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Posts de dezembro 2014

Artigo| 2015 _ UNIDOS PARA RESGATAR O TEMPO

31 de dezembro de 2014 1

GUERSHON KWASNIEWSKI
Responsável pelo rabinato da Sibra

DOM JAIME SPENGLER
Arcebispo de Porto Alegre

“Ser homens de fé significa ser homens de esperança.”
Rabino Skorka

 

“Tempus fugit!” Iniciando o ano novo, recordamo-nos jamais poder parar o tempo; podemos, sim, usá-lo bem! Significa oportunidade privilegiada para resgate do sempre necessário engajamento em prol da vida, pois “para tudo há um tempo debaixo do sol” (Ecl 3,1).
Desejando no início do novo ano paz, felicidade e prosperidade, manifestamos nossa esperança por um mundo melhor, orientado por valores e virtudes que precisam ser lembrados para não cair na tentação, desvio ou esquecimento. No mundo marcado pelo materialismo, reencontrar a espiritualidade favorece redescobrir a nossa essência.
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Esse preceito não pode ser visto como mera citação de um texto antigo, mas deve ser prática a nos tornar melhores, mais humanos. A fé é fonte de inspiração e sustentação diante de desafios que por vezes se transformam em barreiras que impedem felicidade e paz.
O Nobel da Paz à paquistanesa Malala Yousafzai e ao indiano Kailash Satyarthi, e o reatamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba marcaram 2014.
Em 2015, através do diálogo e da oração haveremos de encontrar caminhos para superação de sinais preocupantes de corrupção, intolerância, racismo, conflitos e radicalismos, colaborando assim para a paz social. Seja o convívio humano sustentado pela audácia e alegria de novas possibilidades, orientado pelos princípios da fraternidade, respeito, tolerância e amor ao próximo.
Almejamos vida em plenitude! Queremos viver em paz, superando preconceitos e intolerância. No exercício do amor, capacitamo-nos a olhar o outro no rosto, reconhecendo e promovendo a diferença, favorecendo democracia.
Radicalismos destroem sonhos e ameaçam a vida! Possamos juntos favorecer oportunidades em vista de uma sociedade integrada e integradora, marcada pelo princípio do respeito recíproco e promoção da vida em todas as suas expressões.
“Uma fé autêntica _ que nunca é cômoda nem individualista _ comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (papa Francisco).

Artigo| SÓ DEPENDE DE NÓS

31 de dezembro de 2014 0

LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA
Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

 

O clima assustador que nos atormenta deve-se não apenas aos indicadores econômicos e às más notícias do setor político, mas particularmente ao crime organizado e à impunidade. Corrupção sempre existiu, mas agora as proporções são gigantescas e seus protagonistas são mais graduados e audaciosos, por terem fortes ligações com o poder e a certeza da impunidade. Assistimos estarrecidos a essa agudização da vergonha nacional e ao desgaste progressivo das instituições. Valores, princípios morais, seriedade e confiança são enxovalhados por pessoas que jamais poderiam ocupar os importantes cargos que lhes foram oferecidos. Não dá para continuar o loteamento político de cargos técnicos!
Atingiu-se o clímax com esse pacto corporativo interdisciplinar de corrupção, vindo finalmente à tona o que se passava nos bastidores. Como é que se deixou acontecer toda essa sujeira sem fiscalização e sem medidas de controle? Será que tem de ser assim? Será que não temos capacidade de agir e reagir?
Sim, nós podemos mudar. E a primeira mudança é recuperar a confiança, acreditar que o Brasil pode melhorar, e muito, desde que cada um faça muito mais e melhor.
Nossos representantes não podem mais pactuar com o crime em troca de apoio parlamentar, esse grande nó da governabilidade que contamina o ambiente político. Não podem entregar as chaves dos cofres públicos para os bandidos e depois dizer que nada sabiam. Isto precisa mudar, e já!
A construção dessa mudança inclui, necessariamente, ações como enxugar a máquina, não desperdiçar e ter transparência. Impor foco máximo na educação. Privilegiar a saúde. Proteger mais os jovens. Investir pesado num estilo de vida populacional mais saudável. Responsabilizar empresas por danos que estejam causando. Hierarquizar o Estado como soberano e sempre acima do governo. Exigir seriedade e limpidez na relação entre governo, partidos políticos e interesses pessoais e setoriais. Consagrar cumprimento de direitos e deveres.
Se 2015 tiver pelo menos um pouco de tudo isso, haverá um grande avanço. É preciso acreditar na nossa capacidade, trabalhar e exigir mais de todos. Cidadania é compromisso, exigência e participação. Omissão favorece corrupção. Só depende de nós.
Vamos fazer?

Editorial| NOSSAS POSIÇÕES EM 2014

30 de dezembro de 2014 2

 

editorial conjunto
Vai ter Copa, sim! – afirmou incisivamente o editorial publicado em 27 de janeiro, no auge dos protestos contra as obras do Mundial.
E argumentou: “Suspendê-la seria uma rendição à atitude fascista de grupos que tentam impor suas visões com gritos e ameaças.”
A posição do Grupo RBS sobre esse que foi um dos grandes temas do ano ficou registrada com clareza: respeito ao direito de manifestação, repúdio às depredações e cumprimento dos acordos assumidos pelo país.
Teve Copa em 2014 e muitos outros fatos polêmicos que receberam cobertura objetiva e plural dos nossos veículos. Sempre que julgou oportuno, porém, a RBS se posicionou em seus espaços editoriais, com opiniões transparentes, sem a pretensão de transformá-las em única verdade. Alguns exemplos:

Eleições - Defendemos o voto responsável, o acompanhamento dos eleitos pelos cidadãos, a união do país pela presidente reconduzida e o enfrentamento da dívida pelo novo governador gaúcho.

Democracia – Passada a eleição presidencial, fomos enfáticos em condenar manifestações golpistas e em afirmar que a democracia tem mecanismos para corrigir suas próprias deformações, sem rupturas institucionais.

Corrupção - Desde que estourou o escândalo da Petrobras, os editoriais da RBS vêm pedindo punição exemplar para corruptos e corruptores, além de providências do Planalto para conter os desmandos na estatal.

Racismo – Episódio envolvendo o goleiro Aranha, do Santos, num jogo contra o Grêmio, suscitou uma série de posições da RBS condenando inflexivelmente as manifestações racistas, mas considerando injusto rotular o Estado e o clube como símbolos do preconceito.

Casamento gay – Sob o título “O fogo da intolerância”, editorial de 12 de setembro repudiou com veemência o atentado contra o CTG de Livramento que sediaria um casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Comissão da Verdade – Editorial renovou a visão de que a tortura é um crime contra a humanidade e reconheceu o trabalho da Comissão como contribuição valiosa para o país, embora sem legitimidade para anular os efeitos da Lei da Anistia que também foi uma conquista nacional.

Infanticídio – O assassinato do menino Bernardo, em Três Passos, gerou indignação coletiva no Estado. Os editoriais da RBS não apenas contemplaram este sentimento, como também denunciaram as falhas da rede de proteção à infância.

Feminicídio – Editorial de 10 de agosto apoiou proposta do Ministério Público de São Paulo para incluir no Código Penal a figura do feminicídio, que caracteriza o assassinato de mulheres e fortalece a Lei Maria da Penha.

Crise econômica – O mau momento da economia brasileiro tem sido abordado com frequência pelos editoriais da RBS, que pedem a manutenção da estabilidade, o controle da inflação e planos factíveis de crescimento.

Governo Dilma – Criticamos fortemente a leniência com a corrupção, o aparelhamento político da máquina pública, os equívocos na condução da economia e a visão radical de setores governistas favoráveis à censura da imprensa, felizmente desautorizados pela própria presidente.

Governo Tarso - Editoriais registraram que o Estado chegou ao caos nas finanças públicas sob o comando de um governador que optou pela manutenção de uma máquina pública demasiada,  concedeu reajustes generosos aos servidores e esgotou o recurso dos depósitos judiciais.

Terrorismo - “A estupidez não tem ideologia”, afirma no título o editorial de 19 de julho, que aborda a derrubada do Boeing da Malaysia Airlines por separatistas ucraniano.

Contrapontos – Pelo quinto ano consecutivo, Zero Hora publicou na edição impressa dominical editoriais interativos, que são postados no site do jornal às quintas-feiras para que os leitores manifestem concordância ou discordância.

Editorial| A FARRA DOS PRESOS

30 de dezembro de 2014 0

EditO mais chocante do vídeo que mostra apenados realizando uma festa para cheirar cocaína no interior do Presídio Central de Porto Alegre é a constatação de que as drogas _ assim como os celulares e até mesmo armas _ continuam tendo trânsito livre na maior casa prisional do Estado. As cenas de presos fazendo fila para consumir carreiras de pó contrastam com as campanhas pela desativação da penitenciária, reconhecida como a pior do país por causa da superlotação e das condições precárias da casa, cuja demolição tem sido prometida por sucessivos governos.
É inquestionável que sentenciados sob a guarda do Estado merecem tratamento digno, ainda que parcela expressiva da população, especialmente as vítimas da criminalidade, defenda a exposição ao sacrifício como pena adicional. O que não se pode entender, nem admitir, é permissividade do consumo livre de drogas no interior das celas, como se vê no vídeo divulgado ontem _ provavelmente gravado por um dos participantes da reunião festiva.
O mínimo que se pode concluir do inusitado vídeo é que houve falha grave na revista e no controle de entrada de objetos para o uso dos presos. Infelizmente, como lembra o juiz da Vara de Execuções Criminais da Capital, Sidinei Brzuska, o ingresso de entorpecentes não é incomum. Só nos últimos quatro anos, foram apreendidos 60 quilos de drogas no Presídio Central. No ano de 2012, uma imagem gravada num cartão de memória apreendido por PMs durante uma revista mostrava um detento, dentro da cela, exibindo um revólver e uma pistola. As armas acabaram sendo localizadas pela polícia.
Diante desse histórico e do acintoso registro da festa de Natal com consumo de cocaína, torna-se urgente uma revisão do sistema de revista de visitantes, além, evidentemente, da apuração do episódio. Cabe ao comando da Brigada Militar, responsável pela administração da casa e pela vigilância dos detentos, prestar contas à sociedade sobre o descalabro recém revelado.

Artigo| SOBRE DECÊNCIAS E CARÊNCIAS

30 de dezembro de 2014 1

HUMBERTO TREZZI
humberto.trezzi@zerohora.com.br
Repórter especial de ZH

 

Júlio Camargo, o poderoso lobista da empreiteira Toyo-Setal que virou delator do escândalo da Petrobras, teme as agruras financeiras que vai enfrentar. Botou à venda 130 éguas e garanhões puros-sangues ingleses  (PSI) que mantém num haras em Bagé. Os medos dele, lógico, obedecem a um padrão milionário. Em quase cem folhas transcritas de depoimento prestado em novembro, Camargo admite: movimentou cerca de R$ 196 milhões desde 2006 em “comissões” e propinas a dirigentes da Petrobras para garantir que seus patrões empreiteiros ganhassem polpudas concorrências para as maiores obras do país.
Um abismo social distancia Júlio Camargo da gaúcha Ione Gutierrez, professora de música com parcos vencimentos, que mora na zona norte de Porto Alegre. Mas eles partilham algo em comum: admiração por cavalos. Lógico que ela nunca teve condições de adquirir um puro-sangue. Outro ponto que a separa do lobista é que Ione passou os últimos quatro anos esperando que o Sistema Único de Saúde a chamasse para uma consulta que poria alívio a torturantes dores na coluna. Foi tanta demora, que desistiu e juntou um dinheiro para tentar uma cirurgia particular. Não é situação isolada. Assim como Ione, outros 176 mil gaúchos esperavam, em meados de 2014, numa lista para consulta médica pelo SUS. Alguns, há anos.
Uma outra conhecida minha, a cabeleireira Jaqueline, foi surpreendida dias atrás por um pedido da sua médica. Já que o plano de saúde privado paga muito pouco, a “doutora” resolveu cobrar à parte R$ 7 mil para a cesariana _ num tom casual, como se isso fosse normal. Jaque se negou, até porque não dispõe da quantia.
Imagine um encontro entre Júlio, Ione e Jaqueline. O que diriam? Falariam das dores de coluna dos puros-sangues ingleses do lobista? Da fila no postão de saúde que Júlio jamais enfrentou? De como o tratamento do casco danificado de um cavalo do lobista poderia, quem sabe, pagar a cirurgia ambicionada por Jaque, sem precisar de suborno?
Talvez comentassem sobre os R$ 10 bilhões que, se estima, tenham sido desviados _ ou seriam superfaturados _ em contratos com a Petrobras. E em quanto esse dinheiro reduziria a espera por atendimento médico. Esse encontro não aconteceu, mas poderia: as honradas Ione e Jaqueline eu posso apresentar. Já o lobista me é muito distante, em meios, fins e intenções.

Artigo| PASSAGENS PRECISAM DE CALMA

30 de dezembro de 2014 2

JOSÉ CARLOS STURZA DE MORAES
Coordenador do Projeto Protagonismo de Crianças e Adolescentes (Amencar), conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedica)

 
Dia desses li uma tirinha da Mafalda, essa argentina que tanto amamos.
Indagava ao pai se o ano novo existia mesmo, ao que o pai afirmava efusivamente que sim. Então, de seu jeito Mafalda de ser, ela o questionou de forma mais categórica: se ele o havia visto.
Tal diálogo me vem à baila quando percebo a angústia e o estresse de tanta gente nesse período de festas. Um pouco das correrias, dos apressamentos e das bebedeiras e outras entorpecências da vida nesses dias. A paciência anda pouca. Nesse percurso, perdem-se vidas, transbordam violências e exemplos pouco defensáveis de valores humanos. Um segundo a mais atrás do semáforo é um calvário, cinco minutos numa fila um absurdo, uma ultrapassagem sofrida um acinte.
Nessa ânsia de gozar o prazer antes, e primeiro, podemos estar enterrando-o. Ou nos hospedando não em hotéis, mas em hospitais, ou ainda sendo hospedados na última morada de todos nós.
2015 entrará sorridente e desdentado como todo ano novo, mas poderíamos aguardar essa invenção que tanto nos organiza de um jeito mais interessante. De um jeito mais prazeroso e generoso. A solidariedade, o dar lugar, pode também gerar prazeres, que o digam os milhões de voluntários e militantes de causas sociais em todo mundo.
Querer para outras pessoas ou para outras pessoas também é inventar jeitos de felicidades duradouras e calmas.
Um minuto de adiamento do prazer pode ser como aquela fome abastecida para saborear melhor o momento do banquete, que vamos comendo antes com os olhos. Curtir os aromas do arredor não tem preço, mas contém fragrâncias, descritíveis e indescritíveis, pois nem tudo cabe nas telas e nos teclados dessa nossa ultramodernidade das telinhas touchscreen.
Ensinar paciência, tolerância e apreço ao outro, para nós professores, pais, mães (adultos em geral) pode ser apenas o exercício de um ato, pois educação continua a ser centralmente, nas relações humanas, o exercício do exemplo. Normas legais temos muitas e mais e mais são editadas a cada ano, entre outras coisas porque não as observamos. A vida pode ser mais simples e pode ser prazerosa.

Artigo| DE QUE VIOLÊNCIA TRATAMOS?

30 de dezembro de 2014 1

FRANKLIN CUNHA
Médico

 

É preciso lembrar um ponto fraco de Hanah Arendt _ uma voz legítima e respeitável das esquerdas _  pelo seu desprezo pela economia, pela esfera da produção, o que ela deixa de ver é a noção crucial de que a luta política é um espetáculo que, para ser decifrado, tem de ser levado para a esfera da economia ou, para citar Wendy Brown: “Se o marxismo teve algum valor analítico para a teoria política, não foi  na insistência de que o problema da liberdade estava contido nas relações sociais implicitamente declaradas  “apolíticas ” _ isto é, naturalizadas, mascaradas  _ no discurso liberal “. (S. Zizek)
Portanto, há violência e violência, e a questão não é desqualificar a priori certo modo de violência, mas indagar de qual delas estamos tratando. Que tipo de violência foi o agravo, o desrespeito, a agressão moral e ética de um membro do parlamento e das forças armadas contra todas as mulheres brasileiras?  Sergundo Bruno Lima Rocha, “o episódio  passou de qualquer limite, saiu da rubrica de um tipo tragicômico de ultradireita para ser o porta-voz no Congresso de uma direita golpista, protofascista, elitista, social e economicamente excludente”. De uma direita que abomina e combate os benefícios sociais e econômicos que se iniciaram com FHC e que se ampliaram nos governos posteriores.  Enfim e no fim, é de economia que estamos falando.  “It’s the economy, stupid”, como disse James Carville , assessor de Clinton em 1992.
Nas atuações criminosas  dos nazistas não havia somente a expressão de uma enorme e grave psicopatia, mas eram baseadas e motivadas por uma luta por mercados entre duas potências econômicas em crise e que tentaram sair dela através da guerra. Os assassinatos em massa, a destruição de países inteiros, a discriminação racial, o desprezo pelos direitos humanos, incluindo os estupros de milhares de mulheres, foram os resultados paralelos e simultâneos de lutas e disputas econômico-financeiras que não foram vislumbradas ou citadas pela admirável comunista judia, talvez pelos terríveis traumas recentes, à época, da etnia a qual pertencia. A interpretação apenas psicológica dos genocidas nazistas, feita por Hanna Arendt, na mais legítima e sadia das intenções, impediram-na de vislumbrar o pano (sangrento) de fundo da enorme tragédia europeia do século 20.
É exatamente este tipo de  interpretação, apontada por James Carville,  que não vislumbramos no recente episódio que manchou o Parlamento e o Exército brasileiros.

Editorial| O RECURSO DE SEMPRE

29 de dezembro de 2014 1

 

edit29

Integrantes da nova equipe econômica mostram simpatia pelo movimento liderado por alguns governadores da base governista em favor do retorno da CPMF, a antiga Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, que ameaça ressuscitar sempre que os administradores públicos precisam tapar furos nos orçamentos. Tributo cruel, pois incide igualmente sobre quem pode e quem não pode contribuir, a CPMF aparece sempre como solução fácil para gestores que gastam mais do que arrecadam. O chamado imposto insonegável, porque é descontado diretamente sobre as transações financeiras, já demonstrou no passado ser um engodo. Além de se prestar a desvios, onera a produção, desestimula investimentos e fragiliza o ambiente de negócios.
A história pregressa da CPMF é das piores. Criada no governo Fernando Henrique a partir de uma sugestão bem-intencionada do ex-ministro Adib Jatene, a contribuição destinada a financiar programas na área de saúde acabou ganhando o apelido de “imposto do cheque” e logo perdeu o seu caráter provisório, sendo sistematicamente renovada. Além disso, a alíquota inicial de 0,20% sobre todas as operações bancárias foi sendo elevada até chegar a 0,38%. Pior: os contribuintes jamais tiveram a comprovação de que os recursos arrecadados foram realmente aplicados em saúde pública e Previdência Social, que eram suas finalidades originais.
Por tudo isso, o país aplaudiu quando, em dezembro de 2007,  o Senado Federal rejeitou a proposta de prorrogação da CPMF até 2011, impondo uma derrota política sem precedentes ao governo Lula. Desde então, algumas outras tentativas de ressuscitar o imposto foram abortadas pelo Congresso, por pressão dos contribuintes.
É o que os cidadãos devem fazer novamente agora. Os brasileiros já suportam uma carga tributária pesada demais e sem receber um retorno compatível em obras e serviços. Para atingir suas metas fiscais, o governo precisa gastar menos, cortando despesas e enfrentando resistências. Lançar um novo tributo sobre os contribuintes neste momento de paralisia das atividades econômica é um recurso tão simplório quanto irresponsável.

Moisés Mendes| As juízas

29 de dezembro de 2014 1

moisesMOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br

 

Eu queria ver um encontro das juízas Carine Labres e Lizandra Passos. Carine envolveu-se na controvérsia nacional da cerimônia coletiva de casamento com a participação de gays, no CTG de Livramento.
Carine não disse: sou magistrada, cumpro as leis e apenas observo de longe o que se passa. Não. A juíza defendeu o evento pelo seu significado, enfrentou o conservadorismo e o moralismo de superfície e fez valer uma obviedade também do Direito: a neutralidade é a mais antiga conversa fiada da humanidade.
Sob censura dos “neutros”, Carine participou depois da Parada Gay em Porto Alegre. Embarcou num carro alegórico ao lado de Solange Ramires, 24 anos, e Sabriny Benites, de 26, as moças que se casaram em Livramento. Os “neutros” acharam estranho. Se Carine estivesse no carro de Baco, na Festa da Uva, tudo bem. Mas num carro de gays?
A outra juíza, Lizandra Passos, também se envolveu em controvérsia nacional ao rejeitar no fim de semana o pedido de prisão preventiva de Leonam dos Santos Franco. O homem dirigia o carro que destruiu uma moto, em Capão, matando Manoela da Silva Teixeira, de 19 anos, e deixando Francieli da Silva Mello, de 22, em estado grave.
Manoela e Francieli também formavam um casal. Leonan estava bêbado, em alta velocidade e na contramão. A juíza negou o pedido de prisão porque não havia recebido o atestado de óbito de Manoela. Policiais e testemunhas disseram que a moça estava morta, mas isso não importava. A juíza queria o papel.
As duas juízas, Carine e Lizandra, podem dizer que cumpriram o que a lei determina. Carine foi acusada de ser proativa demais, como se existissem juízes absolutamente alheios a tudo e a todos.
A “neutralidade” conservadora só preserva interesses e costumes nem sempre explicitados. Carine usou a lei para fazer valer os direitos de quem se dispõe a enfrentar o atraso para ser feliz.
No caso de Capão, as moças da moto eram a expressão do avanço civilizatório que Carine vem ajudando a consagrar. Um motorista bêbado acabou com os sonhos de Manoela e Francieli.
O atropelador é o atraso posto em liberdade por falta de um atestado. A juíza Lizandra tinha à mão uma lei que o favoreceu. Há leis e leis. E há juízas e juízas.

 

Artigo| AS COLUNAS DA CONTRADIÇÃO

29 de dezembro de 2014 0

JAYME EDUARDO MACHADO
Jornalista, ex-subprocurador-geral de República

 

Alguém já disse existirem duas áreas do desenvolvimento  em que as inovações geniais só aparecem espaçadas pelo intervalo de séculos: as colunas, que são o fundamento da arquitetura, e as instituições públicas,  colunas que sustentam o Estado.
Oscar Niemeyer aproveitou seu século de vida  para inovar, concebendo aquelas colunas sinuosas do Palácio da Alvorada. De “… ritmo contínuo e ondulado, que conferem à construção leveza e elegância”,  como explicava. Tomava forma aos olhos do mundo a  novíssima capital do “Brasil, País do Futuro”, previsão do escritor alemão Stefan Zweig, em livro publicado na aurora dos  anos 40.
À espera do milagre,  o povo brasileiro financiou o sonho de Juscelino: a capital do futuro, equidistante de tudo e de todos os “brasis” era, na concepção da estética e na localização da geografia, a metáfora perfeita da renovação  que certamente  viria. Enfim, o arquiteto produzira uma revolução na forma das colunas que sustentam os prédios das nossas instituições público-políticas, cumprindo-se a primeira da parte da observação lembrada  logo na primeira frase.
Quanto à segunda parte, parece que a nossa democracia ainda está à espera da inovação genial. Uma novidade capaz desintoxicar o país do vício da sobreposição do interesse público aos dos gestores privados. Do vício de satisfazer a ambição argentária das pessoas dos círculos governantes, dos políticos de suas alianças, dos indivíduos instrumentos do seu apego ao poder. Uma renovação que não delegue o controle da gestão das empresas públicas  aos beleguins do partido hegemônico e aos esbirros de suas alianças de conveniência. Uma novidade que possa ser empossada com a convicção de que o seu discurso é coerente com a prática, e que reconheça  que a responsabilidade é sempre de quem governa e não somente daqueles a quem se delega.
Quando isso acontecer, teremos como sustentar nossa democracia. Por ora, nos limitamos a contemplar, do exterior, a beleza da forma das colunas de Niemeyer.  Paradoxal aparência  dissimulando a fealdade  do conteúdo erodido. Por trás delas se esconde a  vergonhosa verdade que só aparece quando  gestores negociam a própria torpeza mediante colaboração premiada. Ao gestor maior, uma certeza: a verdade perseguida pelos investigadores causa menos dano às empresas do que a mentira do seu controle. E um alerta: ou se fortalecem as colunas institucionais, ou a casa cai.