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Posts de setembro 2014

Editorial| A OFENSIVA DO CRIME

30 de setembro de 2014 3

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Os atentados registrados nos últimos dias colocam novamente o Estado de Santa Catarina em alerta. Depois dos fatos ocorridos em 2012 e em 2013, quando facções criminosas comandadas de dentro dos presídios orquestraram os crimes e levaram insegurança à população, a nova onda de ataques exige uma reação à altura por parte dos organismos de segurança. A rápida mobilização estatal, que reuniu a cúpula da segurança pública na sala de situação da Polícia Militar logo após os primeiros casos, é um indicativo importante de que o Estado está ciente da necessidade de uma ação enérgica, efetiva e absolutamente permanente para estancar de imediato qualquer ofensiva intimidatória do crime organizado.
Investigações preliminares, amparadas pelo trabalho dos setores de inteligência, apontam para ataques a mando da facção do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), que estaria novamente em ação por vingança a mortes de criminosos em confrontos com a polícia. Também não está descartado que os episódios estejam relacionados com uma guerra de forças entre integrantes do PGC e do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, pelo controle de negócios ilícitos, inclusive o tráfico de drogas em Santa Catarina. Mais um motivo para que sejam enfrentadas questões como superlotação de presídios. E, ao mesmo tempo, para que o aparato estatal reforce não só a força-tarefa atual, mas tenha instrumentos cada vez mais eficientes, como os ligados a serviços de inteligência, para afastar a possibilidade de repetição das ocorrências. Afinal, os delinquentes agem contando com a omissão e a falta de ações preventivas por parte do poder público.
Assim como costuma ocorrer em outros pontos do país, hoje o alvo são os catarinenses, mas esse tipo de ação encontra caminho fácil para se transferir para outros Estados. Por isso, de imediato, é importante identificar as origens e as razões dos atentados, para que haja condições de puni-los de imediato. Mas é preciso acima de tudo que episódios desse tipo impliquem uma ofensiva de impacto equivalente à dos criminosos por parte das autoridades, até essas facções serem realmente desmanteladas.
Criminosos que atacam populações indefesas, incendiando ônibus e desafiando policiais, precisam ser enfrentados com rapidez e rigor. Nessa guerra, quem precisa vencer são a sociedade e as instituições destinadas a defendê-la.

Editorial| DUPLO ABANDONO

30 de setembro de 2014 0

Há indícios de que a burocracia não é a única responsável pela crueldade cometida contra crianças e adolescentes que deveriam estar _ mas não estavam _ na fila de espera de adoções em Porto Alegre. É inaceitável que falhas numa formalidade tenham tirado essa chance de dezenas de meninos e meninas. Um levantamento do Ministério Público constatou que pelo menos 10% das crianças acolhidas por abrigos de Porto Alegre não tinham seus nomes no Cadastro Nacional de Adoção. São 128 abrigados que certamente se sentiam confortados com a perspectiva de um dia terem uma casa.
O Ministério Público, que investiga as causas e as consequências da negligência, tem a missão de identificar os responsáveis pelo erro, não só para que respondam por seus atos, mas para que o erro não se repita. Há, entre as causas da falta de registro, a suspeita de que muitas crianças não teriam o perfil médio exigido por casais que se candidatam a adotar. A desculpa seria a de que de nada adiantaria inscrevê-las no cadastro, pois havia crianças com algum tipo de deficiência. É constrangedor, com a evolução de costumes e de conceitos em relação a adoções e ao que seja, afinal, uma família, que tais atitudes ainda prosperem. O mais lamentável é que posturas desse tipo estejam a orientar decisões excludentes, como essa que tira de uma fila crianças e adolescentes considerados “fora dos padrões”.
O preconceito não se sustenta, se levados em conta até mesmo os perfis de quem pretende adotar. É ultrapassada a visão segundo a qual a grande maioria dos casais deseja ter apenas crianças brancas. Também está superada a ideia _  e o próprio conceito _ de que todos devem ser saudáveis física e mentalmente. Ao contrário, repetem-se os casos de famílias que adotam crianças com deficiências e a elas se dedicam incondicionalmente. Configuram-se nesse casos um dos mais nobres gestos da adoção.
A pior consequência do erro é que crianças e adolescentes sofrem duplo abandono. Primeiro, ao não contarem com a família biológica e, depois, ao ficarem de fora da fila. Muitos chegam à idade adulta sem a chance de passar pelo processo formal que poderia levá-las a uma família adotiva. Os órgãos que falharam precisam ser identificados, até para que os prejudicados tenham direito a alguma forma de reparação.

Artigo| A RESPONSABILIDADE DOS ELEITOS

30 de setembro de 2014 0

HEITOR JOSÉ MÜLLER
Presidente da Fiergs

 
Muito se ouve e se lê sobre a responsabilidade dos eleitores que, no próximo domingo, irão às urnas em todo o Brasil para fazer as suas escolhas. Porém, pouco se diz a respeito dos deveres e responsabilidades comuns a todos os que forem eleitos.
A nova formação dos governos e Legislativos certamente impõe mais do que os requisitos básicos da honestidade e dedicação ao bem comum.
A expectativa está no fato de que a sociedade demanda e merece a coragem dos eleitos de realizarem as reformas e ajustes de que o país e o Rio Grande do Sul precisam com urgência.
O baixo crescimento da economia brasileira leva ao desafio de que o governo federal faça já em 2015 as correções de rota imprescindíveis, como apontam as propostas elaboradas pelas federações e encaminhadas aos presidenciáveis pela Confederação Nacional da Indústria.
A clarificação da legislação trabalhista e dos complexos regulamentos impostos aos contribuintes, que hoje oneram a competitividade da economia brasileira, bem como extinguir o alto custo da burocracia nacional, são questões que exigem soluções urgentes.
No Rio Grande do Sul, assumir um Executivo endividado e deficitário requer atitude e coragem para reordenar a governança, e não cair no simplismo de colocar o lixo embaixo do tapete. Há, por resultado direto, a carência de investimentos na infraestrutura, o que aumenta o “Custo RS”, impactado por decisões anacrônicas como o piso salarial regional. As soluções estão no acervo da Agenda 2020, trabalho pioneiro do qual a Fiergs participa desde o começo.
A responsabilidade dos eleitos situa-se também na visão de que não é mais possível que cada político pense apenas no período do seu mandato. O que a sociedade espera é a conduta de estadista pelos que ocuparem os cargos públicos, sem exceção. Estadista é aquele que considera e decide em função do que vai ocorrer no longo prazo, ou seja, em vez de trabalhar apenas no seu mandato e em uma possível reeleição, assume o compromisso de zelar pelas próximas gerações. Somente assim a sociedade terá dos eleitos as respostas que efetivamente merece.

Artigo| CANDIDATOS, PARTIDOS, RETÓRICA E PRÁTICA

30 de setembro de 2014 1

ARI RIBOLDI
Professor e escritor

 

 

Estará o eleitorado brasileiro maduro o suficiente para perceber o vazio retórico e não ser manipulado pelo discurso inflamado e emotivo dos candidatos? As palavras eloquentes impressionam, arrebatam e atraem, principalmente a população menos escolarizada, exposta, assim, às armadilhas da retórica. Os candidatos, com o receio das futuras cobranças, evitam compromissos rígidos demais. No entanto, tiveram que incorporar aos seus discursos as manifestações das ruas de junho e julho do ano passado, quando o povo levantou ruidosamente as bandeiras das mudanças na política, nos serviços prestados na saúde, na mobilidade urbana, na educação, na segurança. Em função disso, o eleitor deve dedicar maior atenção à fala dos candidatos. Eles têm obrigação de detalhar quando e como farão o que prometem, quantos recursos são necessários e de onde virão.
Ninguém mais pode ser enganado pela retórica eivada de armadilhas de linguagem, de circunlóquios e eufemismos e por expressões que amenizam o impacto das palavras, como se isso tivesse a capacidade de mascarar ou apagar o impacto da realidade adversa ou ampliar o efeito do que é favorável ao político. Desconforto hídrico equivale, de forma nua e crua, a racionamento de água. É um exemplo para ilustrar uma armadilha de linguagem na tentativa de mascarar os fatos. A realidade, no entanto, não muda só porque foi empregada linguagem mais suave.
Quem acompanha os pronunciamentos dos candidatos e os programas do horário político eleitoral constata que proliferam termos como mudança, esperança, renovação, conquistas, continuidade. Palavras agradáveis aos ouvidos, porém vazias, sem conteúdo, pois são generalizantes. Carecem de compromisso claro, de projetos, de plano de ação, de programas de curto, médio e longo prazos. Política não é retórica. É a arte e a capacidade de governar, de estabelecer prioridades. Para tanto, procura-se um partido com programa e coerência. Um partido cujos candidatos subam nos mesmos palanques em Brasília, nos Estados e nos municípios. Procura-se um partido que tome partido, que não fique em cima do muro. Que tenha a coragem de assumir posição. Enfim, um partido que não seja partido internamente, mas que tenha parte, que tenha posição, que tenha discurso e também prática.

Editorial| O DIREITO DE SABER

29 de setembro de 2014 3

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Está superada a desculpa de que eventuais decisões equivocadas, tomadas pelo eleitor, podem ser atribuídas à falta de informação. É possível assegurar, às vésperas do primeiro turno da eleição, que em nenhum período da história brasileira os cidadãos tiveram tanta liberdade para acessar informações, investigar biografias, avaliar quem aproveitou a propaganda política para defender posições programáticas ou, ao contrário, utilizou o espaço para tentar enganar. Com a liberdade de expressão e de imprensa, o brasileiro reconquistou o direito de escolher seus representantes. Nesse contexto, é frágil o uso do argumento de que a população ainda não dispõe de dados suficientes para deliberar, neste que é o mais poderoso momento de uma democracia.
Até recentemente, como resquício do período de exceção, prevaleceu o ponto de vista de que o povo era sistematicamente enganado pelos políticos e ocupantes de cargos públicos. Admite-se que, por muito tempo, os eleitores foram colocados à margem de informação capaz de esclarecer posições, atos administrativos e, por decorrência, suspeitas sobre desmandos. Aos poucos, o Brasil corrigiu as deficiências herdadas do autoritarismo, enquanto as instituições retomavam a normalidade e a democracia era aperfeiçoada pela própria repetição das eleições. Candidatos e eleitores livraram-se das mordaças e reaprenderam a impor suas vontades, no exercício do voto, a cada dois anos.
É o que ocorrerá mais uma vez agora, com a diferença de que o Brasil avançou na disponibilidade de informações que permitam ao cidadão orientar suas decisões e a avaliação que faz dos homens públicos. O mais notável dos instrumentos é a Lei de Acesso à Informação, em vigor há três anos, que permite a qualquer brasileiro saber o que se passa em todos poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, nas esferas federal, estadual e municipal. Todas as informações produzidas ou sob responsabilidade do setor público são acessíveis. A regra é permitir o acesso a quem requisita esclarecimentos. O sigilo, em casos específicos, passa a ser a exceção.
Além disso, o país qualificou organismos de vigilância, criou leis que punem desmandos _ como a da Ficha Limpa _ e fortaleceu uma imprensa independente. Também foram amplificados todos os meios que dão voz à democracia, como as trocas proporcionadas pelas redes sociais. Não há, portanto, como atribuir à sonegação de informações as eventuais decisões e escolhas equivocadas adotadas antes, durante ou depois de uma eleição.

Artigo| PESQUISAS ELEITORAIS: PIOR SEM ELAS

29 de setembro de 2014 3

HÉLIO RADKE BITTENCOURT
Departamento de Estatística, Faculdade de Matemática da PUCRS

 

As pesquisas eleitorais exercem importante influência sobre a escolha do eleitorado. Uma evidência que apoia essa hipótese é o fenômeno Rigotto, ocorrido nas eleições para governador do Rio Grande do Sul em 2002, quando o candidato que figurava na terceira posição das pesquisas absorveu tantos votos de seus adversários, que acabou vencendo o primeiro turno da eleição com relativa folga.
A divulgação dos resultados de pesquisas eleitorais nas mídias de massa tem um caráter informativo importante para a sociedade, mas, ao mesmo tempo, permite que o eleitorado faça projeções e inferências variadas. Por exemplo, na tentativa de mudar o cenário de um provável segundo turno, eleitores são capazes de votar em candidatos que não estão de acordo com as suas convicções. Outro exemplo: o eleitor desiste de votar em determinado candidato para não “desperdiçar” o voto.
Todas essas reflexões sobre o próprio voto só são possíveis graças às informações providas pelas pesquisas eleitorais. Mas… se as pesquisas não existissem, será que os resultados da eleição seriam os mesmos? É muito difícil afirmar o que aconteceria nesse cenário utópico. Eu não me atrevo a fazer qualquer previsão.
De qualquer forma, é fácil prever que seria impossível acabar com as pesquisas eleitorais. Mesmo que houvesse uma proibição de divulgação de seus resultados, as pesquisas continuariam existindo nos bastidores para fins de estratégia de campanha. Isso mesmo, os partidos políticos continuariam contratando institutos para a realização de levantamentos de intenção de voto e, nesse cenário, a internet e as redes sociais fariam o papel de disseminação dos resultados. Seria um prato cheio para a proliferação de informações falsas. Em meio a resultados verdadeiros, estimativas fabricadas circulariam e ninguém saberia no que acreditar.
Portanto, se as pesquisas eleitorais devidamente registradas no Tribunal Superior Eleitoral não existissem, teríamos uma terra de ninguém, em que não haveria responsáveis pelos dados divulgados. Por isso, não tenho dúvida: é preferível conviver com a possibilidade das pesquisas influenciarem no voto a não saber no que acreditar.

Artigo| O DEBATE QUE NÃO HOUVE

29 de setembro de 2014 0

PAULO BROSSARD
Jurista, ministro aposentado do STF

Poucos dias nos separam da eleição presidencial e três são os candidatos possíveis de serem eleitos.
Contudo, até agora não ouvi uma voz a respeito da eleição e dos que a ela concorrem, seus atributos, merecimentos ou deficiências, enfim de suas credenciais, como se fosse irrelevante a escolha do primeiro e maior de seus condutores, pelo menos dos que detêm em suas mãos a maior soma de poderes públicos durante certo tempo; nem é por acaso ser denominado de primeiro magistrado do país e simultaneamente chefe do Estado e da nação, quando na maioria dos Estados são distintas umas das outras as atribuições, bem como seus titulares; por motivos semelhantes, também se diz do presidente ser um ditador por tempo certo, sem falar na ampla irresponsabilidade a ele imanente.
Pois bem, trata- se aqui e agora da escolha do presidente da República e dos governadores, como se nada significasse a incumbência.
Parece que não haverá ou já houve a eleição; uma eleição às escuras.
Dir- se- á a ocorrência de fato novo e relevante, o avanço sem precedente da corrupção, que poderia haver amortecido a sensibilidade nacional.
Ao que me parece, a lepra da corrupção se fez sentir em todos os níveis e graus, e talvez o silêncio tenha sido o emudecido e encabulado comentário.
Enfim, é surpreendente mas imperioso se note que a senhora presidente, aliás, candidata à reeleição, não hesitou em defender como solução o debate com os fanáticos, quando o mundo inteiro, sem reserva, afirma sua decisão de enfrentálos frontalmente.
É tempo de mudar e noto que hoje o debate eleitoral foi substituído, mas substituído pela ação do marqueteiro, que se serve de sucessivas ” pesquisas de opinião” para operar.
Estas que se sucedem dia a dia e mais de uma vez por dia indicariam ou pretendem que indiquem as reais tendências do eleitorado, quando, salvo erro meu, este efetivamente é o orientado, enquanto sua orientação depende do marqueteiro.

Artigo| VOTO PORQUE QUERO

29 de setembro de 2014 5

CLÁUDIO BRITO
Jornalista

 

 

Não mergulho nas diferenças entre sufrágio e voto. Não traduzo o que seja direito subjetivo de participação nas decisões políticas e o instrumento dessa participação. Outros fizeram-no muito bem, como o promotor de Justiça Rodrigo Zilio em seu livro Direito Eleitoral. Ele esclarece que existe a obrigação formal de o eleitor comparecer a uma seção eleitoral no dia do pleito, para votar ou justificar o fato de não fazê-lo. A obrigação é formal e se restringe ao alistamento e ao comparecimento. Justificar a ausência é muito simples, tem prazo elástico _ dois meses _ e, na falta de uma explicação, paga-se a multa, que é uma ninharia. E, mesmo comparecendo, quem disse que há obrigação de votar? Há uma tecla do voto em branco e ainda pode-se anular o voto, inventando-se um número qualquer. Voto nulo ou branco são o não-voto. Desde quando, então, o voto é obrigatório?
Considero obrigatório o meu voto. É um dever, porque quero votar. Devo usar a prerrogativa que a Constituição confere aos cidadãos. Quem não vota sempre será governado pelos que votarem. Optar por não votar é permissividade. É entregar o ouro aos bandidos sem lutar. Nesse sentido, de uma obrigação moral e cidadã, construída pelo eleitor para consigo, admito, há o dever de votar.
Quando propago que o voto é uma faculdade, um direito, uma escolha, jamais uma obrigação, nem de longe estou pretendendo desestimular o comparecimento e mesmo o voto. Percebam que o ato de votar não tem o peso de uma obrigação indesejável. É bom  querer votar. É preciso querer votar. Votar conscientemente, livre de obrigações e de estorvos pessoais. Dizer por aí que votar é cumprir uma ordem é o jeito ardiloso de se causar desencanto no eleitorado. Se liberdade é um bem indispensável e fundamental, temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preservá-la. Comparecer à urna, escolher os candidatos após cuidadoso exame de seus currículos e biografias e votar por respeito às convicções que nos servem de bússola, isso é construir e manter a democracia. A isso me obrigo, voto porque quero.

Artigo| TER MAIS TENDO MENOS

27 de setembro de 2014 1

Tavares

 

 

 

 

FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

A disputa presidencial se parece a uma carreira de cavalos em cancha reta. E não o digo pelos resultados das pesquisas de voto, pouco confiáveis mas que induzem o eleitor. Em parte, tudo recorda aquelas “pencas” do interior, em que os donos contam maravilhas de seus potrancos e éguas para aumentar o peso das apostas. Nada é mais falso do que as horas anteriores à corrida (mais ainda com três parelheiros fortes) em que cada qual se gaba de si próprio, de olho na “penca” de dinheiro.
A uma semana da eleição, tudo serve de palco para os candidatos se exibirem. Tomam café em sujos bares de rua que jamais frequentariam ou abraçam desconhecidos como velhos amigos. Se lhes pedirem, fazem até piruetas de circo. Eu não esperava, porém, que a presidente Dilma usasse a assembleia-geral da ONU, em Nova York, para definir seu programa de governo quanto à (des)proteção das florestas, negando-se a assinar a carta-compromisso de “desmatamento zero” até 2030, já que “o Brasil não foi consultado”. (Nosso embaixador na ONU foi ministro do Exterior e devia ter sido mais atento). Quando o aumento do aquecimento global ameaça a agricultura (e amplia a fome) a presidente Dilma mostrou ao mundo um retrato retocado do nosso desmatamento, como se aqui fosse o esplendor do verde.
Frisou que, a partir de 2004, o desmatamento caiu 79%, o que é verdade. Omitiu, porém, que a devastação aumentou 29% em 2013, quando sumiram 5.891 km2 de florestas. A mudança de tendência é prenúncio terrível – iniciada em 2012, acentuou-se no ano passado e deve crescer em 2014.

***

O irônico é que, no fundo, Dilma apenas administra a parte maldita da herança deixada por Marina Silva quando ministra do Meio Ambiente de Lula.
Marina inventou o tal leilão das florestas públicas, num “sim” obsceno à devastação, que virou lei em 2006. A partir daí, os grandes devastadores sentiram-se estimulados a degradar e não preservar, mesmo quando não participassem dos leilões. Entregar por 30 anos à sanha de madeireiros inescrupulosos a maior floresta tropical do mundo (com incalculável bioma e mais de 3 mil espécies de peixes em 25 mil quilômetros de águas navegáveis) sob o pretexto de “arrecadar fundos”, não terá sido um crime contra a vida?
Marina deixou o governo (e depois o PT) em 2008, mas em 2004, com ela mandando na área, cortaram 27 mil km2 da Mata Atlântica e da Amazônia. Em 2006, com o “sim” de seu chefe Lula, ela propôs os tais “leilões”. No Congresso, o deputado Beto Albuquerque, então achegado a Lula e relator da proposta, poliu algumas insanidades e acrescentou outras. Hoje, Marina e Beto de novo se juntaram.
E Aécio? Em 2006, ano da lei dos leilões, governava Minas Gerais e não piou sobre o tema.
***
P.S. – Na sexta-feira, a Câmara Municipal concedeu-me o título de Cidadão Honorário e, agora, sou também porto-alegrense em decisão unânime, a partir de proposta do vereador Pedro Ruas. Recebi como homenagem às posições independentes, destituídas de fanatismo, intemperança ou rancor que tento manter ao longo de 80 anos de vida. Ao agradecer, frisei que me esforço para ser aberto e sem preconceitos, mas sem ser neutro ou impassível. Não há neutralidade quando o crime nos espreita a cada dia, quando se cultiva o individualismo egoísta e se abandona a solidariedade. Menos ainda quando se degrada a vida no planeta.
No que faço ou escrevo, nos livros e artigos de jornal, nos amores e dores, busco guiar-me pela máxima de austeridade de São Josémaria Escrivá: “Não criemos necessidades. Aquele que menos necessita, mais tem”.
Feito isto, a recompensa será a vida.

Artigo| CIÚME DE SÃO PAULO

27 de setembro de 2014 29

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MOISÉS MENDES
Jornalista
moises.mendes@zerohora,.com.br

 

Um prefeito bem intencionado, mas previsível como as soluções do século 20, pode pendurar viadutos em cada esquina. Um prefeito atrevido aponta o dedo para a principal avenida da maior cidade do país e diz: vamos fazer a ciclovia aqui.
Foi o que fez Fernando Haddad. A ciclovia dará utilidade ao canteiro central da Avenida Paulista, apesar da fúria de moradores da área nobre, de pretensos defensores do patrimônio histórico e dos inimigos das bicicletas.
O prefeito enfrenta os furiosos com a radicalidade dos gestores destemidos. A capital acomodada em conceitos urbanísticos sustentados pelo poder dos carros, dos prédios e de quem pode mais agora cede espaços à convivência, aos pedestres e às bícis.
Os interesses mobilizados contra as ciclovias têm a idade da Avenida Paulista. O ciclista é o metido que briga por brechas nas ruas, tira o lugar de estacionamentos e implica com quem anda de carro. Ciclista é vaiado no Brasil.
Haddad quer 400 quilômetros de ciclovias até o final de 2015. Não em trechos retalhados, como em algumas cidades que você conhece, mas conectados entre e si e com o metrô e as linhas de ônibus.
Em São Paulo, o direito de andar de bicicletas prospera para além dos fins de semana. Lá as obras das ciclovias começam e terminam. Em ano e meio, o prefeito fez 80 quilômetros para bicicletas.
O paulistano tem a chance de ver outras possibilidades em áreas urbanas saturadas. Foi assim em Nova York. Os americanos, tão apegados ao carro, viram a cidade ganhar 580 quilômetros de ciclovias entre 2007 a 2013.
A então secretária de Transportes, Janette Sadik-Khan, disse em entrevista à Folha de S. Paulo que enfrentou reações, teve de sensibilizar comerciantes e moradores e enfim conseguiu apoios. O melhor efeito das ciclovias é o da leveza no trânsito, com reflexos na vida de todo mundo, de quem anda de bike, de carro ou a pé. Nova York se distensionou,
Você, que achava que Times Square, no coração da cidade, nunca seria mexida, sabe que há cinco anos parte da rua foi entregue aos pedestres (junto com 60 outras áreas antes intocáveis). A mudança não provocou mais engarrafamentos. Assim como não há mais tranqueira em Paris, Copenhague, Berlim ou Sevilha por causa das bicicletas.
E agora a Europa se dedica ao sonho de construir, até 2020, a rede da Eurovelo, com 70 mil quilômetros de faixas só para bícis, ligando 43 países. Os ricos viajarão de bicicleta. Aqui, os ciclistas ainda são vistos como chinelões.
***
Em dezembro de 2009, Porto Alegre não tinha cinco quilômetros de ciclovias quando eu e o fotógrafo Tadeu Vilani decidimos conferir a vida de quem se arriscava a andar de bicicleta. Fomos para a rua durante uma semana.
Colegas da Redação diziam: vocês acharão meia dúzia de malucos, porque não há tanta gente andando de bike em Porto Alegre. Havia. Eram calculados na época em 15 mil, quase todos invisíveis.
As quatro páginas que publicamos em ZH, com as belas fotos do Tadeu, me orgulham mais do que matérias aparentemente pretensiosas que fiz para o jornal.
Descobrimos que gente de todo tipo desafiava a cidade furiosa e pedalava não para passear, mas para trabalhar. Fermentava aqui o movimento Massa Crítica, que passou a incomodar os motoristas à noite. Um ano depois, um transtornado tocou o carro sobre os ciclistas na José do Patrocínio.
***
Hoje, temos mais gente pedalando e aluguel de bicicletas. Ganhamos alguns metros de ciclovias. O transtornado ainda não foi julgado.
E nos divertimos com as ideias esdrúxulas dos que defendem a construção de ciclovias sobre as calçadas, para que os automóveis não sejam oprimidos. Paulistanos, nos aguardem: ainda faremos ciclovias suspensas sobre as palmeiras da Osvaldo Aranha.

***

Muito me honra ser vizinho de página de ZH aos domingos deste cidadão de Porto Alegre chamado Flávio Aristides Freitas Hailliot Tavares. Os vereadores homenagearam com o título um dos maiores talentos do jornalismo brasileiro de todos os tempos.