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Nuvens negras choram

06 de agosto de 2012 13

O título que batiza este texto usa o nome da faixa que dá nome ao disco que Celso Blues Boy lançou em 1998, o mais triste da carreira do músico. E, fazendo uma analogia ao que diz a letra da música, Celso agora se encontra em algum bar além deste mundo, brindando com as estrelas. E, não duvide, acendendo mais um cigarro, com a guitarra no colo e contando uma das inúmeras histórias que colecionou ao longo de 56 anos de uma vida repleta de som e fúria. Uma vida que terminou na manhã desta segunda-feira (6), abatida pelo câncer, deixando nuvens carregadas pairando sobre amigos e fãs. Só que elas não trazem nenhuma tempestade. Apenas silêncio.
A morte de Celso Blues Boy cala um artista que erroneamente era tido, pela maioria, apenas como um guitarrista esplêndido. Disso, é até ridículo falar – era mais do que perceptível que ele empregava cada gota de suor e sangue em solos que arrepiariam até uma pedra. Seu talento, porém, ia muito além de acordes emocionantes. Na verdade, essa habilidade divina nas seis cordas era empregada em composições que, nas entrelinhas, exalavam um entendimento da condição humana raro entre seus contemporâneos: a compreensão, imensurável pra maioria, de que, afinal, estamos por nossa conta e terminaremos sós. O que pode ser mais blues do que isso?
Celso foi reconhecido como o responsável pela popularização do estilo americano no Brasil, isso nos anos 80, quando explodiu nos quatro cantos do País com Aumenta que Isso Aí é Rock’n’roll. Parece irônico, mas o hit serviu pra trazer à tona a história “pregressa” do músico, que uma década antes já colocava sua guitarrista a serviço de astros como Raul Seixas e Sá & Guarabira e fazia sucesso no Rio com formações blueseiras hoje lendárias, como a Legião Estrangeira. Se o rock serviu pra finalmente mostrar Celso ao resto da nação, foi o blues que amparou o restante de sua obra o responsável por dar-lhe a solidez (além do nome artístico, emprestado do ídolo BB King) pra que não fosse apenas uma onda passageira.
E não foi. Celso viu ídolos da época afundarem e outros atingirem os píncaros da fama, enquanto ele optou pela integridade artística. Se lhe causou problemas com empresários e gravadoras, lhe garantiu o respeito dos fãs, a longevidade na carreira e, acima de tudo, a paz de espírito. Celso nunca vendeu sua arte. Ter trocado seu Rio de Janeiro por Joinville, há mais de 15 anos, foi parte dessa busca pelo sossego que julgava essencial pra criar fiel a seus princípios. Apesar dos pesares, conseguiu: Por um Monte de Cerveja, lançado no ano passado (leia AQUI sobre ele), é um disco que lhe deu orgulho por explanar pensamentos e opiniões que cultivava. Segundo ele, quem quisesse conhecê-lo, que ouvisse o trabalho.
Hoje, o disco é uma despedida por vias tortas. Celso sabia que morreria cedo. Até torcia por isso, visto os percalços que sua saúde enfrentou ao longo dos anos. Mas havia nele também uma profunda desilusão com o ser humano, responsável por muitas de suas feridas espirituais e que o faziam ansiar pelo fim. A discrição com que partiu (por um pedido próprio) é a prova de que viveu sua verdade até o último suspiro.
Celso Blues Boy se foi na solidão, tal qual os blues que entoava. E, desse modo, finalmente encontrou a paz.

PS: Tive a imensa honra de compartilhar com Celso muitas horas de conversa em mesas de bar e na sala de sua casa. Momentos esses que me foram valiosíssimos tanto pelas saborosas histórias quanto pelas lições ingeridas entre uma cerveja e outra. Acreditem, Celso Ricardo Furtado de Carvalho era um ser iluminado que deixava transparecer a sombra de um batalhão de inquietações em suas músicas. Elas afloravam em nossos debates e, não raro, me deixavam desnorteado. Obrigado, Celso, por compartilhá-las comigo. E obrigado por me chamar de amigo. É um título que levarei dentro do coração pro resto da vida.

Comentários (13)

  • Motor-Rock Irmandade diz: 6 de agosto de 2012

    06/08/2012, mais uma lenda se vai, vítima desta maldita doença. Junta-se a Rick Wright e Dio mais uma lenda.
    Cancer 3 x 0 Rock…

    Só nos resta lamentar e agradecer por toda sua obra que nos deixa.

  • Eduardo diz: 6 de agosto de 2012

    Se possível, tomem uma dose de whisky e ousam um blues hoje em homenagem ao Celso BB.

  • Doug Ferreira diz: 6 de agosto de 2012

    Tá aí um resumo da história do Sr. Blues Boy, de que muitos fãs precisavam!!! Eu, à muitos anos, sou um destes!!! Excelentes palavras que, querendo ou não, emocionam!!! Agora as lembranças de suas músicas, letras, solos arrepiantes (como dito na matéria acima) sempre brilhará (brilharão)!!
    Lá se vai mais um gênio!!!

    Abração aee Rubão!

  • André Seben diz: 6 de agosto de 2012

    Perfeito, Rubens. Parabéns e obrigado!

  • Edson Burg diz: 6 de agosto de 2012

    Só um doido feito o Celso pra imaginar que ele sairia de cena com discrição, sem que ninguém atentasse para sua falta. Felizmente ele tinha bons amigos como você, Rubão, que puderam deixar palavras dignas para homenageâ-lo.

  • Francis Rosário diz: 6 de agosto de 2012

    Triste dia que chegou.

    Tive a oportunidade conhece-lo e bater um papo enquanto tomávamos uma cerveja. Foi um dos momentos mágicos da minha vida.

    Vai se o corpo, mas o artista ficará para sempre na música brasileira.

  • chipas diz: 7 de agosto de 2012

    Suba direto aos ceus!!!! Aonde!!!! sempre brilhara!!! R.I.P. Celso Blues Boy!!!!

  • jackson Nessler diz: 7 de agosto de 2012

    SILENCIA A GUITARRA…..

  • Clara diz: 7 de agosto de 2012

    Que ele era um grande guitarrista isso não há dúvidas, mas que ele era um boçal sem educação, que tratava todos que trabalhavam em seus shows como lixo, isso ninguém lembra né? O Celso como pessoa, não merecia o respeito de ninguém, pois não o tinha com ninguém.

  • Lausivan. diz: 7 de agosto de 2012

    Lindo texto !!! Grande Rubão !!!

  • Iara diz: 7 de agosto de 2012

    E cada vez o mundo vai ficando mais pobre .
    Clara , não espere que os acima da media , tenham paciência com os limitados ,
    nem que suas palavras vão fazer alguma diferença , tenho preguiça de gente que fala de quem não esta mais aqui para ouvir .

  • Marcelo Rizzatti diz: 9 de agosto de 2012

    Assim como Rubens eu também tive o prazer e o previlégio de ter conhecido o mestre Celso, ter ouvido tantas histórias interessantes e ter tocado com ele por um tempo. São momentos que ficarão pra sempre guardados em minha memória e é dessa forma que pretendo sempre lembrar dele, como uma pessoa alegre, simpática, exigente sim mas de bom coração e extremamente talentoso. Ah, e ouçam e/ou comprem o último disco lançado por ele (Por um monte de cerveja) que é um disco sensacional (talvez agora depois de sua partida dêem a devida atenção). Celso Blues Boy sempre brilhará!

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