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Posts de junho 2014

SOBRE O EDITORIAL DE ZH

30 de junho de 2014 15

Texto publicado no blog  do prefeito José Fortunati sobre manifestação no programa Atualidade a respeito do editorial A última festa publicado em Zero Hora de 30 de junho de 2014:

 

JOSÉ FORTUNATI
Prefeito de Porto Alegre

Hoje, no programa Atualidade da rádio Gaúcha, demonstrei a minha contrariedade com as críticas de ZH “com os atrasos das obras, pela incapacidade de cumprir prazos” pelo Poder Público, postura adotada pelo jornal ao longo do tempo. Como acompanho cada obra pessoalmente provo com fatos de que as obras atrasaram por fatores externos a nossa vontade. Exemplos: a duplicação da Av. Voluntários foi bloqueada durante 8 meses por decisão do IPHAN _ Instituto do Patrimônio Histórico Nacional que detectou a existência de um sítio arqueológico no local.
A obra da Av. Tronco só poderia ser concluída com a remoção adequada de 1.500 famílias. Com o acompanhamento de lideranças comunitárias desapropriamos 25 áreas e realizamos o processo de licitação para a construção de moradias. Foram 3 as tentativas de escolha das empresas. Somente no 3º edital obtivemos empresas interessadas na construção. Com isso se passaram 3 anos.
No caso dos corredores de ônibus para a implantação dos BRTs, uma ação do Ministério Público contra as empresas extratoras de areia terminou paralisando as obras durante 6 meses. Poderia falar sobre todas as obras, mas entendo que os exemplos demonstram o que afirmei, já que cada obra tem a sua própria história.
O importante é perceber que a cidade aproveitou muito bem a oportunidade da realização da Copa e começou a viabilizar obras que estavam “esquecidas”. Para se ter uma idéia, o projeto da avenida Tronco faz parte do Plano Diretor desde 1979. Mais dia e todas estarão prontas e melhorando a qualidade de vida da nossa cidade.
De qualquer forma devo admitir que extrapolei na minha crítica ao editorial de ZH ao chamá-lo de “leviano”.
Mesmo discordando profundamente da visão de ZH sobre as obras, devo reconhecer que extrapolei na crítica com uma expressão não condizente com “o bom debate”. E, quando pecamos pelo excesso de adjetivos, diminuímos a intensidade do bom debate, o que não corresponde a minha postura e intenção.
Desta forma, desejo publicamente, da mesma forma como me expressei pela manhã no Atualidades, retirar a expressão “leviano” das minhas considerações sobre o editorial de ZH. Estou absolutamente convencido de que ZH tem uma visão equivocada sobre as obras. Pretendo continuar com este debate mostrando dados e argumentos sólidos que comprovem isso.
Bom jogo a todos.

Artigos online| SER LÍDER

30 de junho de 2014 1

SANDRA C. FUCHS
Professora Associada Da Faculdade de Medicina UFRGS

 

O papel de um líder é ter visão adiante dos demais sobre o trajeto a ser seguido, criar oportunidades para os pares que não têm a mesma percepção e fomentar o crescimento dos jovens que estão ao redor. Se esse papel ainda carreia recursos, melhor, mas não é primariamente o papel do líder. Muitos foram assim chamados por merecimento, são aqueles que exercem ou exerceram esse papel fomentador e através de sua liderança tornaram o mundo melhor. Entre aqueles que direta ou indiretamente reconheço terem exercido esse papel, exemplifico com dois que já não nos cercam e um que continua atuando firmemente. Antonio Meneghetti foi filósofo, artista, escritor, fundador da ontopsicologia, mas mais do que qualquer outro atributo foi um humanista. Com trânsito em muitos lugares do mundo, escolheu sentar base no Recanto Maestro, uma localidade próxima de Santa Maria, onde foi criada uma faculdade que leva seu nome. Não o conheci pessoalmente, nem li sua produção literária, mas tive oportunidade de ver o reflexo de sua liderança inspirando empresários a criar, produzir e abrir caminhos para o futuro de jovens. Tal feito foi reconhecido internacionalmente com premiação para o projeto de desenvolvimento da região, pela ONU. O impacto de sua liderança na região provavelmente não foi plenamente dimensionado e apenas os jovens beneficiários de sua inspiração são capazes de reconhecer o mérito.
Jorge Pinto Ribeiro foi um líder na área médica. Médico, professor, pesquisador e administrador esteve entre nós por menos de 60 anos. Foi tão forte sua presença que marcou a trajetória a ser seguida por jovens que queriam fazer parte da academia e serem os líderes futuros. Além dos trâmites usuais depois da graduação em medicina, residência médica, mestrado, doutorado, havia necessidade de passar período no Exterior fazendo formação, ganhando experiência e interagindo com outros líderes. Acreditava que o convívio em diferentes centros de excelência forjava a experiência necessária para um dia ser líder. Jorge era corajoso, defendia posições, enfrentava o status quo e não fazia concessões sobre o que chamava de “tema de casa”. Todos tinham que viver a experiência fora para voltar e contribuir para o meio. Ele mesmo conviveu com a estirpe de Harvard e interagiu com figuras que fazem a história da medicina americana. Além da academia, cuidava de seus pacientes com carinho, sempre com atenção e com a última informação disponível. Depois de ser conhecida sua doença, os pacientes iam as consultas porque também queriam dar-lhe palavras de conforto e esperança. Jorge deixou família amorosa e amigos saudosos que gostariam de tê-lo tido por mais tempo, afinal há ainda muito a ser feito e poucos veem com a mesma desenvoltura o trajeto a ser seguido. Sua memória deveria ser mais cultuada e suas ideias mais difundidas para que se perpetuasse o efeito de sua personalidade sobre novas gerações.
Walter Willett é médico, pesquisador, professor titular, chefe do Departamento de Nutrição, da Harvard School of Public Health, da Universidade de Harvard. Chegou lá ainda jovem, mas acumulando experiência de já ter vivido em país africano. Há muito é o líder não só do Departamento como da Escola, capaz de inspirar talentos e fomentar a ciência com os resultados das duas coortes: Nurses Health Study e o Health Professional Study. Reconhecido como o principal epidemiologista nutricional do mundo, possui não apenas a liderança como o devido reconhecimento de sua contribuição. Professor Willett é um homem singelo, cavalheiro, gentil mas um árduo opositor. Sem qualquer dificuldade acha argumentos necessários para convencimento dos debatedores e não se furta ao embate intelectual. Sua liderança é cultuada por professores de igual quilate em Harvard e fora dos Estados Unidos.
Nesse cenário, as diferentes lideranças exemplificam o papel de líderes que marcaram território não geograficamente delimitado, mas inundando de ideias mentes abertas e de ações o vácuo do cotidiano. A presença de líderes como esses faz a sinalização de espaço e tempo e impulsiona em direção ao futuro. Seu reconhecimento contínuo é marca indelével do aprendizado que deve mover os líderes presentes para novas conquistas.

Artigos| COPA DO MUNDO

30 de junho de 2014 10

 

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QUESTÃO DE PRINCÍPIOS
SAUL DUQUE
VP de Criação da DEZ Comunicação

 

Impossível torcer pelo Uruguai depois da mordida do Suárez. Não vou secar mas torcer, bem, não vai dar. Assim como eu não torço pela França por causa daquela cabeçada do Zidane no Materazzi. Foi bem feito eles terem perdido a final da Copa naquele ano, seria um mau exemplo para o mundo a França ser campeã depois de um ato de selvageria daqueles.
E o que dizer da Alemanha, que na Copa da Espanha combinou um resultado com a Áustria que classificou as duas seleções para a próxima fase e derrubou a Argélia? Não tem como apoiar a seleção da Alemanha. Nem a da Argélia, que se classificou escandalosamente para a Copa no Brasil em um jogo que passou para a história pela abundância de incidentes antes, durante e depois da partida contra Burkina Faso, dentro e fora do estádio.
O Chile é outro país que não tem como apoiar porque o mundo não esquecerá jamais da farsa de Rojas, o goleiro que simulou ter sido atingido por um sinalizador disparado pela torcida do Brasil em uma classificatória da Copa no Maracanã. Vejo o Chile, lembro do Rojas, não torço. E também não apoio a Argentina, pois o gol de mão do Maradona na Copa do México foi um ato de mau-caratismo exemplar. E eu nem vou citar a Copa de 1978, que todo mundo sabe que a ditadura militar argentina comprou.
A Nigéria também está na minha lista negra. Um país que tem uma lei proibindo relações sexuais e amorosas entre pessoas do mesmo sexo, além de vetar organizações e eventos de ativismo homossexual, tem que ser secado e vaiado sem dó.
Em jogo da Grécia, desde 2011, eu troco de canal, pois esta seleção não existe pra mim depois daquele escândalo onde 80 gregos entre dirigentes, árbitros e jogadores foram acusados de formação de quadrilha, fraude em apostas, manipulação de resultados e lavagem de dinheiro.
Torcer pela Colômbia, a princípio, não seria um problema. Só que em 1994 um torcedor matou o zagueiro Andrés Escobar depois dele ter feito um gol contra na Copa dos Estados Unidos que desclassificou os colombianos. Não dá pra apoiar este tipo de selvageria.
A simpática seleção da Holanda tem um técnico que detesta, persegue e dispensa brasileiros em todos os clubes que passa. É inimigo declarado do Rivaldo. Os queridos holandeses que invadiram Porto Alegre que me desculpem, mas nenhum brasileiro pode apoiar uma seleção cujo técnico é o Van Gaal.
Lembram da cotovelada do Leonardo, lateral do Brasil na Copa de 94? Tab Ramos, jogador dos Estados Unidos, fraturou o crânio e o maxilar, ficou meses no hospital e quase abandonou o futebol.
O México foi desclassificado da Copa de 1990 depois de utilizar os jogadores acima do limite de idade permitido pela FIFA na fase de qualificação para o Mundial Sub-20 de 1989.
A Bélgica e sua colonização espantosamente predatória, cruel e genocida do Congo não merece o nosso respeito.
A Costa Rica é acusada de ser um paraíso fiscal com escândalos de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de órgãos humanos.
Torcer pelos Estados Unidos é apoiar a espionagem descontrolada dos cidadãos do mundo.
E a Suíça guarda o dinheiro do Maluf. Vaia nela.
É por isso que, nestas oitavas de final, vou torcer pelo Fuleco. Questão de princípios.

***

 

DESCULPE, DRA. ANETE, MAS EU NÃO POSSO
MARCELINO E. H. POLI
Médico e professor de ginecologia da PUCRS

 

Acabo de ler seu artigo em ZH de 10 de junho – Artigos (página 37), contestando o escrito de Giovana Dal Pozzo, com quem concordo plenamente. Sendo assim, fica desde já claro que não estou de acordo com muito do que a senhora escreveu, para justificar que consegue torcer pelo Brasil vencer a Copa do Mundo de futebol.
A comparação que a sra. faz do país com um adolescente é equivocada. Este é um ser em desenvolvimento, em fase de descobrir-se, de afirmar-se como indivíduo e de forjar seu projeto de vida. É fase difícil em que, frequentemente usa estratégias erradas, em especial se sua relação com seus pais estiver tumultuada e mal conduzida. O Brasil é um país em que a sociedade, por tudo o que se lê, se ouve e se vê, nos diversos veículos de informação, está muito doente. Suas estruturas governamentais estão dominadas por agentes corruptos, por desmandos, por inversão de valores. A sociedade está sofrendo e, por isso, manifestações de repúdio a múltiplas coisas multiplicam-se e se disseminam. Estamos com medo do que possa acontecer durante a copa do mundo e isso está comprovado pelos enormes reforços policiais e militares que estão sendo montados. O medo atingiu os organizadores. Paralelamente percebe-se que há um verdadeiro estado de histeria coletiva provocada pela ênfase que vem sendo dada à copa. Desenvolve-se uma forte comoção com esse pretexto e isso está a anestesiar o povo que, assim, deixa de perceber o que se passa ao seu lado, tal é a intensidade com que os meios de comunicação se ocupam dela, provocando uma paixão avassaladora. A anestesia retira a sensação de dor em todo o corpo ou em parte dele. Geralmente é produzida por certas substâncias, mas, às vezes, pode ser causada por doença ou hipnotismo. Na anestesia geral, a pessoa não consegue reagir a estímulos externos. Existem estados clínicos chamados de catatonia e catalepsia, e isso a sra. conhece melhor do que qualquer outra pessoa, que podem estar associados a estados mentais anormais como a esquizofrenia e a histeria, e que também são relativamente comuns em pessoas que vivem uma emoção muito forte.
O que a sra. chama de “momento tão importante”, em se referindo à Copa do Mundo, a meu ver representa uma distorção do conceito de importante. Importante é resolver os problemas políticos, econômicos e sociais gravíssimos que assolam o país e isso não se faz com festa. Sabe bem a sra., por ser médica, que existem condições clínicas que demandam soluções cirúrgicas e, como tais, agressivas. Não respondem a “panos quentes”.
Por pensar assim, considero nossas formas de torcer pelo Brasil completamente diferentes.

 

***

 

COPA DO MUNDO E ELEIÇÕES
PAULO FERNANDO CABRAL
Pastor e teólogo

 

O voto é um exercício de cidadania. Nosso voto é uma expressão do nosso pensamento a respeito dos diferentes candidatos que são apresentados em cada eleição. Alguns votam segundo suas ideologias, outros de acordo com o perfil e biografia dos candidatos e também existem aqueles que escolhem seu candidato, a partir das propostas apresentadas, da propaganda eleitoral, por indicação de um amigo, por um favor recebido ou por outros critérios. Entendo que existem muitos fatores que influenciarão o eleitor nas eleições presidenciais deste ano, mas não acredito que entre eles esteja o resultado da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Há muitas pessoas que estão dizendo que se o Brasil vencer a Copa do Mundo, isso beneficiará a campanha para reeleição da Dilma. Não acredito nisso. O Penta campeonato, por exemplo, não teve nenhum reflexo no desempenho do candidato governista. Se o resultado da Copa do Mundo influenciasse na eleição presidencial, em 2002 o Lula não teria vencido a eleição, pois o candidato do governo era José Serra. Por esse mesmo raciocínio, em 2006 o Lula não poderia ser reeleito, pois naquele ano o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela França nas quartas de final. Em 2010, a seleção brasileira novamente frustrou o povo, sendo eliminada na Copa pela Holanda, mas mesmo assim, a candidata governista venceu a eleição.
Vou torcer pela seleção brasileira na Copa do Mundo, sem nenhuma preocupação com qual candidato se beneficiará com um possível Hexa campeonato da Seleção Brasileira, porque o grande beneficiário com o esse título será o futebol brasileiro, pois quanto mais títulos a seleção possuir, mais valorizado serão os campeonatos nacionais, mais recursos financeiros serão destinados aos clubes, mais espaço na mídia, mais escolinhas de futebol, mais empregos diretos e indiretos relacionados ao futebol.
Portanto, não antecipe as eleições para o período da Copa do Mundo. Não tente politizar ou instrumentalizar o futebol. Torça pela seleção brasileira, vibre com suas vitórias e conquistas. O futebol é a coisa mais importante, entre as menos importantes. Concentre seu esforço para eleger seus candidatos para o Executivo e Legislativo para depois da Copa. Sugiro uma trégua na campanha eleitoral de 12 de junho a 13 de julho. É hora de ver a Copa do Mundo como uma celebração esportiva, um grande momento de lazer e incentivo ao esporte. Rumo ao Hexa Brasil!!!

 

***

 

ENTRE O SECUNDÁRIO E O ESSENCIAL
CLEBER BENVEGNÚ
Jornalista e advogado

 

A preparação para a Copa foi uma lição tanto para o governo quanto para a própria população. Os brasileiros, incrivelmente, se puseram a pensar sobre prioridades _ algo incomum no cotidiano da nação. Mesmo que o debate tenha sido enviesado e simplificado, ele deixa uma contribuição relevante.
Tudo o que é gasto com o futebol, por exemplo, jamais havia merecido qualquer espécie de questionamento. Eis que, justamente com a vinda do torneio mais importante do mundo, a pátria das chuteiras passa a perceber que, alto lá, nem tudo é justificável em nome desse lazer. Sim, o futebol é maravilhoso _ mas tão-somente um maravilhoso lazer.
A retórica eleitoral costuma, para qualquer situação, fazer o discurso do “mais investimento”. Mais investimento para a cultura, para o turismo, para a educação, para a saúde, para as estradas, para o pagamento de servidores, para isso e para aquilo. Não existe hierarquia, tudo parece ter igual importância.
Há muito tempo é assim. Não importa se faltam o feijão e o arroz no almoço, vamos providenciar o lustre novo da sala. Vamos trocar o carro, depois resolvemos o custeio da gasolina. Temos um problema no país? Ora, só aplicar mais dinheiro, claro! Simples. É só vontade política, ora bolas. Veja-se que esse raciocínio é emotivo, fantasioso e até mesmo irresponsável. Ele se dá sobre a base irreal de um erário ilimitado. É como se o caixa estatal não tivesse dono ou se dele jorrassem moedas.
A verdade é que somos conduzidos muito mais pela pressão dos grupos de interesse do que por uma visão solidária de sociedade. Fazer a alegria de quem pressiona dá mais dividendos do que escolher prioridades reais. Precisamos aprofundar a discussão sobre os gastos e sobre o papel do Estado: onde deve e onde não deve fazer-se presente; onde deve e onde não deve ser aplicado o imposto arrecadado; o que incumbe ao público e o que incumbe ao privado.
As loucuras orçamentárias da Copa, se não resolveram esse problema da nossa cultura política, ao menos deram um bom choque na percepção média dos brasileiros. Choque de realidade. Um acontecimento popular conseguiu, em alguma medida, elevar a discussão sobre relevantes questões de fundo. E o recado da população é claro para quem quiser entender: gastar menos no secundário e mais no essencial.

 

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TORCER OU NÃO TORCER

EDUARDO STELMACK
Acadêmico de Comunicação Social

 

Confesso que no dia da abertura da Copa do Mundo tive um pequeno sentimento de nostalgia. E o que me veio à mente foi o campeonato de 1994, que para minha geração foi um acontecimento e tanto – talvez por ter sido, de forma geral, um ano com vários acontecimentos marcantes para os anos 90. Então me peguei pensando nas imagens de Bebeto e sua bela comemoração, onde simulava embalar um bebê nos braços, em homenagem à sua filha. No chute fantástico de Roberto Baggio metros acima da goleira do Taffarel. Nas ruas coloridas de verde e amarelo e no sentimento de cumplicidade e harmonia entre as pessoas – acho que dias assim eram somente no Natal.

Pois desse momento de reflexão, surgiu também um sentimento de tristeza ao perceber a desmotivação coletiva que se generalizou pelo país. Pela angústia. E tudo isso pelos motivos que todos conhecemos e que realmente mexem com a confiança e paixão de qualquer brasileiro. E são motivos legítimos. Afinal, é realmente contraditório expressar qualquer tipo de alegria a favor de um time de futebol enquanto as principais áreas sofrem com a precariedade e incompetência dos nossos governantes.

Mas percebi que devemos torcer, sim. Porque não podemos misturar as coisas. E se a seleção for vitoriosa, meus parabéns. Mas torcer, principalmente, para que, após o evento, fiquem os tais legados para o país que muitos argumentam. E para formarmos essa torcida de maneira racional, precisamos saber nos comportar como seres humanos. Ou seja, protestar com inteligência, não com pedras. Reivindicar com argumentos, não com ofensas. Lutar, mas sem agredir. Buscar nossos direitos sem tirar os direitos dos outros. Quem sabe assim, em uma próxima oportunidade, poderemos voltar a colorir as ruas de verde e amarelo.

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A COPA DO MUNDO E A GENTILEZA

ARLETE GUDOLLE LOPES
Professora e escritora

 

A Copa do Mundo é fato consumado e a que bem poucos contestaram quando foi anunciada  a realização no Brasil pelo  presidente Lula. Agora, que nada mais se pode fazer, os brasileiros devem  torcer para que seja coroada de pleno sucesso. Para isso, devem adotar atitudes simples como serem gentis com visitantes durante  o evento. Existem atitudes que engrandecem as pessoas, tornam-nas diferenciadas, capazes de desarmar os violentos, os belicosos, os desalmados. Pedido de desculpas acompanhado de sorriso luminoso,  deferência ao ingresso de pessoas mais velhas, de mulheres grávidas a algum recinto,  oferecimento do lugar em ônibus ou espaços públicos aos mais idosos, aos portadores de alguma deficiência, aos mais carentes, inclusive a turistas estabelecem os liames da grandeza de que um ser é dotado.
Ser gentil deveria ser um dos maiores ditames da conduta em sociedade, exercitada como dogma,  dever diário a ser cultivado desde a infância porque a gentileza rompe barreiras, amplia amizades, reforça o afeto, alimenta a paz, acolhe e desestabiliza pretensiosos. Ser gentil humaniza, aproxima, cria vínculos, multiplica a condescendência, contagia. Por isso, a gentileza deve ser exercitada em casa, na rua, no trabalho, no trânsito, entre amigos. Necessita, pois,  ser aprimorada também junto aos torcedores nativos e estrangeiros. Prestar-lhes informações seguras, cobrar o preço justo a serviços oferecidos servem como bons exemplos. Tratá-los com educação deve ser sempre aprimorado porque ser gentil implica bondade, delicadeza, ternura, doação, carinho, paciência. Torcer para a seleção brasileira sem melindrar adversários, exercitando a gentileza, torna o ambiente em estádios pleno de energias boas, contribuindo para selar a paz entre torcidas.
Ser gentil não custa nada e os ganhos auferidos com a sua prática se multiplicam e retornam ao praticante como formas singelas de contentamento pessoal. A gentileza torna o olhar do outro mais complacente e a simpatia recebida por ato tão genuíno e simples atinge o ser gentil com muito mais energias benéficas. Um abraço apertado, um beijo, uma palavra de carinho, a prática da generosidade, a vontade de colaborar para que o convívio social ganhe maior qualidade emprestam concretude à gentileza e não exigem nenhum sacrifício. Basta praticá-la todos os dias e em qualquer momento. Se as pessoas procurarem ser mais gentis, outras manifestações da grandeza humana contribuirão para que a Copa 2014 ganhe foros superlativos aos olhos do mundo.

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A COPA DO ÓDIO

ALEXANDRE CHAGAS VIEIRA
Professor

 

Assisto com horror existencial o desenvolvimento de uma ideia irracional na mente de determinadas pessoas sobre a Copa do Mundo no Brasil: “Tomara que dê tudo errado.” Trata-se de uma corruptela do indefectível: “Não vai ter Copa.” Ou seja, diante da inevitável realização do evento Mundial, muitos adaptaram seu rosário de lamentações, a um discurso de ódio, contra tudo e contra todos que não possuem a “lucidez” de perceber que o Brasil está à beira do abismo. E mais, somente a instauração do caos absoluto levaria o povo brasileiro, ignorante e alienado por natureza, a se dar conta do inferno em que vive. Essa postura não é isolada. Tenho testemunhado tal verborragia, com frequência nos últimos dias, em programas interativos de rádio e televisão, bem como nas mais diversas redes sociais. Os ninhos dessas verdadeiras aves de mau agouro podem ser encontrados tanto na direita elitista-preconceituosa-reacionária, que vê no fracasso da Copa, uma grande oportunidade para derrubar o “governo comunista do PT!” (juro que ouvi isso), quanto na extrema esquerda, que sonha em desestabilizar as instituições, para que o povo consciente da sua desgraça faça definitivamente a revolução socialista. O irônico é que esses dois grupos extremistas, que se babam mutuamente de ódio, se tocam constrangedoramente, tanto nas ideias, quanto nos métodos criminosos de ação. Ou haveria muita diferença entre ensandecidos “justiceiros” que saem a espancar e matar, para o cumprimento de um suposto dever não cumprido pelo Estado; e desvairados Black blocs que além de matar (vide fotógrafo da Band), acham-se no direito de depredar patrimônios públicos e privados para desestabilizar um Estado que dizem não representá-los. Anarquistas de boteco e fascistas de programas sensacionalistas são definitivamente extremos que se encontram! Moscas nojentas, atraídas pelo mesmo material fétido e imundo! Material, infelizmente, produzido por uma sociedade que não acredita em si e, miseravelmente, reproduz o nosso centenário complexo de vira-lata.
Se posicionar a favor ou contra a Copa não é somente legítimo. É absolutamente necessário. Seja para o desfrute econômico e cultural de nosso povo diante desta oportunidade histórica; seja para correções de prioridades nas políticas públicas e punições severas para eventuais malfeitos no processo de organização do evento.
Parafraseando o Grande Mestre Buda: “Persistir no ódio é como agarrar uma pedra em brasa com a intenção de atirar numa outra pessoa. No final é você que se queima.” Diante do fato consumado, porque não transmutar sentimentos pesados e negativos em ações solidárias e positivas com os milhares de turistas que vêm nos visitar. Por que a sociedade brasileira não se apropria da Copa do Mundo e dela extrai os maiores benefícios possíveis?
Que os raivosos de todos os matizes sejam isolados e derrotados de goleada pela seleção do Bem! Enfim, que vença o melhor: a maioria do povo brasileiro!

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POR QUE O FUTEBOL É TÃO IMPORTANTE PARA MIM?

RAFAEL FRAGA
Advogado

 

Quando tinha sete anos fui levado ao Estádio pela primeira vez, primeiro contato com esta realidade tão apaixonante e que nos faz sentirmo-nos eternamente crianças. Não torcemos para o melhor, torcemos para o time que nos toca o coração. Um sentimento passado de pai para filho.

O futebol é união, aproxima distantes, pessoas que teoricamente não teriam nada em comum, mas que por um acaso do destino amam o mesmo Clube. Não interessa a cor, classe social, religião, sexo, idade, nada… todos são iguais dentro de um Estádio. Não existe coisa mais democrática do que esta paixão.

Antes mesmo do primeiro passo o menino já está brincando com uma bola de futebol. A menina demora mais pra ter esse contato, mas isso não interfere em nada na paixão pelo esporte. Hoje as mulheres são presenças confirmadas nos campos de futebol pelo Mundo afora, seja torcendo, seja jogando.

Mais do que saúde física, o futebol nos ensina valores, mostra que quando atuamos unidos, a vitória está mais próxima; que quando temos disciplina, foco e persistência, não existe adversário que possa nos parar; que a amizade, a simplicidade e o companheirismo, são mais importantes do que a conta bancária. Eu amo o futebol, com ele aprendi que nem sempre se ganha, mas que a derrota não é eterna e que uma nova oportunidade estará ali na frente.

O brasileiro é inegavelmente apaixonado pelo futebol que alegra tanto seus domingos à tarde, mas infelizmente, por culpa dos governantes, o brilho no olhar ao ver uma Copa do Mundo em nossa terra, 64 anos depois, está diminuído e isso me dói. Há um sentimento ambíguo de satisfação por estar tão perto do maior evento do esporte e de seus ídolos, mas ao mesmo tempo, há uma tristeza por saber que esse sonho foi deturpado, que houve desvio de verbas, superfaturamentos, obras inacabadas, dinheiro público investido em obras faraônicas, e tantas outras insatisfações que pairam sob a cabeça de cada cidadão ao pensar em Copa do Mundo.

Há uma ideia de que gostar e aproveitar esse evento único significa concordar com o que foi feito. Eu discordo deste pensamento, o lugar de manifestar a profunda reprovação à este tipo de prática será nas urnas, nas eleições. Não é justo ver sua paixão com amargura, não faz bem para a alma e para o coração. O futebol não tem culpa, pelo contrário, quem dera que seus valores se estendessem a cada cidadão e que o espírito de equipe fosse maior do que qualquer vaidade individual.

Por fim, só tenho um desejo, o de que as crianças ao assistir a Copa do Mundo possam sentir a mesma emoção que senti ao adentrar pela primeira vez num Estádio de futebol, sentimento único que nunca esquecerei. Não acabem com a ilusão das nossas crianças, e digo mais, ser criança não tem idade quando o assunto é o amor pelo futebol, que este espirito de confraternização e amizade seja maior que a tristeza pela incompetência de nossos governantes!

***

 

OS HERÓIS DA SELEÇÃO

ERICO FERNANDO BARIN
promotor de Justiça de Ijuí
Os jogadores da Seleção Brasileira são, de fato, heróis. Menos pelo talento, mais pela trajetória de vida, variação de um roteiro comum: crianças nascidas em locais pobres, com pouca presença do Estado, e que encontram no futebol rara oportunidade. Vinte e poucos vencedores num universo de milhares que morrem naqueles ambientes: a seleção dos estatísticos.
Dados recentes do Ministério da Saúde demonstram que tivemos, em 2012, 56.337 homicídios, dos quais os 64,6 homicídios por 100 mil habitantes de Alagoas equivalem ao que ocorreu na Guerra do Iraque entre 2004 e 2007. As vítimas, na maioria, foram jovens de 17 e 25 anos, moradores de locais como os de nascimento dos jogadores da Seleção. Ou seja, há mais o que celebrar para além da Copa das Copas. Não, não estou sendo irônico.
Temos, de fato, de celebrar os 23 jovens que escaparam das estatísticas. Como parâmetro, o Brasil de 2012 fulminou 4.694 pessoas por mês, 156 por dia ou seis por hora. Em quatro horas, uma Seleção inteira. Com outras palavras, esses jogadores são a celebração da vida.
Mas como ignorar as estatísticas? Como um Estado diz-se democrático de Direito e alega ter como fundamento a dignidade da pessoa humana com esses números? Números e estatísticas. Assim são consideradas as vítimas, pois só isso justifica que a revelação dos dados não tenha gerado reunião emergencial nos altos escalões do governo. Nada. Que venham a Copa das Copas e as eleições. E, num futuro breve, novos recordes.
Não precisava ser assim. O Estado de São Paulo diminuiu o número de homicídios investindo no social, na qualificação e no aumento dos quadros policiais e no trabalho de inteligência com seriedade e planejamento. Teríamos menos homicídios se os condenados cumprissem as penas fixadas e só retornassem ao convívio social após uma avaliação decente. Bem menos homicídios se a impunidade, a leniência e a corrupção não estimulassem a reincidência. Infinitamente menos se o assunto fosse prioridade em todas as esferas do Estado.
Mas, afinal, vindo o hexa, quem se lembrará da seleção dos estatísticos?

 

***

 

A COPA DO MUNDO É NOSSA!

JOSELMA NOAL
Escritora e professora

 

Inicio este texto com o meu sincero pedido de desculpas aos fanáticos torcedores brasileiros. Denomino como fanáticos torcedores brasileiros todos aqueles que vestem a camiseta verde e amarela literalmente apenas em época de Copa do Mundo e que no restante do tempo atuam como cidadãos medíocres. Infelizmente, o nosso povo é formado por uma maioria de sujeitos desse tipo. Brasileiros são sujeitos ingênuos, como torcedores e como eleitores. Casualmente, neste ano temos Copa do Mundo e eleição por aqui.
Cabe mencionar que não torço contra o futebol brasileiro, nem contra a Copa, nem contra nada. No entanto, torço de verdade é para o desenvolvimento de uma nação, torço por um Brasil melhor em termos de educação, saúde, segurança pública.
Espero que o nosso país melhore a imagem diante do mundo com a Copa, não desejo escândalos ou fracassos, mas gostaria muito de ter mais motivos para ter orgulho de minha terra. Não quero viver no país do futebol, gostaria mesmo é de viver no país da educação, da saúde, da segurança pública. Seria muito bom morar em um lugar onde o povo vestisse a camiseta todos os dias, tomando atitudes de cidadão decente, ético e digno. O Brasil dos meus sonhos resolve problemas com seriedade e competência, trata-se de um espaço no qual inexiste o famoso jeitinho.
Confesso que entre as notícias sobre o preparo físico do Neymar e o PIB destinado à educação, o segundo tema me parece mais digno de interesse. Tomara que deixemos de viver o orgulho tupiniquim de sermos o país do futebol para um dia sermos reconhecidos por outras qualidades. Espero que possamos comemorar outras vitórias, receber outras taças e não somente esta do futebol.
Nossos governantes têm se revelado pouco ou nada nacionalistas e devemos a eles nosso descrédito neste país. Portanto, em ano de eleições, caros leitores, olhos abertos não só para o futebol, mas também e, principalmente, para o futuro de nosso país. Lembrem: o maior ato de cidadania exercemos na urna e não no estádio. Afinal, é por meio da urna e não de nossa torcida e vibração pelo futebol, que podemos contribuir para um país melhor.
Sorte e responsabilidade ao Brasil na Copa e nas eleições!

 

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NA COPA DA FIFA, LUTAREMOS PELO HEXA DE DIREITOS

LUCAS MARÓSTICA
Estudante da UFRGS, ativista do Coletivo Juntos

“Pela proximidade com a Copa do Mundo da Fifa e a lembrança das passeatas que balançaram as ruas de Porto Alegre e do Brasil em 2013, muitas pessoas me questionam: “Vai ter Copa?”. Ora, quem sou eu para dar essa resposta, mas de início diria que sim, o evento Copa do Mundo irá acontecer. Complemento dizendo que não para toda a população brasileira, me referindo a grande parcela indignada com a falta do “legado”, e tantos outros que não possuem poder aquisitivo para comprar um ingresso e ir ao estádio. Somam-se a esses os nove operários mortos nos campos de obras, para esses definitivamente não haverá Copa, nem 2014.
Para além da seleção brasileira, os movimentos sociais também entrarão em campo no próximo período. Lutaremos com toda a garra e determinação pela conquista do Hexa de direitos. A começar pela moradia. Os estádios já estão prontos, os palcos dos jogos estão garantidos, mas infelizmente 7 milhões de casas ainda precisam ser construídas em nosso país. São milhões de brasileiros e brasileiras sem-teto, na espera por dignidade. Para a Copa, 150 mil famílias foram removidas de suas casas para a construção dos estádios e o problema se agravou. Cartão vermelho para a Fifa e os governos! E justiça é justamente o segundo ponto: garantir o direito constitucional a livre manifestação entra em nossas reivindicações, pois este vem sofrendo fortes ataques. Em Porto Alegre, estou sendo indiciado por “formação de quadrilha”, por organizar manifestações. São 20 anos de cadeia, para quem tem 23 anos de idade e saiu as ruas ao lado de milhares de outros jovens, estudantes e trabalhadores, cheios de sonhos. Para Sarney, Collor e Maluf camarotes da Fifa. Para quem os combate: lei antiterrorismo! É verdade, somos o terror de pessoas como estes senhores.
A saúde e a educação são nossas próximas reivindicações. Queremos 10% do PIB para cada um desses setores. Nenhum centavo a menos! Também somos ambiciosos, mas ao contrário das grandes construtoras, o dinheiro que pedimos não irá para o nosso bolso, e sim para a construção de creches, escolas, ampliação das universidades públicas, postos de saúde e hospitais. Desde já dispensamos o Padrão Fifa, pois consideramos este padrão de péssima qualidade, afinal as obras tem custado 150% a mais do que o esperado. Fechamos exigindo nenhum centavo a mais nas passagens de ônibus e a soberania brasileira diante dos ataques da Fifa com o Estado de Exceção.
A Jeronimo Valcke e Joseph Blatter, representantes da Fifa, que nos chamam de povo vagabundo, diremos que esta é a Pátria amada. Este Brasil, que és um sonho intenso, um raio vívido, é terra de gigantes, fortes e que não fugirão às lutas das nossas vidas. Em menos de dois meses a Fifa vai embora do nosso país: que alegria! Durante o período em que permanecer, ouvirá as vozes indignadas que virão das ruas: é construção de um outro futuro pedindo passagem! Que venha o hexa!

 

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NEM TUDO ESTÁ PERDIDO EM RELAÇÃO À COPA DO MUNDO

RAFAEL FREITAS BARBOSA
Consultor da Fundatec
Não há como negar que deixamos de aproveitar muitas oportunidades proporcionadas por um evento do porte da Copa do Mundo. Quando analisamos o que não foi feito em termos de mobilidade urbana, investimento em saúde e tantos outros pontos, é compreensível que se crie um sentimento de animosidade em relação ao Mundial. Mas, se não recebermos da maneira mais adequada possível quem vem de fora, de quem será o prejuízo? Da sociedade como um todo, eu respondo, pois os ingressos já foram vendidos e os patrocínios fechados. Agora, quem pode deixar de aproveitar a oportunidade é o povo.
O principal retorno direto gerado pela Copa é recebido através do turismo, por meio da hotelaria, gastronomia, entre outros. Mas se engana quem pensa que esse retorno acontecerá somente durante o evento esportivo. Ele terá reflexo em longo prazo através da imagem levada pelos visitantes. Estas pessoas voltarão para seus países e contarão como foi a experiência no Brasil. Por isso, enquanto esses potenciais canais de propaganda estiverem aqui, temos que mostrar o que temos de melhor. Espera-se que recebamos cerca de 600 mil turistas em função da Copa. Imagine o retorno que esse público pode proporcionar se levar daqui uma boa experiência. A reverberação é incalculável, mas, com certeza, muito proveitosa, se positiva. Isso sem falar na oportunidade de networking com investidores estrangeiros, que podem ser convidados para assistir uma partida e tratar de negócios, conhecendo o país.
É notável que a grande falha na aceitação do Mundial foi do governo ao não dar o tratamento adequado à integração da população ao evento. Isso não pode mais ser alterado, mas, se focarmos em nosso pontos fortes durante a Copa, podemos utilizar a exposição em nosso favor. Uma pesquisa realizada durante o 20º Campeonato Mundial de Atletismo Master, em Porto Alegre, apontou que as características mais apreciadas pelos visitantes em relação à população da cidade foram a hospitalidade (89% de aprovação) e as atrações culturais, em especial a gastronomia (90%). Ou seja, características positivas temos, resta sabermos aproveitar o momento.

 

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APESAR DE VOCÊ

ASTOR WARTCHOW
Advogado

Ah, o tempo… “O tempo é o senhor da razão”, teria dito o escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Tantas anunciadas promessas, doces ilusões e cantadas virtudes esvaindo-se como o pó ao vento.
Compreendo os governantes. Afinal, para a manutenção do status quo apela-se aos recursos possíveis. Mas, entre estes, alguns são intoleráveis porque absolutamente deseducadores, notadamente quando o destinatário é um povo humilde e de baixa escolaridade. São inaceitáveis a falta da verdade, o ufanismo e o messianismo.
Exacerbadas as divergências, simpatizantes e governantes reproduzem condutas dos tempos ditatoriais, censurando a imprensa e sugerindo aos discordantes o caminho do exílio voluntário.
Como já fizeram em rede social ao postar foto de um passaporte, com recomendação aos insatisfeitos que, então, saiam do país. Ato equivalente ao “Ame ou Deixe-o” patrocinado pelos militares nos anos 70.
Razão de contestação pública consta a Copa do Mundo, sua lei especial e seus bilionários estádios. Desnecessário repetir o mantra “Padrão Fifa”, tamanho o escândalo do superfaturamento, da orgia de gastos, o vexame dos prazos e obras inacabadas e a absoluta contradição relativamente às demandas e carências populares.
Ironicamente, está se reproduzindo outro fato do tempo da ditadura. Em 1970, havia um dilema entre os adversários do regime. Torcer a favor da seleção brasileira seria prestar um apoio político aos militares. Torcer contra era um dever patriótico. Afinal, parafraseando o socialista alemão Karl Marx (1818-1883), o futebol é o “ópio do povo”.
Hoje, estamos diante da mesma circunstância. Torcer contra seria uma forma de denúncia e contestação. Torcer a favor seria legitimar o governo e suas práticas. E seus candidatos, haja vista a coincidência (?) entre a Copa e as eleições nacionais.
Mantenho minhas críticas, mas torcerei pela seleção e desejo que tudo ocorra sem transtornos. E por quê? Porque o Brasil e seu povo são maiores que um governo e um partido, de quem, circunstancialmente ou não, podemos divergir ou não gostar. Seja em tempo de ditadura, seja em tempo de democracia.
Afinal, a soma de nossas virtudes é maior que a soma de nossos erros.

 

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COPA DAS COPAS

GIOVANA DAL POZZO SARTORI
Estudante de medicina na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

Vivo num país em que espero 40 minutos por um ônibus superlotado, em más condições, sem saber quanto vou demorar até o destino. Em que a lotação me custa R$ 17,60 por dia. Perco horas no trânsito e não é seguro estacionar meu carro na rua nem parar em sinaleiras. Roubam o estepe, as rodas, o carro todo. Os estacionamentos são caríssimos. Ligo a TV: greve do transporte público em SP, RJ, SC. As capitais estão sem mobilidade urbana. Nosso ex-presidente disse que metrô é “babaquice”,  que brasileiro vai até o estádio a pé ou de jumento se precisar.
Em plantão vi um pai perder seu filho num acidente em nossas intransitáveis estradas, amassado por um ônibus que, na ausência de fiscalização, transitava sem freio. Tenho medo de viajar. Medo que meus pais venham me visitar. Aqui, a chegada não é garantida.
Vivo num país em que trabalhamos até maio apenas pra pagar impostos, que retornam na forma de estradas perigosas, insegurança pública, educação e saúde falhas. Políticos roubam nosso trabalho. Nossa produção muitas vezes não pode ser escoada por falta de estradas e portos. Mas financiamos a construção de portos em Cuba.
Pacientes dormem na fila por uma consulta, esperam um ano por uma tomografia pelo SUS. Entram na justiça e esperam mais um ano por um quimioterápico. E morrem nesse meio tempo. Médicos fecham UTIs por falta de até mesmo luvas. Mas o governo acha melhor trazer mais médicos.
Abri o jornal e vi que obras que precisamos há tanto tempo não ficarão prontas nem pra receber turistas na copa. Mas que copa? Não a vejo nas ruas, na população… As passagens aéreas do período de jogos estão em promoção. Será que os turistas estão com medo de vir a um país colapsado, em que queimamos ônibus nas ruas e em que 56 mil pessoas são assassinadas por ano? Será que todo aquele dinheiro que tanto precisaríamos para reformular elementos básicos do país não terá o retorno esperado?
Depois de tudo isso querem que torçamos para a seleção nesse mês. Desculpa Brasil, mas eu não consigo. E quem consegue se importar se o Brasil vencerá essa copa, em frente à necessidade de vencer tantas outras?

 

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A COPA DA VIDA

CASSIONEI NICHES PETRY
Professor de Literatura e escritor

Popularmente, se diz que religião, política e futebol não se discute. Não estou de acordo, porque um debate sempre nos ajuda a construir o conhecimento. Isso, claro, se prevalecer a razão e, por conseguinte, os debatedores reconhecerem quando estão errados.
Porém, muitos não querem ver ruírem suas convicções e perderem algo que lhes dá apoio. O religioso busca na fé um sentido para sua vida. O militante vê apenas no seu partido as soluções para os problemas de um país. O torcedor jamais vai admitir que seu time esteja inferior ao outro. Deixam-se levar mais pelo lado emocional e, quando questionados, se não têm mais argumentos para se defenderem, podem partir para a violência.
No Brasil, de uma forma geral, as pessoas dificilmente discutem suas crenças religiosas, pois basta a palavra do padre ou do pastor para sustentar sua fé. No campo político, guiam-se pela mídia e as pesquisas, não suportam o horário eleitoral e quem se interessa um pouco mais se torna fanático, principalmente pelo partido que lhes satisfaz os interesses pessoais. Até aí, a máxima funciona.
Já no futebol, as discussões se espalham por todo o canto. Todos têm sua opinião e vão até as últimas consequências para defender seu time, por exemplo. Nem nessa época de Copa do Mundo entram num consenso, pois cada um tem sua escalação preferida e não nutre a mesma simpatia pelo treinador. Só na hora do apito inicial todos se unem “numa só emoção”, como diz o slogan de uma rede de TV.
Esporte curioso, o ludopédio. Sim, ludopédio. Foi o nome que os gramáticos tentaram colocar no lugar do estrangeiro foot-ball. Mas num país que prefere shopping center a centro de compras (ou slogan em vez de frase de efeito), lógico que não ia pegar. Aportuguesou-se a expressão, na medida em que o jogo abrasileirou-se. Da mesma forma, deixou de ser da elite para se tornar popular e, principalmente, masculino. Aliás, há uma analogia psicanalítica que tenta entender o interesse do homem por esse esporte: o pé e a bola são símbolos do órgão sexual masculino, a goleira é o feminino e o gol é o orgasmo. É o momento de alegria de um lado e o sentimento de perda do outro.
Nesse sentido, o futebol é uma metáfora para a vida: às vezes ganhamos, outras perdemos; há solidariedade e há deslealdade; há bondade e há violência; às vezes há jogo limpo, outras vezes há desonestidade; há tristezas e há alegrias; há tolerância e também preconceito; existem times pobres, outros ricos e alguns muito ricos; há baixos salários e há altos salários; erramos, acertamos; brigamos,  fazemos as pazes; batemos e apanhamos. Mas não podemos esquecer: os jogos terminam e se repetem em outros dias, os campeonatos se repetem todos os anos, a Copa do Mundo se repete a cada quatro anos. No entanto, a Copa da Vida não tem repetição e é mais real.

 

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A COPA DO MUNDO E A POLITIZAÇÃO DO ESPORTE

DAIÇON MACIEL DA SILVA
Engenheiro Civil,  ex-prefeito de Santo Antônio da Patrulha

A realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014 trouxe inquietações ao povo brasileiro. Com investimentos que superam os R$ 25 bilhões, boa parte destes, oriundos dos cofres públicos, perguntas começaram a surgir, como por exemplo: O que é mais importante para o país? A construção de hospitais ou de estádios de futebol?
Coroar o término de uma gestão governamental com o anúncio de que o país irá sediar o Mundial, não poderia ser mais auspicioso. Porém, talvez o efeito da Copa não seja o esperado pelo governo que a trouxe para solo brasileiro, sobretudo com a politização do esporte.
A contrariedade à Copa do Mundo deveria ter sido proclamada quando se cogitava a hipótese de o Brasil sediar um evento de tamanha grandeza. Desestabilizar o Brasil e torcer para que a nossa seleção não saia vencedora têm sido estratégia de muitos que fazem oposição ao governo estabelecido. Isto é misturar “alhos com bugalhos”. Mas este filme já foi visto:
Na copa de 70 o Brasil foi tri no México e a engenharia política militar se valeu desta conquista, para mostrar uma nação maravilhosa e não um país reprimido pela ditadura. Em 78 os peronistas viviam um tenso momento político e a Argentina criou manobras midiáticas para que os holofotes estivessem voltados aos gramados. Mais uma vez as vitórias abafaram os problemas do país. Em 2008 o esporte também foi usado pela França para “tapar com a peneira” a crise e as polêmicas sobre a corrupção do governo de Sarkozy. Vimos um povo feliz e orgulhoso, fazendo carnaval na Champs  Elysées, deixando os problemas de lado. Ou seja, não é de hoje que o futebol serve para mascarar problemas sociais e é utilizado com um fim político.
E em 2014? Quais as cenas dos próximos capítulos? A realização do mundial no Brasil está abrindo feridas de um povo descontente com os serviços públicos oferecidos. Porém, não se enganem, pois há quem esteja tirando proveito disto. Um crime com o orgulho nacional.  A camisa canarinho perde o brilho quando a construção dos estádios é objeto de atenção da maioria, ao invés da expectativa de ver a bola balançar a rede.

 

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RONALDO, EU TENHO ORGULHO!

CLEI MORAES
Analista Político

Na semana que passou, Ronaldo, ex-jogador da Seleção, declarou sentir vergonha pelos atrasos da Copa. Nada contra suas opiniões, ditas com sete anos de atraso. Ele também sabia da realização do mundial desde 2007.
Deixando-o de lado, ando pela rua a poucos dias da Copa e não vejo sacadas ou ruas enfeitadas, mesmo que pudessem estar recheadas de adereços, como em época de desfile cívico. É melancólico!
Quando acesso minhas redes sociais, tem tanto a favor X contra a Copa que a vontade de ser voluntário se perdeu em meio às dúvidas quanto à atual organização e investimento. Será que vai valer à pena?
Nos jornais, a cada nova página virada, há sempre um político envolvido em corrupção, há a Copa do Doleiro Youssef e mega estádios transformados em arenas. Afinal, uma arena vende mais que um estádio.
No caminho de casa, às vezes preciso passar pelo trajeto que leva ao aeroporto. Só consigo ver obras inacabadas, trânsito confuso a ponto de ficar caótico. Penso o quanto foi gasto em estruturas particulares, em acertos com valores que nem consigo imaginar.
No sofá da sala, defronte à televisão, vejo cenas de manifestações, algumas delas violentas, que não param de se repetir. Há sempre uma nova reivindicação, um novo desgosto, um direito a ser conquistado. Tudo o que esperávamos ver, não consigo enxergar.
Dia desses, assisti a presidente em pronunciamento em cadeia nacional. Falou que tudo o que há de bom em nosso país foi conquistado em seu governo ou de seu antecessor. Até acho que uma parcela é verdade mesmo. Mas onde elas estão?
Pra quem não é contemplado com algum tipo de programa governamental, como eu, é estranho ter que ver na tevê uma ameaça com “fantasmas do passado”. Que fantasmas?
Nos programas partidários, todos falam sobre o governo. Ora idolatrando, ora questionando. Nosso debate político passou a ser irracional, sem argumentos, apenas rancor e ódio.
Apesar de tudo isso, Ronaldo, ainda me orgulho porque acredito no brasileiro, porque irei votar, e essa será minha maior manifestação. Ronaldo, toda vez que a bola entrar, com muito orgulho, vou gritar gol!

Editorial| A ÚLTIMA FESTA

30 de junho de 2014 5

 

Editorial30O Rio Grande do Sul recebe nesta segunda-feira o último jogo da Copa programado para Porto Alegre, entre as seleções da Alemanha e da Argélia. A Capital, em especial, mas também a Região Metropolitana, passa pelo teste decisivo da movimentação atípica de veículos e pessoas. Porto Alegre já se submeteu a essa prova em quatro oportunidades, em jogos anteriores, e passou por todas com mérito. Na mais desafiadora, recebeu um contingente histórico de argentinos, que levaram do Estado a confirmação de que oferecemos mais do que hospitalidade aos turistas. Porto Alegre provou a cada jogo que estava preparada para a Copa.
O aspecto mais relevante dos desafios já vencidos e dos que se apresentam agora, no último espetáculo do Mundial no Estado, é o de que os gaúchos superaram barreiras consideradas quase intransponíveis. Assim como ocorreu nas demais 11 sedes da Copa, muito do que foi divulgado, às vésperas do evento, conduzia à conclusão de que o Brasil corria sérios riscos. O país poderia não só fracassar como sede, ficando em situação constrangedora aos olhos do mundo. Poderia expor-se a um vexame, pelos atrasos nas obras, pela incapacidade de cumprir prazos e pela própria resistência interna, de setores contrários à realização do Mundial.
O país venceu as desconfianças e a torcida do contra. Porto Alegre, em particular, superou impasses que devem ser reconhecidos e assimilados como lição. Além dos projetos na área da mobilidade, que não evoluíram de acordo com o cronograma inicial, foi preocupante a vacilação criada, a poucos meses da abertura do evento, com a transferência de responsabilidades pelas chamadas estruturas temporárias. Superados os desentendimentos, deve-se ressaltar hoje a capacidade de reação do setor público, Executivo e Legislativo, para que as obras do entorno do Beira-Rio fossem viabilizadas. Profissionais estrangeiros que vêm frequentando esses espaços observam que o trabalho realizado pelos gaúchos não perde em qualidade na comparação com o que foi feito em outras Copas.
Comprovou-se também que, apenas com falhas pontuais, o sistema de logística tem funcionado e que Porto Alegre, ao contrário do que os mais pessimistas previam, não se transformou na cidade do caos. Ao encerrarmos hoje nossa participação, temos como melhor saldo da Copa a sensação de que o Estado sai gratificado. É justo o sentimento dos gaúchos de que, mesmo podendo, quem sabe, fazer um pouco mais, o que está aí deve ser considerado representativo do que temos de melhor.

Artigo| O PROCESSO PENAL DE FAZ DE CONTA

30 de junho de 2014 0

RODRIGO NOSCHANG
Defensor público do Estado

Instituído está
o processo penal
de faz de conta.
Até quando?

RODRIGO NOSCHANG

Dá-se o fato. O Estado, por seus mecanismos e instituições policiais, realiza a investigação e, após finalizá-la, remete-a à Justiça. Ali, inicia-se um processo penal que, observadas as regras e garantias processuais a ambas as partes (sim, o Estado acusador também tem garantias), deve culminar com uma decisão, aplicando ou não uma pena, conforme seja comprovada ou não a culpa do acusado.
Obviamente que essa pequena resenha, sintetizando o caminho percorrido até a conclusão da persecução penal de um fato, desconsidera inúmeros atos praticados no curso do processo, que exigem uma estrutura judiciária condizente com a demanda. A inexistência dessa estrutura adequada (ou, em muitos casos, a sua ineficiência) acaba por ocasionar a demora na conclusão dos feitos, gerando intranquilidade social e, muitas vezes, ao próprio acusado.
Por isso, existe aquilo que se chama de prescrição, instituto jurídico destinado a extinguir a pretensão punitiva do Estado ou até mesmo a possibilidade de execução de penas já impostas, justamente pela demora na solução do litígio, o que, notadamente nos delitos de menor gravidade, traduz-se em desnecessidade e falta de interesse (por vezes da própria vítima) em ver o réu punido.
O problema é que, pelo texto da lei vigente, a prescrição baseada na pena aplicada só pode ser reconhecida após a conclusão do processo, tanto que o Superior Tribunal de Justiça, em 2010, aprovou a edição da súmula nº 438, que tem o seguinte enunciado: “É inadmissível a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva com fundamento em pena hipotética, independentemente da existência ou sorte do processo penal”.
Assim, mesmo que a súmula não tenha caráter vinculante, ela passou a balizar decisões de órgãos judiciais, mormente de primeiro grau, que não mais reconhecem a chamada prescrição projetada ou virtual, ou seja, fundada naquela possível pena que seria aplicada ao final do processo, em caso de condenação.
Diante disso, as varas criminais, açodadas de trabalho, precisam continuar processando feitos em que, após concluídos, reconhece-se que o Estado não tem mais o direito de punir, com prejuízos a todos os atores processuais.
Enfim, instituído está o processo penal de faz de conta. Até quando?

Artigo| O IMPREVISTO PRESIDIU OS ACONTECIMENTOS

30 de junho de 2014 1

PAULO BROSSARD
Jurista, ministro aposentado do STF

A circunstância de dois ilustres homens públicos terem anunciado seu propósito de não disputar nova eleição lembrou-me que, com isto, o país ficou privado de personalidades de inegável experiência. Pareceu-me que, com a decisão personalíssima dos dois políticos, a nação sofreu o que se poderia chamar de desperdício, perdendo o que não se encontra no mercado, nem a peso de ouro.
Não preciso lembrar aos gaúchos que Pedro Simon atravessou mais de meio século de vida pública sem ter sido alvo de uma nódoa e com o respeito de seus colegas e inclusive de seus adversários. Quanto ao presidente José Sarney, que encerra sua carreira de quase 60 anos, limitar-me-ei a apreciá-lo como presidente, o que constituiu uma mudança na sua vida e foi a mais exaustiva das provas.
Na eleição congressual na sucessão do presidente general Figueiredo, a chapa da oposição foi composta por Tancredo Neves e José Sarney. Como é notório, o presidente eleito, na noite anterior à posse, foi operado com urgência, vindo a falecer dentro de algumas semanas, razão pela qual o vice-presidente, eleito para substituí-lo nos impedimentos e sucedê-lo na vacância do cargo, viu-se investido na presidência da República. O imprevisto presidiu os acontecimentos. A meu juízo, e na medida das informações que armazenei, o novel presidente, deixando à margem todos os antecedentes da sua vida, imbuiu-se da singularidade da sua investidura, exercendo o governo como se fora uma espécie de testamentário. De início, manteve o ministério escolhido por Tancredo, só alterado quando as eleições levaram alguns ministros a buscarem novos cargos. Na sua mesa de trabalho, colocou a relação de todos os compromissos assumidos por Tancredo e passou a cumpri-los, rigorosamente, executando-os sem alarde.
Segundo a Constituição da Itália, quem foi presidente da República (e na Itália vige o regime parlamentar, segundo o qual o presidente da República é tão só o chefe de Estado) passa a ser senador vitalício. Cada presidente da República possui também a prerrogativa de nomear cinco senadores vitalícios que tenham “enaltecido a pátria em virtude de elevadíssimos méritos no campo social, científico, artístico e literário”. Atualmente, esses incluem, entre outros, um maestro, um arquiteto, um físico e uma neurobiologista, todos de renome internacional.
Não estou a propor a imitação italiana, mas limito-me a mostrar tentativas de inovar procedimentos benfazejos.

Artigo| LEI DA PALMADA

30 de junho de 2014 10

CINARA VIANNA DUTRA BRAGA
Promotora de Justiça da Infância e Juventude de Porto Alegre

O “não” tem de
ser dito, mas
com amor e
respeito, jamais
com violência

Conhecido como “Lei Bernardo”, em alusão à morte de Bernardo Boldrini, o PL da Câmara 58/14, aprovado no Senado no dia 4 de junho, foi sancionado pela Presidente da República sexta-feira, 27. O PL altera a Lei 8.069/90 (ECA), estabelecendo o direito da criança e do adolescente de serem educados sem castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante. Seu teor repercute.
Os contrários ao PL argumentam tratar-se de “Lei Marqueteira” e mais uma forma de o Estado interferir na Família. Discordo.
Segundo a Vigilância Sanitária, 73% das violências contra crianças e adolescentes ocorrem no ambiente familiar, sendo 44% delas de repetição. Em 2013, foram atendidas no Hospital Presidente Vargas/CRAI em torno de 1.890 crianças e adolescentes vítimas de violência. Na Capital, cerca de 1.800 crianças e adolescentes estão acolhidas institucionalmente, a maior parte vítimas de violência sexual, física, psicológica ou negligência dos responsáveis.
Esta triste realidade legitima a “Lei da Palmada”, a qual não tem natureza criminal, mas de lei civil pedagógica, que modifica a cultura de que se tem o direito de disciplinar o filho mediante o uso da força física, olvidando que a criança e o adolescente são sujeitos de direito, amparados, inclusive, pela Constituição Federal.
Desta forma, temos que a importância da Lei da Palmada para os profissionais que lidam com os direitos das crianças e adolescentes é a de propiciar o debate e a união de todos, com ênfase à promoção de políticas públicas na garantia de proteção integral aos seus tutelados, inclusive no modo de educar. Necessário, portanto, o comprometimento dos cidadãos na fiscalização e efetivação dos direitos das crianças e adolescentes de crescerem protegidos da violência, denunciando ao Ministério Público, Conselhos Tutelares, Disque 100 e ao Deca. Imprescindível a imposição de limites para que as crianças e adolescentes cresçam íntegras, mediante orientação, diálogo e contenção. O “não” tem de ser dito, mas com amor e respeito, jamais com violência.

Artigo| COM PIPOCA E PINHÃO

28 de junho de 2014 0

Tavares
 

 

 

 

FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

A Copa do Mundo, em que tudo soa a novo e feliz, me leva à chamada “crise do petróleo”, em 1973, quando parecia que o mundo “ia acabar”. Os grandes países produtores triplicaram o preço do óleo cru (de 10 para 33 dólares o barril) e a ideia de paralisação econômica tomou conta do Ocidente como paranoia coletiva. Eu era jornalista no México e, para saber como seria “o desastre” nos pequenos países da América Central, telefonei ao palácio presidencial da Costa Rica. A telefonista me passou ao presidente José Figueres e conversamos por uma hora, como se eu fosse velho amigo e não alguém distante, com quem ele falava pela primeira vez. “Voltaremos à carroça de boi, mas o país não vai parar”, me disse.
A Costa Rica surpreende em tudo. A seleção de futebol venceu agora três campeões mundiais (Uruguai, Inglaterra e Itália), mas esse país pequenino, cinco vezes e meio menor que o Rio Grande do Sul, tem outras inigualáveis surpresas.
Costa Rica não tem exércitos e é uma democracia modelo. Os bancos são estatais e se destinam a fomentar a atividade econômica e a resguardar o meio ambiente. Com apenas 51 mil quilômetros quadrados, dos quais 25% são bosques protegidos e intocáveis, reúne 5% da biodiversidade do planeta. O Rio Grande do Sul, com 281 mil quilômetros quadrados, desdenha o que tem.
Nos anos 1960-70, rodeado de ditaduras em terra e mar, Costa Rica (sem exércitos) resistiu em paz, garantindo os direitos e liberdades dos seus cidadãos. Banhada por dois oceanos, nem os dois vulcões existentes no território abalam a paz interna. A capital, a culta San José, com 450 mil habitantes, não conhece assaltos de rua nem na política.

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No sábado, todos os olhos se fixaram na seleção do Brasil. No domingo, Costa Rica tomará a atenção. O futebol não mede o valor das sociedades e ninguém dirá que a antiga “cultura grega” vai ressuscitar em sua seleção para enfrentar a pequena Costa Rica. Mas, este país que, há muito, é uma espécie de Atenas latino-americana, surpreende tanto quanto os gregos na Antiguidade e, no futebol, tentará chegar aonde chegou internamente, como sociedade.
Hoje, nosso Neymar, o argentino Messi e o mexicano Ochoa estão na mente de bilhões de pessoas nos quatro pontos cardeais, como se a América Latina dominasse o planeta. Se fosse pelo futebol, viveríamos aqui num Éden permanente de felicidade perene. E tão felizes quanto aquela senhora da tenda de cachorro-quente perto do estádio Beira Rio, que suspirou contente, na TV, sonhando com que haja “muitas outras Copas, uma por ano”, pois nunca vendera tanto a tantas bocas famintas. Não importa que os alimentos tenham subido de preço “pela Copa”, às vezes em 20 ou 30%. A alegria supera tudo.
Além da emoção dos estádios, haverá algo melhor do que estar à frente da TV, no frio úmido do inverno, comendo pipoca e pinhão?

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P.S. – Neste junho dos 10 anos da morte de Leonel Brizola, a entrevista do ex-ministro do Trabalho, Brizola Neto, à revista Veja é uma radiografia profunda da política atual. Explicou que “a quadrilha que tomou de assalto o PDT” obrigou a presidente Dilma a tirá-lo do ministério. Disse que a presidente resistiu “até a exaustão”, mas frisou: “Ela é refém de um exército de mercenários da ‘base aliada’, que só tem compromisso em se manter no poder para obter vantagens”. Lembrou que o presidente do PDT, Carlos Lupi, e o atual ministro Manoel Dias desviaram “mais de R$ 400 milhões do ministério” e lá permanecem “mesmo com um pedido da Polícia Federal ao STF para investigá-los”.
“A tragédia maior é ver jogado no lixo o patrimônio ético construído por meu avô para o PDT, hoje uma federação de interesses, um balcão de negócios”, concluiu.

Artigo| OS BRAVOS

28 de junho de 2014 0

moises

 

 

 

 

MOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br
Jornalista

 

 

A magistratura é uma atividade de alto risco. Juízes são submetidos a pressões e ameaças e enfrentam cotidianamente a tentação de largar tudo e ir embora. Vou relacionar, a partir do que foi fartamente divulgado este ano pela imprensa, alguns motivos apontados como eventuais causadores dos raríssimos casos de desistência precoce da atividade, do mais singelo aos mais complexos.
1. O primeiro é banal. O juiz terá de se submeter ao comando institucional de um colega com o qual discorda em quase tudo. Vai embora e livra-se da liderança de alguém que já se submeteu ao seu comando. Esse, claro, não é um motivo explicitado.
2. Outro motivo apenas implícito. Decisões relevantes para a formação da imagem pública do juiz serão submetidas a outros magistrados. Podem ser ratificadas ou revisadas. O juiz não aceita questionamentos da sua sabedoria. Sai e deixa um dilema para quem fica: a revisão do que ele fez pode significar, para a média da chamada opinião pública, uma conspiração dos colegas contra o seu esforço moralizador.
3. O juiz entende que já fez tudo de mais grandioso pela Justiça. Julgou um caso momentoso, foi valente enfrentando corruptos graúdos e deu sua missão por encerrada. Que casos semelhantes, com corruptos da mesma envergadura, à espera de julgamento, sejam levados à apreciação de quem fica. O que interessa é que o juiz saia com um grand finale.
4. Na última hipótese, o juiz decide sair porque vem sendo ameaçado por supostos cúmplices de réus que acabou de condenar. É um motivo explicitado.

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Troca-se de profissão, de amor e de casa sem explicações públicas. Você conhece juízes, promotores, jornalistas, advogados, engenheiros que viraram donos de pousada, astrólogos, padeiros, artesãos. E daí?
Mas, se os juízes desconfortáveis com lideranças institucionais, ou com a hipótese de terem deliberações revisadas ou ainda receosos com eventuais ameaças abandonassem o que fazem, a reputação da Justiça no Brasil estaria aos frangalhos.
Importa que os juízes resistem. Quem mora no Interior sabe o que significa para todas as instituições aquele que muitas vezes é o único juiz da cidade. Que faz a mediação de conflitos de família, contemporiza brigas de vizinhos por meio metro de pátio e preside o júri dos traficantes que eliminaram os rivais.
O juiz de primeira instância precisa entender os humores da cidade e fazer cumprir a sua autoridade. Ele é a figura mais valente do Brasil. Quando esse juiz desiste, não há justiça em Xapuri, em Anapu, em São Gonçalo ou em Sananduva.
Juiz de primeira instância convive, nas ruas das cidadezinhas, com os arremedos de Fernandinho Beira-Mar, dos matadores de Chico Mendes e de Irmã Dorothy, dos jagunços e poderosos. Que se respeite a decisão dos que vão embora para escapar dos que um dia podem matá-los.
Se você quer um juiz como herói, e se você rejeita moralismos seletivos, escolha o juiz da sua cidade, ou o que já passou por aí, que sobreviveu às pressões políticas do tempo da ditadura, que peitou máfias camufladas, que julgou e condenou bandoleiros e resistiu.
Ajude a erguer uma estátua simbólica, no imaginário da cidade, ao juiz de primeira instância. Fique com o juiz que resiste para defender a cidade.

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O Tribunal de Contas do Estado homenageou na quinta-feira um grupo de profissionais, em “reconhecimento à defesa do interesse público e dos valores republicanos”. Fiz parte do grupo, ao lado do economista Francisco Gil Castello Branco Neto e dos jornalistas Cyro Silveira Martins Filho, Fernando Albrecht e Telmo Ricardo Borges Flor.
É uma honra ser reconhecido por uma instituição civilizadora da atividade pública, na gestão liderada pelo presidente Cezar Miola, e ainda receber a escultura O Gaúcho, assinada por Gloria Corbetta. Ganhei minha Copa.

 

Artigo| NA FRENTE DAS VISITAS

28 de junho de 2014 6

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FLÁVIA MORAES
Cineasta
flavia.moraes@gruporbs.com.br

Banho tomado, orelhas meticulosamente inspecionadas, roupa nova, o melhor sapato e o cabelo bem penteado. Sábado sim, sábado não, éramos os convidados cheirosos e engomados de alguma festinha de aniversário. Se você fosse o anfitrião, então passava por um processo ainda mais intenso: a “pré-produção” da festa. Tínhamos que arrumar e enfeitar, não só a nós mesmos, como também a casa. Eram verdadeiras maratonas. Depois de lustrar o “parquê” e decorar a sala, entrávamos madrugada a dentro fazendo o bolo e enrolando quantidades industriais de brigadeiros. Na noite anterior, mal se pregava o olho, tamanha expectativa. Os códigos eram muito claros: se a festa era de criança, havia mais tolerância com gritos e correrias, coisas de criança. Contudo, brigadeiro no sofá da sala, nem pensar. Se a festa era de adulto, você tinha que pelo menos tentar se comportar como tal. E dessa forma fomos apresentados a conceitos como “a casa dos outros”, “visita primeiro” e, claro, o clássico “não na frente das visitas!” Se você quebrasse esses limites, era carregado pela orelha de volta para o carro ou para o quarto. No caso de ser o dono da festa, com sorte, era liberado na hora de cantar o “parabéns a você”.
Se um lado meu adora essa anarquia e insurreição contra a Copa da Fifa, outro não só não entende, como morre de vergonha da lavação de roupa suja em público. E põe público nisso! Jamais tivemos tanta publicidade. Nunca antes se viu e ouviu um “Brazil” tão nítido em Full HD e com todas as cores, mostrando ao mundo nossa marca registrada, agora consolidada: falta de compromisso e seriedade estampadas em telões, telas e telinhas para o planeta em tempo real. Viramos piada internacional. Sim, o país é lindo. Sim, somos um povo descontraído e alegre, mas se estamos produzindo um dano institucional quase irreversível, onde está a graça?
No outro dia assisti Demétrio Magnoli no “Café Filosófico” da TV Cultura. Segundo ele, o sistema político do país está se transformando em uma espécie de neocorporativismo, uma reedição da Itália de Mussolini, no qual ONGs e grupos organizados generalizam as demandas de toda uma sociedade anulando a voz do indivíduo. E transformados em porta vozes da sociedade, cada órgão, cada sindicato, cada grupo teatral, produtor cinematográfico ou projeto social, hoje subsidiado, depende cada vez mais do governo. Um vínculo econômico que, no frigir dos ovos, quando não corrompe, compromete.
Não é irônico pensar que nos vendemos para nosso próprio dinheiro?
Seguindo a lógica de Demétrio Magnoli, nesse exercício paternalista tudo vira subserviência, comício e manifestação, real ou virtual. Para cada grupo, um líder, um porta-voz, um “companheiro”. E, fascinados que estamos por nossa própria imagem no espelho, pela grande vitrine e pelo incrível poder de compartilhar, além de pizza, tudo vira “selfie”. O Brasil está fazendo o maior de todos os “selfies” neste Mundial e sem nenhum discernimento ou critérios básicos de privacidade. Já bastam os bifes suculentos, as fotos de pés descalços na areia da praia, as placas mal escritas e os gatos escalpelados. Nos poupem, por favor, de postar aos quatro cantos do mundo nossa falta de competência!
Talvez os buffets infantis, onde convidados e anfitriões se confundem num território neutro de paredes azulejadas, estejam na raiz de nossos problemas comportamentais. Afinal, lá se permite qualquer tipo de vandalismo de guerras brutais de brigadeiros a mandar a mãe para aquele lugar. Ou até mesmo… a presidenta.
Sim eu também tenho vergonha da cara de pau, da ineficiência e da corrupção financiada pelos impostos mais caros do mundo, mas não se trata desse ou de outro governo, e mesmo que por milagre escapemos de um processo de cubanização, nossa única saída está na educação. Não só na educação formal, mas principalmente naquela que deve acontecer dentro de casa: aprender limites, contexto e noções básicas de como nos comportar como anfitriões.
Ou seja, NA FRENTE DAS VISITAS, NÃO!!!!