos oportunistas de plantão. E temos os egoístas do curto prazo, que só refletem quando há risco imediato à própria pele. Mas numerosos mesmo são os membros da família Struthio camelus, o simpático avestruz. Absurdos se empilham sob o tapete e tudo segue como se a educação opaca, a estrada esburacada, a rotina de dramas pessoais e a insegurança coletiva fossem fenômenos naturais.
Não haverá mudança consistente sem o desconforto da luz sobre fatos e atitudes. Nenhum humano muda algo relevante, em si ou no ambiente, enquanto acha que está tudo bem. Sociedades não conseguem o resgate de si mesmas sem a coragem para ver. E não há quem se mexa com a cabeça afundada na terra fofa do faz de conta. Governantes só trabalham para a felicidade de quem os elege quando saem da emblemática posição do avestruz.
A troca de ideias tem que ser maior do que a de farpas. Já que conceitos são sempre menores do que a realidade que tentam retratar, que tal trocarmos o radicalismo adolescente pelo diálogo adulto? Ainda antes da Copa.