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Artigo| CONTA AMARGA

12 de setembro de 2015 1

marcosRolim

MARCOS ROLIM
Jornalista e sociólogo
marcos@rolim.com.br

 

O médico e ensaísta inglês Anthony Daniels _ mais conhecido como Theodore Dalrymple,  um dos seus pseudônimos  _  é, reconhecidamente, um intelectual conservador. Diante desta filiação, leitores que se consideram progressistas ou de esquerda tendem a não ler suas obras. O mesmo costuma ocorrer com os leitores situados à direita, que tampouco leem os autores que  lidam com outros paradigmas e valores. Nesta recusa e no desconhecimento que a antecede há uma perda imensa. Ficamos menores quando lemos apenas os que se alinham com nossas perspectivas. O critério básico para a leitura deveria ser não a concordância, mas a qualidade dos textos. As obras fundamentais, aliás,  sequer podem ser enquadradas sob os rótulos de “esquerda” ou “direita”, porque transcendem as unilateralidades presentes nas abordagens militantes.
O livro de Dalrymple Nossa cultura, ou o que restou dela… (É Realizações Ed., 397 pág) é uma coletânea com 26 ensaios com uma crítica ao que o autor denomina “degradação dos valores”. Vale muito ser lido. Discordo de algumas das posições sustentadas por ele. Para citar dois exemplos, me soa desarrazoada a ideia de que a licenciosidade moral nas obras de arte tenha cumprido papel destacado na indisciplina das crianças, o que conduz o autor a um flerte com a censura. Da mesma forma, sua posição contra a legalização das drogas me pareceu uma sobrevivência especulativa e não uma conclusão derivada logicamente dos seus argumentos. Não obstante, a honestidade intelectual e o esforço teórico em procurar captar aspectos não equacionados nas polêmicas em curso distinguem os textos e os tornam deliciosos. Trabalhos assim exigem muito mais dos que sustentam posições diferentes. Fosse essa a dinâmica do debate público, teríamos discussões não superficiais, haveria espaços para posições mais complexas e, sobretudo, teríamos um ambiente de escuta verdadeira. Ainda sobre o livro mencionado, recomendo muito o ensaio Como amar a humanidade _ e como não a amar, em que Darlrymple constrói um instigante paralelo entre Karl Marx e Ivan Turgenev.  A esquerda brasileira, especialmente, deveria lê-lo com atenção.
Darymple ajuda a perceber a falta que nos faz um debate público de qualidade. A polarização entre “esquerda” e “direita” ou entre situação e oposição não é um problema. O drama é que a disputa política no Brasil abandona o argumento pela acusação, exila a sutileza em favor dos slogans,  amaldiçoa o conhecimento e promove o preconceito. Essa, a mais amarga das contas, já a estamos pagando todos.

Comentários (1)

  • Alberto / Unidos na ‘lama’ diz: 13 de setembro de 2015

    No Petrolão tem esquerda, direita e ‘certo’ Partido que está no RS e em Brasilia.

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