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Artigo| DE QUE VIOLÊNCIA TRATAMOS?

30 de dezembro de 2014 1

FRANKLIN CUNHA
Médico

 

É preciso lembrar um ponto fraco de Hanah Arendt _ uma voz legítima e respeitável das esquerdas _  pelo seu desprezo pela economia, pela esfera da produção, o que ela deixa de ver é a noção crucial de que a luta política é um espetáculo que, para ser decifrado, tem de ser levado para a esfera da economia ou, para citar Wendy Brown: “Se o marxismo teve algum valor analítico para a teoria política, não foi  na insistência de que o problema da liberdade estava contido nas relações sociais implicitamente declaradas  “apolíticas ” _ isto é, naturalizadas, mascaradas  _ no discurso liberal “. (S. Zizek)
Portanto, há violência e violência, e a questão não é desqualificar a priori certo modo de violência, mas indagar de qual delas estamos tratando. Que tipo de violência foi o agravo, o desrespeito, a agressão moral e ética de um membro do parlamento e das forças armadas contra todas as mulheres brasileiras?  Sergundo Bruno Lima Rocha, “o episódio  passou de qualquer limite, saiu da rubrica de um tipo tragicômico de ultradireita para ser o porta-voz no Congresso de uma direita golpista, protofascista, elitista, social e economicamente excludente”. De uma direita que abomina e combate os benefícios sociais e econômicos que se iniciaram com FHC e que se ampliaram nos governos posteriores.  Enfim e no fim, é de economia que estamos falando.  “It’s the economy, stupid”, como disse James Carville , assessor de Clinton em 1992.
Nas atuações criminosas  dos nazistas não havia somente a expressão de uma enorme e grave psicopatia, mas eram baseadas e motivadas por uma luta por mercados entre duas potências econômicas em crise e que tentaram sair dela através da guerra. Os assassinatos em massa, a destruição de países inteiros, a discriminação racial, o desprezo pelos direitos humanos, incluindo os estupros de milhares de mulheres, foram os resultados paralelos e simultâneos de lutas e disputas econômico-financeiras que não foram vislumbradas ou citadas pela admirável comunista judia, talvez pelos terríveis traumas recentes, à época, da etnia a qual pertencia. A interpretação apenas psicológica dos genocidas nazistas, feita por Hanna Arendt, na mais legítima e sadia das intenções, impediram-na de vislumbrar o pano (sangrento) de fundo da enorme tragédia europeia do século 20.
É exatamente este tipo de  interpretação, apontada por James Carville,  que não vislumbramos no recente episódio que manchou o Parlamento e o Exército brasileiros.

Comentários (1)

  • Edison Vladimir Martins Terterola diz: 3 de janeiro de 2015

    Sim! ainda existem pessoas lúcidas e inteligentes nesse mundo! Parabéns ao professor Dr Franklin Cunha. Somente quem tem cultura e sensibilidade acima do normal é capaz de transpor em palavras o significado de tamanha violência proferida contra todas as mulheres. Espero ver seus textos novamente não apenas na ZH, mas, também, em outros meios de comunicação! O mundo tem salvação!

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