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Um turbilhão de ideias

17 de dezembro de 2010 0

Era pra ser uma simples entrevista, do tipo “quem é e o que faz Gurcius Gewdner?”, um esclarecimento introdutório à mostra de filmes do sujeito que rola neste sábado (18), às 22 horas, no Gutz Bar, em Joinville. Mas não se pode esperar algo burocrático de alguém que passou esta década expressando visões artísticas incomuns, provocadoras, em filmes indigestos que se banham em tantas referências que resumí-los ao erotismo e ao sangue na tela é ignorar sua urgência cultural/espiritual. Como nem todo mundo cai nessa, Gurcius é tido em alta conta no cinema underground e sua obra bate ponto em festivais pelo País. Tanto é que ser cofundador d’Os Legais, banda joinvilense ícone da antimúsica no Estado, passou a ser um detalhe a mais em sua biografia. Enfim, Gewdner sofre de convulsão de ideias e é inimigo declarado de rótulos, normalidade e acomodação, motivos pelos quais o papo com “Orelhada” foi muito além do esperado. Tão rica de opiniões – que vão além de questões sobre o cinema ou a música - que não deu pra acomodar toda a entrevista na coluna impressa. Por isso, ela tá aqui, na íntegra.

Como você passou de (anti)músico pra videomaker?
Gurcius Gewdner – Foi tudo ao mesmo tempo. Meu primeiro filme é de 1996, mesmo ano que eu e o Marcius formamos Os Legais. Fizemos um filme de 13 minutos e uma série de curtas que somavam 20 minutos. Infelizmente, perdi essa fita. Nosso plano na época era vender os filmes pra TV. Acabamos deixando esse negócio de filmes um pouco de lado, entre 1997 e 2000, época que mais fizemos shows com Os Legais. Em 2000, Marcius foi pra Campinas, que é quando voltei a filmar. Vendo a repercussão e viagens de graça que o (Petter) Baiestorf ganhava, resolvi entrar nessa também. Fazer filmes e música é a mesma coisa, e desenhar engloba os dois. Lembrando que é sagrado sempre permanecer de peito aberto e mente nas nuvens.

Você diria que seus filmes são uma extensão do que faz n’Os Legais?
Gurcius - Sim, a câmera é um instrumento tão musical quanto qualquer outro! E lidar com Os Legais me fez aprender uma coisa muito importante desde o início: tudo se transforma, todo mundo é substituível, inclusive eu. A vontade de fazer pode transcender até mesmo os participantes. As decisões que tomamos influenciam tudo o que acontece no futuro, logo, toda evolução é fruto do primeiro passo.

Então, como você definiria seus filmes? Tem tantas referências de cinema, fotografia, dança, música, regionalismos…
Gurcius
- Melhor definirmos as coisas quando todos estiverem mortos! A única função realmente prática dos rótulos é na hora de ajudar a ganharmos viagens pra festivais temáticos e pra vender filmes pra pessoas que só conseguem consumir coisas com rótulo. Nunca vou fazer nada de uma frente só, só a favor da mistura total, sempre. Pela ausência de gêneros e a pluralidade de vontades. Que todas as línguas do mundo se misturem e se completem!

Quem vê seus filmes não engole essa de “cineasta do amor”…
Gurcius
– Ah, mas as coisas mais preciosas são sempre as escondidas. Todo o amor está lá, acredite. Desde meu amor pela música extrema em “Pequeno Panda” até meu amor pelo que já foi embora, pela vida que vai passando, em “Freddy Breck Ballet”. Cheguei a essa conclusão vendo as reações do público. Faço meus filmes exclusivamente para o público feminino, as meninas e pessoas com alma feminina, gays ou não. Seres iluminados que respiram as energias do amor. Por isso todos os personagens são brilhantemente pulsantes, altamente determinados e explosivos. Pros machos insensí­veis, faço música e alguns desenhos (às vezes).

O YouTube acabou virando o grande veí­culo pra videomakers como você, não? Ainda acredita no DVD?
Gurcius
– Acredito, mas também não me importo muito com os formatos. O DVD acaba, surge outra coisa. Ainda insisto em lançar os filmes com menu, capinha, extras e tudo mais, porque adoro o formato, adoro ver a coisa pronta, o motivo nunca vai ser dinheiro. E insisto em manter um padrão de qualidade para as produções independentes. Não exige tanto assim pra se fazer um lançamento bacana, que faça valer o preço, uma capinha bonita e umas informações a mais pra alegrar quem compra. Eu amo o exagero. O “Mamilos em Chamas” saiu em quatro discos, poderia ter saí­do com seis! E, sim, o YouTube é lindo! Cumpre o papel de resgate da memória, que a televisão nunca teve (e dá pra escolher o que assistir). Quem imaginaria isso na metade da década de 90, com o povo trocando cartas lotadas de K7 e VHS?

De onde vem inspiração e grana pros seus ví­deos? Como é seu processo artí­stico?
Gurcius
– Não tenho inspiração pra fazer o que não gosto, e isso até agora sóme fez feliz. O que não significa que a grana vem junto. Pro meu filme novo, Viatti Arrabbiatti, estou filmando com a mesma grana que estou usando pra comer. Se tenho um pouco a mais nos bolsos, colaboro com a gasolina, compro material melhor pro dia, se não, pago os motoristas em discos e uso o que dá. Nem sempre é o melhor, e gostaria muito de fazer um filme com grana sobrando, mas não é esse detalhe que vai nos impedir de fazer o que quisermos. Desta vez, ao menos tenho a vantagem de estar filmando com equipamento de primeira. Minha vida é uma sucessão infindável de milagres. Consigo grana das formas mais absurdas, mas sempre trabalhando no que eu gosto. Fico rico e pobre algumas vezes por ano. Não sei muito bem definir processo artistico, mas acho que ele é essencialmente musical, não consigo fazer nada sem música, hábito que saudavelmente herdei do meu pai. Tipo um polvo tocando piano e bateria gritando com megafone. Trabalho muito em torno da “sugestão”, o que significa que todo dia faço propostas e sugestões pra todo mundo, mais do que posso aguentar, e vou vendo quem vai me devolvendo as idéias. É a mesma ideia que o John Zorn tem sobre colaborações: existe uma prateleira no topo dos céus, onde você vai jogando tudo que consegue, com quem consegue. Nem sempre me devolvem as propostas, e nem sempre elas terminam do jeito que foi planejado. Na maioria das vezes, terminam muito melhor. E pode acontecer de começar uma ideia com alguém e encerrar com  alguém totalmente diferente, de outra cidade. Esse épico de quatro horas que falei no iníco da entrevista, por exemplo, começou estrelado por mim e terminou nas mãos de meu irmão, Amauri Gewdner, que será o grande astro dos filmes!

Em que pé tá o documentário dos Legais? Aliás, qual o presente e o futuro da banda?
Gurcius
– Esse filme tem um material bruto de mais de 60 horas filmadas por mim ao longo dos anos, mais todo o material de entrevistas que o Caselli pegou em abril/junho. É um monstro de proporções descomunais, que o Caselli está encarando sem minha ajuda no momento. A partir de fevereiro, volto ao proceso de digitalizaçío de material pra repassar pra ele, que com certeza não vai usar todo esse material, mas sim, dar a visão dele sobre a coisa, que é sempre infalível, quem já viu os filmes dele sabe. Semana passada, marquei com uma amiga de fazermos a foto que provavelmente vai ser o pôster do filme(ou uma capa d’Os Legais, ou outra coisa, hehehehe). Além desse filme, tem uma produção paulista sendo preparada, que inclui a gente também. É um panorama das performances mais incomuns do underground brasileiro. Desde o ultimo disco d’Os Legais que liberamos, chamado “Ar Silvestre”, de 2009, fiz 5 discos com outras pessoas, 3 deles duas semanas atrás, se chama “Chatran 2000: The New Adventures of Chatran”, em 3 volumes!! Pra 2011, vou tentar desovar dois discos de musicas inéditas, que já tem nome e tudo mais, e vamos tentar entrar em estúdio pra gravar o “Persian Love Nights”, nosso disco de música oriental tribal (é claro que, se der vontade, talvez isso saia com outro nome de banda, nem me interesso pelos nomes mais). Também no primeiro semestre lançamos um DVD ao vivo do Damo Suzuki, onde sou um dos bateristas! Dia 30 agora, aqui em Florianópolis, na Célula, Os Legais fecha o ano com o último capítulo da série  2010, “O Ano em que Perdemos Tudo”, com o segmento “Picareta: o Baile de Réveillon fora de Época”.  

Ouvi dizer que a Gisele Ferran (musa de Gurcius) andou tendo problemas na cidadela dela, Pouso Redondo. Algo a ver com filmes pornôs…
Gurcius
- É a bola de neve da desinformação. Alguém catou algumas fotos do meu filme, mais algumas do filme que o Baiestorf fez com a Gisele e espalhou um e-mail sófalando besteira. Isso não é só problema de cidade pequena, acontece em qualquer lugar habitado por gente infeliz que fez as escolhas erradas quando deveria ter corrido atrás da vida com menos pressa. Caras que nunca vão conseguir chegar perto dela e meninas que morreriam pra estar no lugar dela, mas não podem. O mundo anda mais moralista e sem graça do que o normal. Não é à toa que caras como eu e o Baiestorf acabamos virando heróis, filmamos sem pudor, o que há alguns anos era o que mais atraí­a o povão pro cinema: gente pelada e senso de humor! Parecemos alienígenas, fazendo algo que a pouco tempo foi a cara do melhor de nosso cinema. Me parece que a internet, ao invés de ampliar o pensamento libertário, realizou exatamente o contrário em certos momentos, dando voz à cabeças mais estúpidas, que antes não tinham pra quem despejar lixo (é obvio que o mesmo pode ser dito contra a gente por aqueles que não gostam das nossas tralhas, heheheh). Se os filmes que fizemos esse ano são pornôs, os videoclipes dos Smiths também são (e pra algumas pessoas de educação culposa, eles são mesmo).

E esse novo filme, épico mafioso, 40 atores e etc? Superprodução?
Gurcius
- É um filme de tensão telefônica, pela primeira vez vamos mostrar o que acontecia por trás das linhas telefônicas da máfia italiana durante a década de 70. Se passa na Calábria, em uma região de dialeto italiano muito particular, uma terra que possui estranhas ligações com os fantasmas do passado e do futuro, assim como ligações com dimensões paralelas também. É meu filme com melhor equipamento até o momento, assim como a quantidade de pessoas envolvidas. A filmagem está em ritmo lento pro que estou acostumado, mas cada segundo capturado é mais lindo que o anterior. Tenho filmado entre as bordas de tempo de todo o povo envolvido, dezembro é um mês de duas semanas. Mas, mesmo assim, tenho conseguido alguma coisa nova dele a cada dia. Tem cenários de Carlos Dias, alguns astros estreantes, algumas pontas de antigos colaboradores (como Hans Konesky), colaboração de diversas produtoras amigas e uma chuva de musas e brotos! Era pra eu ter feito este filme em março, mas as cruéis e imprevisiveis garras do implacável destino me fizeram perder o rumo em fevereiro, pra sóvoltar a pensar na beleza da existência em julho. Meu ensaio para o filme foi o disco “Un Solo Cornottollo Abbandonatto”, com a Orchestra Filarmônica Giuseppe Filipi.

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