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Perdeu, São Pedro!

27 de abril de 2012 0

Sinto muito, dileto leitor, mas não vou recorrer a um clichê tão surrado quanto “Paul fez chover em Floripa”. Pelo contrário. Digamos que São Pedro, gozador e estraga-prazeres, resolveu dificultar as coisas pra McCartney na quarta-feira (25), no estádio da Ressacada: “Vamos ver se esse velhinho é bom mesmo…”. Apostou e se deu mal. Paul não é bom, é excepcional, e se não usou a chuva a seu favor, contornou-a com a reconhecida excelência em um espetáculo certeiro. Ok, a água deu uma “brochada” no público, que precisou dividir-se entre o que acontecia no palco, capas de chuva e roupas molhadas, mas, no final, Paul consolidou um jogo ganho um mês atrás.
Pontual como se espera de um lorde inglês, Macca tratou de subinhar com música o devaneio nostálgico, repleto de imagens dos anos 60 e 70, exibido nos telões nos minutos anteriores: “Magical Mistery Tour”, o primeiro clássico beatle da apresentação, indicaria o caminho a seguir. “Boa noite, manezinhos” inaugurou as simpáticas interações de Paul em português torto e, vez outra, ilhéu típico. “Que bom estar de volta ao Brasil. Very nice! Tô muito feliz de estar em Santa Catarina pela primeira vez”.
“The Night Before”, pouco tocada na atual turnê, foi a primeira semi-surpresa, mas também o início da chuva, que não cedeu mais. Aí, Paul reagiu: com “Let me Roll it”, mostrou habilidade na guitarra e liderou uma coda barulhenta, emendada em “Paperback Writer”. Diante da empolgação, parece que São Pedro se enfureceu e acirrou a chuva em “The Long and Winding Road”, que inaugurou uma longa sequência de baladas, com Macca ora ao piano, ora ao violão. Ao tocar “My Valentine”, única do novo álbum no repertório, assinalou uma frase da música: “Não damos bola pra chuva”. É, mas o palco é sequinho.
Sorte que veio a ótima “Hope of Deliverance”, tocada pela primeira vez no País na atual turnê. Generosidade de Paul, que engatou um trecho de “Yellow Submarine” em “Something”, homenageando George e Ringo numa patada só (mais tarde, Lennon ganharia o seu tributo em “Give Peace a Chance”). Animada como poucas, “Obla di obla da” esquentou os pés molhados dos fãs, que permaneceram “pilhados” graças a “Back in the URSS” e “I Got a Feeling”. E aqui vale um parênteses pra banda que acompanha o beatle já há dez anos: impecável é pouco.
A trinca matadora “Let it be/Live and Let Die/Hey Jude” tem de tudo: casais se beijando, explosões de fogos e coros de chorar. Agora, pegue esse resumo e multiplique por 30 mil pessoas boaquiabertas e delirantes com momentos que não podem ser descritos de outro modo que não épicos. Nada superou isso, nem portentos roqueiros como “Daytripper” e “Get Back”, nem o intimismo tocante de “Yesterday” ou o treme-pista “I Saw Her Standing There”. Faltou “Helter Skelter”, sir Paul, mas não dá nada.
E quem garante que beatlemaníacos não sentiram falta dessa ou daquela? Macca, é verdade, muda poucas peças de seu tabuleiro, incluindo gestos, frases e expressões bem ensaiados. É um entertainment de primeira que tem o povo na mão, escudado por uma história, uma obra e um carisma imbatíveis. Mostrou tudo isso na Capital, mas seria injusto dizer que não sua a camisa. Paul se esforça pra agradar, mesmo que já seja idolatrado. Mas gênio que é gênio é assim mesmo: dá carrinho em campo molhado (literalmente) até quando o placar lhe favorece.

Set list
“Magical Mystery Tour”
“Junior’s Farm”
“All my Loving”
“Jet”
“Drive my Car”
“Sing the Changes”
“The Night Before”
“Let me Roll it”
“Paperback Writer”
“The Long and Winding Road”
“1985″
“My Valentine”
“Maybe I’m Amazed”
“I’ve Just Seen a Face”
“Hope of Deliverance”
“And I Love Her”
“Blackbird”
“Here today”
“Dance Tonight”
“Mrs. Vanderbild”
“Eleanor Rigby”
“Something”
“Band on the Run”
“Obla-di Obla-da”
“Back in the USSR”
I Got a Feeling”
A day in the life
“Let it Be”
“Live and let Die”
“Hey Jude”
“Lady Madonna”
“Daytripper”
“Get Back”
“Yesterday”
“Birthday”
“I Saw Her Standing There”
“Carry that Weight/The End”



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