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Artigo| AS CRUZES BRANCAS

31 de janeiro de 2015 0

Tavares

 

FLÁVIO TAVARES
Jornalista e escritor

 

 

 

Deixo de lado a alegria do verão ou os desmandos na Petrobras para recordar a coincidência da data de 27 de janeiro, que acaba de passar. De um lado, o Dia Internacional de Memória do Holocausto. De outro os dois anos da tragédia da boate Kiss, e me indago se o ocorrido em Santa Maria não foi, de fato, uma extensão ocasional do horror dos campos de extermínio nazistas. E com um agravante: todos condenam a barbárie hitlerista, enquanto o crime daqui continua impune, sob nosso olhar complacente.
Aquelas 242 cruzes brancas postas no prédio do Ministério Público na madrugada destes dois anos impunes, por acaso não são um comovente alerta sobre nossa burocracia judicial, que trata a matança como uma rixa entre condôminos de prédio?
Ou os únicos culpados acabarão sendo os 242 mortos?
Era assim no horror nazista. Os judeus eram criminosos por serem judeus. Os ciganos, negros, comunistas e homossexuais, por serem o que eram. O crime de todos era estar vivos e, portanto, mereciam a morte!
***
A 27 de janeiro, ao recordar o Holocausto, comemoramos a data em que o exército soviético libertou em 1945 o campo de extermínio de Auschwitz, o maior dos tempos de domínio nazista na Europa. Ali, mataram 3 milhões de civis, crianças incluídas, a maioria judeus – 2 milhões e meio nas câmaras de gás, 500 mil de fome e doenças da fome.
A ferocidade desse horror me fez conhecer, em 1952 em Porto Alegre, a bela história de amor de um jovem casal de judeus poloneses – amor de homem-mulher e amor pela humanidade, algo que hoje talvez pareça piegas.
Ouvi de Abusz Goldman e Regina Wygodny Goldman relatos de perseguição e dor. Vivenciei o horror que viveram, numa amizade que a morte de ambos não apagou. Ele, herói da Segunda Guerra Mundial, integrou o batalhão polonês do exército soviético e recebeu a Grã Cruz de Ferro, a maior condecoração russa. O tanque do tenente Goldman foi a primeiro a entrar em Majdanek, por sua vez o primeiro campo de extermínio libertado pelos soviéticos, em 1944 na Polônia, e o único que, junto a Auschwitz, matava com gás. Seu tanque foi, também, o primeiro a entrar na primeira aldeia alemã conquistada.
Por ironia, anos antes, em 1939, alistado no exército polonês, Goldman fora preso (quando a Rússia ocupou a Polônia de um lado e a Alemanha nazista a invadiu por outro) e passou dois anos num campo de trabalho na Sibéria!
***
Em 1939, Regina tinha pouco mais de 10 anos e os nazistas a obrigavam a carregar pedras no gueto de Lodz. Logo, mataram o pai e a mãe, por serem psiquiatras, e todos os enfermos do hospital que dirigiam. Ela e o irmão foram para Auschwitz, mas os nazistas buscavam delicadas mãos pequenas para montar rádios na Telefunken e Regina virou escrava infantil. Ao crescer, passou pelos campos de extermínio de Weißwasser/Oberlausitz e Mittelsteine, de onde foi libertada por guerrilheiros tchecos em 1945, com os alemães já em fuga.
Faminta, saiu do campo antes de os russos chegarem com comida. À beira da estrada, num caminhão estacionado, abriu uma barrica cheia de mel e começou a comer. Só parou ao sentir uma pistola na nuca e uma voz indagando quem era, em russo. Regina respondeu também em russo: “Sou judia polonesa, fugida do campo!”.
O oficial baixou a arma e a levou ao povoado vizinho.
Meses depois, ela e Goldman se conheceram, casaram-se e vieram para Porto Alegre, onde ele montou sua tipografia. Ele faleceu há 15 anos, ela em junho passado. Em março, no lançamento do meu livro “1964-O Golpe”, Regina me presenteou com uma manta de lã branca, por ela tecida. Era um símbolo: ela se salvou no campo de extermínio porque os nazistas necessitavam de mãos hábeis e rápidas para tricotar mantas pretas para os oficiais das SS.
Por isto, deu-me uma manta branca. A paz é branca, como as cruzes na rua, em Santa Maria, que pedem justiça sem disfarces.

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