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Um bate-papo não instrumental com o Macaco Bong

23 de junho de 2008 0

Trio de Cuiabá desafia o ouvinte com longas e complexas viagens instrumentais/Divulgação

É bom sinal quando uma banda instrumental vira hype na cena independente brasileira. Isso significa abertura de pensamento, diversidade e um total desapego à mínima fórmula que aponte para os meios fáceis de chegar às paradas. Afinal, que caminho pode ser pedregoso do que abrir mão dos clichês melódicos e românticos para se embrenhar por longas e tortuosas peças sonoras, amparadas apenas no trinômio guitarra/baixo/bateria?

Foi isso o que fez o trio Macaco Bong, de Cuiabá (MT), cujo disco de estréia, “Artista Igual Pedreiro”, está saindo pelo valente selo Monstro Discos. No belo digipack, a banda entorta o sistema auditivo com um rock sangüíneo por onde correm jazz, funk, metal e dissonâncias de todo tipo. Às vezes direto, quase sempre complexo, o MB desafia o ouvinte com dez viagens cheias de paradas estilísticas, como em “Bananas for You All” e “Vamodahmaisuma” (e os títulos engraçadinhos não páram aí…).

A virulência instrumental jogou o grupo no olho do furacão. Sacudiu a cena na sua cidade natal, botou o nome em dúzias de festivais independentes e virou tema do dia na mídia especializada. É merecido, como você pode comprovar indo lá na página da banda no myspace ou adquirido o CDzinho pelo site da Monstro. Orelhada bateu um papo via e-mail com o guitarrista Bruno Kaypy e comprovou que a letra do rapaz é forte, sim.

 

PS: como este será o único post do dia, vocês terão muita coisa pra ler, portanto, aproveitem.

 

Queria saber as influências da banda…

Cara, a influência da banda é derivada de várias vertentes e gêneros. Não temos uma banda específica que nos influencia. Toda nossa influência vem por meio de desafios sonoros que fazem parte de um turbilhão auditivo, ou seja, tudo aquilo que nós ouvimos e que diante do nosso alcance pode ser subvertido dentro das milhares de possibilidades que o universo da música oferece. Mas não irei responder a essa pergunta sem dar um pequeno norte quanto a essas influências: Ebinho Cardoso, Dimebag Darrel (Pantera), Meshuggah, os minimalismos de Kurt Cobain, Pat Metheny, Richard Bona, Charlie Parker, Jaco Pastorius, Nico Assumpção e Billy Cobham são somente alguns dos nomes.

Como é o cenário em Cuiabá? A exposição de vocês ajudou a melhorar a cena matogrossense?

Cara, o cenário de Cuiabá se encontra num momento de difusão na cadeia produtiva cultural local muito interessante. Vou começar falando da relação classe x poder público, que através de ações coletivas entre entidades dos demais segmentos da cultura vem fazendo com que a cena se consolide e cresça muito a cada ano. O diálogo com o poder público está cada vez mais avançado… As bandas daqui enxergam com muita clareza o fato de serem autogestores de seus trabalhos, o artista igual pedreiro, saca? Muitas delas vêm se consolidando tanto profissional quanto politicamente, visando sempre se inserirem em grupos coletivos na cadeia produtiva local e fazer disso um meio, e não um fim. Já temos três festivais muito bacanas que acontecem anualmente aqui (Grito Rock, Calango e Volume), além de outros que sao de outras vertentes e segmentos. Não acho que a exposição do Macaco tenha influenciado na melhoria da cena local, acho que isso foi somente mais um valor agregado, como é o caso do Vanguart, que hoje está superhypado na cena indie nacional. Macaco e Vanguart obterem essa projeção com certza foi conseqüência de todo um trabalho exercido na cena por meio da inclusão de bandas em atividades organizadas e, claro, com o cubocard. O cubocard foi responsável por viabilizar todo esse suporte – ao Macaco, ao Vanguart e outras bandas locais que vêm se autogerindo, utilizando a estrutura do Espaco Cubo como laboratório de formação e o cubocard como ferramenta principal para a viabilização de seus recursos, formações, produções, viabilização de estruturas físicas e estruturais.

 

Em função da duração das faixas e das evoluções dentro de cada música, vocês diriam que há algo de progressivo no trabalho do MB?

Sim, claro, faz parte total da mesma forma que tem o minimalismo, mas queria deixar muito claro que não nos consideramos nem um pouco virtuoses. O Macaco não é uma banda de músicos virtuosos feitos de teoria. O MB não tem essa cara, tipo progressivo ou minimalista, saca? A gente acredita que tudo que a música oferece neste universo está a disposição de cada um fazer o que quiser. Isso é arte, saber utilizar a seu favor toda a natureza que a música oferece, da mesma forma que o samurai utuliza do reflexo da luz e seu favor para vencer seu inimigo.

 

Seria o Mars Volta uma referência? O que vocês acham da banda?

Cara, não deixa de ser referência, mesmo não sendo uma banda que acostumamos ouvir. Achamos uma puta banda, adoro Arcarsenal, acho que é uma das músicas mais sinceras em termos de pressão sonora que eu já ouvi. Mas eu prefiro o At the Driven-in, apesar de não conhecer muito a trajetória de ambos. Viemos de uma safra totalmente noventista, a fusão entre o grunge, o metal e o fusion.

 

Algumas músicas começam cheio de climas e depois desembocam na maior pauleira. Em qual dessas partes se ouve o verdadeiro MB?

Eu cito aqui em músicas como Blacks Fuck, Amendoim, Vamodahmaisuma e Bananas for You All, que são músicas que quando compusemos nos encontramos mais maduros e seguros pra enfrentar esse tipo de desafio, criar climas, isso é Macaco Bong. Se estiver de bom humor, mau humor, pilhado, triste ou feliz, creio que a música lhe levará a bons picos de reflexão. Digo isso não por algum tipo de dedução, mas sim pelo fato da forma estrutural das músicas. Não é um som que dá pra ouvir conversando com alguém, a não ser que o cara enjoe da música (risos).

 

Como vocês chegam ao nome das músicas?

Foi a coisa mais fácil do mundo. Como já não tinha letra, invetavamos tudo na hora em que finalizávamos os arranjos, tudo numa vibe bem comédia mesmo, tirando onda horrores, tipo qualquer nome que se colocar ali já flui porque racionalmente nunca fará sentido algum com a música. Quando se trata de um tema que é nosso lema, o nome é artista igual pedreiro, e está como nome título do nosso disco, pronto (risos). Cara, nome de música no Macaco é igual dar nome pra animal de estimação, se ela tem cara de Nina, se chamara Nina. Colocamos, por exemplo, Blacks Fuck porque achamos que a música parecia com uma cena de um negão trepando com uma negona bem gata. E por aí vai.

 

Imagino que ao vivo a improvisação deva rolar solta. Foi assim durante a gravação do CD?

Não, tudo que está no disco é extamente o que executamos ao vivo, não mudamos nada, nem nos improvisos e nem nos arranjos, foi tudo bem elaborado, um trabalho bastante cansativo. Quando estamos no estúdio compondo um tema, a gente atira para todos os lados praticamente, testamos milhares de formas para a execução de cada parte, ou seja, só de passar por esse processo te dá a linha exata do que a música pede. O Macaco trabalha traduzindo o que os ouvidos nos pedem. Se em um determinado momento não for tocada aquela exata nota ou aquele exato acento, a música perde toda sua espontaneidade e intenção. Por isso trabalhos com nossas linhas de improviso todas bem elaboradas. Alguma coisa e outra pode acontecer, mas nada que fuja da real intenção da música.

 

Há alguma música com letra e melodia na gaveta? Vocês já fizeram algo assim ou pensam em fazer?

Cara, em Vamodahmaisuma rola um coro que foi gravado influenciado pelo canto de um grupo de dança dqui de Mato Grosso chamado Dança do Congo, localizado em Vila Bela da Santissima trindade. Mas vamos vendo o que os ouvidos nos pedem, achamos muito interessante isso, mas serão letras sem nexo, letras com sentido percussivo e melódico de acordo com cada vogal e sílaba.

 

Nos últimos tempos começaram a surgir mais bandas instrumentais de rock – Continental Combo, Estumental, Pata de Elefante, além da cena surf music, que sempre foi forte. Alguma explicação pra isso?

C ara, acho que isso é uma tendência. Daqui a um tempo, vocês vão ver, vai aparecer cada maluco fazendo umas doideras instrumentais. Acho que tem alguns fatores que influenciam nisso é que hoje tá muito acessível ter um home estudio em casa. Com a internet, o cara tem como baixar softwares de áudio, plugins, e gravar em sua própria casa. Como estamos numa fase em que o convencional vem se tornando não-convencional e o fato dessas bandas que você citou acima tam bém estarem dispostas e difundir suas idéias – e é claro que o alvo vai ser o instrumental -, acho que a tecnologia seja um dos responsáveis justamente pelo fato de o cara que era somente músico mergulhar no mundo do áudio e pesquisar novas vertentes sonoras. Estamos numa era de difusão e surgimento de novas tendências. Acho que vai rolar muita água ainda quanto a isso.

Postado por rubensherbst

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