Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Artigo| UM PREÇO MUITO ALTO

31 de janeiro de 2015 0

marcosRolim

MARCOS ROLIM
Jornalista e sociólogo
marcos@rolim.com.br

 

 

Os neurocientistas James Olds e Peter Milner se tornaram populares pelo trabalho pioneiro com implante de eletrodos no cérebro de ratos, na década de 50. Em seus estudos, eles fizeram com que roedores acionassem alavancas para autoestimulação por descargas elétricas. Outros cientistas passaram a usar drogas nestas experiências, observando que as cobaias presssionavam as alavancas centenas de vezes, como se estivessem totalmente submetidas. Desde então, tornou-se comum conceber a adição como um processo de sequestro absoluto da vontade (disease model of drug addiction), uma dinâmica que não seria, em síntese, compatível com escolhas racionais. Esta compreensão passou a legitimar o proibicionismo e a política de “Guerra contra as Drogas”.
Nos anos 70, entretanto, o psicólogo canadense Bruce Alexander e seus colegas da Simon Fraser University chamaram a atenção para o fato de que ratos são animais extremamente sociais e que, em laboratório, ficam isolados e submetidos a intenso estresse. As reações dos animais tenderiam a ser diferentes no ambiente natural. Os pesquisadores criaram, então, outro experimento, conhecido como o “Parque dos Ratos”, um espaço de 8.8 m2 para vários ratos, machos e fêmeas, com comida abundante, brinquedos, cantos escuros etc. Ali, disponibilizaram uma fonte de água pura e outra, adoçada, com morfina. O resultado é que os ratos do parque preferiam água pura. O mesmo resultado foi observado em experiências com cocaína e anfetamina. 94% dos ratos preferiam água adoçada à cocaína intravenosa. Na mesma linha, em seu impactante livro “Um preço muito alto” (Zahar, 2014, 326 pg.), Carl Hart relata as experiências que conduziu na Universidade de Colúmbia com pessoas que usavam crack diariamente, demonstrando que, em determinadas condições, usuários escolhem alternativas benéficas ao invés de uma nova dose. As evidências encontradas permitem questionar a ideia de que a adição possa ser compreendida apenas como decorrência do uso de drogas. Antes disso, seria preciso considerar a vida das pessoas, suas relações, perspectivas etc. Esta abordagem têm estimulado programas de atenção à drogadição com técnicas de “Gerenciamento Contingencial”, bem mais efetivas que programas do tipo “12 passos” (como o empregado nos grupos de AAs) no tratamento da dependência de opióides, álcool, cocaína e crack.
Hart questiona os mitos de um saber anquilosado e autoritário. Nascido em uma família pobre, com oito irmãos, e cercado pela violência doméstica, pelo tráfico e pelo racismo, sabe das muitas dimensões a serem consideradas quando se discute política de drogas. Seu livro é simplesmente imprescindível. Confiram.

Envie seu Comentário