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Artigo| QUERO SER JURADO DE REALITY SHOW

30 de maio de 2015 0

TICIANO OSÓRIO

Editor de ZH
ticiano.osorio@zerohora.com.br

Se dessem a oportunidade de desempenhar, por algum tempo, outro papel, qual você escolheria: jogador de futebol? Atriz de Hollywood? Presidente da República? O meu sonho é ser jurado de um programa de TV culinário. Jurado de uma temporada inteira, vale frisar, e não apenas um convidado especial. Requisitos para tanto me faltam _ não tenho o conhecimento nem a técnica, só me sobra (e como sobra!) o apetite.
Daí que assistir a programas como Top Chef e Hell’s Kitchen torna-se uma doce tortura. Como forma de aplacar a gula, prostro-me diante da TV com fatias de pizza ou pedaços de chocolate à mão, mas, evidentemente, a saciedade é ilusória (afinal, sequer posso sentir o calor e o cheiro que emanam de um churrasco texano). Nesta semana, quase aniquilei uma barra de Opereta enquanto via o segundo episódio da nova temporada de MasterChef Brasil. Que é um raro reality show brasileiro em que os jurados não dão sopa para os competidores _ curiosamente, dois dos três avaliadores são estrangeiros: a argentina Paola Carosella e o francês Erick Jacquin. Minha mulher ficou chocada com a rispidez de alguns comentários, a grossura de algumas reprimendas, contrabalançadas por tiradas supimpas _ quando um bonitão chegou dizendo que ia preparar especialmente para o chef Henrique Fogaça um risoto de linguiça de javali, Paola e Jacquin se retiraram, o francês lembrando ao candidato que ele “precisa de dois votos para passar”. Aliás, Jacquin é o rei das boutades. Na prova da carne de porco, diante de uma concorrente que resolveu preparar um “porcotó”, ele sentenciou: “Parabéns, você é mágica. Conseguiu desaparecer o ingrediente principal”.
Duvido que Paola, Jacquin e Fogaça sejam tão cruéis nas suas cozinhas. Permitem-se no MasterChef, em nome do conflito e da tensão, necessários em um reality show. Do lado de cá da TV, quem de nós seria capaz de dizer verdades com tanta acidez? Refazendo a pergunta: quem de nós não gostaria de ser capaz de dizer verdades com tanta acidez? Apetite, de novo, não falta.
Só que, em nome da civilidade e do respeito, necessários na vida real, não dizemos _ ao marido, à namorada, ao chefe, ao subordinado, à vendedora da loja, ao taxista _ nem metade do que nos passa pela cabeça. Somos, muitas vezes, falsos ou condescendentes. Cozinhamos em banho-maria o assunto principal, dosamos palavras para não ferir sentimentos (e não sermos vistos como um Gordon Ramsay sem dólmã) _ até quando o que o interlocutor mais deseja é que lhe sirvam sinceridade. Este texto, por exemplo. Pedi para alguns colegas que o revisassem, que apontassem problemas. Mas será que todos disseram o que realmente acharam? Será que meu prato não tinha de voltar para o forno? O que a Paola da TV diria para mim?

 

 

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