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Ponto Zero

02 de dezembro de 2012 3

Guilherme Isnard garante que não recomeça, perservera. É sua visão quanto à jornada da banda da qual é vocalista, Zero, que, à exceção de um curto período nos anos 90, numa deixou de frequentar palcos e estúdios. Verdade que longe das atenções do grande público, voltadas para novidades que atropelaram a grande maioria dos artistas projetados pelo boom do rock nacional oitentista. O quinteto paulista foi um deles, parindo hits como Agora Eu Sei, Quimeras e Formosa, vendendo milhares de cópias e alcançando a glória ao abrir os shows de Tina Turner no Pacaembu e no Maracanã. Hoje, new romantics maduros como eles não têm espaço na mídia, o que nem de longe afeta Isnard. A prova é que na sexta-feira (8), a formação clássica apresentará seus três primeiros trabalhos na íntegra em um show em São Paulo, antecipando as comemorações pelos 30 anos do grupo. É só um capítulo adicional na jornada, diz Isnard, cuja voz empostada é possível ser ouvida enquanto emite as opiniões fortes contidas nesta entrevista à coluna/blog.


O que essa reunião da formação clássica tem de diferente daquela de 1999?
Guilherme Isnard
- Afora as participações do flautista e saxofonista George Freire, do baixista Jorge Pescara no Touch Guitar e uma sessão rítmica que soma o esforço de dois bateristas? Treze anos a mais, só.

Como surgiu essa reunião? De quem partiu a ideia?
Guilherme
- Foi uma casualidade mágica, não um projeto. O Eduardo Amarante, que mora em Salvador há dez anos, voltou a São Paulo para o encontro do quadragésimo aniversário da turma do colégio e manifestou o desejo de tocar. Eu perguntei ao Lee, que me procurou porque teve um sonho, se ele poderia marcar esse show. Logo depois, ele me retornou a notícia da data no Cine Joia. Daí em diante, passamos a encarar essa apresentação como uma antecipação da comemoração dos 30 anos que o Zero completará em 2013, se o calendário maia errar.

Há quanto tempo vocês estão se preparando pra essa volta?
Guilherme
- Literalmente, desde o dia 24 de novembro. Há uma semana. Espiritual e emocionalmente, desde sempre. Não é a primeira vez que voltamos a tocar juntos. Isso já aconteceu em 1998, quando festejamos 15 anos de banda. O resultado foi o “Electro Acústico”, de 2000, onde registramos as novas composições desse encontro e revisitamos nosso repertório com o acréscimo de instrumentação acústica.

O que a banda fará pra que esse show não seja apenas um encontro nostálgico?
Guilherme
– Nada. Ao que você se refere como nostalgia, é, na realidade, uma coleção dos melhores momentos das nossas e de muitas outras vidas. Nostalgia é um sentimento identificado com a saudade do que foi bom, mas acabou, enquanto que os momentos de que eu falo não se acabam, permanecem em latência. Quando a canção começa a tocar, uma máquina do tempo nos transporta para a sensação viva do evento relacionado, não uma lembrança desbotada. É comum recebermos nos shows pessoas que trazem os filhos pra conhecer o som que lhes foi apresentado pelos pais depois que a banda interrompeu o trabalho. É para eles que tocaremos exclusiva e integralmente o repertório da nossa produção da época: o compacto Heróis, o EP Passos no Escuro e o LP Carne Humana. Sem truques nem maquiagem.

Pelo próprio estofo sonoro, o grupo tem interesse na música eletrônica?
Guilherme
– Em minha humilde e pessoal opinião, estofo sonoro e música eletrônica são dicotômicos. Nasci em 1957 e de lá até 1987, cresci e me criei nas três décadas mais importantes da história do rock. Por isso, lamento o que os jovens ouvem hoje em dia. Tudo é diluído, polido, lustrado e auto-tunado. Se você se refere à música eletrônica feita por DJs, para dançar, eu sinto falta das arestas, espinhos, sombras e da essência que são incompatíveis com essa prática. Nada contra a música funcional, mas tenho predileção pela elevação do espírito a percepções diferenciadas induzida apenas por endorfinas naturais.
Ps.: sou fã de Kraftwerk.

E a fixação do público pelos anos 80, a que você deve?
Guilherme
- Não creio tratar-se de uma obsessão saudosista, mas de uma reverência à era que criou a melhor música jovem na história do País. O produto da geração dos artistas brasileiros dessa década equivale ao que os anos 60 representam para o rock britânico e os 70 para o rock americano.

Há espaço hoje pra uma banda como o Zero (e outros do rock nacional dos anos 80)? Como vocês veem o pop brasileiro atual?
Guilherme
– São duas perguntas e a primeira resposta é sim, haveria, mas não há. Deveria haver espaço para todos, afinal, a principal qualidade do celeiro nacional é a diversidade, mas os meios de produção e divulgação de massa determinaram que ninguém quer ou consegue interpretar uma metáfora ou mensagem sutil. Eles estabeleceram que os filhos daqueles que conseguiram inverter o percentual de dominação da música estrangeira nas rádios com conteúdo afim às expectativas da juventude nacional, hoje preferem ter o ouvido estuprado pela comunicação sem vaselina. Se não tem refrão tatibitate, glúteos hipertrofiados ou um pancadão cardíaco primordial, não existe. A segunda resposta é: não vemos.

Depois de todo o sucesso nos anos 80, a banda passou os anos 90 e 00 longe dos olhos do grande público. Foi frustrante?
Guilherme -
Foi natural, “governos vêm e vão”. Quando as pessoas encontram nossos canais no YouTube ou no MySpace, costuma perguntar “por que sumiram?”, “por que pararam?”, mas exceto por cinco anos sabáticos (1992-1997), o Zero permanece na estrada e lança em média um CD a cada três anos. Nosso roteiro é menor, menos glamuroso e menos frequente do que os desfrutados pelos artistas de sucesso popular, é verdade. Mas a vitalidade artística não é conferida pela repercussão externa e sim, pela disposição da atitude interior, pela saúde do coração criativo. Nosso coração bate amoroso e saudável, obrigado.

Quais são os planos para os 30 anos?
Guilherme -
Faz tempo que os fãs nos cobram um DVD e esse é nosso primeiro objetivo: reunir os amigos, colegas e pessoas que fizeram parte da nossa história nessas três décadas e registrar. Depois disso, uma turnê comemorativa de lançamento seria uma perspectiva agradável aos fãs. Em Joinville, por exemplo, faz uns 25 anos que assistiram ao Zero pela última vez. Por último, mas não menos importante, eu apostaria que o vigor criativo dos meus parceiros de banda renderá sim, um álbum de inéditas. Mas os homens planejam e Deus ri.

A crítica nunca foi muito simpática com a banda. Tem mágoa disso?
Guilherme -
Minha máxima predileta é de Vinicius de Moraes: “A arte não ama os covardes”. Quem inventa e apresenta expõe-se a tudo, maledicência inclusive. O verdadeiro artista não se aflige com a inveja dos incapazes e essa não é uma afirmação que generaliza a incapacidade da crítica, longe de mim. Mas especificamente na São Paulo dos anos 80, a maioria destes ou não fazia a menor ideia da novidade que criticava ou não obteve êxito com seu arremedo de banda. Não é artista quem quer, mas quem pode. A musa te escolhe, o inverso não se dá. Curioso é descobrir, quase 30 anos depois, que muitos deles respeitam e admiram nosso trabalho. Na época, achavam mais divertido me encher o saco.

Particularmente, o que te faz, a essa altura do campeonato, recomeçar o Zero?
Guilherme
– O Zero é parte da minha vida e, portanto, eu não recomeço, persevero.

Comentários (3)

  • Guilherme Isnard diz: 3 de dezembro de 2012

    Uma entrevista bem conduzida e estruturada vale ouro para quem milita há 30 anos pela sobrevivência do rock de conteúdo. Agradeço em nome do ZERØ o espaço generoso e o respeito e carinho demonstrados pelo nosso trabalho. Esperamos encontrá-lo pessoalmente em breve, Rubens. Forte abraço, obrigado!
    Guilherme Isnard

  • pabloREM diz: 3 de dezembro de 2012

    Rubens, muita boa a entrevista com essa banda que acho muito legal. Até compartilhei nas Redes Sociais.

    Twitter: @pablogeratti

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