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O "momento Dylan" de Renato Russo

29 de maio de 2013 0

Faroeste Caboclo é a nossa Like a Rolling Stone. Estivesse vivo, talvez Renato Russo não concordasse, mas certamente sentiria orgulho da comparação, já que o autor da segunda, Bob Dylan, era um de seus heróis máximos. A relação com o bardo americano se dá ainda por outro de seus clássicos, Hurricane, que do mesmo modo que Faroeste - cuja transposição para o cinema estreia nesta quinta-feira (30) -, narra uma história com começo, meio e fim, marcada por violência e injustiça e disparos contra a sociedade e o sistema. “Acho que Faroeste Caboclo é uma mistura de Domingo no Parque de Gilberto Gil, e coisas do Raul Seixas com a tradição oral do povo brasileiro. Brasileiro adora contar história. E eu também queria imitar o Bob Dylan. Eu queria fazer a minha Hurricane“, explicou Renato Russo em 1990.
Mas voltemos a Like a Rolling Stone.
Em 1965, a faixa foi lançada como single, contrariando as regras da época, que requisitavam faixas curtas e fáceis para fisgar os ouvintes e atraí-los para as lojas de discos. Like a Rolling Stone não tinha nada disso: além de ter seis minutos de duração e um instrumental elétrico pesado – em contraponto ao folk praticando por Dylan até ali -, continha uma letra quilométrica com doses fartas de sarcasmo e observações vingativas sobre a decadência de uma mulher (aparentemente) da alta classe. A relutância da gravadora transformou-se em sorrisos quando a faixa escalou as paradas e tornou-se um sucesso absoluto, vindo a se tornar uma peça revolucionária na história da música pop.
É de se pensar se a EMI não teve as mesmas dúvidas em relação ao Faroeste Caboclo, com preocupações ainda maiores. Afinal, a canção não só bate nos nove minutos e não tinha refrão como tem trechos de puro punk rock e palavrões a rodo (substituídos por um sinal sonoro na hora da divulgação). Porém, este é um caso de geração espontânea. A faixa infiltrou-se nas programações de rádio por vontade de locutores e insistência dos fãs e caiu no gosto do público, a ponto de a Legião Urbana tocá-la no Globo de Ouro, o grande palco dos hits-chiclete da TV brasileira.
Em resumo, é um fenômeno único no pop nacional, cuja grandiosidade – em mais de um sentido – ainda hoje tem o poder de reduzir o espaço para veiculação de bobagens que nem sonham em ser tão longevos quanto João de Santo Cristo, Renato Russo e a própria Legião.

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