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Artigo| LENIÊNCIA E "ILICITAÇÃO"

31 de agosto de 2015 0

CLÁUDIO BRITO
Jornalista
claudio.brito@rdgaucha.com.br

 

Sei que não vai mudar nada, sei que é irremediável, sei que é legal, mas isso não me proíbe o protesto. Falo dos acordos de leniência com as empresas envolvidas em fraudes, corrupção, desvios financeiros sem medida e rapina qualificada no dinheiro do povo brasileiro. É condescendência, é permissividade. Está para as pessoas jurídicas como a delação premiada para os criminosos. Lamentável. Funciona do mesmo jeito.
Leniente, permissivo, o Estado negocia com a empresa que abusou, que cometeu ilicitude. Para sobreviver, ela devolve um pedaço do que subtraiu do patrimônio público, ao seu sabor e tanto quanto lhe seja interessante. E sua sobrevivência vai permitir continuar realizando obras públicas. O Estado vai ajudar a empresa que antes o explorou e consumiu irresponsavelmente. Do mar de lama para uma nova licitação.
Melhor dizer que será outra “ilicitação”.
Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Evandro Bocão escreveram um samba que denominaram “Ilicitação” e que retrata muito bem essas verdades:
“Não me admirei/ quando mais uma vez eu vi na TV/ um parte-reparte, 100 pra mim, 100 pra você/ Ar condicionado, engravatado vai metendo a mão/ Na fila o pobre coitado é quem sofre o efeito da ilicitação.”
Os sambistas descrevem situações que denunciam crimes contra a saúde, segurança e educação, maiores anseios da população. E mostram indignação com a impunidade e a desfaçatez, versejando para indagar: “Como é que pode? Alguém viver e ter prazer em desfrutar da vida sem se arrepender afinal?”
Protesto legítimo, em samba dolente e muito bem feito. Tenho a mesma inquietude, sem a mesma inspiração para a poesia, mas com indignação idêntica. Se o preço da descoberta dos recônditos das organizações criminosas é a leniência, custará muito caro. Nossos prejuízos continuarão irreparáveis. Como pensar diferente? Ter que admitir criminosos negociando com o Estado? Só falta achar bonito e ainda agradecer a colaboração de quem antes surrupiou o que é de toda a sociedade para depois sair disso condecorado.

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