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Moisés Mendes| As juízas

29 de dezembro de 2014 1

moisesMOISÉS MENDES
moises.mendes@zerohora.com.br

 

Eu queria ver um encontro das juízas Carine Labres e Lizandra Passos. Carine envolveu-se na controvérsia nacional da cerimônia coletiva de casamento com a participação de gays, no CTG de Livramento.
Carine não disse: sou magistrada, cumpro as leis e apenas observo de longe o que se passa. Não. A juíza defendeu o evento pelo seu significado, enfrentou o conservadorismo e o moralismo de superfície e fez valer uma obviedade também do Direito: a neutralidade é a mais antiga conversa fiada da humanidade.
Sob censura dos “neutros”, Carine participou depois da Parada Gay em Porto Alegre. Embarcou num carro alegórico ao lado de Solange Ramires, 24 anos, e Sabriny Benites, de 26, as moças que se casaram em Livramento. Os “neutros” acharam estranho. Se Carine estivesse no carro de Baco, na Festa da Uva, tudo bem. Mas num carro de gays?
A outra juíza, Lizandra Passos, também se envolveu em controvérsia nacional ao rejeitar no fim de semana o pedido de prisão preventiva de Leonam dos Santos Franco. O homem dirigia o carro que destruiu uma moto, em Capão, matando Manoela da Silva Teixeira, de 19 anos, e deixando Francieli da Silva Mello, de 22, em estado grave.
Manoela e Francieli também formavam um casal. Leonan estava bêbado, em alta velocidade e na contramão. A juíza negou o pedido de prisão porque não havia recebido o atestado de óbito de Manoela. Policiais e testemunhas disseram que a moça estava morta, mas isso não importava. A juíza queria o papel.
As duas juízas, Carine e Lizandra, podem dizer que cumpriram o que a lei determina. Carine foi acusada de ser proativa demais, como se existissem juízes absolutamente alheios a tudo e a todos.
A “neutralidade” conservadora só preserva interesses e costumes nem sempre explicitados. Carine usou a lei para fazer valer os direitos de quem se dispõe a enfrentar o atraso para ser feliz.
No caso de Capão, as moças da moto eram a expressão do avanço civilizatório que Carine vem ajudando a consagrar. Um motorista bêbado acabou com os sonhos de Manoela e Francieli.
O atropelador é o atraso posto em liberdade por falta de um atestado. A juíza Lizandra tinha à mão uma lei que o favoreceu. Há leis e leis. E há juízas e juízas.

 

Comentários (1)

  • Ana Cláudia diz: 29 de dezembro de 2014

    É incrível a coincidência, Moisés. Quando soube da deliberação da juíza de Capão da Canoa em soltar o infrator e assassino da menina Manoella por falta de um papel (atestado) afirmando o óbito da mesma, lembrei-me de imediato da juíza Carine e de todo o episódio envolvendo a questão do casamento gay no CTG Sentinelas do Planalto. Quanta diferença! Infelizmente estamos assistindo a tantos demandos neste país, onde inclusive magistrados, contrariando evidências contundentes, provas e testemunhos (como no caso tb do estuprador preso em flagrante pela polícia após ser avisada por um morador de rua), acabam por beneficiar criminosos baseando-se na interpretação burocrática e periférica das leis. Mas, nem tudo esta perdido. Existem profissionais como a juíza Carine. que ousou enfrentar preconceitos e vencer resistências para fazer valer direitos de fato e legalmente constituídos. Precisamos enquanto sociedade apoiar e aplaudir atitudes como estas, e sim, execrar aqueles que acreditam que a justiça é cega, burra e desumana.

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