Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de novembro 2011

De papo pro ar (aka férias!)

02 de novembro de 2011 1

Tem uma hora na vida da pessoa em que ela precisa dizer “chega!”. Pra este colunista/blogueiro, o momento chegou. Trinta dias de férias pra recompor forças e humores é o que ele terá de agora até o começo de dezembro, quando retomará a lida diária no AN. Até o dia 1º, a coluna fica aos cuidados do repórter João Kamradt, que continuará acessando o e-mail rubens.herbst@an.com.br. Portanto, quem tiver algo pra divulgar, pode encher a caixa sem medo. Aqui, as postagens só acontecerão em casos extremos, tipo o Festival Planeta Terra, onde Orelhada estará neste sábado (5). Bom, vou nessa, que tem uma cervejinha me esperando ali. Tchau!

Eduardo Dussek: irreverência à parte

02 de novembro de 2011 2

Quem ainda conserva um mínimo de lembranças musicais dos anos 80 não terá dificuldades com o nome Eduardo Dussek (na época, com um “s” a menos). Virá à memória o sujeito com cabelo de surfista que deixava escorrer um filete de veneno a cada vez que entoava canções aparentemente ingênuas como Rock da Cachorra, Barrados no Baile e Brega e Chique. Errado é imaginar que a carreira de Dussek terminou por aí, tanto quanto supor que ela começou com a superexposição nos popularescos programas de auditório. Ali, virou um astro, mas antes e depois, exercitou uma veia artística que fez dele um showman como poucos no Brasil. Isso é nítido em Eduardo Dussek é Show (Deck), CD e DVD ao vivo que o mostra no seu habitat: o palco e o deboche, com ou sem o acompanhamento do piano. É, sim, um “the best of” de Dussek (com direito às participações de Ney Matogrosso e Preta Gil), que poderia muito bem reconduzi-lo ao topo como símbolo da irreverência musical inteligente. Mas, como ele mesmo diz nesta entrevista à coluna, “tenho prestígio e respeitabilidade, e isso sim é um bem valioso em que me respaldo pra continuar fazendo um trabalho de qualidade”. A conversa, na íntegra, tá no blog – e vale a pena lê-la.

Afinal, Dussek, esse é o seu primeiro DVD ou não?
Eduardo Dussek
– Que tenha sido lançado oficialmente, sim. As outras gravações de shows que existem não passaram pelo meu crivo de qualidade e não permiti que fossem lançadas comercialmente. Sou muito rigoroso nesse sentido: melhor não fazer nada do que fazer besteira. Quando não está bom, não lanço. Mas já havia participado de inúmeros DVDs em parceria com outros artistas, como o do musical Sassaricando, do espetáculo sobre Carmen Miranda, dos Miquinhos Amestrados e de festas ligadas aos anos 80.

Você não se sentiu tentado a fazer um show com mais produção, banda, etc, pra gravar o DVD?
Dussek
– Sim, me senti e gostaria de ter conseguido. Mas ficou pra próxima oportunidade. Desta vez, o produtor, João Augusto, dono da Deck, queria eu sozinho no piano de cauda, como sempre fiz muito, desde o início da minha carreira, época que ele assistiu e quis registrar agora.

Como você definiria seu show, um musical-humorístico?
Dussek –
A Fernanda Montenegro assistiu e foi quem melhor definiu. Tem um formato de “cabaretier”, disse ela. Uma coisa que se faz pouco, hoje em dia. Tem música, mas não é só show musical; tem humor, mas não se encaixa totalmente no stand-up comedy que está bombando por aí; e tem muito a coisa do showman de antigamente, que canta e fala coisas divertidas entre as canções. Só que eu teatralizei isso e construí alguns personagens que reforçam os textos, mas que participam suavemente, sem caracterizações ou dramatizações excessivas. A base é o humor, que uso na primeira parte para destruir o estresse da plateia. Depois, entro com um deslavado romantismo bem humorado.  A sensualidade com humor é natural dos músicos cariocas. Sou de Copacabana: paquero as pessoas fazendo piadas!

Humor você já fazia 30, 35 anos atrás. Sente falta disso na atual música brasileira?
Dussek -
O humor na MPB  sempre existiu. Já vinha de Sinhô, Donga, Noel Rosa e Lamartine. Continuou com Billy Blanco e Juca Chaves, depois Raul Seixas e Rita Lee. Eu aportei nessa praia e escancarei um pouco, porque estávamos imprensados no fim do governo militar. Minha geração  inventou o teatro besteirol, pai do stand-up comedy de hoje. Naquela época eu já fazia comédia nos shows, era meio cabaré. Hoje, musicalmente, tem um humor menos feroz, mas a cultura toda está meio ruim das pernas, pois não interessa aos governantes um povo inteligente. Daria na vista.

Você é expert em se auto-ironizar, mas se ressente de não ter a mesma visibilidade dos anos 80?
Dussek
- Me auto-ironizo por não dar muito crédito ao sistema em que vivo e nunca me ressinto de nada, pois sempre fiz o que quis e vivo bem há trinta e tantos anos na mesma profissão. Meu padrão espiritual e social não enxerga a visibilidade na mídia como sinônimo de felicidade. Aliás, cada vez fica mais chato e cafona ser muito famoso. Com a quantidade de meios de comunicação precisando sobreviver, as celebridades foram transformadas em espécies de bucha de canhão, pra manter a guerra viva. A vampiragem, nesses casos , é muito grande , por isso a visibilidade demais é um saco. Tenho prestigio e respeitabilidade, e isso sim é um bem valioso em que me respaldo pra continuar fazendo um trabalho de qualidade. A grande maioria da mídia me trata muito bem, não posso reclamar. Não tenho penetração nas áreas onde rola jabá, e isso me traria mais dinheiro, claro, mas teria um preço alto que não sei se estaria disposto a pagar, nesse momento. Na verdade tenho interesses mais variados e a minha evolução pessoal, em todos os níveis, é mais interessante do que ser um ” famosinho” (risos).

O deboche ainda é a melhor arma pra criticar o que está aí? Digo isso pensando em Rock da Cachorra, por exemplo.
Dussek
- Sinto que amadureci como artista e hoje vejo que a crítica simplesmente não funciona mais pra nada, não mobiliza mais ninguém. Na verdade, eu sou um cara muito sério, a nossa civilização é que é uma piada! Ainda preservo o meu deboche para me manter mentalmente saudável. Devo sempre me lembrar de que a hipocrisia de nossa sociedade é absolutamente debochável. Essa atitude serve pra me “imunizar” contra a estagnação e imbecilidade. Então eu ainda faço humor por uma questão de saúde pública! (risos). Mas não acho que isso vá  mudar nada e nem agredir mais o alvo, como antigamente. As ações de mudança são outras. São atitudes como, por exemplo, a correção absoluta no comportamento. Gosto de dar exemplo saudável de minha parte, como pessoa pública. E no deboche, cada vez mais tento ser fino, tento fazer um humor sofisticado; o cinismo é um veneno que pode fabricar antídotos para se positivar assuntos nefastos,  de uma maneira branda e não causar uma úlcera no espectador! (risos)

Sua roupa no DVD remete aquela vez em que participou do festival MPB 80. É essa a referência mesmo? Você considera aquele um ponto alto (e polêmico) da sua carreira?
Dussek
– Naquele festival, que me lançou pra fama, eu usei a casaca de maestro, com calção de surfista e botina, para caracterizar o clássico e o deboche. E esse visual colou na memória que as pessoas têm de mim como o turbante de baiana grudou em Carmen Miranda! (risos) Mas o visual continua atual e os produtores fizeram questão de repetir a dose de irreverência daqueles tempos. O curioso é que a caracterização só ajuda nesse caso, pois  os mais jovens morrem de rir me vendo com aquela roupa. Eles entendem e adoram a “atitude”!

A presença da Preta Gil tem um adendo especial, porque ela é filha do Gilberto Gil, que lançou você nos anos 70…
Dussek
- Preta tem um carisma e uma personalidade artística muito interessantes. É uma show woman que canta   conduz e excita a plateia, sempre com  textos inteligentes. Uma mulher da nossa época. Lógico que tem tudo a ver comigo. Eu fiquei contentíssimo dela ter aceitado, mesmo porque a família Gil é pé-quente na minha carreira. Afinal, o Gilberto, pai dela, me deu a honra de ser meu padrinho artístico. Um axé que permanece até hoje.

Você esteve em VIPs e faz trabalhos esporádicos na TV. Não tem vontade de fazer mais cinema, trabalhar mais como ator?
Dussek
- Adorei fazer cinema e sei que me dou bem na TV. Mas tem que se encarar a realidade: não sou um campeão de audiência na TV ou de bilheteria cinematográfica. Isso significa um salário não muito compatível com os  gastos  que naturalmente ocorrem pra manter um artista do meu porte. Ficaria complicado me prender a um esquema televisivo e ganhos que não cobrissem os custos. Porém, se fosse um papel muito bom, com visibilidade, eu aceitaria o desafio, como fiz no filme Federal, de Eric de Castro, um grande diretor. Rendeu frutos até no exterior e me deu uma imensa satisfação em fazer um trabalho bem elaborado.

As duas últimas perguntas: porque seu sobrenome passou a ter dois “s”?
Dussek
- A pronúncia certa do meu nome é com som de “s”. E com um “s” só, entre duas vogais, dá som de “z”. Isso me enchia o saco, enfraquecia a pronúncia. Coloquei dois esses e ficou ótimo. As mulheres turbinam os peitos, eu turbinei o nome! (risos)

É muita tolice imaginar (o pioneiro do rock) Jerry Lee Lewis como uma referência pra você?
Dussek
- Havia uma pequena semelhança física e alguma identificação na época que trabalhei com rock, nos anos 70 e 80. De vez em quanto uso seu estilo de tocar piano como referência. Mas as coincidências param por aí. Jerry foi um grande cara, mas eu sou Eduardo Dussek. Posso até ser estranho, mas não sou parecido com nada e nunca vi ninguém igual a mim!