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Artigo| DESVENTURAS DO JACOZINHO

29 de agosto de 2015 0

 

Diana Corso novo

DIANA LICHTENSTEIN CORSO
dianamcorso@gmail.com
Psicanalista

 

 

“Por que não consigo controlar algo tão próximo, tão pequeno e tão simples?” O leitor não precisa ficar se perguntando quem ou o que é esse pequeno David, capaz de levar qualquer Golias a nocaute: é o pênis. Aliás, vulgo “Jacozinho”, para seu dono, o escritor Jacques Fux, autor do recém-lançado Brochadas (Ed. Rocco).
O prazer feminino é considerado um mistério. O clitóris, parte do corpo apenas devotada ao prazer, também é um assunto tabu e conta com um milésimo das denominações dedicadas ao órgão sexual masculino. A dificuldade surge quando o orgasmo delas é comparado com a mecânica da ejaculação, que pareceria tornar tudo visível e simplório. Pois é, mas o Jacozinho não pensa bem assim, ele tem ideias peculiares sobre com o que e quando sentir-se motivado. Seus mecanismos de prazer também são enigmáticos para o homem, o desejo parece assumir vida própria pela via da ereção ou da impotência, tanto que se diz que o homem pensaria com a cabeça de cima diferente da de baixo.
“Nós, homens, coitados, atados a imagens pornográficas, fetiches edipianos e a bundas e peitos, não conseguimos nem nos aproximar das inúmeras possibilidades de prazer feminino”, queixa-se Fux. Porém, nada disso seria uma grande questão se Jacozinho não negasse fogo quando bem entende, obrigando seu homem a tentar desvendar o que os move, a ambos.
O autor resolve enviar cartas para perguntar às mulheres, tanto àquelas com quem brochou quanto às que lhe produziram notória motivação sexual, mas que o deixaram, sobre o que aconteceu entre eles. As respostas, ficção com tintas de realidade ou vice-versa, dão oportunidade para que essas ex-parceiras acusem a inadequação de Jacques, como escritor e como amante.
Masculinidade e virilidade não são a mesma coisa, tanto quanto Jacques e Jacozinho não pensam em uníssono. O fenômeno da ereção levou tanto tempo para ser compreendido quanto o prazer feminino. Eram ideologicamente mais aceitáveis as teorias que associavam a virilidade à tonicidade de um corpo musculoso, rijo e guerreiro, e a pujança masculina reduzida apenas à existência de um membro e sua capacidade de penetrar.
Curiosamente, a função erétil também depende do relaxamento da musculatura lisa do pênis, ao contrário da tensão que seria considerada mais máscula. Estamos aqui no território perigoso do descontrole, da entrega, do desejo e da neurose. Além disso, a demanda contemporânea pede ao homem uma ereção duradoura, capaz também de garantir o prazer alheio. Alheia mesmo é a vontade do Jacozinho. Simone de Beauvoir disse que não se nasce mulher, torna-se. Para os que chegaram ao mundo com um pênis, duro mesmo foi constatar que não se nasce viril, e nem sempre torna-se.

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