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Artigo| A LONGA VIDA DOS MORTOS

27 de junho de 2015 0

Flávio Tavares

FLÁVIO  TAVARES
Jornalista e escritor

 

A falta que já sentimos de Nico Fagundes me leva a falar dos mortos. Muitas vezes os vivos estão tão distantes e se portam como estranhos ou agem como larápios, que morrem para o dinamismo do mundo e da vida. Assim, para guiar nossos passos sobram só os ausentes e o que nos legaram. Antônio Augusto Fagundes, o Nico, herdou até o nome do primeiro deles _ Antônio Augusto Borges de Medeiros, que tirou o Rio Grande da luta fratricida e abriu caminho à convivência entre os contrários. Hoje, é só nome de rua!
O Rio Grande pouco se valoriza? Quem viu apenas o violão, os versos e a voz de Nico (ou dos Fagundes), nada viu. A cultura e a História rio-grandense alcançaram o povo por ele e pelos que estiveram a seu lado. Sem eles, o “grande público” não teria noção do passado. Seríamos ainda mais alienados e tolos do que hoje, quando qualquer estrangeirismo grosseiro, vulgar e gritão se põe de moda e é aplaudido (em prosa ou verso) na repetição contínua dos meios de comunicação.
Nasci seis meses antes de Nico, em 1934, e nos conhecemos 20 anos depois. No ano passado, ajudei a empurrar a cadeira de rodas em que saiu do hospital Moinhos de Vento. Não esperava, porém, vê-lo tão cedo entre os gaúchos do Século 20 que nos legaram o melhor de si mas já não estão aqui.
A perda de Nico me faz sentir ainda mais a falta dos que partiram. Para ficar só nos amigos – saudades de Erico Verissimo e do raciocínio exato de Décio Freitas. Ou da autenticidade de Brizola, tão oposta à politicalha atual. E, na ciência, de Tuiskon Dick, meu companheiro de infância. Ou de Moisés Tractemberg, que abriu portas à psicanálise. Ou de Carlos e Moacyr Scliar, de Bianchetti, da poesia de Lila Ripoll e Lara de Lemos. E tantos mais…
E, como Nico, ainda dois alegretenses. Ruy Ramos, grande tribuno numa época em que a palavra revelava verdades, morto com a esposa em acidente aéreo em 1962. E o coronel Alfeu Monteiro, destituído do comando da Base Aérea de Canoas com três tiros pelas costas após o golpe direitista de 1964.

***

Na saudade dos mortos, os vivos fazem (infelizmente) só o contraponto da incerteza e da dúvida.
Os escândalos se multiplicam. Amontoam-se uns sobre outros, como se viver fosse enganar e roubar. O país virou imensa “delegacia de Polícia” investigando-se a si próprio sem chegar ao nascedouro do crime.
No setor público, a corrupção é antiga. Agora tudo vem à tona porque se investiga _ o Ministério Público denuncia, o juiz manda prender e a Polícia Federal cumpre. Os ladrões já não se amparam no “segredo de Justiça”, como aqui no Sul na roubalheira da CEEE, de 1987, no governo Pedro Simon, do PMDB. Em conluio com empresas (como no Petrolão), roubaram mais de R$ 700 milhões em moeda atual, mas não houve presos nem sentença e o processo repousa no tribunal, prestes a prescrever.
E se o procurador de Justiça nomeado pelo governador Sartori, do PMDB, imitasse (no caso da CEEE) o procurador Federal no caso da Petrobras?

***

Mas tampouco a área federal está livre de pecado. O ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, do PT, rebelou-se contra a prisão dos diretores da Odebrecht e da Andrade Gutiérrez, em aberta intromissão à independência do juiz. Busca evitar que delatem algum chefe maior?
O gesto animou o advogado dos empresários. Agora, quando a Polícia Federal revelou o bilhete manuscrito em que (da prisão) Marcelo Odebrecht manda “destruir” determinada correspondência, seu advogado sustentou que “destruir não é desfazer”, mas sim “esclarecer o conteúdo da mensagem” que mandou destruir…
E o disse pela TV, sem qualquer nesga de pudor pela falsidade absoluta, para o país inteiro conhecer a semântica obscena com que os falsários nos comandam.
Se os vivos são o que são, que a longa vida dos mortos nos guie pelo exemplo!

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