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Artigo| O DELATOR DE COPACABANA

22 de agosto de 2015 0

Marcelo Rech blogMARCELO RECH

Jornalista do Grupo RBS
marcelo.rech@gruporbs.com.br

O cenário, nas areias da Praia de Copacabana, parecia extraído de um filme de espionagem da Guerra Fria. Em novembro de 1971, em pleno regime militar, o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, dono da CR Almeida, armou um flagrante contra o governador nomeado do Paraná, Haroldo Leon Peres. Para se precaver, o governador havia marcado o encontro na praia. Cecílio apareceu em trajes de banho, mas escondera em uma carteira de cigarros um transmissor que captou a conversa, na qual Leon Peres exigia o equivalente a quase U$ 6 milhões hoje.
Assim que o general-presidente Médici tomou conhecimento da chantagem, mandou um aviso: ou o governador renunciava ou seria cassado. Leon Peres resistiu por três semanas. Sob censura férrea, o país não compreendeu a renúncia. A revista Veja chegou a produzir seis páginas com os detalhes do episódio, mas a edição não chegou às bancas: todos os exemplares foram apreendidos. Em entrevista 10 anos depois, o ex-governador se declarou vítima de “uma emboscada de traidores”. Já o dono da CR Almeida explicou que decidira gravar a conversa porque Leon Peres insistia em passar a propina de 4% para 30% por cento.
Agora, como o próprio Brasil de hoje, tudo é mais complicado. A presidente Dilma já declarou que não tem respeito por delatores. Freud explica, levando-se em conta os estragos na luta armada produzidos por alcaguetes infiltrados ou companheiros torturados. Mas a presidente, incomodada com os avanços da Lava-Jato sobre seus aliados atuais, deu a entender que as denúncias, extraídas sob a pressão física e psicológica das celas de Curitiba, deveriam ser desconsideradas. É uma tese acompanhada, ressalte-se, por juristas preocupados com as circunstâncias em que se obtêm as confissões. Mas aqui fica a pergunta: a presidente não respeita tão-somente os delatores que mandaram amigos do Pixuleco para trás das grades? Ou a ojeriza valeria também para a delação que originou a denúncia contra seu inimigo número 1, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha?
Cecílio do Rego Almeida e Leon Peres já morreram, mas legaram uma rara demonstração de que a delação pode fazer maravilhas para romper o silêncio obsequioso entre governantes corruptos e empreiteiras. Naquele caso, tratou-se da delação espontânea de um empreiteiro cansado de achaque. Apeado do governo, Leon Peres voltou a advogar e Cecílio a tocar suas obras, a Free Way, entre elas. Ninguém foi condenado. A gênese incestuosa entre larápios do erário e construtores espertos explodiu na Lava-Jato, mas diferentemente de 1971, o país agora pode, pelo menos, debater abertamente a delação e confiar que a Justiça, e não a vontade um homem só, fará justiça.

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