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Artigo| A INVISIBILIDADE DOS SURDOS-CEGOS

04 de dezembro de 2014 2

DINAMÁRCIA M. DE OLIVEIRA

Promotora de Justiça

Em 2011, recebi um e-mail de um cidadão identificado como Alex Garcia, pessoa surdo-cega que pedia providências para acessibilidade de pessoas com deficiência nas vias públicas de São Luiz Gonzaga. Atendê-lo foi algo surpreendente e inesquecível, dada sua tenacidade e conhecimento.
Agora fui novamente contatada por ele e pude ver sua situação após agravamento da doença, que é rara e progressiva: perdera quase completamente a visão, vendo apenas algumas sombras com o olho direito. Diante de mim, uma pessoa tão capaz e, ao mesmo tempo, hipervulnerável.
Fui à busca da legislação infraconstitucional que pudesse amparar Alex e seus iguais. Mas não há qualquer previsão para que os surdos-cegos tenham um guia-intérprete. Não há sequer um programa ou projeto oficiais para que familiares de surdos-cegos sejam treinados para tão fundamental ajuda.
Eles podem se comunicar através de diversos modelos. Em geral, precisam de proximidade e toque. Aprendi um pouco, para comunicação com Alex. Ele usa a “escrita na mão”. Nós escrevemos as letras de forma na palma da mão dele, usando nosso dedo indicador como uma caneta.
Alex é um surdo-cego pós-simbólico (deficiência adquirida após apreensão da linguagem), primeiro a ser graduado no Brasil e participante, em 2013, da Convenção da ONU, em Nova York, escritor e colunista, palestrante em mais de 30 países. No entanto, não há números oficiais confiáveis sobre quantos são os surdos-cegos brasileiros. Mas, em pior situação do que Alex, estão os surdos-cegos pré-simbólicos, ou seja, os que nascem com essa deficiência e, tantas vezes, estão escondidos pelas famílias, em razão da ignorância.
Por isso, ajuizamos ação civil pública contra o Estado e o município, baseada no direito constitucional à dignidade da pessoa, para disponibilização de guia-intérprete ao atendido, por seis horas diárias. A liminar ainda não foi apreciada pela Justiça, que aguarda a palavra dos demandados, e não se acredita, ingenuamente, que essa ação seja uma solução para o problema. É apenas um brado _ que Alex não pode ouvir, ou uma luz _ que Alex não pode ver, para que os surdos-cegos, invisíveis, sejam percebidos pelos saudáveis autores das políticas públicas.

Comentários (2)

  • Marilice costi diz: 6 de dezembro de 2014

    E preciso avancar nas políticas públicas . Cuidar de pessoas com deficiência é parte de nossa humanidade e nisso está a solidariedade. Alex representa mais do que sua deficiência. Com ele marcham também deficientes mentais, amigos e familiares. Muitos que necessitam de acessobilidade urbana, escola inclusiva, atendimentos adequados no SUS, moradias assistidas. Existe um universo de vulneráveis. E para que possam ser cuidados é preciso acolher melhor seus cuidadores e orientá-los. Tão simples é fazer algo pelo próximo. Quem sabe isso faça parte do seu próximo ano. Ou seja uma meta, um presente de Natal para dar ao seu vizinho. Comecemos pela nossa aldeia dando-nos as mãos.

  • Eliana Ribeiro diz: 8 de dezembro de 2014

    Infelizmente, posso dizer que portas se fecham. Mas, acredito plenamente em um DEUS que nos orienta e está abrindo novos caminhos para vencermos esta luta. Alex, meu pequeno e grande amigo, professor e conselheiro, digo isto por que aprendi e continuo aprendendo muito com você. Através do Alex, hoje sou uma Guia-interprete e posso acompanhar muitos dos seus trabalhos. Me comunico com qualquer surdocego independente do seu tipo de comunicação. Digo “não há vitória sem luta”. por isso já nos considero grandes vencedores. Temos a obrigação de capacitarmos profissionais para todos os tipos de comunicação. Alex estou junto com você hoje e sempre. Para aqueles que aprovam às Leis, não há uma previsão do Guia-interprete não tenho nada a dizer até o presente momento. Mas, tenho a certeza que pessoas nos apoiará e abraçarão esta causa conosco, e poderemos usufruir dos mesmos direitos.Infelizmente enquanto não temos Lei que nos beneficie, utilizaremos da Lei dos surdos que tem o direito do Interprete em escolas, palestras ……….. Não vamos desanimar, este tipo de atitude não faz parte da vida do Alex nem da nossa.

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