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Posts de agosto 2014

Artigo| BERNARDO NOSSO DE CADA DIA

30 de agosto de 2014 0

Tavares

 

 

 

 

FLÁVIO  TAVARES
Jornalista e escritor

 

A cada dia surgem detalhes da imundície que gerou a tragédia do menino Bernardo. Atos ou ameaças diferentes têm, sempre, um elemento constante _ a simulação. Em Três Passos, pai e madrasta simulavam desvelo ou zelo. Quando o castigavam, puniam “por amor”. De resto, “não sabiam de nada” e tudo nascia da tosca rebeldia infantil…
A simulação, porém, não se limita aos crimes aberrantes. Está em muitos lugares e é gritante nestes tempos pré-eleitorais. Continuamos em busca de quem nos diga a verdade, não simule o que não sabe fazer nem invente milagres que não pode realizar. Estamos cansados que simulem honestidade, competência e visão profunda da sociedade. A mentira continuada (de vencedores e vencidos) embaralha o raciocínio e, naturalmente, a emoção passa a nos comandar.
Assim, sob a emoção da tragédia que matou Eduardo Campos, sua substituta como candidato presidencial subiu com estrondo nas intenções de voto. As pesquisas não são confiáveis em si (às vezes, buscam só induzir o eleitor), mas indicam uma tendência que tem a ver, também, com a voz mansa de Marina Silva e sua aparência de que não simula nem mente.
Mas, a queda do avião do candidato morto acabou por revelar um escândalo. Ou fraude: o PSB ocultou a doação (ou empréstimo) do avião, aparentemente feita por um empresário em troca de favores futuros. Agora, indagada sobre a fraude, Marina diz que “nada sabia” do avião em que ela própria fez várias viagens…
***
Todos simulam tudo e ninguém assume a propriedade do avião. Aquele “eu não sabia, fui enganado”, que o então presidente Lula da Silva introduziu no pensamento político, frutificou.
Quando estourou a farra do “mensalão” em 2005, Marina era ministro de Lula, unida a ele não só pelo sobrenome comum mas como obediente membro do PT. Ao desobedecê-lo, saiu do governo. Entrou no PV, disputou a presidência e obteve 20% dos votos, oriundos não só dos incondicionais fiéis das igrejas evangélicas-pentecostais (das quais foi “candidata preferencial”) mas, também, dos que confiaram na sua promessa de renovação dos métodos políticos, pondo fim à mentira e à simulação.
Ela encarnaria “a mudança”, com a ética substituindo o subterfúgio. Na entrevista ao Jornal Nacional da TV, porém, ela tergiversou e se disse alheia ao escândalo do avião, como se não houvesse usufruído dele. Respondeu no mesmo tom evasivo de Dilma, candidata do PT-PMDB, e de Aécio, do PSDB, quando indagados sobre algo polêmico.
Agora, ninguém é proprietário do avião. O escândalo dos que aparentavam estar livres de escândalo só apareceu pela tragédia. Simula-se tanto e com tanta proficiência que, talvez, apelem a Santos Dumont. Afinal, ele é o responsável por tudo o que voa e não é pássaro…
***
Cometem o crime e ocultam tudo, como se nada ocorresse. E, assim, tomamos a noite como dia sem perceber a escuridão. Foi assim no nauseabundo drama de Bernardo. A diferença é que, em Três Passos, a simulação foi obra de diletantes, de “amadores” perversos que deixaram rastros da perversão. Em contraposição, no simulacro em que transformaram a política atual, a mentira perversa é obra de “profissionais” que vivem da fantasia e da invencionice. Ou diretamente da mentira.
Em ambos casos, a mentira (aquele “eu não sabia de nada”) serve ao mesmo propósito _ obter vantagens para o deleite pessoal. Ou alguém tem dúvidas de que isto é a visão dominante no quadro político-partidário atual?
Dirão que exijo demais e que, no caso de Marina, foi “apenas uma mentirinha” em coisa ínfima, um avião. Mas, tudo nasce pequeno, cresce na multiplicação dos dias e os sintomas viram regra de conduta.
Oxalá a tragédia de Bernardo não vire indesejável pão nosso de cada dia em tudo.

Artigo| MARINA E O CHUCHU

30 de agosto de 2014 2

moises

 

 

 

MOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora.combr

 

Quem você foi quando estudante, o que passou a ser quando começou a trabalhar, que mutações teve quando casou e teve filhos e o que você é agora, na maturidade? Pense que essas questões levam em conta suas ideias políticas, postura sobre coisas essenciais da vida e, quem sabe, alguma ideologia.
Se você é jovem e se considera radical, entenda desde já que poderá seguir o mesmo caminho de seus pais, tios, avós. A máscara de anarquista das passeatas de junho do ano passado talvez não signifique muita coisa daqui a alguns anos, ou signifique apenas que em dado momento você foi aprendiz de anarquista. Pode ser cruel, mas é assim mesmo.
Há quem leve suas convicções até o fim, ou preservam algumas tatuagens de suas referências, ou decidem largá-las pelo caminho. O difícil é ser linear como um Luiz Carlos Prestes, que disse, pouco antes de morrer, que cresceu e morreria comunista.
Agora, transfira essas questões para o fenômeno eleitoral Marina Silva. Quem foi e quem é Marina? Foi comunista, como Prestes, mas não uma comunista reformista, foi uma revolucionária. O que isso significa hoje? Pode significar apenas que um dia, na juventude, ela foi comunista.
Mas onde se encontram agora os meios tons da militante que transferiu seu radicalismo para o ambientalismo, adequa o discurso às circunstâncias e, como fez no debate da TV Bandeirantes, até ataca as esquerdas e flerta com ideias econômicas conservadoras?
Ressalvadas as dimensões de cada um, não há, desde Getúlio Vargas, nenhuma figura tão complexa na política brasileira quanto Marina. Compará-la a Lula, pelas semelhanças nas origens humildes, é simplificação preguiçosa.
Lula ganhou as feições de político depois de liderar o novo sindicalismo brasileiro. Dedicou-se com paciência à construção de um partido que encantou a classe média, glamurizou a política, percorreu longo e penoso caminho até o poder e se consolidou como uma sigla de massa.
Marina, ex-militante do Partido Revolucionário Comunista nos anos 80, passou por PT e PV e não conseguiu formar a sua Rede Sustentabilidade. Se saíssem a perguntar nas ruas qual é o partido de Marina, poucos saberiam responder. E qual é a consistência da relação Marina-PSB? Mas o eleitor médio está preocupado com isso?
O jornalista Lira Neto mostra, na biografia de Getúlio editada pela Companhia das Letras, que o gaúcho de São Borja pode ter sido o primeiro político a colocar o país diante do dilema concreto da ideologia: quem é mesmo este homem?
Em janeiro de 1930, Getúlio discursou no Rio como candidato da Aliança Liberal à Presidência. No dia seguinte o jornal Correio Paulistano cunhou o apelido desqualificador que seria aplicado a muitos outros políticos: “É um chuchu, anódino, insípido e inodoro”.
Nove meses depois, o chuchu lideraria a Revolução de 30. Ficaria 18 anos e meio no poder. Criaria dois partidos, um à esquerda (PTB) e outro à direita (PSD). E até hoje não conseguem enquadrá-lo.

***

Marina também é uma imagem envolta em nebulosas. Seria o novo na política, mas carrega o velho de convicções religiosas retrógradas. Por isso, estabelece limites à homoafetividade (ela é contra o casamento de gays) e às pesquisas com células-tronco (rejeita o uso de células embrionárias, porque isso atenta contra uma vida em formação).
Nas últimas eleições, o PT fortaleceu seus laços com o eleitor de baixa renda, manteve vínculos com parte dos chamados setores progressistas e empurrou o PSDB para o eleitorado de classe média conservador.
Marina está empurrando os dois para o penhasco que estiver mais perto. Para imitar o Correio Paulistano diante de Getúlio, as esquerdas, as direitas, os incomodados e principalmente os perdedores com a ascensão da acreana estão agora diante de um abacaxi amazônico.

Artigo| A CIVILIZAÇÃO E SEUS ADVERSÁRIOS

30 de agosto de 2014 3

marcosRolim

 

 

 

MARCOS ROLIM
Jornalista
marcos@rolim.com.br

 

Há muitos significados no futebol _ no jogo, em seus rituais e nas atitudes dos torcedores _ que transcendem o esporte. Um estádio é, inicialmente, um espaço hierarquizado onde as estruturas sociais estão demarcadas espacialmente. A amplitude destas demarcações tem sido reduzida nos novos estádios e o preço dos ingressos, especialmente, tornou-se um obstáculo para a presença de torcedores mais pobres. Um dos efeitos desse processo tem sido o “branqueamento” das arquibancadas. Como se viu na Copa, as imagens das câmeras sobre as torcidas mostraram uma paisagem protonórdica, etnicamente não representativa do Brasil, um país que, a par de sua diversidade racial, é formado predominantemente por população não-branca.
As cenas explícitas do racismo persistente no futebol têm, felizmente, produzido indignação. Ao lado da intolerância e da disposição covarde de ofender alguém por sua etnia, temos, finalmente, a justa demanda pela responsabilização dos ofensores. Trata-se de uma encruzilhada entre a civilização e seus adversários que o Brasil precisa superar.
Outro dia, no Fantástico, da rede Globo, uma excepcional matéria jornalística revelou o drama dos imigrantes negros, africanos e centro-americanos, que vêm ao Brasil em busca de trabalho e vida digna. A matéria abriu com alguns depoimentos profundamente preconceituosos de caxienses. Em síntese, eles se manifestaram contra o “convívio” com os ganeses e houve quem alertasse para as “terríveis doenças” que os imigrantes poderiam trazer. Claro que estas opiniões não são as de todos os residentes, mas espanta que possam ser representativas e que surjam em uma região que deve sua existência à imigração. A indignação pública diante das manifestações xenófobas, de qualquer maneira, foi sensivelmente menor do que a que temos visto frente ao racismo no futebol. Será por que se acredita que não haja racismo nelas?  É possível que alguém imagine contrariedade e medo dos caxienses se os imigrantes fossem holandeses?
Aqui no RS, recentemente, dois deputados, um do PP, outro do PMDB, realizaram pronunciamentos racistas e homofóbicos. Os discursos foram gravados e as expressões usadas _ sobre “tudo aquilo que não presta” _ são de conhecimento público. Os parlamentares sequer se desculparam. Para seus partidos, não há qualquer problema, inclusive, que eles tenham legenda e se apresentem como candidatos à reeleição. Também não se falou mais no assunto por estas bandas. Compreensível. Os adversários da civilização, como se sabe, não estão apenas dentro dos estádios de futebol.

Artigo| SOB A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

30 de agosto de 2014 1

Puggina

 

 

 

PERCIVAL PUGGINA
Escritor
puggina@puggina.org

 

 

Boa parte da fábula narrada por George Orwell em A Revolução dos Bichos transcorre durante o governo exercido por Bola de Neve e Napoleão, os dois porcos que comandam a revolução e assumem a direção de uma granja. Junto com eles, ascende um terceiro porco dotado de extraordinária força de persuasão, o Garganta, encarregado da propaganda.
Nos últimos dias, dois fatos lançaram luzes fortíssimas sobre aspectos da realidade nacional, tornando impossível não extrair deles as devidas conclusões. São fatos que fazem lembrar o livro de Orwell e pensar se não estamos, há bom tempo, diga-se de passagem, sob uma revolução dos bichos, colocando a nação sobre quatro patas.
No sábado, dia 23, à noite, no sempre interessante programa Painel, da Globo News, William Waack recebeu três economistas para uma conversa sobre o sistema tributário nacional. Entre eles, o meu amigo Paulo Rabello de Castro, sempre brilhante, membro do Pensar+ e líder do Movimento Brasil Eficiente, organismo “que trabalha com propostas concretas para a simplificação fiscal e a gestão eficiente das despesas do governo no Brasil”. Lá pelas tantas, Paulo Rabello de Castro disparou: “Sabe por que o programa fiscal denominado ‘Simples’ tem esse nome? Porque o outro sistema é o Complicado”. Ou seja, o governo cria um programa simples porque ele sabe que adota um outro cuja complexidade onera o custo Brasil. E ninguém faz coisa alguma para simplificar o complicado! Bola de Neve resolveria melhor.
No domingo pela manhã, cai no meu Facebook texto do jornalista Alison Maia relatando conversa que manteve, em banco de delegacia, com um jovem de 14 anos detido por porte de arma. O que ouviu é de arrepiar até pelo de porco. Criado sem pai, por mãe problemática, em duas ocasiões procurou e encontrou emprego para poder se sustentar e estudar. Em ambas, seu patrão foi processado por contratar menor e ele teve que ir ganhar a vida nas ruas vendendo droga. O relato do jovem termina assim: “Então, seu Alison, guarde seus conselhos para esses safados que vocês votam e acham que menor não pode trabalhar, mas pode roubar, matar e traficar”.
Não sei de qual espírito de porco saiu essa ideia de que o trabalho pode fazer mal a um adolescente e, por isso, o impede de usar parte do dia para trabalhar aprendendo algum ofício. Aprender a trabalhar também é se educar. Toda experiência humana, com infindáveis exemplos, ensina que trabalho adequado à idade, por tempo limitado, em condições de segurança, só faz bem a quem o exerce. É preciso diminuir a quota de Gargantas nos poderes da República.

Sentenças| Frase da Semana

30 de agosto de 2014 2

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“É muito difícil ser profeta em sua própria terra”.

MARINA SILVA
Candidata do PSB, explicando por que ficou em terceiro lugar, no Acre, na eleição à Presidência de 2010

Editorial| IDENTIFICAR E PUNIR

30 de agosto de 2014 5

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A jovem torcedora do Grêmio flagrada pela televisão no momento em que ofendia o goleiro do Santos com injúrias raciais já foi identificada e certamente será responsabilizada legalmente por seu ato. Espera-se que outras pessoas que tiveram atitude semelhante também sejam punidas na medida exata de sua participação no lamentável episódio. Manifestações racistas têm que ser combatidas sem tréguas, no futebol e em outros setores da sociedade. Tão importante quanto a punição, porém, é a formação de uma cultura de conscientização e de convivência com a diversidade em todas as suas formas.
Por isso é essencial que episódios como o da última quinta-feira na Arena do Grêmio sejam debatidos amplamente, até que se dissemine pelo país a ideia de que práticas toleradas no passado já não podem mais ser aceitas. Xingamentos e ofensas de natureza racial são fáceis de identificar, mas o preconceito sutil _ o grito anônimo no meio da multidão, as piadinhas, os apelidos aparentemente inocentes _ também contribui para a discriminação.
O futebol é hoje, talvez, a vitrine mais visível do racismo. No caso referido, porém, deve-se ressalvar que a maioria das 30 mil pessoas presentes ao jogo Grêmio x Santos não compartilha, não aceita e não pode ser responsabilizada pela estupidez dos torcedores que ofenderam o goleiro Aranha. Da mesma forma, o clube parece disposto a colaborar nas investigações policiais e a contribuir para que essas pessoas sejam excluídas de sua torcida.
Não pode ser de outra maneira. Por mais que as atitudes racistas causem indignação, seus autores têm que ser punidos na exata dimensão de suas responsabilidades. Punições generalizadas, que possam atingir também inocentes, não são justas nem dissuasórias. Porém, é inaceitável que se deixe de punir sob o pretexto da dificuldade de identificação. Atualmente, com a proliferação de câmeras de vigilância, com as transmissões por televisão e com a produção individual de imagens através de celulares e smartphones, há muito mais recursos para uma investigação criteriosa que leve efetivamente aos autores das injúrias.
Para sermos eficientes no combate à discriminação, é impositivo que sejamos, acima de tudo, justos nos nossos critérios e avaliação e julgamento.

Editorial| O ALARME DA RECESSÃO

30 de agosto de 2014 2

A desarrumação da economia mundial, que ainda produz efeitos em muitos países desde a crise de 2008, não tem mais utilidade como argumento para explicar a situação brasileira. A retração de 0,6% no PIB, no segundo trimestre deste ano, contraria uma tendência não só em países desenvolvidos. O mundo está reagindo, inclusive na América Latina e parte da Europa, enquanto o Brasil já convive com o que alguns economistas definem como recessão técnica, com dois trimestres consecutivos de queda no desempenho econômico. Não significa, como alardeiam setores da oposição, no contexto da campanha eleitoral, que a economia esteja à beira do abismo. Mas a divulgação dos números pelo IBGE aciona um sinal de alerta.
Esgotaram-se as manobras que transferiam a culpa pela estagnação ao cenário externo, apesar de a presidente da República continuar insistindo nessa tese. Nem é sensato responsabilizar a Copa do Mundo, como faz o ministro Guido Mantega, com a desculpa de que, às vésperas e durante o evento o evento, houve retração de produção e consumo. O governo não pode continuar desfrutando do conforto dos índices de emprego ainda satisfatórios _ apesar da queda no ritmo de criação de vagas _ e dos ganhos médios de renda da população. Também esses benefícios passam a ser ameaçados pelo que já está claramente identificado como um  conjunto de erros da política econômica. O governo erra no controle das próprias contas. Falha na condução de uma política monetária sem coerência entre juros, oferta de crédito, câmbio e controle da inflação. E continua atrasando projetos de longo prazo para a infraestrutura.
É vexatório que, num ranking de 37 países, o Brasil só esteja à frente da Ucrânia em desempenho econômico, considerando-se que este país está em guerra. A grande maioria das nações apresenta melhorias, mesmo que ainda tímidas, o que pode significar que começam a sair da crise iniciada há seis anos. Estamos numa posição retardatária, que apenas confirma previsões do início do ano de que a gestão da economia vinha falhando, por insistir na capacidade quase milagrosa do fortalecimento do mercado interno via isenções fiscais setorizadas e crédito abundante para a aquisição de bens duráveis. As complicações de um cenário eleitoral não podem servir de pretexto para o adiamento de medidas de correção de rumo.

Artigo| PUNAM OS RACISTAS, NÃO A TORCIDA, NEM O CLUBE

29 de agosto de 2014 4

CLÁUDIO FURTADO
Jornalista

 

O racismo é repugnante, inaceitável, movido pelo pior vírus do mundo, mais violento que o ebola, o vírus do ódio, que existe em todo o planeta Terra, e que, infelizmente, não tem cura. Mas, nos acontecimentos de Grêmio x Santos, por favor, que sejam punidos os 10 torcedores racistas, não o conjunto da torcida, 30 mil que estavam no estádio, que repudiam esse tipo de procedimento, nem que o clube seja prejudicado. Aliás, não conheço nenhum clube racista. O que existe, e existe mesmo, são pessoas racistas, “torcedores” de todos os clubes de futebol. Por aqui, já vi manifestações racistas de torcedores gremistas e de colorados, até de dirigentes. Mas é uma minoria.
É evidente que o Grêmio, neste caso, tem obrigação de identificar os responsáveis por aqueles atos lamentáveis e inaceitáveis. É fácil. São mais de 200 câmeras espalhadas pelo estádio. E não permitir mais o ingresso dessas pessoas nos jogos. Nem que sejam sócios. O Ministério Público tem obrigação de tomar as medidas legais e necessárias em relação aos racistas.
Punir o clube é responsabilizar o conjunto dos torcedores, homens, mulheres, jovens e crianças, que são totalmente contra esses atos. Esse tipo de punição só vai fazer surgir um sentimento de revolta na imensa maioria antirracista, que ficará privada de assistir aos jogos no seu estádio. É tachar o Grêmio como um clube racista, para o Brasil e para o mundo inteiro, uma grande inverdade.
O Grêmio tem uma torcida incrível, maravilhosa, participativa, que cresce a cada ano, independentemente dos resultados dos últimos anos, bem distantes de um passado cheio de glórias. A própria Geral do Grêmio, tão crucificada por alguns, no seu conjunto, empolga, canta, anima o tempo todo. E condena atos racistas. Ela carrega o reconhecimento dos próprios jogadores.
Não sabemos qual será o resultado de tudo isto. Certamente teremos julgamentos pela frente. Tem gente fazendo campanha, colocando toda a torcida no mesmo saco. E a gente sabe as razões. Espero, para fazer justiça aos milhões de gremistas, entre brancos, negros, amarelos, mulatos etc., espalhados pelo mundo, que não julguem uma nação inteira pelas atitudes condenáveis de alguns, que não são verdadeiros torcedores do clube. Punir quem não cometeu infração nenhuma é injusto.

 

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29 de agosto de 2014 22

ROGER BAIGORRA MACHADO
Coordenador Administrativo do Campus Uruguaiana da Unipampa

 

A menina errou, claro que sim. Que ela está arrependida, não duvido. Que há uma superexposição da sua imagem, óbvio. Que isso vai marcar ela para o resto da sua vida, vai. Que tem um monte de gente se aproveitando para dar discurso de cuecas, já li e ouvi, afinal, esta é uma situação que os generalistas e moralistas de plantão adoram. Que a menina e todos os que ofenderam o goleiro merecem punição, merecem. Afinal, a lei foi criada para isso. Mas que existe um contexto para tudo isso, existe. E não me entendam mal, contexto não é justificativa ou explicação para o absurdo.
Dentro desse contexto chamado estádio de futebol, muitos vão para torcer e ofender o juiz, ameaçar o bandeirinha, a outra torcida, o time adversário e o seu próprio time. Dentro desse contexto, o juiz vira “filho de uma @#$%” e o bandeirinha filho de outra. E, enquanto a partida segue, o jogador do time adversário vira “veado”, “mercenário” e tantas outras ofensas. No campo, o jogador simula faltas, depois dá soco e cotovelada. E o juiz apita com medo de ter o carro destroçado. Dentro desse contexto, cartola rouba medalha na frente das câmeras e vira presidente de confederação. E, depois de tudo isso, enfim, o jogo acaba.
E as torcidas? Elas quase se matam na entrada e na saída, quando não durante; quando não morrem mesmo. E, duas horas depois, o juiz sai do estádio escoltado. Para muitos, nada disso importa, nem o roubo, nem a falta de ética, nem a corrupção, nem a homofobia, nem as ofensas e nem a violência. Tudo perde importância perante a palavra macaco. Que poder seletivo incrível tem a moral de muitos comentaristas de redes sociais e de outras mídias? Ou tratamos tudo da mesma maneira, com a mesma atenção e rigor, promovendo uma transformação do espetáculo, ou jogamos todo o peso da nossa hipocrisia numa única palavra, ou melhor, numa única menina. Aquela menina faz parte deste contexto de falta de ética e de desrespeito com o outro, assim como o fazem os jogadores, os cartolas, as torcidas, os comentaristas e todos os que ganham dinheiro ao redor desse esporte. Ou atacamos tudo que está de errado, ou seguimos demonizando apenas aquilo que nos é conveniente, numa fugaz e confusa moral. Novamente, afirmo que o contexto em que surgiu a ofensa não justifica e nem explica o absurdo ocorrido, mas compreendê-lo deveria nos tornar menos hipócritas, e querer transformá-lo, mais humanos.

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29 de agosto de 2014 21

O racismo tem que ser combatido sem tréguas, os autores de injúrias raciais devem ser identificados e punidos na forma da lei. Episódios como o da última quinta-feira na Arena do Grêmio precisam mesmo ser debatidos amplamente, até que se dissemine pelo país uma cultura de convivência com a diversidade em todas as suas formas.  Ressalve-se, porém, que a maioria das 30 mil pessoas presentes ao jogo Grêmio x Santos não compartilha, não aceita e não pode ser responsabilizada pela estupidez dos torcedores que ofenderam o goleiro Aranha.