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Posts de novembro 2014

Artigo| A NATUREZA DAS COISAS

29 de novembro de 2014 1

Flávio TavaresFLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

Escrevo de São Paulo, sob chuva intensa na cidade sem água, com ruas encharcadas e torneiras quase secas. A contradição é a cara do que hoje ocorre em todas as áreas do país _ a realidade está à nossa frente, mas é como se não existisse. A TV mostra o leito seco das represas e os paulistanos recitam números apocalípticos. O maior sistema de abastecimento conta com apenas 9% da capacidade e já se usa o “segundo volume morto” (a reserva da reserva), mas seguem lavando calçadas e carros ou abrindo torneiras ao escovar os dentes. Fala-se da escassez sem acreditar nela. O desperdício soa como falso sinal de abundância e tapa a realidade.
E já se anuncia que, em cinco anos, “o progresso” da ciência transformará esgoto em água potável…
É o retrato do desinteresse pela vida e da ignorância do que seja a vida, que (noutras proporções) se repete no Rio Grande. Poluímos os rios cuja água vamos beber, cozinhar e nos banhar. Jogamos neles a pestilência, ignorando que água é vida. E que água não se fabrica nem se cria. A água tem um ciclo eterno. A chuva de hoje é a mesma de milhões de anos, é uma só, que se recicla. Cai e se evapora para voltar a cair. As nuvens não “criam” água, apenas a retêm sob outra forma. Ainda que não se perceba, a água é bem não renovável, síntese da Sinfonia Divina que criou a vida. É o mais precioso bem da Criação.
Até os agnósticos sabem que não se refaz nem se imita a obra da Criação!
***
No Rio Grande do Sul, rios e riachos poluídos por pesticidas agrícolas caminham (mesmo lentos) para a morte, como o Tietê e o Pinheiros, que hoje cruzam São Paulo com águas de fedor e espuma dos resíduos industriais e domésticos. O Rio Guaíba ruma também para isso? Há pouco, festejamos a triplicação da indústria chilena de celulose e papel (beberrona e altamente poluidora), sem indagar como isto incidirá na degradação paulatina do rio.
Os lucros serão levados ao Chile e o que ficará aqui para nossos filhos e netos, além de 3 mil novos emprego? Estaremos hipotecando o futuro?
Padecemos de um vício atroz: nos negamos a penetrar na natureza das coisas, ou sequer indagar, para saber a origem. Nada existe por acaso ou a esmo. Tudo tem um início, às vezes imperceptível a quem olhe só para se deleitar. Mas fazemos de conta que não é assim!
E nos surpreendemos com o conluio corrupto entre o poder público e grandes empresas privadas, como no escândalo da Petrobras. O contubérnio começou na construção de Brasília e se fez notório nos últimos anos. Na ditadura após 1964, foi tão secreto quanto outros crimes _ existia mas não se sabia. A Polícia Federal não investigava, pois só vigiava a imprensa e os críticos do regime. O Ministério Público, sem a autonomia atual, era submisso e não piava.
***
Tal qual a chuva paulistana com falta d’água, o paradoxo é que não buscamos saber da natureza das coisas que a democracia nos dá. Pensamos que democracia é só “votar”, sem entender em quem e por quê.
O assalto à Petrobras é apenas o lado maior e visível da corrupção geral que une políticos, governantes e grandes empresas privadas. Na última eleição, oito das 13 empresas envolvidas doaram mais de R$ 159 milhões aos três presidenciáveis principais _ Dilma, Aécio e Marina. Por ordem de grandeza, doaram a OAS, Odebrecht, UTC, Queiroz Galvão, Camargo Correa, Mendes Júnior, Engevix, fora as demais, revelou o jornal O Estado de S. Paulo. A campanha de Dilma recebeu R$ 68,5 milhões; a de Aécio, R$ 41 milhões e a de Marina uns R$ 50 milhões. Faltam ainda as doações das outras empresas envolvidas na fraude, com o que o total iria a R$ 290 milhões.
É só ir à natureza das coisas!

Artigo| A TURMA DE LECH WALESA

29 de novembro de 2014 0

moisesMOISÉS MENDES

moises.mendes@zerohora.com.br

Lech Walesa virou uma figura repulsiva. Nos anos 80, o eletricista polonês mobilizou os operários do porto de Gdanski contra o comunismo e deu os primeiros empurrões para que o muro caísse sobre o Leste Europeu.
Foi paparicado, ganhou o Nobel da Paz em 1983 e se elegeu presidente da Polônia. Depois, encaramujou-se na insignificância e hoje é um feroz militante homofóbico.
Walesa odeia gays por se considerar um homem extremamente religioso, assim como alguns brasileiros odeiam pobres, negros, índios e prostitutas, principalmente se tiverem o amparo de cotas e do Bolsa Família.
Essa figura patética, há muito desmascarada como arremedo de líder mundial e desprezada no próprio país, é o contraponto do atraso ao crescimento da militância política dos gays na Polônia, inclusive com representação parlamentar. Walesa faz a ameaça clássica de que os gays são um perigo para a humanidade.
No documentário Entreatos, sobre a campanha à Presidência em 2002, Lula diz, em conversa dentro de um avião, que Walesa era “um pelegão”. Não seria um democrata, mas um anticomunista útil aos americanos e à conservadora Igreja polonesa.
Há um exagero no desprezo de Lula. O polonês construiu a imagem de libertário, no contexto da Guerra Fria, porque vivia num país amordaçado. Só depois fracassou como presidente e como referência política e investiu no reacionarismo. Se viesse ao Brasil, poderia dar curso de preconceito aos incomodados com os avanços sociais dos últimos anos.
A extrema direita brasileira repete o que suas similares fazem pelo mundo. Como ocorre agora na reação conservadora republicana à iniciativa de Obama de legalizar a situação dos imigrantes.
Incomodados têm afinidades universais. Os ataques ao Bolsa Família são parte do mesmo desconforto causado pelas cotas e pelo ProUni. Aterroriza muita gente a hipótese de que um dia a empregada negra possa entrar na casa e anunciar que um filho será médico.
A ascensão social é perturbadora e logo ficará pior para os incomodados. A primeira geração de filhos que terão estudado mais do que os pais pobres está se formando agora. Depois, virão os filhos e os netos deles. É a amplificação do incômodo causado no final do século 19 pela extinção do escravismo.

***

Os perturbados nacionais aprenderiam muito com Walesa. Ele oferece lições práticas. Entende, por exemplo, que os gays eleitos para o parlamento do seu país devem sentar-se nas cadeiras dos fundos, para não se misturarem aos heterossexuais.
Há na Polônia um partido que sustenta tipos com o perfil de Walesa, o KNP. Um dos líderes é o racista Janusz Korwin-Mikke, membro do Parlamento Europeu.
Korwin-Mikke diz que as mulheres não deveriam votar. Que é preciso acabar com os hospitais públicos. Que Hitler nada sabia do Holocausto. Que jovens que cometem delitos têm de ser chicoteados. E que Walesa, claro, é seu ídolo.
Se tivéssemos partidos como o KNP e outros que existem na Europa, a extrema direita não precisaria pulverizar seus apoios no Brasil em siglas que talvez nem a representem. Ou o PRTB de Fidelix representa os que abominam gays? Ou Fidelix é apenas uma figura grotesca, sem refinamento para atender às demandas de camadas mais sofisticadas dos incomodados?
Um partido permitiria a organização do pensamento à direita da direita, daria consistência ideológica a um discurso ainda desorganizado e revelaria a face de seus simpatizantes _ como já faz a esquerda da esquerda.

***

A extrema direita brasileira, que talvez não seja pequena como se pensa, tem muito a aprender com as colegas francesa, alemã, polonesa, americana. Se perder a timidez e abandonar os disfarces, poderá abrir caminho para líderes semelhantes a esse Nobel da Paz que odeia gays.

 

Artigo| CORRIDA PARA O CÉU

29 de novembro de 2014 0

Nelson MattosNELSON MATTOS
nelson.m.mattos@gmail.com
Doutor em Ciências da Computação, gaúcho, residente no Silicon Valley, Califórnia

 

Em colunas passadas abordei a segunda transformação da revolução digital _ como, da noite para o dia, a internet surgiu como o principal motor de crescimento econômico do mundo, gerando bilhões de dólares em atividade econômica, criando milhões de empregos e oferecendo oportunidades sem precedentes para o crescimento da econômica local.
Hoje em dia já podemos comprar praticamente tudo que imaginamos diretamente do conforto da nossa casa através dos sites de comércio eletrônico. De um simples artigo de supermercado até um aparelho eletrônico mais sofisticado, tudo pode ser adquirido em questão de segundos na internet. Imagens precisas, comentários de outros compradores, e pareceres de especialistas nos guiam na decisão de compra. E os sites continuam a se sofisticar melhorando ainda mais nossa experiência de compra com imagens tridimensionais, alertas automáticas de barganhas, etc.
Com todas essas facilidades, por que então ainda saímos do conforto de casa para fazer compras? A verdade é que, embora possamos comprar quase tudo online com a maior facilidade e rapidez, temos que esperar dias até recebermos o que compramos. Assim vamos aos shopping centers para termos o prazer de sair da loja com nossas mercadorias embaixo do braço. Operamos no século 21 para nossas compras eletrônicas, mas dependemos de operações do século passado para a entrega de nossas mercadorias. Enquanto a Revolução Digital revolucionou o comércio eletronicamente, ela ainda não conseguiu transformar a logística. Isso esta prestes a mudar!
Desde o ano passado estamos presenciando vários projetos de desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados, ou drones, para a entrega de mercadorias em questão de minutos.
Domino’s Pizza esta testando a entrega de pizzas por drones. Google mostrou, durante testes em agosto desse ano, que seu drone foi capaz de entregar suprimentos a duas fazendas na Austrália. Amazon Prime Air, em testes desde o final do ano passado, vai permitir a entrega de pacotes pesando ate 2.5 kg em menos de 30 minutos usando veículos aéreos não tripulados. (Para saber mais detalhes desses projetos busque pelos vídeos com os seguintes títulos no YouTube: “Amazon Prime Air”, “Introducing Project Wing” e “Dominos DomiCopter – First Drone Pizza Delivery”.)
Obviamente ainda existem muitos desafios a serem resolvidos. Drones precisam de instrumentos de navegação melhores para evitar colisões com pessoas, árvores, linhas de energia, pássaros e outros drones. E eles precisam de baterias mais potentes para que possam transportar pacotes por mais do que alguns poucos quilômetros.
A corrida para o céu está acontecendo apesar dos desafios tecnológicos ainda não resolvidos e de que o uso de drones comerciais nos EUA é proibido. Além disso, juristas americanos têm questionado a legalidade de operar drones no espaço aéreo de propriedades particulares e a possibilidade da invasão da privacidade individual. Se isso tudo não bastasse, o público tem preocupações com a segurança do uso de tais máquinas voadoras até agora mais associadas com mísseis do que com entrega de pacotes.
No entanto, com o Google e a Amazon investindo pesado para revolucionar a entrega de mercadorias, eu acredito fortemente que tudo vai mudar _ e muito rapidamente. Tenho certeza que a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico irão superar os desafios de navegação. Consequentemente, os obstáculos que mantém a proibição do uso de drones serão eliminados, abrindo caminho para a regulamentação e aumentando a confiança do público no uso dessa tecnologia,
Isso, por sua vez, irá incentivar outras empresas a competir por uma fatia desse mercado, criando novas aplicações para o uso de drones. Imagino, por exemplo, drones transportando suprimentos de emergência para áreas afetadas por terremotos, furacões e outras catástrofes naturais.
Estou confiante que o movimento já desencadeado pelo Google e a Amazon vai pressionar o governo dos Estados Unidos a acelerar a definição de leis e regulamentações para o uso de drones comerciais. Na realidade, sabe-se que Administração Federal de Aviação dos EUA (Federal Aviation Administration) já está considerando regulamentar essa área e eliminar as proibições atuais. Em junho aprovou o primeiro voo comercial da empresa de energia BP no Alasca. E, desde então, a Administração Federal de Aviação recebeu 31 pedidos de empresas envolvidas na agricultura, inspeção de dutos, levantamentos aéreos e cinematografia para usar drones comercialmente. A Administração Federal de Aviação pretende propor regras para o uso de pequenos drones até o final desse ano e, além disso, designar seis locais de teste no território americano com o objetivo de coletar dados importantes para a definição de novas regulamentações.
Veículos aéreos não tripulados, ou drones, irão revolucionar o transporte e distribuição de mercadorias uma vez que seu uso será muito mais barato, mais rápido, com menos desperdício de energia, e mais favorável ao meio-ambiente. Se você passar a receber suas compras feitas pela internet na porta de sua casa mais rápido do que o tempo que você precisa para chegar no shopping center, você vai querer continuar a enfrentar o tráfego e outras inconveniências para ter o prazer de sair da loja com suas mercadorias em baixo do braço? Eu acredito que não. E, quando isso acontecer, o comércio eletrônico vai crescer ainda muito mais.

NELSON MATTOS ESCREVE MENSALMENTE NESTE ESPAÇO

 

SENTENÇAS

29 de novembro de 2014 0

 

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AÉCIO NEVES
Senador do PSDB sobre as indicações de ministros para a área econômica
“O governo lembra a música de Noel Rosa, ‘Com que roupa eu vou?’

Editorial| A RECUPERAÇÃO DA CONFIANÇA

29 de novembro de 2014 0

EditsabadoPor ter gastado demais, o governo terá que apertar o cinto. Esta é a síntese das sínteses, em uma frase, do discurso em economês feito na última quinta-feira pelo futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Em seu primeiro pronunciamento, ainda na etapa de transição, o economista fez a defesa categórica de suas posições. Sem rigor fiscal, que significa o equilíbrio entre receitas e despesas, o país não tem como retomar o crescimento e assegurar a continuidade de políticas públicas, em especial na área social, disse o senhor Levy. A garantia de que esse será o esforço prioritário da nova equipe, compartilhado pelo ministro do Planejamento e pelo presidente do Banco Central, é o que o país esperava para que sejam revertidos não só os números da economia, mas também as expectativas de quem produz.
Equilibrar as contas públicas é, por consenso, o primeiro passo para que o país volte a crescer. Ontem, um dia depois do anúncio de que Levy seria o ministro, o país foi informado de que o PIB do terceiro trimestre cresceu 0,1%. É pouco mais do que nada. Outro indicador do esgotamento da orientação econômica seguida até aqui foi a queda, no mesmo período, da capacidade de consumo da população. Desde os governos Lula, passando pelo primeiro período de Dilma Rousseff, o governo sustentou suas apostas no mercado interno. Foi uma opção que se exauriu por não ter a companhia do rigor com as contas. O setor público acabou enredado no descontrole fiscal, com impactos em todo o setor produtivo.
O que o país aguarda agora é a modulação do ajuste e suas consequências, porque não havia mesmo outra alternativa. Nesse cenário, é inconsequente o debate em torno do perfil do ministro e da sua linha de pensamento. O rigor com a contabilidade governamental independe de orientações ortodoxas. Adequar os gastos aos que se arrecada é questão elementar de qualquer administração, pública ou privada. O desrespeito a tal premissa foi a causa da desorganização econômica com que o Brasil convive nos últimos anos.
Outra palavra definidora do desafio a ser enfrentado é disciplina, referida pelo futuro ministro como orientadora do que será feito a partir de agora, para que o governo resista inclusive às pressões setoriais. O certo é que 2015 será um ano de sacrifícios e é essencial que cada brasileiro aceite a cota que lhe cabe, sem evidentemente esquecer as más decisões políticas que levaram o país ao impasse que começa a ser contornado.

Artigo| A DISPUTA QUE NÃO EXISTE

29 de novembro de 2014 1

GUSTAVO GRISA

Economista

É bastante singular e, de certa forma, até anacrônica a polarização que se instala em segmentos da opinião pública brasileira toda vez em que há troca da equipe econômica, em que é sugerida uma suposta divisão ou disputa entre defensores da qualidade no gasto público, de metas fiscais rígidas e controle da inflação, chamados de “liberais” ou “ortodoxos”, e aqueles que supostamente teriam uma linha mais “desenvolvimentista”, por apoiar o estímulo às atividades econômicas através da injeção direta de recursos do Estado na economia, e ser mais tolerantes em relação a déficits governamentais, endividamento e até mesmo inflação.
Essa disputa é típica da retórica das décadas de 1960-1970. Hoje já não se aplica à realidade global, nem à realidade brasileira. Os últimos avanços na área de desenvolvimento no mundo demonstram que o que acontece de mais efetivo é uma combinação de um governo responsável com as contas públicas e competente na execução de políticas de desenvolvimento, principalmente com coordenação e agenda local e regional, com ações de gestão estratégica de desenvolvimento e melhoria efetiva do ambiente de negócios, da infraestrutura e do capital intelectual, incluindo empreendedorismo. Não existe geração espontânea de “emprego e renda”, e sim a criação de um ambiente próprio para o desenvolvimento e produção, na indústria, agricultura e serviços, que geram esses empregos e fomentam novos negócios.
A evolução nas instituições governamentais dá condição para que governos utilizem o seu potencial regulador para viabilizar investimentos privados em iniciativas de interesse público, sem que haja necessidade de injeção direta de recursos públicos. Um exemplo recente são os aeroportos de Brasília, Rio de Janeiro e Viracopos, e parte das estradas federais.
Uma maior permissividade no controle das contas públicas e nos gastos com custeio pode levar a perda de confiança, recessão e inflação, que diminui e corrói o padrão de vida da população, especialmente dos mais pobres, e não tem nada a ver com desenvolvimento. Por outro lado, a austeridade fiscal permite ao governo aplicar seus recursos com mais foco. Não tem nada a ver com recessão, ou medida antidesenvolvimento. Promove produtividade ao país.
A gestão econômica do país é assunto para profissionais.

Artigo| A PRIORIDADE DAS PRIORIDADES

29 de novembro de 2014 0

GUILHERME PASIN

Prefeito de Bento Gonçalves

Governar significa ter prioridades. É saber diferenciar o que é fundamental do que é acessório. É saber dizer sim e saber dizer não. Mas existe uma prioridade que está acima de qualquer outra: a educação. Quanto melhor for a qualidade de ensino de uma cidade, de um Estado ou país, mais qualificada será sua população. E, assim, se formarão as condições necessárias para o desenvolvimento e a inovação.
Esses argumentos formam a base de uma convicção comum entre muitos de nós: a educação precisa ser trabalhada em tempo integral. No entanto, transportar essa ideia para o plano concreto dos orçamentos e da gestão municipal costuma ser uma tarefa desafiadora. E é isso que estamos fazendo em Bento Gonçalves _ justamente porque temos prioridades.
Qualificar o ensino é o norte de um dos nossos programas estruturantes, o Cultura do Saber. Com essa iniciativa, estamos apostando nas crianças, nos adolescentes e nos jovens. Investimos na escola, na cultura, no lazer e no esporte. Atingimos, no início deste ano, a marca de 6 mil alunos praticando atividades complementares no contraturno escolar. E, há algumas semanas, esse conceito passou a ter um símbolo: inauguramos a primeira escola de tempo integral do município.
A rotina escolar envolve programação durante nove horas. Além das aulas, os jovens participam de atividades complementares dentro de cada disciplina _ como teatro, música, artes manuais, esporte e informática. Passando o dia todo na escola, as crianças têm seu potencial e talento aperfeiçoados e ficam longe da drogadição e da desocupação. Desenvolvem-se como pessoas e como cidadãos. Os benefícios serão sentidos por elas, por suas famílias e por toda a comunidade.
Em nosso município, enfrentamos um duro processo para arrumar as contas públicas. Retomamos a capacidade de investir em favor da coletividade. Com muito trabalho e planejamento, estamos colhendo os bons frutos. A nossa primeira escola de tempo integral é um deles. Esse exemplo não serve apenas para nós, mas para todo o Rio Grande do Sul. Em tempos de dificuldade, é preciso ter prioridades. E a educação é a maior delas.

Artigo| ENTRE A AGILIDADE E A BUROCRACIA

29 de novembro de 2014 0

EDIVILSON BRUM

Superintendente técnico da Famurs _ Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul

A internet e as tecnologias modernas tornaram muitas coisas infinitamente mais rápidas. A comunicação e o acesso à informação, por exemplo, são quase instantâneos. O mesmo ocorre quando o cidadão faz suas reivindicações para os entes públicos. Pelas redes sociais ou por e-mail, ele envia sua mensagem de forma imediata. Mas, infelizmente, a resposta nem sempre vem na mesma velocidade.
Esse é um problema que afeta especialmente as prefeituras. O povo faz suas justas cobranças pela internet. E os prefeitos gostariam de responder no tempo que a população exige, mas enfrentam muitos obstáculos. A começar pela burocracia, que trava a contratação de obras, a compra de materiais e o simples retorno das demandas encaminhadas pelas pessoas. Em alguns casos, ocorre o pior: o gestor sabe que tem um pleito a realizar, mas não dispõe de verba para tanto. Nas comunidades menores, onde todos se conhecem, isso gera um clima ainda mais pesado.
O quadro não mudará enquanto não for modificada a atual distribuição de poder e recursos, que hoje ficam concentrados na União e nos Estados. Os municípios têm recebido cada vez menos dinheiro, enquanto as responsabilidades só aumentam. Vejamos o caso do Fundo de Participação dos Municípios (FPM): somente no primeiro semestre de 2014, as cidades gaúchas tiveram perdas de R$ 208 milhões nessa fonte. As consequências disso são sentidas pelos munícipes, que sofrem com a queda na qualidade dos serviços básicos e não veem suas necessidades sendo atendidas.
Precisamos de ações efetivas para que as prefeituras possam se adequar aos novos tempos. Isso é praticamente impossível diante do atual emaranhado burocrático. Um novo pacto federativo, mais descentralizador e justo, atacaria o problema em sua raiz. Traria agilidade nos retornos aos pedidos dos cidadãos e levaria as gestões locais à modernidade. A atualização da Lei das Licitações seria outro importante passo nesse sentido. As comunidades, assim como a população, não podem mais esperar.

Editorial| VIRADA NA ECONOMIA

28 de novembro de 2014 0

EditorialA oficialização dos responsáveis pelo comando da política econômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff acena, finalmente, com um gesto concreto para o país romper a desconfiança em relação ao futuro imediato. E, o que é mais importante, abre a perspectiva de retomada do crescimento econômico com inflação sob controle, o que vai depender em muito do equilíbrio das contas públicas. Sem a garantia desses pressupostos, o país não terá como manter conquistas importantes, ameaçadas nos últimos meses por uma acelerada deterioração das finanças governamentais. Entre os ganhos, além dos sociais, estão a manutenção dos níveis de emprego e de renda dos trabalhadores, o que exige mais produção e mais consumo, num cenário de estabilidade e competitividade.

Diante do acerto demonstrado na definição dos nomes, a confirmação dessa aguardada virada na economia vai depender acima de tudo de um aspecto: o cumprimento, por parte do Planalto, do compromisso de garantir liberdade de atuação à nova equipe, deixando-a definir com transparência e pôr em prática o que julgar necessário para o acerto no setor público e a reativação da economia. Um outro aspecto importante já foi evidenciado ontem pelos integrantes do futuro primeiro escalão: afinidade de pontos de vista para garantir o entrosamento necessário desde o período de transição.
Na Fazenda, Joaquim Levy deixou claro que uma de suas prioridades será a recuperação da credibilidade fiscal. A missão exige providências duras, e também o cuidado de não sufocar os investimentos. No Planejamento, Nelson Barbosa comprometeu-se em melhorar a qualidade dos gastos públicos e em incentivar alternativas como as parcerias público-privadas. São precondições para que o país possa concluir obras em andamento e levar adiante as que precisam sair do plano retórico e se transformar em realidade. A esses esforços, irá somar-se o do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, mantido no cargo, de levar a inflação a níveis mais próximos da meta.
O que se espera neste momento é ver assegurada à nova equipe a autonomia necessária para definir como pretende reconduzir o país ao equilíbrio financeiro e ao crescimento econômico. É importante também que os demais ministros evitem entrar em conflito com o ajuste. Sem essas precondições, não há como se imaginar perspectivas favoráveis num futuro imediato.

Artigo| O VOTO É UNIVERSAL

28 de novembro de 2014 10

CHICO VICENTE

Geógrafo, ex-presidente do PT e da CUT

Causa indignação o artigo publicado na ZH de ontem (27/11), intitulado “Quem não deveria votar nas próximas eleições?”.
Defende a autora do texto que os cidadãos que são beneficiários de projetos assistenciais e não provam que estão tentando sair dessa situação não deveriam ter direito ao voto. Tese reacionária, excludente e anticonstitucional, na medida em que o sufrágio universal é cláusula pétrea e foi conquistado depois de muita luta.
Quem nunca experimentou situação análoga à criticada pela autora, provocada por um sistema injusto que beneficia apenas quem tem “capital inicial” ou “berço de ouro”; quem tem condições de se alimentar três vezes ao dia e, portanto, ser capaz de fazer sinapse, estudar e se formar para “se tornar alguém produtivo” e não consegue entender a situação e a enorme dificuldade de quem se encontra na extrema miséria para sair dela, ou usa lentes ideológicas, ou acredita que o egoísmo é a saída para a humanidade.
Para a autora, cidadania deixa de ser um direito universal para ser medido pela renda. Ora, isto é um retrocesso. Voltaremos ao Brasil Colônia, quando nem escravos, nem mulheres podiam votar porque não tinham renda?
Mas os latifundiários, grandes empresários e banqueiros que ganham bilhões de empréstimos, a juro subsidiado, do governo, e não os pagam, também se enquadrariam? Vide caso Eike Batista. A lógica é a mesma porque a maioria desses “produtores” não consegue viver sem esse “assistencialismo de luxo”.
Nos últimos anos, por ação dos programas sociais do governo, milhões de brasileiros saíram da miséria absoluta e hoje integram a classe trabalhadora. Para superar 500 anos de exclusão de um lado e concentração de riqueza e renda, de outro, é necessário exercer esta política por quiçá uma ou duas gerações.
Infelizmente esse tipo de pensamento conservador tem aflorado no curso da última disputa eleitoral. É uma visão elitista que riscou simplesmente do seu dicionário o que a Revolução Francesa consagrou como direitos fundamentais há mais de 200 anos. Lastimável!