"Esse disco é um coice em quem me oprimiu com um contrato que eu não podia romper". Sinceridade é uma bela qualidade, mas não garante uma obra artística de alto nível. Não é o caso de Por um Monte de Cerveja, o primeiro álbum de inéditas de Celso Blues Boy desde 1998, lançado na semana passada. Sem pressões de qualquer natureza e com os Detonautas como banda de apoio, ele concebeu um disco esplêndido, comparável à clássica estreia de 1984. Não só pelo desfile de grandes e ecléticas canções ou solos bem calibrados, mas, principalmente, pelo modo com que Celso destila sua filosofia de vida, alternando bom humor e melancolia. Aprenda a Dar o Troco, Vim Tocar na sua Cidade, Conversando com Horácio Braum, O que Essa Humanidade Fez, Toneladas de Solidão e as outras oito faixas mostram um bluesman abrindo o coração sem receio, do mesmo modo com que ele faz na entrevista abaixo, concedida em seu refúgio no bairro Bom Retiro, em Joinville. A íntegra da conversa tá no blog.
Há mais de uma década que você não lança um disco de inéditas. O que aconteceu?
Celso Blues Boy - Pra responder a isso é preciso voltar no tempo. Foram anos e anos compondo, e quando alguém chegou e disse "agora você vai gravar seu primeiro Lp", eu tinha um leque de escolhas enorme. O que acontece depois? Você grava esse primeiro Lp, ele faz sucesso pra caramba e você começa a tocar, praticamente de quarta a sábado, no Brasil inteiro. E onde fica o tempo pra compor? A gravadora exige que você lance, e o que você vai dizer? Não vou lançar? Mas eu não podia fazer uma obra tão boa quanto a anterior, porque tive anos pra fazer a primeira, e quanto tempo pra fazer a segunda? Tanto é que na mídia existe a tal da "síndrome do segundo disco". Esse processo durou dos anos 80 até o final dos 90, no Rio. Quando chegou em 2000, 2001, falei: "Peraí, não aguento mais. Quero parar, quero voltar a compor como compunha, com tempo pra analisar, ver arranjo". Então me fechei, tanto pra mídia quanto pra obrigações, pra me recompor como compositor. Não é que eu fosse mau compositor nas outras coisas que fiz, mas não era aquilo que eu sabia que poderia extrair.
Nesse período, você encontrou o que procurava?
Celso - Reuni uma enorme quantidade de canções, uma variedade que até pode ser vista neste CD, onde também incorporo, sem mudar meu estilo, linguagens que gostaria de ter incluído há algum tempo na minha obra, mas não foi possível por causa do sistema ditatorial do mercado.
Algo nessa nova leva de canções lhe surpreendeu?
Celso - Algumas coisas surpreenderam, e surpreenderam ainda mais porque fui gravar com uma banda jovem. Eles acharam essas músicas que me surpreenderam legais pra caramba. Achei que por parte deles rolaria um tipo de estranhamento.
Então, dentro da sua obra, tem muita mais coisa do que as pessoas supunham.
Celso - Exatamente. Só que, por imposições do mercado, não me deixavam gravar certas coisas.
O que o Detonautas acrescentou a sua sonoridade?
Celso - A resposta é estranha. Tipo assim: quando o Tico (Santa Cruz, vocalista da banda) me convidou pra gravar um disco com os Detonautas me acompanhando, confesso que achei a ideia legal, mas logo depois pensei: "Caramba, os caras não devem saber tocar o que eu gosto. São muitos novos". Foi a maior surpresa que já tive. Com os Detonautas inteiros foi só uma faixa, o resto foi com o guitarrista e baterista da banda, eu e o Roberto Lee. Eles trouxeram as lembranças da gravação do meu primeiro Lp. acho que esse foi o grande mérito deles, inclusive do Tico. Quando ouvi o resultado pela primeira vez, sem mixagem, disse: "Nada como esse disco pra redimir toda a contrariedade que eu senti com o sistema".
Então esse disco é, de certa forma, uma volta no tempo?
Celso - O sentimento é real, a história é a mesma. Tive muito tempo pra compor, e o frescor também me parece igual ao da primeira obra. Não quero, em absoluto, denegrir todos os CDs que gravei, mas fui obrigado a incluir neles coisas que, às vezes, não estavam como eu queria.
Você consegue explicar em palavras a música que tá na cabeça de Celso Blues Boy?
Celso - Se você pegar este CD e o primeiro disco, você vai ver uma coisa bacana. Eu já fiz essa experiência. Antes, era um garoto, agora um cara de idade. Se você pegar do ponto A ao ponto B, você vai entender perfeitamente o que Tô dizendo. Era um garoto que tinha um primeiro Lp bacana e seguiu uma trajetória de vida que o levou a lançar este CD.
Você vai excursionar com os Detonautas?
Celso - Não existe essa possibilidade. Talvez houvesse a possibilidade de fazer algum show de lançamento com eles no Rio ou em São Paulo, mas não é essa a proposta.
Como vai ser o seu show daqui pra frente?
Celso - A verdade é que a gente tem noção das coisas. Num universo de 12 músicas, que é o meu show, eu não posso tirar um monte de músicas. Não posso chegar e apresentar todas as inéditas. Já tentei fazer isso, foi a única vaia que levei na vida (risos). Não interessa se tá lançando um disco novo, as pessoas também querem ouvir "Aumenta que Isso Aí é Rock'n'roll" e mais essa e aquela. A fórmula ideal é colocar duas, três músicas, no máximo. Você tem que ir vendo a resposta do público à obra pra saber o que pode substituir sem causar apedrejamento público (risos).
O que você pretende fazer com as várias músicas que ficaram de fora do disco?
Celso - Vou lançar mais um (disco) inédito, um da Legião Estrangeira (banda que integrou nos anos 70) e outro de compositores brasileiros.
Depois disso você vislumbra uma aposentadoria?
Celso - Não, vislumbro não gravar mais disco. Essas obras que ainda vou lançar são em respeito a mim próprio, sem querer respaldo de mídia ou coisa parecida. Quero simplesmente concluir o legado da Legião, meu último CD autoral e uma ideia que sempre tive que é fazer um disco só de músicas brasileiras. Na verdade, nem me importo com o resultado dessas coisas. É mais um projeto meu, que, se for abraçado por gravadoras, muito bem, se não, será lançado da mesma forma.










