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Posts de maio 2015

Artigo| RIDÍCULOS SEM BÚSSOLA

30 de maio de 2015 3

Flávio TavaresFLÁVIO TAVARES

Jornalista e escritor
Nada é pior do que aquelas situações em que o ridículo esconde o absurdo ou o crime. O perigo torna-se profundo quando o tom de tudo é palhacesco e nos confunde, sem saber se devemos rir ou chorar, dar gargalhadas pelo disparate ou nos entristecer de raiva.
É o caso do “shopping” da Câmara dos Deputados, que seu presidente, Eduardo Cunha, do PMDB, fez entrar de contrabando na medida provisória do ajuste fiscal. Se a presidente Dilma não vetar a esdrúxula decisão (que o Senado também aprovou) seremos o primeiro país do mundo em que o Parlamento será centro de compra e venda.
Ou estou errado e, apenas, vão oficializar algo que já existe? A ideia de Cunha habilita vender no varejo (direto ao consumidor) o que parlamentares e políticos já fazem no atacado, negociando votos. Por acaso, a maioria das fraudes que a Polícia Federal e o Ministério Público investigam todo dia não se origina no núcleo político?
O “Parla-shopping” só vai “democratizar” os fornecedores, vendendo roupas de marca e eletrônicos em vez de votos apenas…
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Se nada é pior do que o ridículo perigoso, nada é melhor do que a “maquillage”, (escrita em francês, original de maquiagem) para disfarçar a sabujice e adulação. Horas depois das prisões, na Suíça, de dignatários do futebol do continente americano, a Confederação Brasileira de Futebol retirou da fachada da sede o nome de José Maria Marin, que em imensas letras de aço brilhavam dia e noite, como sol e luas. A “sede José Maria Marin” da CBF já não tem nome!
O próprio Marin é veterano bajulador do poder. Deputado estadual em São Paulo durante a ditadura, foi instigador da “punição exemplar” ao diretor de notícias da TV Cultura, Vladimir Herzog, preso e morto sob tortura em 1975. Em furiosos discursos na Assembleia, alegava que a emissora estatal não cobria inaugurações de obras… Depois, quando o delegado Sérgio Fleury (que passou à História como torturador-mor) foi condenado pela Justiça por executar presos comuns, Marin foi seu grande defensor.
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O futebol nos apaixona mas, também, nos confunde e acovarda. Se a maré global não nos arrastar, ficamos inertes na areia. Agora, nossos brios só vieram à luz após o FBI e a Procuradoria de Justiça dos EUA desvendarem que a corrupção na FIFA envolvia, pelo menos, dois brasileiros. O Senado, de um lado, a Polícia Federal e o
procurador-geral Rodrigo Janot, de outro, entrarão no assunto, anunciou o próprio ministro da Justiça.
Ironicamente, outra vez os EUA ditam as regras. Se não fosse por eles, continuaríamos desatentos e servis à CBF, tal qual seguimos sem saber o que houve por trás das bilionárias obras da Copa do Mundo, realizadas sem licitação pelo tal RDC, “regime diferenciado de contratação”, onde $ó há bon$ amigo$.
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O assalto à Petrobras foi (ou é) tão profundo que viramos zumbis tontos, sem entender como o trio PT-PMDB-PP organizou-se em quadrilha. A desfaçatez dos grandes empresários envolvidos, confessando como corrompiam, supera a literatura universal do absurdo _ do teatro de Ionesco e Becket ao romance de Kafka.
Agora, a República depende dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara Federal, Eduardo Cunha, ambos do PMDB e sob suspeita nas fraudes da Petrobras. A presidente Dilma entregou a articulação do governo ao vice Michel Temer (também do PMDB) e saiu de cena.
Em plena crise mundial, a ânsia da oposição se alia ao sensacionalismo da imprensa e (querendo ou não) passa a ideia de caos. Assim, perdemos a bússola. E, em vez de contar com os quatro pontos cardeais, decidimos como se houvesse apenas abismos.
O perigo é sermos levados ao suicídio antes que a crise (real ou inventada) nos mate.

MOISÉS MENDES| O deboche

30 de maio de 2015 2

moisesmoises.mendes@zerohora.com.br

José Maria Marin é o mais vistoso exemplar das figuras da ditadura que ainda prosperam, bajulam, são bajuladas, corrompem, são corrompidas e circulam impunemente. Marin é um deboche com a Polícia, o Ministério Público, a Justiça e o jornalismo.
O homem preso na Suíça prestou grandes serviços aos militares golpistas. Uma de seus feitos, como deputado paulista pela Arena, foi denunciar a TV Cultura _ mantida pelo Estado _ como uma instituição que não correspondia aos anseios do regime. Insinuava que a TV havia sido tomada por comunistas dedicados a conspirar contra o governo.
Um discurso de Marin, no dia 7 de outubro de 1975, apontava na direção de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da Cultura, que passou a ser investigado pela polícia política. No dia 24, Herzog foi preso no DOI-Codi, o porão da repressão. Um dia depois, foi encontrado enforcado na cela.
Ivo Herzog, filho de Vladimir, não tem dúvidas de que Marin perseguiu seu pai e inspirou o assassinato, mantido por décadas pelos chefes dos criminosos sob a farsa de suicídio. Depois, de maio de 1982 a março de 1983, Marin foi governador nomeado de São Paulo, em substituição, vejam só, a Paulo Maluf. Presidiu a Federação Paulista de Futebol de 1982 a 1988 e foi, acreditem, no início da redemocratização, chefe da delegação brasileira na Copa de 1986 no México.
Andou fora da política e do futebol por um tempo, até ser eleito vice-presidente da CBF e, há três anos, assumir o comando da federação, com a renúncia de Ricardo Teixeira (que fugiu para Miami, depois de uma série de denúncias de corrupção).
Em janeiro de 2012, na cerimônia de premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior, Marin enfiou no bolso uma das medalhas que deveria entregar a um atleta. Foi flagrado pela TV, e o roubo ganhou tratamento de fato humorístico por boa parte da imprensa. No ano passado, refestelou-se pelo mundo como presidente do Comitê Organizador da Copa no Brasil.
O jornalista Juca Kfouri contou em fevereiro deste ano que ele roubava até energia elétrica do prédio em que mora em São Paulo. O porteiro do prédio sabe bem quem é Marin. O porteiro do prédio da CBF também. O roupeiro da CBF, o massagista da Seleção, todos sabem quem é Marin.
Mas poucos têm a coragem de um Kfouri para defini-lo como o “personagem bizarro”, que elogiava até torturadores em seus discursos como deputado. Corria por debaixo das mesas das redações, pelas conversas em hotéis que hospedam a Seleção e pelas trocas de e-mails pela internet que Marin era tudo o que o FBI já sabe que é. Ninguém incomodava sua impunidade e tampouco a vida mansa de seus amigos João Havelange e Ricardo Teixeira.
Faltam uma Polícia, um Ministério Público e um juiz Sergio Moro na vida de José Maria Marin. Assim como faltou jornalismo, para que Marin fosse formalmente identificado como corrupto, antes da ação dos investigadores suíços e americanos. Aqui, as suspeitas contra o sujeito eram apenas curiosidades compartilhadas quase como folclore.
Marin é a excrescência dos que ajudaram a sustentar a ditadura e conquistaram cumplicidades para desfrutar do prestígio sempre renovado pelo dinheiro e pelo gangsterismo do futebol. Alguém terá de assumir aqui a continuidade do trabalho iniciado pelo FBI, para que os cupinchas de Marin saiam da toca, ou a direita brasileira só conhecerá cadeia na Suíça.

Artigo| DR. JEKYLL E MR. HYDE ESTÃO NAS REDES

30 de maio de 2015 1

Marcelo Rech blogMARCELO RECH

JORNALISTA DO GRUPO RBS
marcelo.rech@gruporbs.com.br

O ministério do bom senso adverte: excesso de rede social faz mal. Se você passa metade de seu dia atualizando perfis, replicando conteúdos de terceiros ou despejando comentários sobre comentários enfurecidos sobre tudo e todos, é hora de refletir: qual o legado desta atividade para a civilização, quanto de conhecimento útil e conteúdo original está sendo produzido e, no fundo, quanto isso está opilando ou desopilando seu fígado?
Transito por redes sociais desde que elas se chamavam BBS (seu avô tecnológico deve lembrar) e rodavam em carroças com impressionantes 512 kb de memória RAM. Passei pelos grupos de discussão, pelo Geocities, MySpace e o finado Orkut. Como se vê, rede social é um fenômeno digital antigo, embora com um conceito sempre renovado: conectar pessoas, reforçar laços, transformar o planeta em uma gigantesca e vibrante praça pública.
As redes foram e serão cada vez mais transformadoras e definidoras de um novo mundo, e isso é espetacular. Tenebroso é quando elas sugam os cérebros e a vida real que deve ser vivida lá fora. Ou seja, usadas com moderação e discernimento, mídias sociais são um elemento agregador e enriquecedor na vida de qualquer pessoa. Já o uso abusivo e irresponsável, como ocorre com a velocidade, açúcar ou álcool, se converte em vício destruidor. O usuário perde a noção, e, como se fora um doutor Jekyll em bits e bytes, passa a sofrer de um transtorno que transmuta doces avozinhas ou sensatos pais de família em serial killers digitais, dispostos a fuzilar impiedosamente reputações alheias e opiniões contrárias.
As mídias sociais aceleraram a difusão de informação (o Twitter é extraordinariamente eficaz neste sentido), mas também se tornaram a ponta-de-lança da desinformação. Sem filtros de qualidade e credibilidade, sem hierarquia e sem critérios de checagem de veracidade, boa parte do território virtual virou um ringue no qual o vale-tudo se aproveita da boa-fé dos usuários para espalhar invencionices e teorias conspiratórias. Quando se trata de fisgar a atenção dos incautos com o recurso de conteúdos BBB (a popular trinca “bichinhos, bizarrices e bumbuns”) os danos são causados apenas aos intelectos. Mas quando as desinformações atingem a economia e a política ou se somam ao discurso do ódio entre povos, religiões e valores distintos, a cizânia erode a sociedade e instala o retrocesso social. O antídoto para a desintoxicação é dar menos importância às redes, ir ler um bom livro ou apenas tomar um vento no rosto. A humanidade e você sairão ganhando.

SENTENÇAS

30 de maio de 2015 0

ChicoCHICO BUARQUE
Músico e escritor, em entrevista ao jornal El País
“Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.

Artigo| TAXISTAS X CLANDESTINOS

30 de maio de 2015 0

Flavia MoaresFLAVIA MORAES

Cineasta
flavia.moraes@gruporbs.com.br
Naquele dia, o trânsito em São Paulo estava pior, como se fosse possível o pior piorar ainda mais. O rádio informava que 400 motoristas de táxi tinham saído em uma carreata que parou a cidade em protesto ao UBER.
Trancada na marginal, ouvi a declaração do presidente da Associação Brasileira das Associações e Cooperativas de Táxi: “Nós somos contra o transporte clandestino de passageiros. São carros particulares prestando serviço de táxi, o que a legislação não permite.”
As fotos na internet, mostravam os motoristas vestidos com coletes azuis onde se lia “TAXISTAS VERSUS CLANDESTINOS” e também não faltavam cartazes: “DILMA, ACABA COM ELES”, “FORA UBER!!!”, “O TÁXI É REGULAMENTADO PELA PREFEITURA, QUEM REGULAMENTA O UBER?”
A empresa rebateu dizendo que “acredita que os brasileiros devem ter assegurado o seu direito de escolha para se movimentar pelas cidades”. E que não é uma empresa de táxi, muito menos fornece este tipo de serviço, e sim uma empresa de tecnologia que criou uma plataforma que conecta motoristas parceiros particulares a usuários que buscam viagens seguras e eficientes e que, portanto, a questão do fora da lei é discutível.
A verdade é que falar de regulamentação hoje no Brasil virou uma grande piada, infelizmente de muito mau gosto. Se por regulamentado entende-se um mercado negro de licenças vendidas com ágio e que ainda coloca nas ruas alguns táxis caindo aos pedaços e motoristas tão perigosos quanto, então, por favor, eu quero sim um carro clandestino!
Isso me faz lembrar dona Rosa, que trabalha comigo e que também é uma espécie de presidenta da Associação Brasileira das Associações dos Maranhenses em São Paulo. Os maranhenses usam um serviço clandestino de ônibus que chamam de… Clandestino, claro.
O Clandestino chega sempre num lugar secreto e num horário incerto, divulgado apenas nos celulares dos seus usuários só no finalzinho da viagem. Ele vem carregado de gente, peixe frito e “jussara”, como eles chamam, o açaí. Por que usam o Clandestino? Porque todos se conhecem, é mais barato e funciona. Os maranhenses devem vir de São Luís a São Paulo comendo peixe, bebendo açaí e se divertindo com os amigos.
De volta ao UBER, quero dizer que sou cliente já há algum tempo. Meu cadastro foi feito em L.A. e uso o mesmo serviço em qualquer lugar dos Estados Unidos e em outros países, inclusive no Brasil. Os carros são impecáveis e têm até amortecedor! Os bancos, sempre de couro, são limpos e os motoristas não só abrem a tua porta e te ajudam com a bagagem, como dizem bom dia, até logo e muito obrigado.
Além disso, você não toca em dinheiro, seu cartão de crédito já foi cadastrado e você sai do carro sem precisar abrir a bolsa para pegar a carteira e, consequentemente, deixar cair o celular. O recibo e o mapa mostrando o valor e o percurso vêm via e-mail e é perfeito para você controlar as suas despesas.
Além disso, você avalia o motorista e vice-versa. Motoristas que recebem pontuação baixa mais de três vezes perdem a licença e, imagino, os maus passageiros também.
Meu artigo de hoje até parece matéria paga, certo? Mas não vendi a coluna, não; não sou sócia do Uber, aliás, quem me dera, nem tenho nenhuma vantagem com esse texto a não ser defender a modernização de serviços e qualquer sistema inteligente que melhore a minha qualidade de vida.
Estamos vivendo um tempo em que a tecnologia pode, sim, fazer uma grande diferença, mas precisamos nos desprender de velhos modelos que já não têm mais sentido e que agonizam protegidos por discursos corporativistas e enferrujados.
Pense por um minuto: 60% das profissões e das marcas que conheceremos em 2020 ainda não existem!! Ou seja, acorde, reinvente-se!!! Qualquer pessoa pode e deve inovar. Em Porto Alegre, esse é um assunto crítico, inovação também é, mas estou falando de transporte público.
A nossa frota de táxi, com honrosas exceções, é tosca! Alguns carros não têm sequer a espuma do banco e, no lugar do estofamento, eles trazem uma capa que mais parece um cativeiro de ácaros. E você vai entre eles, os ácaros, ouvindo aquela voz anasalada no rádio, recitando nomes e endereços numa espécie de rap do inferno.
E pensar que há poucas semanas, quando entrei num carro preto em L.A., o motorista ouvia Sharon Jones, exatamente a música que tocava antes de eu sair de casa. Não foi coincidência, os caras estão lançando uma tecnologia que te permite seguir ouvindo o teu playlist do Spotfy durante a viagem. Ou seja: tudo é pensado para e pelo passageiro.
Por sorte, novas empresas estão entrando no mercado e se propõem a oferecer um serviço melhor. Se você é motorista, informe-se. Se é passageiro, faça um cadastro e prestigie, pois elas só ganham se você usar o aplicativo e pagar on-line.
Quer saber outro capítulo da série CARROS BRANCOS X CARROS PRETOS?
No Unique, em São Paulo, rolou uma festa bacana e todos os bacanas da cidade pediram um carro executivo, afinal, não só é chic descer de um flamante carro preto, como é melhor ainda poder beber à vontade sem colocar em risco a vida de ninguém.
Naquela noite, todos os motoristas do UBER estavam ocupados. Na tentativa de estragar a festa, um grupo de taxistas bloqueou com seus carros a rua que dá acesso ao hotel e ameaçava qualquer carro preto com chaves de roda e tacos de beisebol. As pessoas foram obrigadas a descer dos carros e caminhar até o Unique. Mas, na saída, ninguém usou os táxis brancos.
A carreata de táxi, que resultou semanas depois em uma interdição dos serviços dos carros executivos por alguns dias, acabou sendo uma grande campanha de lançamento do Uber em São Paulo. Naquele dia. milhares de pessoas se perguntavam: “Que raios é Uber? “A” Uber ou “O” Uber??
Centenas experimentaram o serviço pela primeira vez. A ou O UBER bateu record de chamados. Assim funciona o novo mundo.

Flavia Moraes escrevemensalmente neste espaço

 

Editorial| A FIFA E O DESAFIO DO JOGO LIMPO

30 de maio de 2015 0

EditsabConfiança, respeito, fair play e espírito esportivo são os compromissos assumidos pelo suíço Joseph Blatter, eleito para o seu quinto mandato no comando Federação Internacional de Futebol, mais conhecida pelo acrônimo Fifa. Trata-se, como é sobejamente conhecido, de uma das organizações privadas mais influentes da atualidade, por gerir o esporte mais popular do planeta e reunir associações, ligas, clubes, atletas, árbitros e dirigentes de todos os continentes. Blatter foi reeleito no momento mais delicado da história centenária da entidade, em meio a um escândalo de corrupção que já levou à prisão oito de seus principais integrantes, entre os quais o ex-presidente da CBF José Maria Marin.

A Fifa é poderosa demais, lida com quantias fabulosas de recursos e não presta contas a ninguém, a não ser aos seus próprios acólitos, invariavelmente participantes do jogo de interesses pessoais e políticos desenvolvido longo dos olhos do público. Por isso Blatter reassume sob total suspeição, com oposição declarada da poderosa União Europeia de Futebol (Uefa), que pediu a sua renúncia por meio de seu presidente, o ex-jogador Michel Platini.
O grande desafio de Joseph Blatter, portanto, será manter íntegra a entidade e recuperar sua credibilidade, atingida fortemente pela investigação que apurou desvios de milhões de dólares em propinas na relação com patrocinadores e na definição de sedes das duas próximas Copas do Mundo. Mais do que nunca, a Fifa terá que fazer uso de seu próprio slogan para as competições que promove e jogar realmente limpo, dando transparência às suas ações, submetendo-se a auditorias externas e devolvendo ao futebol o encanto que os dirigentes desonestos vêm roubando reiteradamente.

 

 

Editorial| O FOCO DOS PROTESTOS

30 de maio de 2015 0

Trabalhadores que, sob o comando de entidades sindicais de diferentes categorias dos setores público e privado, paralisaram parcialmente ontem suas atividades por um determinado período, valeram-se do direito assegurado à livre manifestação. Ainda assim, erraram o alvo dos protestos, que acabaram se voltando contra a população, e exageraram na dose, ao descumprirem princípios legais elementares no caso de serviços públicos. Os prejuízos coletivos só não foram maiores porque a sociedade foi tolerante, adotando medidas de precaução, e porque as autoridades de segurança exercitaram ao máximo sua capacidade de negociação.

É compreensível que, diante de rígido ajuste fiscal e das providências necessárias para garanti-lo, líderes sindicais se mobilizem com a intenção de reduzir o ônus para os trabalhadores. Ainda assim, o foco da contrariedade a decisões do Planalto, em exame pela Câmara, não deveria ser os usuários dos serviços descontinuados. E o que se viu ontem, mais uma vez, foi a população transformada em vítima.
A legislação garante o direito a manifestações pacíficas, como, de maneira geral, se caracterizaram as de ontem. É compreensível também que bloqueios de trânsito, interrupção do transporte público e de outros serviços essenciais sirvam para dar visibilidade à pauta do movimento. Ainda assim, esses atos não são suficientes para alterar a tramitação de projetos no Congresso e não compensam os enormes prejuízos causados a toda a sociedade.

 

 

Artigo| QUERO SER JURADO DE REALITY SHOW

30 de maio de 2015 0

TICIANO OSÓRIO

Editor de ZH
ticiano.osorio@zerohora.com.br

Se dessem a oportunidade de desempenhar, por algum tempo, outro papel, qual você escolheria: jogador de futebol? Atriz de Hollywood? Presidente da República? O meu sonho é ser jurado de um programa de TV culinário. Jurado de uma temporada inteira, vale frisar, e não apenas um convidado especial. Requisitos para tanto me faltam _ não tenho o conhecimento nem a técnica, só me sobra (e como sobra!) o apetite.
Daí que assistir a programas como Top Chef e Hell’s Kitchen torna-se uma doce tortura. Como forma de aplacar a gula, prostro-me diante da TV com fatias de pizza ou pedaços de chocolate à mão, mas, evidentemente, a saciedade é ilusória (afinal, sequer posso sentir o calor e o cheiro que emanam de um churrasco texano). Nesta semana, quase aniquilei uma barra de Opereta enquanto via o segundo episódio da nova temporada de MasterChef Brasil. Que é um raro reality show brasileiro em que os jurados não dão sopa para os competidores _ curiosamente, dois dos três avaliadores são estrangeiros: a argentina Paola Carosella e o francês Erick Jacquin. Minha mulher ficou chocada com a rispidez de alguns comentários, a grossura de algumas reprimendas, contrabalançadas por tiradas supimpas _ quando um bonitão chegou dizendo que ia preparar especialmente para o chef Henrique Fogaça um risoto de linguiça de javali, Paola e Jacquin se retiraram, o francês lembrando ao candidato que ele “precisa de dois votos para passar”. Aliás, Jacquin é o rei das boutades. Na prova da carne de porco, diante de uma concorrente que resolveu preparar um “porcotó”, ele sentenciou: “Parabéns, você é mágica. Conseguiu desaparecer o ingrediente principal”.
Duvido que Paola, Jacquin e Fogaça sejam tão cruéis nas suas cozinhas. Permitem-se no MasterChef, em nome do conflito e da tensão, necessários em um reality show. Do lado de cá da TV, quem de nós seria capaz de dizer verdades com tanta acidez? Refazendo a pergunta: quem de nós não gostaria de ser capaz de dizer verdades com tanta acidez? Apetite, de novo, não falta.
Só que, em nome da civilidade e do respeito, necessários na vida real, não dizemos _ ao marido, à namorada, ao chefe, ao subordinado, à vendedora da loja, ao taxista _ nem metade do que nos passa pela cabeça. Somos, muitas vezes, falsos ou condescendentes. Cozinhamos em banho-maria o assunto principal, dosamos palavras para não ferir sentimentos (e não sermos vistos como um Gordon Ramsay sem dólmã) _ até quando o que o interlocutor mais deseja é que lhe sirvam sinceridade. Este texto, por exemplo. Pedi para alguns colegas que o revisassem, que apontassem problemas. Mas será que todos disseram o que realmente acharam? Será que meu prato não tinha de voltar para o forno? O que a Paola da TV diria para mim?

 

 

Artigo| HUMANIZA REDES É SERVIÇO À CIDADANIA

30 de maio de 2015 2

PEPE VARGAS

Ministro da Secretaria de Direitos Humanos

O Pacto Nacional pelo Enfrentamento às Violações de Direitos Humanos na internet (Humaniza Redes) foi concebido para atender a uma demanda da sociedade brasileira, diante do aumento das violações recebidas em denúncias pelos canais convencionais de defesa dos direitos humanos. Nos últimos anos, foram cerca de 3,8 milhões de denúncias desse tipo que chegaram pela ONG SaferNet.
Portanto, o Humaniza Redes é um serviço público para atender aos cidadãos e cidadãs brasileiros, e não para proteger o Estado e o governo. A iniciativa está baseada em três pactos, o da prevenção, o da segurança e o da denúncia. São seis ministérios envolvidos, além da parceria com os grandes grupos e sites da internet (como Google, Facebook e Twitter) e com as companhias de telefonia. Também apoiam o Humaniza Redes a OAB, o Unicef, a Unesco, a SaferNet, a Abert, o CNJ, entre outros organismos da sociedade civil e do sistema internacional.
Serão desenvolvidos programas e campanhas para orientar aos usuários da internet, com foco nas crianças e na juventude, de como evitar as violações dos direitos humanos no mundo virtual. Programas e campanhas também serão desenvolvidos para orientar os usuários a navegarem com mais segurança e não se exporem a criminosos que atuam nas redes, como os pedófilos.
O pacto pela denúncia, um dos três da iniciativa, nada mais é do que garantir, em um mesmo site, a possibilidade de o cidadão denunciar agressões que tenha sofrido, seja no mundo virtual, seja no real. A partir da denúncia, as ouvidorias dos ministérios que fazem parte do programa encaminharão a mesma aos canais legais e já existentes para tratar do tema. Sendo necessário, no caso de uma ameaça de morte, o sistema de proteção será acionado. E, sendo o caso de suspeita de crime, os órgãos policiais é que serão acionados.
O Humaniza Redes não é um tribunal nem um órgão censor: ele não tem prerrogativa, nem poderia ter, para retirar conteúdo, site e rede social da internet. Ele pretende, isso sim, prevenir as violações dos direitos humanos, em qualquer lugar em que elas ocorram. Também pretende contribuir com a segurança dos internautas. E dar encaminhamento aos órgãos existentes e competentes para denúncias recebidas.
Ajude o Humaniza Redes a tornar a internet um ambiente de respeito aos direitos humanos.

Artigo| PREZADO FUMANTE

30 de maio de 2015 0

LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA

Médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

Inicialmente, faz-se necessário esclarecer ao leitor não fumante que também estou me dirigindo a ele, pois o tabagismo atinge a todos, direta ou indiretamente. Também justifico esta manifestação por ser um médico que há mais de quatro décadas assiste pessoas com problemas de saúde relacionados ao tabaco. Isto me leva ao contato direto com as consequências do tabagismo e ao compromisso de me posicionar e atuar junto à comunidade através de informações, ações e apelos dirigidos a quem ainda fuma.

Você sabe que cigarros fazem mal e gostaria de parar de fumar, mas ainda não conseguiu devido à ambivalência, isto é, ao confronto comportamental entre a consciência de querer parar e a dependência que o leva a fumar. Até aqui, a dependência tem vencido. Será que você não acredita que possa vencer esse desafio, literalmente vital?
Quando começou a fumar era muito jovem, não tinha ideia das consequências e curtia fumar junto com os amigos. Achava-se invencível e que ninguém tinha o direito de interferir nas suas vontades e impulsos. Provavelmente, ninguém o avisou que ficaria dependente e seria difícil parar. Não o alertaram dos danos que teria, e nem que os seus entes queridos também sofreriam. É possível que nem os médicos o tenham advertido ou aconselhado adequadamente, ou, se o fizeram, não conseguiram sensibilizá-lo. Para parar de fumar, não importa se você é jovem ou não, se já tem doença relacionada ao tabaco ou não, pois sempre terá muitos benefícios.
Você sabe que atualmente, no Brasil, a maioria dos fumantes parou de fumar? Que sua vida melhorou muito, e que ninguém jamais se arrepende de ter parado de fumar?
Se você é minimamente informado, também deve saber que o tabagismo, sendo uma doença, pode ser tratado. E o tratamento fundamenta-se na terapia cognitivo-comportamental, com ou sem o uso de medicamentos, dependendo de cada caso.
Aproveite o próximo 31 de Maio, Dia Mundial sem Tabaco, e diga um sim à vida. Não fume neste dia, e não se surpreenda se na manhã seguinte, sentindo-se melhor, ficará estimulado a não fumar por mais um dia, e mais outro, e mais outro, e assim sucessivamente em todos os próximos dias. É dessa forma que construirá sua reinserção no processo da vida.