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Artigo| PASSAGENS PRECISAM DE CALMA

30 de dezembro de 2014 2

JOSÉ CARLOS STURZA DE MORAES
Coordenador do Projeto Protagonismo de Crianças e Adolescentes (Amencar), conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedica)

 
Dia desses li uma tirinha da Mafalda, essa argentina que tanto amamos.
Indagava ao pai se o ano novo existia mesmo, ao que o pai afirmava efusivamente que sim. Então, de seu jeito Mafalda de ser, ela o questionou de forma mais categórica: se ele o havia visto.
Tal diálogo me vem à baila quando percebo a angústia e o estresse de tanta gente nesse período de festas. Um pouco das correrias, dos apressamentos e das bebedeiras e outras entorpecências da vida nesses dias. A paciência anda pouca. Nesse percurso, perdem-se vidas, transbordam violências e exemplos pouco defensáveis de valores humanos. Um segundo a mais atrás do semáforo é um calvário, cinco minutos numa fila um absurdo, uma ultrapassagem sofrida um acinte.
Nessa ânsia de gozar o prazer antes, e primeiro, podemos estar enterrando-o. Ou nos hospedando não em hotéis, mas em hospitais, ou ainda sendo hospedados na última morada de todos nós.
2015 entrará sorridente e desdentado como todo ano novo, mas poderíamos aguardar essa invenção que tanto nos organiza de um jeito mais interessante. De um jeito mais prazeroso e generoso. A solidariedade, o dar lugar, pode também gerar prazeres, que o digam os milhões de voluntários e militantes de causas sociais em todo mundo.
Querer para outras pessoas ou para outras pessoas também é inventar jeitos de felicidades duradouras e calmas.
Um minuto de adiamento do prazer pode ser como aquela fome abastecida para saborear melhor o momento do banquete, que vamos comendo antes com os olhos. Curtir os aromas do arredor não tem preço, mas contém fragrâncias, descritíveis e indescritíveis, pois nem tudo cabe nas telas e nos teclados dessa nossa ultramodernidade das telinhas touchscreen.
Ensinar paciência, tolerância e apreço ao outro, para nós professores, pais, mães (adultos em geral) pode ser apenas o exercício de um ato, pois educação continua a ser centralmente, nas relações humanas, o exercício do exemplo. Normas legais temos muitas e mais e mais são editadas a cada ano, entre outras coisas porque não as observamos. A vida pode ser mais simples e pode ser prazerosa.

Comentários (2)

  • clarice castro diz: 30 de dezembro de 2014

    parabéns pelo belo e reflexivo texto, sturza! que todos, um dia, consigam esse estágio de maturidade para conseguir identificar o foco essencial das coisas e dos afetos, descartando os fricotes e adereços que criamos no nosso dia a dia. não que as guirlandas, as velas e as cores e sabores não sejam importantes, mas são prazeres que, como dizes, podem se converter em sofrimento quando colocadas no lugar de protagonistas.

  • walter dos santos diz: 6 de fevereiro de 2015

    daqui das minas gerais, cumprimento o sturza pela sua intelectualidade, sabedoria e lógica. As pessoas sociais estão se exaurindo, diante dessa falange, não de gafanhotos, mas de mentecaptos ignorantes que assoberbam o Brasil. Morei aí, na Terra dos Pampas, onde a tradição e cultura enobrecem os gaúchos. Pretetendo um dia voltar para sempre, pois Minas Gerais tornou-se valhacouto de imbecis e violentos, não há mais um vulto histórico tal como Juscelino Kubtschek de Oliveira, um Santos Dumont, um General Mourão Filho, as mentes se atrofiaram. Viva o Rio Grande do Sul.

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