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Editorial| As lições do boato

21 de maio de 2013 1

O Bolsa Família será efetivo se cumprir com a missão de manter os jovens na escola e estimular a qualificação e a autonomia financeira.

Causou sobressalto e correria às agências bancárias em pelo menos 12 Estados o boato que circulou pela internet sobre a extinção do programa Bolsa Família. Foi tão preocupante a movimentação, que o Ministério do Desenvolvimento Social e a Caixa Econômica Federal apressaram-se em desmentir a informação por meio de notas oficiais. A falsa notícia se disseminou entre pessoas que, pela condição social, são mais vulneráveis a manipulações como essa. Apesar das dificuldades que deverá encontrar para chegar aos autores do boato, a Polícia Federal é desafiada a apontar quem e com que objetivo espalhou um alarme que tumultuou a vida de famílias, de policiais e de servidores da Caixa e que poderia ter graves consequências.
Deve-se compreender, no contexto do Bolsa Família, como uma notícia sem autoria provoca uma correria de beneficiários, até porque também foi espalhada outra informação, de que os cadastrados receberiam um abono pelo Dia das Mães. O programa é, na sua essência, uma ajuda gerida pelas mulheres. São 13,8 milhões de famílias que se beneficiam com um auxílio mensal criado para dar suporte a quem vive na extrema pobreza. Até agora, em 10 anos de funcionamento, a serem completados em 2013, o Bolsa Família cumpriu com uma parte de suas atribuições, socorrendo quem, em muitos casos, não dispõe de nenhuma estrutura do Estado. Assim, o programa não existiria necessariamente para salvar adultos, mas para garantir sobrevida a crianças e adolescentes, até o estágio em que, na idade adulta, tenham as condições mínimas para tentar construir histórias diferentes das vividas pelos pais.
Mas a efetividade do programa é parcial. Estudos recentes apontam deficiências no cumprimento de uma das metas do Bolsa Família, que é a de assegurar a frequência escolar. O governo deve aprimorar mecanismos de controle nessa área, para que o desembolso mensal cobre, como está previsto, a contrapartida de que os filhos dos cadastrados tenham assiduidade na escola. Também merece avaliação crítica a dependência que a ajuda provoca entre famílias que poderiam buscar qualificação e autonomia financeira. Os gestores falham se, ao invés de estimular mudanças e oferecer condições para tal, inspirarem a resignação, que acaba por punir quem deveria ser protegido por um esforço governamental, mas bancado por toda a sociedade.
Assim como não pode se prestar a boatos irresponsáveis, o Bolsa Família não deve ser instrumento de manobras políticas e eleitoreiras. A grande missão do programa é, além de transferir renda que represente um auxílio temporário, assegurar acesso a direitos elementares, em especial à educação dos jovens. Os beneficiários precisam, portanto, estar imunes às falsas informações e às manipulações que procuram tirar proveito de um plano imperfeito, mas com ampla função social.

Editorial| O segredo como exceção

21 de maio de 2013 0

De uso generalizado no Congresso, embora esteja previsto na Constituição em situações muito específicas, o voto secreto volta ao centro dos debates dos parlamentares, diante da proximidade de algumas votações importantes nos próximos meses, incluindo processos de cassação de mandatos de deputados federais. Proposta de emenda à Constituição, com objetivo idêntico ao de uma outra, de 2006, foi reapresentada em abril pelo senador Paulo Paim (PT-RS) e aguarda designação do relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A democracia sairia ganhando se, desta vez, a oportunidade fosse aproveitada em favor dos eleitores, para os quais o voto secreto faz mais sentido como exceção, não como regra.
Legalmente, há três situações nas quais o segredo das opções de cada parlamentar está assegurado: a cassação de mandatos, a apreciação de vetos presidenciais e a indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades. A não ser nesses casos, previstos para evitar pressão ou constrangimento aos parlamentares, mas que sequer despertam unanimidade entre eles, não há sentido em impedir aos eleitores o conhecimento sobre o voto de cada deputado ou senador. Algumas Assembleias estaduais, incluindo a do Rio Grande do Sul, já acabaram com o sigilo, que só deveria existir para as decisões dos eleitores frente às urnas.
Na prática, o que deveria servir para preservar a soberania do mandato popular acaba se prestando hoje, muitas vezes, para o legislador se precaver de eventuais reações por parte da opinião pública. A sociedade, porém, tem o direito de saber se os seus políticos eleitos estão votando ou não apenas de acordo com sua consciência.
Nos parlamentos de pelo menos 30 países, as decisões do legisladores são tomadas às claras. No Brasil, neste momento em que os mecanismos de transparência avançam e são aplaudidos pela população, o debate é impostergável.

Artigo| Por que dependemos da biodiversidade?

21 de maio de 2013 0

O que mais
impressiona é que
um tema dessa
magnitude esteja
tão distante da
atual agenda política

VALÉRIO DE PATTA PILLAR*

A perda de biodiversidade e as mudanças climáticas são os principais desafios que a humanidade terá que enfrentar para evitar o colapso da civilização atual.
A biodiversidade, celebrada neste 22 de maio, é elemento-chave em processos que garantem serviços ecossistêmicos essenciais para o bem-estar humano. Entre outros, destacam-se a purificação da água e do ar, regulação climática, controle biológico de pragas e doenças, e os benefícios sociais e culturais associados aos valores espirituais, estéticos, recreativos e o sentimento de pertencer a um lugar. Obviamente, esses processos ocorrem não só onde a biodiversidade é protegida, mas também em agroecossistemas e em outros ambientes alterados pela atividade humana, como as cidades e nossas casas.
Bens essenciais como os alimentos, fármacos, fibras e energia são produtos da biodiversidade, mesmo que essa ligação tenha se perdido nos atuais sistemas de produção agrícola e industrial e nas prateleiras dos supermercados. Os alimentos, em especial, dependem de plantas e animais domesticados, e têm na biodiversidade a fonte de novas variedades.
A biodiversidade é também essencial para a estabilidade dos produtos e serviços ecossistêmicos, como seus efeitos positivos na resiliência, que é a capacidade de regenerar as funções ecossistêmicas após perturbações. Agroecossistemas com maior biodiversidade são mais resilientes e, portanto, recuperam-se mais facilmente em situações extremas, como secas e inundações.
Os campos nativos, por exemplo, abrigam cerca de 2,6 mil espécies vegetais e caracterizam a paisagem do sul do Brasil. Eles têm apresentado perdas dramáticas de biodiversidade com a conversão de mais da metade da sua área original em lavoura e silvicultura. O uso pastoril em geral tem mantido esses campos, que são resilientes à seca, mas a adoção de um manejo mais adequado permitiria aumentar a produtividade para níveis mais competitivos e continuar conservando a biodiversidade. Uma oportunidade que está sendo perdida.
Estabelecer agroecossistemas sem descaracterizar as paisagens naturais, conservando a biodiversidade e sem comprometer os serviços ecossistêmicos, é a forma mais efetiva de adaptar-se aos efeitos das mudanças climáticas e de evitar o esgotamento dos recursos essenciais para nossa existência. O que mais impressiona é que um tema dessa magnitude esteja tão distante da atual agenda política.

*Professor de ecologia da UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisa em Campos Sulinos

Artigo| O papel do educador

21 de maio de 2013 1

Podemos dizer que
os pedagogos entram
em cena cada vez que
a gente se coloca em
uma situação
de aprendizagem
MARCOS VILLELA PEREIRA*

O Dia do Pedagogo é comemorado no mês de maio. Para muitos, é só mais uma data comemorativa. Mas vale a pena destacar um pouco de quem é, o que faz e o que pode esse sujeito, muitas vezes invisível ou despercebido, presente em lugares e situações que nem imaginamos.
O pedagogo, diz a origem da palavra, é aquele que conduz as crianças. É ele que inicia os pequenos nas artes de viver, no saber, na leitura e escrita, no brinquedo, no cuidado de si, na invenção e na aprendizagem de tudo o que nos cerca. No começo, era um escravo ou um empregado da casa quem fazia isso. Essa condição se transformou, até chegarmos aos dias em que é necessário ir à universidade para exercer a profissão.
Os cursos de Pedagogia habilitam professores para atuar na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, na modalidade regular e educação de jovens e adultos. Com a obrigatoriedade da matrícula a partir dos quatro anos e o compromisso de alfabetizar até o final do terceiro ano, a responsabilidade é assegurar às crianças o direito de brincar, conviver, conhecer e aprender.
Em 2006, as diretrizes curriculares para o curso de Pedagogia estabeleceram esse modelo vigente. Até lá, os cursos podiam formar os supervisores, orientadores, administradores e coordenadores. Também os psicopedagogos, educadores especiais e profissionais especializados no atendimento de estudantes com alguma deficiência ou condição particular de aprendizagem eram aí formados. Educadores sociais ou dedicados à pedagogia empresarial também eram diplomados nesse curso. Hoje, todos são habilitados em cursos de especialização. Essas áreas de saber ainda existem no curso, mas como disciplinas ou atividades curriculares, proporcionando formação básica e geral sobre tudo o que acontece no interior e ao redor da escola.
Há pedagogos em diferentes cenários profissionais. Quando uma situação nova é mediada por alguém, provavelmente há um pedagogo: na educação para o trânsito, medidas socioeducativas, ações afirmativas, práticas inclusivas, campanhas públicas, formação, reabilitação, capacitação, nas empresas, museus, creches, hospitais, enfim. Podemos dizer que os pedagogos entram em cena cada vez que a gente se coloca em uma situação de aprendizagem.
Quanto mais complexa a realidade, mais necessário o pedagogo, o artesão da existência que transforma conteúdo e linguagem do mundo em conhecimento e aprendizagem.

Artigo| O rescaldo pedagógico da MP dos Portos

21 de maio de 2013 0

O rescaldo disso
tudo precisa ser
pedagógico sobre
o tipo de país que
queremos _ e não
queremos _ pela frente
GERMANO RIGOTTO*

A votação da MP dos Portos aconteceu na última semana. A matéria foi discutida e rediscutida. A briga entre governo e oposição, idem. Todavia, o episódio não é pauta vencida. Passados alguns dias e serenados os ânimos das disputas, é preciso analisar com mais calma o que se passou em nossa República durante esse processo. Trata-se de uma experiência que não pode acabar com o simples resultado do painel. Ela tem bem mais a evidenciar.
Acompanhamos a gritante demonstração de algumas das principais contradições das nossas instituições e dos seus sistemas. Tivemos grandes exemplos de tudo o que não devemos mais reproduzir em nosso cotidiano. O Brasil viu um desfile de mazelas que, mais do que pessoas ou governos, diz com o desenho das regras do jogo que comandam a nossa política.
A primeira aberração é o próprio instituto da medida provisória. Criado para ser usado em casos extremos, virou regra no cotidiano nacional. O Executivo, já sobejo em poder e recursos, sai a fazer um papel que não lhe pertence. Que fere o equilíbrio entre os poderes e usurpa a representatividade do parlamento. E não é algo de agora, senão que uma prática naturalizada há muitos governos _ sem uma contundente reação do Legislativo.
Outra reiterada constatação: o Congresso não consegue responder, em uma velocidade plausível, às demandas da nação. Além disso, mais uma vez, o voto foi utilizado para viabilizar a liberação de emendas individuais. A falta de pudor chegou aos microfones, com pedidos explícitos de "carinho". O clientelismo e o fisiologismo se revelaram em suas mais diferentes facetas.
A ação de lobistas também foi sentida, tanto que havia esforços para transformar a MP num monstrengo e inviabilizá-la. Não há nada de errado em exercer pressão, mas não pode ser de maneira sorrateira por quem tem interesse direto no negócio. Ficou claro, mais uma vez, que o Brasil precisa caminhar para uma regulamentação que ordene esse tipo de pressão, algo que já existe em diversos lugares do mundo.
O corporativismo foi outra força que se mostrou novamente. Não para postular legítimos direitos trabalhistas, mas para tentar passar certos privilégios absurdos em favor de categorias profissionais. Isso faz pensar sobre o sistema de votos no Brasil, que costuma dar vantagem a quem defende grupos corporativos ou econômicos.
A MP dos Portos colocava sobre a mesa do Congresso Nacional um tema importantíssimo, ligado a um dos principais gargalos da nossa infraestrutura. Porém, para além do seu mérito, evidenciou ainda mais nossos problemas institucionais e algumas lamentáveis posturas pessoais e políticas. O rescaldo disso tudo precisa ser pedagógico sobre o tipo de país que queremos _ e não queremos _ pela frente.

*Ex-governador do Rio Grande do Sul e presidente do Instituto Reformar

Editorial| A educação ultrajada

20 de maio de 2013 0

O clima de violência crescente em sala de aula têm explicações que começam num ambiente familiar normalmente desestruturado e, por isso, precisa ser enfrentado de forma articulada.

Pesquisa realizada recentemente pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo chama a atenção para uma realidade comum à maioria das unidades da federação: nada menos de 44% dos professores entrevistados já sofreram algum tipo de violência na escola, entre agressões físicas, verbais, assédio moral e bullying. O comportamento agressivo por parte de alunos é apontado como um dos responsáveis por danos à integridade psicológica dos educadores, além de figurar entre as principais causas da desistência do magistério. No momento em que a qualidade do ensino formal constitui-se numa das questões centrais da pauta de prioridades do país, esta é uma questão central, pois demonstra o quanto a educação recebida em casa tende a ser decisiva para o futuro de crianças e adolescentes e para o do próprio país.
O que o levantamento indica de mais preocupante é um número cada vez maior de professores, particularmente os do Ensino Médio, exposto à violência de grupos de alunos com distúrbios de comportamento. A maioria dos educadores já presenciou estudantes sob o efeito de drogas, alcoolizados ou portando armas brancas e de fogo. Sob esse clima de hostilidade permanente, são comuns casos que vão desde pressão psicológica e bullying até puxões de cabelo, pontapés e agressões de maior gravidade, além de riscos aos demais colegas e de danos à estrutura física dos estabelecimentos de ensino. Uma das consequências é que, nesse ambiente, as tensões atrapalham o processo de aprendizado. Ao mesmo tempo, cada vez menos professores se mostram em condições de continuar desafiando o medo no cotidiano para transmitir conteúdos.
O clima de violência crescente em sala de aula têm explicações que começam num ambiente familiar normalmente desestruturado, pouco preocupado em transmitir valores mínimos de respeito ao próximo, e, por isso, precisa ser enfrentado de forma articulada. No momento em que se intensifica a discussão sobre a qualidade do ensino formal no país, a educação familiar aparece como um obstáculo difícil de transpor. Essa não é atribuição da escola e sim um dever de casa que os pais não estão fazendo, por razões difíceis de serem enfrentadas de um momento para outro.
A questão é que, enquanto o desafio não é enfrentado, as deficiências do ensino, explicadas por razões como a falta de motivação de professores e alunos, só tendem a se agravar ainda mais, com prejuízos generalizados para os brasileiros e para a imagem do país de maneira geral. Muitas escolas vêm investindo em medidas preventivas, com ênfase em alternativas como mediação ou arbitragem, além de envolvimento dos pais, quando há condições para isso. Sempre que uma agressão é consumada, porém, é óbvio que a escola precisa agir com o rigor que o aluno não encontrou em casa, para não passar também a ideia de tolerância com a violência.

Editorial| Fraudes nas licenças

20 de maio de 2013 0

A articulação entre investigadores do município e do Ministério Público deve ser exaltada como decisiva para a identificação de mais um foco de fraudes no setor público. A denúncia de que servidores e empresas burlavam a concessão de licenças para liberação de obras e vistorias em casas noturnas de Porto Alegre demonstra, por um lado, a eficiência do MP e, de outro, o descontrole que permitiu as irregularidades. É preciso reconhecer que os delitos foram identificados a partir de iniciativa da própria prefeitura, diante de indícios de que funcionários municipais recebiam propinas. A Procuradoria-geral do município, acionada para realizar investigações, deflagrou o trabalho complementado depois pelo MP. O êxito das sindicâncias deve ser dividido entre as instituições e servir de exemplo para outras ações similares.
Mas a própria prefeitura deve reconhecer que as licenças eram fraudadas porque havia um descontrole interno, patrocinado pela cumplicidade entre servidores e empresas. Estão citados entre os envolvidos, como corruptores, interessados na concessão das licenças e escritórios que faziam a intermediação da solicitação dos serviços. É lamentável que o esquema de favorecimento de casas noturnas tenha sido aperfeiçoado depois do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. Após uma tragédia de repercussão mundial, esperava-se um comportamento inverso de servidores e empresários do setor.
Enquanto funcionários de determinadas áreas da prefeitura esforçavam-se para aperfeiçoar a fiscalização, descobre-se agora que outros servidores tiravam proveito da situação para afrouxar ilegalmente os controles. Assim como ocorreu no inquérito do caso da boate Kiss, espera-se que as investigações sejam aprofundadas, com a identificação de todos os envolvidos. É preciso que, além dos pertencentes aos quadros do município, que facilitavam as negociatas, sejam apontados também os responsáveis pelas empresas que pagavam as propinas.

Artigo| "Oi, oi, oi, vem quebrar com tudo"

20 de maio de 2013 2

Eduquemos nossos
filhos para a democracia,
pois, do contrário,
todos seremos
prejudicados

PATRÍCIA TRUNFO*

Ontem, ao visitar o "face", deparei com uma amiga comentando que não conseguia trabalhar, importunada pelo alto som da trilha sonora de um aniversário de criança, cuja letra dizia "...Oi, oi, oi, vem pra quebrar tudo; vamos dançar com tudo..." e, no mesmo momento, parei a refletir sobre cenas do nosso cotidiano que vêm repetindo-se nas escolas, reproduzindo-se no ambiente profissional e que estão contribuindo, em boa parte, para o desmonte das instituições e da real democracia.
De fato, há um bom tempo travam-se discussões sobre as consequências da terceirização exagerada da educação das crianças, da falta de imposição de limites, da chamada "geração construtivista", que tudo pode, que não tem freios, visto que os pais, ou não têm tempo para educar os filhos ante o excesso de trabalho imposto pelas necessidades da vida moderna, ou não têm base educacional para tanto. A partir disso, formam-se pessoas que não sabem ouvir, não têm conteúdo para o debate e, por falta de formação básica, apresentam uma insegurança que as leva a acreditar que para "dançar com tudo", precisam "quebrar tudo".
A minha geração, tenho orgulho disso, foi responsável por muitas mudanças políticas neste país. Fomos _ e somos _ rebeldes, reivindicamos, mas sempre exigindo democracia. Hoje, tenho certeza de que isso foi possível pela educação sólida que recebemos e que era comum à época. Tínhamos limites, precisávamos ouvir quando o outro falava, respeitávamos os mais velhos, pois não é inteligente desprezar a experiência, e éramos ouvidos e respeitados quando fundamentávamos nossas ideias. Ou seja, dessas crianças, ressalvados os venais por caráter, em sua grande maioria formaram-se adultos com consistência para o debate e que não precisam se impor por atitudes ditatoriais na falta de fundamentos _ a falta de razão alimenta o autoritarismo.
Assim sendo, mais uma vez, grande parte dos problemas de um país está na base, na educação. Se as nossas crianças não tiverem limites, não souberem ouvir, não forem chamadas a manifestar suas ideias com afinco, mas também com respeito à opinião alheia, nossa democracia estará ameaçada. As escolas, o ambiente profissional e as nossas instituições demonstram isso diariamente, contaminadas pela falta de ética entre colegas, pela falta de respeito e pela imposição arbitrária de regras desprovidas de fundamentação, a beneficiar sabe-se lá quem. Eduquemos nossos filhos para a democracia, pois, do contrário, todos seremos prejudicados.
*Advogada da União, professora universitária

Artigo| Agruras do presidencialismo

20 de maio de 2013 0

Fala-se agora na
"quebra da base aliada",
quando se poderia
denominar de
fatalidade inerente
ao sistema
presidencial

PAULO BROSSARD*

Até ingressar na magistratura e desquitar-me da atividade partidária que exerci desde estudante durante 40 anos, tive ensejo de conhecer perfis, almas, procedimentos relativos a candidatos que, em sua variedade, iam do ridículo ao heroico, do paspalho ao astuto, do grotesco ao falso, do honrado desambicioso leal, em uma palavra, exemplar, um arco de variadas cores. E, diante de tal riqueza, sempre eu perguntei como essa personagem não fora aproveitada como figura central de um romance preparado por um escritor de talento, a revelar a multiplicidade e riqueza, a pequenez e a grandeza dessa figura, capaz de mostrar uma parcela da inacabável variedade do ser humano.
Essa observação me veio à tona ao verificar as mutações que a senhora Presidente vem revelando, pelo menos em sua personalidade pública, desde que feita candidata à reeleição. Não me aventurando à exegese do fenômeno, fico apenas em seu registro. Lembro apenas que correu a versão segundo a qual seria pessoa de personalidade forte ou marcante, quiçá autoritária, senão durona, qualidade que deixou entrever, embora, com cuidado, ao enfrentar indivíduos colocados em postos de relevo em seu governo, seria o tempo da "faxina" que, aliás, teve a duração das rosas; e depois da metamorfose ocorrida, pelo menos na imagem pública da atual candidata, a durona chegou até à ressurreição de um ou outro faxinado.
Como é óbvio, não possuo nenhum laboratório apto a selecionar e sancionar a qualidade, louvável ou não, desta ou daquela situação concreta, imputável à cabeça do governo; limito-me a acompanhar o que a imprensa divulga, para ficar no mais acessível ou simples instrumento de divulgação dos fenômenos diários na imensa congérie de fatores que dia a dia é distribuída a milhares de pessoas, que os digere ou ignora.
Para ilustrar o que me parece útil mostrar, reproduzo um dado que, sem ser monumental, é revelador de sua inerente relevância. Repito o que foi divulgado: a inadimplência do consumidor patina e recua em ritmo lento nos últimos meses, porque a disparada da inflação acabou achatando a renda das famílias, especialmente as mais pobres e que gastam mais com alimentos. Para manter o padrão de consumo, a saída encontrada pelas famílias foi assumir novas dívidas. Isso amplia o risco de inadimplência futura num cenário de alta da taxa de juros.
Pretendia mostrar alguns dados dessa realidade, mas fato novo me leva a mudar o tema. A notícia do dia é relativa à aprovação da MP dos Portos após 50 horas de confronto. Não tenho elementos para pronunciar-me acerca do merecimento de cada uma das posições, e a matéria é de particular seriedade e de longa data o setor se constituiu em um feudo. A Sra. Presidente, que tem o apoio de 18 ou 19 siglas, não conseguiu aprovar a MP como queria e só mediante concessões e depois de esforços desmedidos. É natural que o governo conte com o apoio dos partidos que nele tem participação, como também é natural que o governo não se submeta pura e simplesmente à maioria que o prestigia. Deve haver determinado equilíbrio. Nos tempos da Arena, "o maior partido do Ocidente", na expressão do antigo presidente da agremiação, aprovou tudo e resultou que nunca mais veio a ser "o maior partido do Ocidente"; trocou até de nome e de nada adiantou. Fala-se agora na "quebra da base aliada", quando se poderia denominar de fatalidade inerente ao sistema presidencial, concebido quando as instituições democráticas engatinhavam.
* Jurista, ministro aposentado do STF

Artigo| O conhecimento e o PIB

20 de maio de 2013 0

O Rio Grande do Sul
passou a reconhecer
que ciência, tecnologia
e inovação são
importantes elementos
de investimento
na sociedade

CLEBER PRODANOV*

Ainda encontramos muita resistência em diversos setores da sociedade em aceitar a importância da geração de conhecimento e sua transferência para a sociedade e encarar esse movimento como atividade produtiva e de forte conteúdo de desenvolvimento econômico e social. A resistência decorre de muitos fatores, que vão do desconhecimento da importância da ciência e de sua difusão como elemento de crescimento das comunidades até o entendimento de seu conceito.
Um importante passo no sentido de incorporar a pesquisa e o desenvolvimento de produtos e processos _ P&D _ como um fator de desenvolvimento foi dado agora nos Estados Unidos e acontece de modo a reconhecer que a fórmula atualmente adotada para o cálculo do Produto Interno Bruto  (PIB) não leva em consideração os investimentos realizados em P&D, mesmo que esse seja um dos fatores primordiais da nova economia.
Nos Estados Unidos, onde se investem cerca de 2,9% do PIB em P&D, calcula-se que a incorporação desse dispêndio elevaria em média 3% o PIB nacional e que, em alguns estados americanos, como no Novo México, por exemplo, seria maior do que 10%.
Não se trata apenas de elevar os valores nominais do PIB, mas de reconhecer que os investimentos em ciência, tecnologia e inovação não são despesas, mas investimentos que impactam em transformações na sociedade, como na competitividade das empresas, em melhores e mais qualificados empregos, no aumento da média salarial e na melhoria da qualidade de vida da população.
Países como Israel, que investe cerca de 4,4% do PIB, a Finlândia, com 3,9% e a Coreia, com 3,7%, estão na liderança desses investimentos e possuem hoje diferenciais socioeconômicos significativos. No Brasil, tem se elevado esse investimento. Atualmente, encontramo-nos próximos à faixa de 2% e estamos seguindo uma trajetória de crescimento.
O mesmo tem acontecido no Rio Grande do Sul, que, nos últimos dois anos, passou a reconhecer que ciência, tecnologia e inovação são importantes elementos de investimento na sociedade. Nesse sentido, temos dedicado parte significativa de recursos para P&D, além de criar políticas públicas que facilitem o acesso de empresas, institutos e universidades a investimentos, com a preocupação de multiplicar o conhecimento e a inovação, diversificar e qualificar as matrizes produtivas, transformar as diversas regiões do estado e desenvolver sustentavelmente o Rio Grande do Sul. Em um Estado onde se produz muito conhecimento, o desafio está sendo transformá-lo em PIB.

* Secretário de Estado da Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico