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Artigo| CAIXA VAZIA

31 de janeiro de 2015 0

Diana Corso novo

DIANA LICHTENSTEIN CORSO
Psicanalista
dianamcorso@gmail.com

 

 

No Natal ela me presenteou com uma caixa. Em laca negra, trazia na tampa um mosaico feito de chifres. Porém, no dia em que ela me entregaria o presente, deixou-o cair no chão. Queria trocá-lo, mas a impedi. Apeguei-me ao objeto levemente avariado.
Parecia vazia, mas os “ossos” da tampa encobriam um conteúdo impalpável: seu interior abrigava apenas nossas memórias compartilhadas. Certas coisas invisíveis também preenchem, precisam de um espaço próprio. O aparente vazio da caixa simbolizava o rombo causado pela morte de seu filho adolescente, a tristeza que naquele ano fizera uma década e que eu a ajudava a suportar.
Sempre soube que meus esforços eram parcos frente a seu fardo, mas a força vital dela constituiu-se numa grande aliada. Todo luto deixa cicatrizes, porém existe uma diferença radical entre a perda dos que nos precedem e a dos que nos sucedem. A morte de um filho priva-nos de boa parte dos enigmas do destino, do futuro em sua versão mais amorosa. Sobre os filhos são depositados os sonhos mais grandiloquentes: queremos “apenas” que nos recordem quando partirmos, que nos superem, orgulhem e construam uma descendência. Quando perdemos um descendente, mesmo que ainda tenhamos outros, nosso futuro fica aleijado. Por isso aquela caixa não pode ter uma tampa intacta, porque o luto por um filho nunca será bem acabado. Seus pais seguirão pela vida mancando sua perda irreparável.
O trabalho do luto passa por um lento processo de internalização da ausência. O sobrevivente é portador de uma massa de memórias, que é a verdadeira herança a ser inventariada. Com o passar dos anos, essas lembranças vão perdendo a vivacidade, migrando de dentro da dor para os pensamentos, sonhos e pesadelos do enlutado. Isso demora porque num primeiro momento sentimos que essas lembranças ainda estão com aquele que morreu e, para reter esse valioso resto, fundimo-nos imaginariamente com ele. Podemos até dizer que no início ele praticamente nos arrasta para o reino dos mortos.
Aos poucos e de má vontade, iniciamos uma transição para a superfície, onde tudo parece seguir seu curso normal. É chocante perceber a persistência do cotidiano das ruas, como se nosso ser amado nunca tivesse existido. Subimos e vagamos entre os vivos, com as memórias ainda latejando, fingindo que somos normais. Lentamente essas evocações fantasmagóricas vão sendo incorporadas e o sofrimento se suaviza, assumindo tons pastéis.
Aos corajosos pais dos jovens mortos em Santa Maria, cuja perda agora aniversaria dois anos, só posso desejar que tenham encontrado com quem compartilhar suas caixas vazias. Mesmo que avariadas, como suas almas feridas, elas são muito valiosas por dentro.

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